INÍCIO COMISSÃO ORGANIZADORA Español
VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

O sexo como ritual, el sexo como arte: Subcultura y Sinthome *
Tom Ratekin - Washington

Tom RatekinA elaboração de Lacan sobre a noção do "não há relação sexual" é hoje particularmente relevante para a teoria queer e para outras questões políticas dentro dos Estudos Queer: o casamento e o "sexo em pêlo", barebacking . (1). O casamento e o barebacking são estratégias com as quais eles esperam encontrar a plenitude da comunicação que lhes escapa em outras áreas da vida. Ambas as questões têm defensores e opositores apaixonados dentro da comunidade gay.

Em seu artigo de 2008, Breeding Culture: Barebacking, Bugchasing, Giftgiving (Comportamento Reprodutivo: Sexo Bareback, Buscavirus, Doadores) e em seu posterior livro Intimidade Ilimitada: Reflexões sobre a subcultura de Barebacking (2009), Tim Dean analisa o nascimento de uma complexa subcultura, que foi construída em torno do significado e da transmissão do HIV, o vírus que causa a AIDS. Dean desenvolve que o barebacking funciona de acordo com as fantasias de conexão e sacrifício, como aqueles que se vêem em comunidades mais familiares, como as esportivas ou as militares.

Concordo com Dean que a psicanálise nos permite entender essas fantasias de melhor modo. No entanto, gostaria de argumentar que o objetivo da psicanálise é também o de criar um sistema para lidar com o apego a essas fantasias e reduzir nossa sujeição a elas. Minha maneira de entender a identificação ao sintoma ou o movimento em direção ao sinthoma, não é que ele se mete diretamente no sintoma com total desconsideração. A identificação ao sintoma significa que se reconhece que o sintoma estará sempre lá, sempre empurrara a um mais além do bem e, portanto, deve-se trabalhar com o sinthoma para ficar a uma distância segura do gozo destrutivo.

O trabalho de Dean sobre o barebacking mostra o resultado essencial dos significantes na formação das estruturas de afinidade, e como a linguagem conecta desejos transcendentes com objetos particulares em todo o mundo. Por exemplo, o termo "bareback" conecta-se a imagem de um jovem cowboy de individualismo grosseiro com a prática de relações sexuais sem preservativos. Outros termos altamente relevantes para esta subcultura são a "breeding" e "giftgiving", para descrever a inseminação com esperma de HIV positivo, e "bugchasing" ou "converting" para descrever a aquisição deliberada de HIV. Os termos evocam distintas conotações, mas o tom dominante do discurso da subcultura é o da hiper-masculinidade transgressiva. Os preservativos são entendidos como sinais de covardia e próprio de afeminados, e muitas vezes a aquisição do HIV expressa ir mais além das preocupações cotidianas de uma vida "normal". Estas operações são tanto simbólicas como reais: são feitas por um vírus, que é invisível a olho nu, mas que, na verdade, existe no corpo e, assim, proporciona uma base importante para estas redes significantes.

A discussão de Lacan sobre a ética no Seminário 7 é particularmente útil na análise da cultura do barebacking ao descrever como utilizamos a arte e a cultura para balancear as diferentes pressões do Real e do Simbólico, o sonho do Um invariável e o sonho da própria transcendência. Em seu debate sobre Antígona e a experiência do teatro, Lacan nos adverte para ficarmos fora do impulso de nos comprometer totalmente a qualquer "ir até o final do desejo" ou "a razão beneficiária", de modo que o próprio desejo pode ser mantido. A obra de arte permite uma proximidade com a Coisa que abre nossos olhos para o valor relativo do mundo dos bens. Temos que tolerar a ansiedade de deixar um desejo parcialmente insatisfeito de modo que o gozo possa se impregnar em nossas vidas.

O Seminário 7 também mostra que é útil pensar no sexo como uma arte ao invés de como uma marca de nosso ser essencial. (E eu diria que a arte não exclui os prazeres da masculinidade ou da feminilidade.) Se o sexo não é o que determina o nosso ser, então ele poderia tornar-se uma arte de descoberta, de expressão, de experiência. Talvez o sexo possa ser interessante e agradável ao ser algo que fazemos, ao invés de algo que somos. Embora, seguindo a perspectiva lacaniana, o gozo de um é singular e imprevisível, e também considero que o sexo pode ser de grande significado e interessante sem converter-se necessariamente numa questão de vida ou morte.


Notas

  1. A palavra barebacking em inglés é utilizada para denominar o sexo anal sem preservativo.

Tradução: Eduardo Benedicto

* Presentado no Symposium de Miami. Tom Ratekin ensina cinema e literatura na Universidade Americana de Washington DC. E autor de Final Acts: Traversing the Fantasy in the Modern Memoir, published by SUNY Press in 2009.

Bibliografía

  • Dean, T., "Breeding Culture: Barebacking, Bugchasing, Giftgiving", The Massachusetts Review, Spring 2008, pp. 80-94.
  • Dean, T., Unlimited Intimacy: Reflections on the Subculture of Barebacking, University of Chicago Press, Chicago, 2009.
  • Lacan, J., O seminário de Jacques Lacan, livro VII: A Ética da Psicanálise. Trans. Dennis Porter. New York: Norton, 1992.
  • Lacan, J., O seminário de Jacques Lacan, livro XX: sobre a sexualidade feminina, os limites do amor e do conhecimento, trad. Bruce Fink, New York: Norton, 1999.