INÍCIO COMISSÃO ORGANIZADORA Español
VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

O autismo como modelo da civilização
Liliana Cazenave

Liliana CazenaveAs palavras e os corpos se separam na disposição atual do Outro da civilização [1]. Nesse sentido o autismo pode ser pensado como modelo desta civilização. Efetivamente, o sujeito autista em seu rechaço da enunciação impede que o gozo embarque na palavra, impede que a língua se corporifique e dê lugar a um corpo de sujeito.

Éric Laurent [2] propõe um caso particular de acontecimento de corpo para o autismo: o encontro das palavras com o corpo deixa no autismo uma marca que não pode ser apagada. O Um de gozo não se apaga, se repete sozinho, sem constituir um significante que remeta a outro. Esta falha na inscrição da língua deixa o sujeito submerso no real e constantemente ameaçado pelo ruído de lalíngua que equivoca sem parar. O objeto se impõe sem forma sobre o corpo da criança autista, já que o buraco, na dimensão do real, está foracluído.

As soluções sintomáticas dos autistas para estabilizar a relação com o impossível acontecimento do corpo tentam, por um lado, um tratamento das palavras separadas do corpo e, por outro lado, um tratamento do corpo separado das palavras. Com efeito, para silenciar os equívocos da língua os autistas realizam um cálculo da língua que toma diversas formas: constroem sistemas de letras, cifras, pensamentos, com os quais conseguem uma objetivação da linguagem. Esta realização de um simbólico sem equívocos lhes permite mantê-lo separado do corpo. Neste ponto, o sujeito autista parece tentar realizar o ideal da ciência atual de poder falar sem o corpo.

Porém, para além de todo cálculo, o real da língua se impõe no corpo, o gozo retorna sobre uma borda. O sujeito autista inventa, com o uso dos objetos autistas, uma bolha de proteção fechada para conter seu corpo e tentar localizar o gozo. Em um funcionamento muito contemporâneo, subtrai seu corpo das palavras e do laço, isolando-se com seu objeto.

O cientificismo atual propõe, entre outros tratamentos estandardizados para os autistas, a interface corpo-computador. Os projetos que propõem robôs como partenaires das crianças autistas já existem há mais de trinta anos. Robôs são programados para ensinar linguagem, brincar e como modelos de comportamento. No Centro Kennedy da Universidade de Vanderbilt foi criado um robô que reconhece as emoções a partir de sensores conectados ao corpo da criança. Para a ciência o corpo pode falar sem passar pelas palavras. A aspiração é programar um sistema que permita responder automaticamente às reações da criança.

O robô programado, despojado de contingências e equívocos, pode ajustar-se bem à defesa do autista que evita, a qualquer custo, a ameaça que operam o olhar e a voz do Outro. As crianças autistas podem encontrar na interação com o robô a segurança de poder exercer o controle e o domínio sem por em jogo o corpo. Mas esta solução robótica reduplica a defesa ao invés de abalá-la e sabemos que isto não consegue tratar o real que agita seus corpos. A proposta de um duplo robótico como partenaire somente pode despojar a criança da dimensão subjetiva.

O analista lacaniano se propõe na transferência como partenaire do autista, não para eliminar o equívoco da língua, mas para abalar a defesa e acompanhá-lo na invenção de sua língua privada, passo necessário para articular a língua ao corpo. E a transferência não é interação de condutas quantificáveis, mas sim laço do sujeito com o Outro.


Tradução: Elisa Monteiro

  1. Laurent, E., "Falar com seu sintoma, falar com seu corpo", www.enapol.com.
  2. Laurent, E., "Lo que nos enseñan los autistas", Revista Lacaniana, Nº13, Nov. 2012.