{"id":256,"date":"2021-09-11T17:59:35","date_gmt":"2021-09-11T20:59:35","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/ix\/?p=256"},"modified":"2021-09-11T17:59:35","modified_gmt":"2021-09-11T20:59:35","slug":"praga-do-pai-indignacao-do-filho-sergio-laia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/ix\/praga-do-pai-indignacao-do-filho-sergio-laia\/","title":{"rendered":"Praga do pai, indigna\u00e7\u00e3o do filho &#8211; S\u00e9rgio Laia"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p align=\"center\"><b>PRAGA DO PAI, INDIGNA\u00c7\u00c3O DO FILHO<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>o que nos ensina Philip Roth<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>*<\/sup><\/a><\/b><\/p>\n<p align=\"right\">S\u00e9rgio Laia<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>**<\/sup><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o me considero um especialista em Philip Roth. Sou dele um leitor, e nem lhe li (ainda?) todos os livros. Al\u00e9m de sua escrita precisa, ir\u00f4nica e, mesmo quando mordaz, elegante, interessou-me de in\u00edcio sobretudo o modo como ele me pareceu saber dar corpo \u00e0 sexualidade masculina, seus impasses, desvarios e solu\u00e7\u00f5es, inclusive quando, em v\u00e1rios de seus livros, ela \u00e9 confrontada \u00e0 velhice. No entanto, quando em minha adolesc\u00eancia, eu ainda morava em uma cidade do interior de Minas Gerais onde livros novos s\u00f3 me chegavam quando passei a ser membro de um servi\u00e7o de entrega postal chamado, \u00e0 \u00e9poca,\u00a0<i>C\u00edrculo do Livro<\/i>, encomendei, por volta 1978,\u00a0<i>O complexo de Portnoy<\/i>, no qual s\u00e3o abordados, de fato, as mem\u00f3rias e os relatos que um jovem advogado nova-iorquino dirigia a um psicanalista. Embora bastante surpreendido por esse romance, n\u00e3o foi ele que fez de mim um leitor de Roth. Isso aconteceu bem mais tarde, em 2006, quando meu prop\u00f3sito de exercitar minha rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua inglesa, me levou a ler\u00a0<i>Everyman\u00a0<\/i>(Roth, 2006), traduzido no Brasil como\u00a0<i>Homem comum<\/i>\u00a0<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>1<\/sup><\/a>. A partir da\u00ed, passei tanto a seguir os lan\u00e7amentos que esse escritor norte-americano fez at\u00e9 seu \u00faltimo romance\u00a0<i>Nemesis<\/i>\u00a0(2010), quanto a ler v\u00e1rios outros livros seus.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a>Cheguei a publicar, na revista\u00a0<i>Correio<\/i>, da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, uma resenha sobre os seu cinco \u00faltimos romances e que intitulei \u201c4 vezes Roth e mais um ainda por vir\u201d (Laia, 2010). Por ocasi\u00e3o da morte desse escritor, no dia 23 de maio de 2018, difundi essa mesma resenha em minha p\u00e1gina do\u00a0<i>Facebook<\/i>, mas \u2013 para destac\u00e1-la como uma homenagem \u2013 dei-lhe outro t\u00edtulo: \u201cPhilip Roth: a puls\u00e3o que n\u00e3o envelhece e o desejo indestrut\u00edvel\u201d. Sem d\u00favida, nessa resenha, est\u00e1 inclu\u00eddo\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0(Roth, 2008) e ao qual, com mais vagar e talvez mais ao modo de um ensaio, retorno neste texto, ap\u00f3s reler esse romance por uma segunda vez.<\/p>\n<p><i>Trama<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Como sou brasileiro e, portanto, marcado pelo \u201colhar estr\u00e1bico\u201d com que Piglia (1991) certa vez tematizou a capacidade de, a partir da Am\u00e9rica Latina, mirarmos tanto o que se passa aqui quanto nesses Outros mundos que s\u00e3o a Am\u00e9rica do Norte e o Velho Mundo, afirmo que\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>, assim como outros livros de Philip Roth \u00e9 um romance \u00e0 la\u00a0<i>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/i>\u00a0porque esse escritor norte-americano, tal como o nosso Machado de Assis, \u00e9 mestre em fazer um morto contar a pr\u00f3pria vida. Dizer que o protagonista de\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o\u00a0<\/i>est\u00e1 