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VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Corpo cosmético. Cinco notas para um relato
Ennia Favret (Responsável, EOL) *

Ennia Favret1 - O Corpo: O corpo lacaniano é primeiro imaginário, o valor fálico da imagem do corpo, a completude especular que se estabelece sobre uma clivagem entre o corpo real e a imagem, referido ao termo "deiscência", extraído da botânica, para falar da falha, a partição.

"O corpo é introduzido na economia do gozo pela imagem do corpo. A relação do homem com seu corpo, se algo sublinha bem que é imaginário é o alcance que tem nele a imagem" [1]. Neste texto Lacan fala da consistência imaginária, termo que convida a pensar um enodado de modo borromeano e isso tem consequências. "Eu tenho um corpo" e não "Eu sou um corpo".

2 - O cosmético: Se procurarem no Google "real", a primeira resposta encontrada é l'oreal! Talvez não devesse surpreender que a primeira coisa que se cruza antes de toparmos com o real é algo da ordem do cosmético. Marca internacional massificada que não busca só homogeneizar o produto, mas o consumidor. O mercado propõe o standard e a ciência o torna possível.

Na dupla perspectiva da etimologia de Kosmos (vertente grega e romana que ressalta o mundo e o imundo), consideramos cosmético tanto aquele tratamento dado ao corpo que encobre a castração com o véu da beleza como a seu oposto, o que desnuda, revela.

Quando a cosmética vela a castração, há uma articulação a uma falta. Mas se a imagem é a de uma perfeição sem fissuras, entramos em uma dimensão diferente, é uma cosmética paradoxal: Lera Lukyanova moldou com intervenções cirurgicas sua fisionomia para ser uma Barbie de carne e osso.

Trata-se de um gozo desregulado, na busca de uma proporção perfeita que acaba parecendo mais o morto que o vivo como no excesso de desproporção que mostra as deformações.

3- De "cosmetizar" o corpo ao corpo como cosmético, produto: A tradição acadêmica acreditava na existência de um corpo perfeito, ideal de mensuração, que foi transgredido e denunciado pelas práticas de Body Art, a partir dos anos 70.

Os corpos marcados, tatuados de acordo com certas regras, correspondem à idéia de um corpo simbolizado; não ocorre o mesmo com intervenções nas quais um imperativo supergoico roça a infinitização. São tatuagens e escarificações que têm um estatuto diferente, não só se trata de querer substituir ou modificar as características biológicas herdadas, mas que não estão articuladas a sentido algum.

Santiago Sierra faz uma tatuagem: "uma linha de 250 cm sobre 6 pessoas pagas."; seres anônimos que aceitam uma marca permanente em seus corpos. O artista trata o corpo como uma mercadoria, um material para a criação.

4 – Do velamento da castração na tentativa de eliminar o impossível: A distância temporal que há entre o belo conto de N. Hawthorne, "A marca de nascença", de 1800, na qual a eliminação da singular mancha se elimina a vida e o atual filme O tempo de Kim Ki Duk, não faz mais que evidenciar a permanência dos esforços desesperados aos recursos científicos para tornar possível o impossível da relação sexual.

5 - Da transgressão a desordem de gozo: O preformismo, muito em voga nos anos 70, mantém sua atualidade, colocando a noção de "ato" no centro de seu discurso. O ato requer, como na psicanálise, a presença de um corpo, sua materialidade.

Quando Orlan, em Maio de 68 propõe "Eu sou um homem e uma mulher", esta tentativa de apagamento do impossível aparece mais tarde em suas intervenções corporais. Denuncia os padrões de beleza construindo-se um corpo como quem faz uma escultura: "meu trabalho está em luta com o inato, o inexorável, o programado, a natureza, o DNA, isto é para me empurrar a arte e a vida até seus extremos".

Foram práticas que tentavam denunciar os padrões de beleza e de arte como uma mercadoria, marcadas por um teor transgressor. Atualmente encontramos práticas artísticas cujo infrator já não é um transgressor, mas que evidenciam o transtorno do gozo, o transtorno da sexualidade. O indizível se mostra: "A arte para outra coisa".

É paradigmático de certas práticas artísticas que têm o corpo como protagonista principal o dito por Gérard Wajcman da fotografia de Nan Goldin: "é uma grande artista do mal estar no gozo, da desordem do amor (...) as imagens perderam todo seu brilho (...) é a hora do falo rebentado: caído, murcho. Nem feio, nem provocativo, nem repulsivo, nem excitante: simplesmente verdadeiro".

O analista opera nessa hiancia inofensiva a qualquer cosmética: "Há coisas que fazem o mundo ser imundo (...) é disso que os analistas se ocupam, de maneira que, contrariamente ao que se acredita, se confrontam muito mais com o real que os cientistas. Só se ocupam disso. Estão forçados a sofrer, ou seja, a colocar no peito o tempo todo " [2].


Tradução: Eduardo Benedicto
* Membros do grupo de trabalho: Marcelo Barros, Gabriela Basz, Juan Bustos, Marisa Chamizo, Guillermo Lopez, Silvia Vogel e Diana Wolodarsky.

  1. Lacan, J., "La tercera", Intervenciones y textos 2, Manantial, Bs. As., 1991, p. 91.
  2. Lacan, J., El triunfo de la religión, "La angustia de los científicos", Paidós, Bs. As., 2006.