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VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Corpo e biopolítica
Laura Arias

Laura AriasAo longo da história as práticas sobre o corpo, e as relações com ele estabelecidas, o converteram em referente da teoria política, da epistemologia, da filosofia e de diferentes disciplinas. Cada proposta, cada filosofia, cada episteme tem algo a dizer sobre o corpo. Desde M. Foucault, passando por W. Benjamin, G. Agamben e H. Arendt, o corpo humano tem sido objeto de pesquisa, durante séculos, como um texto no qual se inscrevem práticas sociais e institucionais: cartografia corporal, atravessada pelo instituído, onde as ideologias escrevem sua história e encontram seu limite.

A cultura carrega o corpo, dotado de um sexo, com múltiplas imagens cuja visão varia de acordo com a cultura, a classe social, as épocas. Existe uma visão diferente do corpo no Oriente e no Ocidente. A visão oriental está além do imediato; a ocidental o vê como objeto em si. De acordo com os historiadores, o olhar direcionado sobre o corpo humano começou em Alexandria, no Baixo Egito, onde se constituía o grande centro da cultura grega, no final do século III antes de nossa era. Na Grécia antiga considerava-se que o corpo era um objeto de emoção estética e, portanto, a nudez era um signo de dignidade e não de vergonha.

Dos desfiles de faloforia, no antigo Egito, passamos à Grécia clássica e Idade Média, quando surge um desprezo pelo corpo. Fonte de pecado para os místicos medievais, o corpo obstaculiza a espiritualidade e racionalidade. Será no Renascimento que a visão do corpo se fará mais objetiva até converter-se, nos dias de hoje, em um objeto a mais de consumo ou de exibição, como a exposição de cadáveres de Gunther von Hagens, que percorreu o mundo.

É nos campos de concentração e de extermínio nazista, entretanto, onde o corpo se desumaniza e é reduzido à condição do que G. Agamben denominou "vida nua", ou vida nua dos tempos modernos, nas trilhas de W. Benjamin e M. Foucault. Seres reduzidos à sua condição biológica, onde a existência é despojada de todo valor político, de todo sentido de cidadania. O campo de concentração ou de extermínio é o espaço mais radical onde se executam as biopolíticas contemporâneas, onde a vida, privada de todo direito, pode ser objeto de todos os experimentos.

Foi Agamben quem relacionou a biopolítica com a origem do Holocausto. O laço que bios e política constituem representa o corpo como vivente, e é o poder quem decide se a vida merece ser vivida, ou não. Política que converte o corpo em uma questão de poder, a exemplo de supor uma raça superior. Categorias como biopoder e biopolítica tentam dar conta do corpo humano como um texto no qual se inscrevem as práticas sociais e institucionais. Foucault sustenta, em seu método genealógico, que o olhar médico é o responsável pelo surgimento da sociedade moderna como programa punitivo. A partir deste olhar sobre o corpo surgem os registros, os peritos e as instituições, deixando suas marcas sobre ele. Ao marcar o corpo geram nova subjetividade na qual este se transforma em um texto onde a história se transforma em sua escrita.

Para Foucault, biopoder é o poder sobre os corpos. Com o conceito de biopolítica ele também propõe o seguinte: "Após a anatomia política do corpo humano instaurada no século XVIII, ao final desse mesmo século, vê-se aparecer algo que já não é uma anátomo-política do corpo humano, mas, algo que eu chamaria uma biopolítica da espécie humana"[1]. Os corpos nos campos nazistas testemunham o controle sobre eles: do biopoder à biopolítica. Lugar de experimento sobre os limites do humano.

Introduzir a categoria de biopolítica amplia o horizonte de um dizer sobre o corpo. Poderíamos pensar que atender à dimensão subjetiva e ao que supõe a redução do corpo à vida nua localizaria uma direção do tratamento que não ignora o domínio exercido sobre o corpo pela política e pela ciência.


Tradução: Ilka Franco Ferrari

  1. Foucault, M., Genealogía del racismo, La Piqueta, Madrid, 1992, p. 251.