morto e narra sua vida n\u00e3o \u00e9 exatamente, como se diz hoje em dia, \u201cdar\u00a0<i>spoiler<\/i>\u201d porque j\u00e1 somos informados dessa morte antes mesmo de nos inteirarmos da trama na qual ela \u00e9 decisiva:<\/p>\n<p align=\"justify\">mesmo morto, como estou agora e tenho estado sei l\u00e1 por quanto tempo, tento reconstruir os costumes que imperavam\u2026 e recapitular meus esfor\u00e7os canhestros para esquivar-me deles, pois foram esses esfor\u00e7os que, provocando uma s\u00e9rie de desastres, terminaram por causar minha morte aos dezenove anos (Roth, 2008 [2009], p. 47).<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim, \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 que intitula o livro \u2013 pode muito bem ser o afeto com que muitas vezes tendemos responder \u00e0 morte de algu\u00e9m t\u00e3o jovem. Mas veremos, mais adiante, que esse n\u00e3o \u00e9, a meu ver, o\u00a0<i>leitmotiv<\/i>\u00a0desse t\u00edtulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O que me surpreendeu, particularmente ao ler por uma segunda vez\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>, \u00e9 que a declara\u00e7\u00e3o que Marcus Messner faz da pr\u00f3pria e t\u00e3o precoce morte \u00e9 inserida por Roth (2008) na trama logo depois que esse jovem personagem descreve-nos a excita\u00e7\u00e3o sexual experimentada, n\u00e3o sem perplexidade, com o modo como uma colega de Universidade participou ativamente tanto do beijo na boca que ele lhe deu quanto do direcionamento de uma das m\u00e3os dela para o meio das pernas dele, logo no primeiro encontro, em 1951. Sexo e morte s\u00e3o, portanto, tramados e considero instigante que a frase na qual a narrativa dessa experi\u00eancia sexual termina para se enla\u00e7ar \u00e0 declara\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o menos impactante \u2013 da morte do protagonista do romance tenha sido literalmente grifada pelo pr\u00f3prio Roth (2008 [2009], p. 47) como: \u201c<i>N\u00e3o houve nenhuma luta<\/i>\u201d. De fato, Olivia Hutton n\u00e3o lutou para responder ou mesmo para se colocar ativamente no encontro de seu corpo com o de Marcus Messner e, pelo que sabemos dela, tampouco lutaria caso tal encontro ou outros que aconteceram depois tomassem a dimens\u00e3o de um ato sexual. Do mesmo modo, a morte s\u00fabita desse jovem combatente norte-americano na Guerra da Coreia n\u00e3o se d\u00e1 propriamente dizendo no \u00e2mbito de uma luta, na medida em que ela \u00e9 consequ\u00eancia muito mais dessa carnificina a qual o governo norte-americano destinou milhares de jovens, antecipando, a meu ver, o que voltar\u00e1 a acontecer, entre 1959 e 1975, na Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p align=\"justify\">A trama sexo-morte ganha ainda mais impacto, demonstrando-nos o quanto Roth (2008 [2009]) \u00e9 realmente genial, se nos lembrarmos de que Marcus Messner \u00e9 filho de um a\u00e7ougueiro\u00a0<i>kosher<\/i>\u00a0e que chegou at\u00e9 a trabalhar por um tempo com o pai antes de se tornar estudante universit\u00e1rio, assim como, desde muito cedo na vida, foi introduzido pelo pai nesse ritual judaico de, por exemplo, abater certos animais e preparar sua carne para o consumo humano.\u00a0<i>Kosher<\/i>, em \u00eddiche, significa \u201cadequado\u201d, \u201cbom\u201d.<i>\u00a0<\/i>Orientados por preceitos j\u00e1 encontrados na\u00a0<i>Tor\u00e1<\/i>, os judeus, quando seguem a tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o comem a carne de qualquer animal<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote4sym\" name=\"sdfootnote4anc\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0e, quando este \u00e9 abatido, n\u00e3o pode sofrer ao morrer e tampouco seu sangue pode ser consumido. Assim, poderemos ler em\u00a0<i>Deuteron\u00f4mio<\/i>, 12, 23: \u201cS\u00ea firme\u2026 para n\u00e3o comeres o sangue, porque o sangue \u00e9 a vida. Portanto, n\u00e3o comas a vida com a carne\u201d. Por sua vez, em\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>, o