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VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Marcas genéticas nos corpos cifrados pela linguagem biológica
Mirta Zbrun - EBP (RJ)

Mirta ZbrunComento brevemente questões a respeito do lugar e eficácia do discurso da psicanálise na época em que a "tecnociência" parece querer cifrar os corpos com a linguagem biológica. Corpos por vezes marcados por doenças geneticamente transmitidas, herdadas por genes modificados --como é o caso da "adrenoleucodistrofia". Doença esta relativa ao cromossoma X conhecida pela sigla ALD + X.

A psicanálise tem algo a dizer sobre esse corpo? Como ele fala?

Consideramos com Lacan que o sexo é apenas uma modalidade particular daquilo que permite a reprodução do corpo vivo, portanto a função do sexo não se confunde com a reprodução da vida. Como ele assinala: (...) "as coisas estão longe de serem tais que exista de um lado a rede da gônada, aquilo que Weismann chamava de germe, e de outro, a ramificação do corpo". [1]

Desse modo, para Lacan não há, de um lado o sexo, ligado à vida por estar dentro do corpo, e, de outro, o corpo, como aquilo que se tem que defender da morte. Sabe-se pela biologia molecular que a reprodução da vida emerge de um 'programa', de um "códon" (uma sequencia de três bases nitrogenadas de RNA), daí que o diálogo entre a vida e a morte se produza no nível do que é reproduzido. O que o leva a dizer que o dialogo "assume caráter de drama a partir do momento em que, no equilíbrio vida e morte, o gozo intervém". O essencial é a emergência daquilo que todos acreditam fazer parte como ser falante --que é "a relação perturbada como o próprio corpo que se chama gozo". [2]

Desse modo, quando os cromossomas transportam uma informação geneticamente modificada veiculada pelo sexo, como no caso da ALD + X, podemos pensar em consequências para a sexualidade, para a satisfação pulsional e para os modos de gozo do sujeito que a padece. No que diz respeito à hereditariedade, esta envolve sempre as relações elementares do parentesco (L. Strauss) e os chamados 'complexos familiares' (J. Lacan) tão bem descritos por este em seu celebre texto "Os complexos familiares...". A psicanálise está ai para decifrar esses 'verdadeiros mitos familiares' que cifram o corpo, sejam eles sujeitos 'portadores', ou 'afetados' pela doença.

Assim o discurso da psicanálise pode-se diferenciar do discurso da "tecnociência" ao afastar-se de uma linguagem puramente biológica em relação aos corpos e propor uma leitura das marcas genéticas ao 'modo dos geômetras', (more geométrico) como propunha Lacan evocando Leibniz. Uma leitura do real das marcas nos corpos, que se mostram de maneira tão diferenciada. Consideramos que é nesses corpos marcados pelo geneticamente herdado que o real "aparece" como tal, quer dizer, como impossível.

Se por um lado a "tecnociência" com sua linguagem biológica pretende cifrar os corpos, por outro, o Discurso da Psicanálise, "o discurso da fala e da linguagem" [3], faz de cada sujeito um "falasser" (parlêtre) e finalmente, uma "substancia gozante" [4]. Nesse novo sujeito lacaniano a linguagem mais do que nunca funcionará como "suplente" do gozo sexual. Perante o impossível de ser interpretado de uma doença genética como a ADL+X a linguagem será o instrumento maior para tratar a relação sempre perturbada do "falasser" com seus modos de gozo.

Por fim, o desafio da psicanálise, em portadores ou afetados por um mal geneticamente herdado, será tratar do singular desse ser da linguagem. Dessa forma, acredito que há algo a dizer diante do real no século XXI, em que a linguagem genética antecipa quase tudo sobre os padecimentos do corpo. O VI ENAPOL nos permitirá dizer mais sobre este instigante futuro.


  1. Lacan, J., O seminário, Livro 19, … ou pior, Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p. 41.
  2. Idem.
  3. Lacan, J., "Discurso de Roma", Otros Escritos, Paidós, Bs. As., 2012.
  4. Lacan, J., O Seminário, Livro 20, mais ainda, Zahar, Rio de Janeiro, 1985.