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VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Transhumanismo, como será o corpo do século XXI?
Jorge Asseff - EOL (Córdoba)

Jorge AsseffNas últimas décadas nasceu um novo paradigma científico que se baseia em que as possibilidades dos seres humanos ainda não se desenvolveram em toda a sua capacidade, e então a biotecnologia e a nanorobótica poderiam colaborar para que isso venha a ocorrer. A este respeito, o professor de Oxford, Nick Brostom, sustenta que "A condição humana não é, como se costuma acreditar, constante, e a aplicação científica das novas tecnologias levará à superação de suas limitações biológicas" [1].

O novo paradigma chamado Transhumanismo promove a combinação do organismo com algumas ferramentas tecnológicas incorporadas, fusionar homem e máquina; uma de suas principais defensoras, Katherine Hayles, sustenta que afinal de contas: "…não há diferenças essenciais ou demarcações absolutas entre existência corporal e simulação por computador, entre mecanismo cibernético e mecanismo biológico, entre tecnologia robótica e objetivos humanos" [2].

Assim, em 1997 foi fundada a World Transhumanist Association, um movimento político e filosófico que reúne estas novas teorizações e busca promover as condições que permitam avançar na realização de intervenções sobre o organismo antes impensadas, e que hoje estão sendo investigadas. Santiago Koval enumera algumas em seu livro La condición poshumana: "O bem-estar emocional a partir do controle dos centros do prazer, o uso de pílulas da personalidade, a nanotecnologia molecular, a ampliação da expectativa de vida, a interconexão reticular do mundo, a reanimação de pacientes em suspensão criogênica, a migração do corpo para um substrato digital, etc." [3].

OTranshumanismo nos coloca às portas de uma era pós-biológica que, até agora, só imaginávamos nos filmes de Hollywood. Qual será o corpo do século XXI? Ainda não o sabemos, estamos no limiar do princípio, mas parece que a ciência promete que através dela chegarão todas as soluções, por seu lado o mercado com sua ilimitada capacidade de penetração será encarregado de difundi-las.

A velocidade deste processo ultrapassa nossa imaginação, e muitas vezes nossos reflexos. Mas hoje em dia o corpo já é a presa fácil, a moeda de troca, e muitas vezes a única matéria da qual o sujeito dispõe para ancorar sua subjetividade; atualmente ele é submetido a um bombardeio descomunal de propostas e exigências, a uma atenção social permanente, e um empuxo constante sob a falsa promessa de vitalidade eterna, longevidade, saúde blindada, beleza perfeita, ao que teremos que acrescentar a pressão do corpo a 100% de suas capacidades.

Não sabemos como será o corpo do século XXI, talvez o Transhumanismo avance, e vejamos nascer um mundo de "Terminators", e certamente junto com ele avançará o eugenismo mais feroz. Contudo, é uma grande possibilidade contar com o próximo ENAPOL para pensá-lo, este será o momento de cristalizar o permanente desafio da psicanálise: colocar sua clínica à altura da época.


Tradução: Elisa Monteiro

  1. Bostrom, N., "Transhumanist Values", 2004, p.7. www.nickbostrom.com.
  2. Hayles, K., How we become posthuman: Virtual Bodies in Cyberspace, Literature, and Informatics. Chicago, University of Chicago Press, 1999, p.13.
  3. Koval, S., La condición poshumana, Cinema, Buenos Aires, 2013, p.84.