pr\u00f3prio Marcus Messner nos relata como, em sua inf\u00e2ncia, um animal era considerado\u00a0<i>khosher<\/i>:<\/p>\n<p align=\"justify\">Para ser\u00a0<i>kosher<\/i>, o animal tem que morrer devido \u00e0 perda de sangue. E, nos tempos que eu era o filho pequeno de um a\u00e7ougueiro e tinha de aprender como se fazia o abate, eles penduravam o animal pelo p\u00e9 para sangr\u00e1-lo. Primeiro, enrolavam uma corrente na perna traseira para conter o animal. Como a corrente estava acoplada a un guincho, o animal era rapidamente erguido e ficava preso pela pata de tr\u00e1s a fim de que todo o sangue corresse para a cabe\u00e7a e a frente do corpo. S\u00f3 ent\u00e3o podia ser morto. Entrava o\u00a0<i>sochet<\/i>\u00a0usando un solid\u00e9u\u2026, ajeitava a cabe\u00e7a do animal sobre os joelhos, empunhava um grande fac\u00e3o, pronunciava uma\u00a0<i>bracha<\/i>\u00a0(ben\u00e7\u00e3o) e cortava o pesco\u00e7o. Se fizesse isso num s\u00f3 golpe, se cortasse a traqueia, o es\u00f4fago e as car\u00f3tidas sem tocar na coluna vertebral, o animal morria instantaneamente e era\u00a0<i>kosher<\/i>; se precisasse corta duas vezes ou o animal padecesse, se o fac\u00e3o n\u00e3o estivesse perfeitamente afiado ou a coluna vertebral fosse atingida, ent\u00e3o o animal n\u00e3o era\u00a0<i>kosher<\/i>\u00a0(Roth, 2008 [2009], p. 119).<\/p>\n<p align=\"justify\">Portanto, atrav\u00e9s do, se posso dizer assim, ritual\u00a0<i>kosher<\/i>, define-se o que \u00e9 \u201cadequado\u201d e o que \u201cn\u00e3o \u00e9 adequado\u201d, o que \u201cpode ser considerado bom\u201d e o que \u201cn\u00e3o pode ser considerado bom\u201d e \u00e9 justamente este tipo de parti\u00e7\u00e3o que marca a curta vida e a s\u00fabita morte de Marcus Messner. O problema \u00e9 que, no \u00e2mbito do ritual, essa parti\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m \u00e9 aquela do \u201cpuro\u201d e do \u201cimpuro\u201d funciona, mas, como nos ensina Freud (1910 [2013] e 1912-1913 [2012]) desde \u201cSobre o sentido antit\u00e9tico das palavras primitivas\u201d e, ainda,\u00a0<i>Totem e tabu<\/i>, esse funcionamento nem sempre suporta a press\u00e3o com que as puls\u00f5es tomam o corpo vivo e, tanto pela gram\u00e1tica pr\u00f3pria ao fluxo pulsional quanto pelo modo como a linguagem marca e corrompe o que \u00e9 humano, esse corpo se torna \u2013 e retomo aqui uma express\u00e3o de Lacan (1960-1961 [1992], p. 296) leitor de Paul Claudel \u2013 \u201cref\u00e9m do Verbo\u201d. Roth (2008, p. 34, 36 e 37), por ter sido excelente escritor, sabe disso e, assim, cria-nos esse admir\u00e1vel Marcus Messner como aquele que, sem d\u00favida, \u201cqueria fazer tudo certo\u201d e que, de fato, \u00e9 um jovem exemplar, mas tamb\u00e9m o faz dizer \u201ccresci com sangue\u201d<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote5sym\" name=\"sdfootnote5anc\"><sup>3<\/sup><\/a>, esse mesmo sangue do qual o pai \u201cnunca p\u00f4de\u201d ensin\u00e1-lo a gostar ou mesmo a se acostumar. \u00c9 bem este o drama de Marcus Messner e, em diferentes outras vers\u00f5es, o que toca a cada um de n\u00f3s: o sangue que a tradi\u00e7\u00e3o, desde o\u00a0<i>Lev\u00edtico<\/i>\u00a0e o\u00a0<i>Deuteron\u00f4mio<\/i>, o interdita a consumir torna-se um tabu tanto quanto o sexo para um jovem da d\u00e9cada de 1950, mas o sangue \u00e9 tamb\u00e9m a vida que, assim como o sexo, anima os corpos e, portanto, por mais que se o evite, ele pulsa porque a vida \u2013 conforme a experimentamos todos os dias \u2013 n\u00e3o \u00e9 propriamente\u00a0<i>kosher<\/i>. Al\u00e9m disso, mesmo que um pai se proponha ou at\u00e9 mesmo deva orientar a vida de um filho, a psican\u00e1lise tamb\u00e9m nos ensina o que \u00e9 tamb\u00e9m mostrado por Roth (2009): os des\u00edgnios paternos falham em determinar a dire\u00e7\u00e3o certa para a vida dos filhos e essa falha tende a ser menos devastadora quanto menos ela se impuser como se fosse perfeita e sem erro.