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VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Textos

Uma nota
Alejandro Daumas - EOL (Bs. As.)

Alejandro DaumasAs notas têm o propósito de indicar um caminho aberto, uma marca, talvez o porvir de um ensaio ou uma investigação em elaboração, poderíamos chamá-la também uma questão, "um chamado ao Outro, mas que não opera mediante o testemunho, senão que procede, cada um é convocado a refazer por sua conta um encadeamento demonstrativo e, chegando ao ponto, invalidá-lo ou prossegui-lo no lugar que ocupa a evidência" [1].

A nota questão. A relação entre o câncer e o acontecimento de corpo.

"…uma antiga enfermidade outrora clandestina e somente mencionada entre sussurros, que se metamorfoseou em uma entidade letal e de formas mutantes, imbuída de uma potência metafórica, médica, científica e política tão penetrante que frequentemente caracteriza-se o câncer como a peste definidora de nossa geração" [2].

Assim começa Uma biografia do câncer, um livro com mais de 700 páginas, instrutivo e informado, que mereceu um Prêmio Pulitzer, entrelaçando êxitos e fracassos da ciência e como estes repercutem em cada época. Para o autor, este "imperador de todos os males" será a nova normalidade [3] uma vez que Mukherjee conclui de modo enfático: "O câncer, descobrimos, é atado ao nosso genoma" [4].

O câncer caracteriza-se assim, atado. Milhares de provas, ensaios, e tratamentos se entrecruzam para mostrar que se está entre o destino e o fatalismo.

Há ocasiões em que recebemos sujeitos em que este "imperador" lhes foi apresentado, ou outras em que, no transcurso de uma cura, a presença de um diagnóstico de câncer se torna obscuro e confuso, sendo o porquê e "o quê fiz" seu núcleo [5]. Testemunhando a maneira com que, nos sujeitos, impacta o imbróglio de um "acidente do corpo" e o sentido do destino e da fatalidade. Assim, muitos ficaram prisioneiros da significação única de estar "atado ao gene"como lei e como imperativo.

Por isso considero necessário investigar as relações entre "acidentes do corpo" e destino visto que, com o câncer, desperta-se uma demanda de trabalho sobre essa articulação, buscando preservar na língua um rastro de sua separação.

"Que defina o singular, é o que tenho chamado por seu nome: um destino. É isso o singular, vale a pena havê-lo obtido: felizmente uma sorte que de todo modo tem suas regras. E há um modo de cingir o singular justamente pela via desse particular, particular que faço equivaler à palavra sintoma. A psicanálise é a busca dessa sorte, que não é sempre forçosamente, nem necessariamente, uma boa sorte, uma felicidade"[6].

Ali a trajetória de singularizar o destino, tecido com as regras do acaso, veicula o sintoma. De tal maneira que cada um encontrará uma saída ao "acidente": entre acasos e causas poderá bordear os "acontecimentos discursivos que deixaram marcas no corpo, que o perturbam e produzem sintomas nele, mas somente na medida em que o sujeito em questão seja apto para ler e decifrar estas marcas" [7].

Talvez essa seja a maneira que um sujeito pode encontrar para fazer frente a um real a que submeterá seu corpo, tanto à dor como a todas as práticas (algumas necessárias e suficientes) e outras onde o discurso da ciência pretende reabsorver o real sem sintoma.

Investigar as formas de enredar-se e desenredar-se em relação ao destino, em torno do trauma e da trama, sem a obscuridade do determinismo. Sendo a investigação e construção do "acontecimento de corpo" um conceito muito próprio da psicanálise. E é o ENAPOL um lugar para demonstrá-lo.


Tradução: Mônica Bueno de Camargo

  1. Miller, J.-A., Los signos del goce, Paidós, Bs. As., 1998.
  2. Mukherje, S., El emperador de todos los males. Una biografía del cáncer, Taurus, Madrid, 2011.
  3. Hunter, J., "Epidemiologia del cáncer" Ca. Journal, www.cancer.gov
  4. Caldas, H., "Atormentados pela prevenção", www.enapol.com
  5. Considero que a nota de leitura propõe interrogar somente um ponto do problema visto que é necessário considerar tanto o caso por caso como a fórmula "ter um corpo", a qual nos orientara tanto no diagnóstico como nos modos em que este acidente do corpo repercutiu no parlêtre e na relação que mantinha com esse corpo.
  6. Lacan, J., "El placer y la regla fundamental", Scilicet 6/7, Ed. du Seuil, Paris, 1975.
  7. Miller; J.-A., La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica, Paidós, Bs. As., 2003.