INÍCIO COMISSÃO ORGANIZADORA Español
VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Neurociência (ficção): Neuromancer
Gabriel Vulpara - EOL (Buenos Aires)

Gabriel VulparaImaginem um mundo de múltiplos mundos. Com fronteiras que se podem transpor usando um simples dispositivo eletrônico. Ali, um mundo em órbita, um mundo para o prazer de ricos e poderosos, olhando de cima. Embaixo, um mundo terrestre, um mundo de cidades rápidas: ordinário, massificado, próximo e caótico. E um outro, sem lugar, mas não sem espaço: um ciberespaço.

Imaginem o sujeito como conjunção hardware-software. Um sujeito definível por seus implantes e suas capacidades aumentadas. Uma ciência híbrida entre medicina e informática o torna possível e habitual. Não há barreira nele que não se retifique com códigos de programação: um sujeito em sua inefável e estúpida existência. Uma existência modelada pelo que se anexou em sua cabeça ou ao resto de sua pele: anexos que já nem se consideram gadgets. Um sujeito que, mesmo morto, perdura sob a forma de uma estrutura de personalidade digitalizada em uma máquina. Ainda não chegamos lá, mas não estamos longe.

Essa é a cena de Neuromancer, de Willian Gibson, publicado em 1984 [1]. No New Romancer, teremos significantes novos que se esforçam em dar conta de uma lalíngua cada vez mais obscura. Na cena os sujeitos podem. Podem prolongar sua vida e sortear enfermidades e feridas, podem refabricar-se. Os sujeitos podem: para poderem, podem fazer-se objetos de uma tecnociência tão onipresente que é a própria substância da cultura. Uma tecnociência que cheira a mercantilismo. Nem a tecnociência nem o mercado são entidades (discursos, diríamos) reconhecíveis e situáveis em si. Não se fala das mesmas como consistências, insistências. Nem seria preciso: elas estão ali em todo (s). Por elas e nelas os sujeitos podem alternar entre os sujeitos. Suas conexões neuronais e implantes os fazem habitantes íntimos do ciberespaço; um aparato chamado simestin – um joguete da carne - permite entrar em outra carne e sentir o que outro corpo sente. Case, o protagonista, vê e sente o que Molly vê e sente. E a carne, ainda que presente, não é tão importante: dir-se-ia apenas uma bolsa ou um recipiente. As clínicas médicas têm um ar de mecânica ou de supermercado. Em Case são reparadas imperfeições neuronais, colocam-lhe toxinas, trocam- lhe o fluido espinhal, retocam-lhe os nervos e até "incluíram um pâncreas no pacote" diz Molly (um pâncreas imune a drogas, que o cura de sua adicção para que realize melhor seu trabalho). A própria Molly é uma collage de implantes. Tudo muito funcional, ferramentas de trabalho: eles são ladrões, hackers, de corpo inteiro. Corpos adequados a seu mundo.

O real está domesticado, tem leis de tráfico: tráfico de informação digital. Sobretudo, tem leis ditadas pelo tráfico de elétrons. São leis fundadas no paradigma tecnocientífico – e seu aliado, o mercado -: um enquadramento irrepreensível. Tanto que, sua máxima criação, a Inteligência Artificial, chama a si própria Neuromancer, ao dizer que invoca os neurônios para cuprirem ordens.

Mas não creiam que o livro é só utopia negativa. Há romance aí, ainda que não seja um romance familiar. Podemos ter esperança de que haja esperança: em Neuromancer a neurose subsiste. Mesmo que os personagens estejam com o encefalograma plano, os sujeitos seguem, angustiados, sua História, confirmando que o nó de quatro é imune ao cérebro. O bom e velho sujeito leva carrega seu corpo (digamo-lo parlêtre), preocupado com o Outro sexo, penando e buscando antigos amores, e fazendo sexo do mesmo velho modo: ainda que com o simestin se possa sentir tudo o que o outro sente, Case nunca pensou em usá-lo para conhecer a versão de Molly do gozo sexual.

Mais além das relações sexuais a relação sexual continua sem se escrever, ainda que se escrevam programas de computação ou códigos genéticos, ainda que se escrevam os corpos ... ainda que se escreva Neuromancer. Ou talvez, justamente, porque se escreve Neuromancer.