<\/p>\n<p>\u201c<i>A mais bonita palavra na l\u00edngua inglesa\u201d<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">A palavra \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d aparece pela primeira vez no livro de Roth (2008 [2009], p. 66) que a adota como t\u00edtulo extra\u00edda de um dos versos do hino dos chineses em uma guerra deflagrada pelos japoneses: \u201c<i>A indigna\u00e7\u00e3o enche o cora\u00e7\u00e3o de todos os nossos compatriotas<\/i>\u201d. Esse hino, segundo nos informa Marcus Messner, passou a ser cantado por ele de mem\u00f3ria como uma forma de suportar os serm\u00f5es que era obrigado a escutar, mesmo sendo judeu e ateu, nos atos religiosos que, nos anos 1950, ainda compunham o cotidiano dos estudantes da Universidade de Winesburg. Marcus o havia aprendido no Prim\u00e1rio quando, em plena Segunda Guerra Mundial, a China era aliada dos Estados Unidos e, ao retom\u00e1-lo, no contexto hist\u00f3rico da Guerra da Correia, os chineses j\u00e1 n\u00e3o se encontram do mesmo lado que os norte-americanos e, portanto, entoar de mem\u00f3ria tal hino \u00e9 um modo secreto de Marcus Messner expressar sua pr\u00f3pria indigna\u00e7\u00e3o, inclusive por cantar os versos daqueles que se tornaram inimigos dos Estados Unidos \u201cdando todas as vezes uma \u00eanfase especial a cada uma das quatro s\u00edlabas que, mescladas conjuntamente, formam o nome \u2018indigna\u00e7\u00e3o\u2019\u00a0obsessiva na\u00e7009], p. 67), o anodo especial, cada uma das quatro seilatados Unidos.<\/p>\n<p align=\"justify\">assim, quando o retoma, j.un guincho, o an\u201d (Roth, 2008, p. 82)<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote6sym\" name=\"sdfootnote6anc\"><sup>4<\/sup><\/a>. Nessa esp\u00e9cie de rumina\u00e7\u00e3o obsessiva desse hino, Marcus Messner procura marcar clandestinamente sua diferen\u00e7a porque, entoando os versos daqueles que passam a ser inimigos, n\u00e3o se coloca propriamente como um compatriota entre os seus colegas e, mais al\u00e9m da Universidade de Winesburg, entre seus patr\u00edcios, mesmo se acaba tendo esva\u00eddo de seu corpo o sangue da vida como combatente norte-americano na Guerra da Cor\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um pouco mais adiante,\u00a0<i>indigna\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0volta a aparecer por uma terceira e \u00faltima vez, quando Marcus Messner, tal como o protagonista do kafkiano\u00a0<i>O processo<\/i>, se v\u00ea confrontado a responder pelo que o Diretor da Universidade de Winesburg apresenta como \u201cinadequado\u201d e que, de fato, n\u00e3o tem qualquer raz\u00e3o de s\u00ea-lo considerado assim. Nesse contexto, escutando os improp\u00e9rios desse Diretor, ele cantou \u201cpara dentro\u201d o que chama ent\u00e3o de \u201ca mais bonita palavra na l\u00edngua inglesa: \u2018In-<i>dig<\/i>-na-\u00e7\u00e3o\u2019\u201d (Roth, 2008, p. 95). Na edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro (Roth, 2008 [2009], p. 75), n\u00e3o est\u00e1 marcada a \u00eanfase que no original foi refor\u00e7ada na s\u00edlaba t\u00f4nica inglesa\u00a0<i>na<\/i>\u00a0e que, no nosso caso, corresponderia \u00e0 s\u00edlaba\u00a0<i>dig<\/i>. Em ingl\u00eas, tal refor\u00e7o vem destacar, a meu ver, a considera\u00e7\u00e3o, por parte de Marcus Messner, do quanto \u00e9 indigna a na\u00e7\u00e3o,\u00a0<i>nation<\/i>,<i>\u00a0<\/i>onde vivia, ou seja, os Estados Unidos da Am\u00e9rica. Afinal, o modo como esse jovem procurava levar sua vida, suas escolhas, n\u00e3o eram propriamente inadequados aos ideais de liberdade preconizados e mesmo defendidos como valores norte-americanos, mas foi justamente contra esse modo, essas escolhas e, kafkianamente, em nome desses valores, que o Diretor da Universidade de Winesburg o inquiria. Nesse contexto, tal Diretor reiterava uma ferocidade que, embora pautada pela nas min\u00facias que, de formas diferentes, apenas a burocracia e a loucura s\u00e3o capazes de apontar, evocando, ent\u00e3o, as restri\u00e7\u00f5es e acusa\u00e7\u00f5es persecut\u00f3rias com que o pai de Marcus Messner passou a trat\u00e1-lo. Se a persegui\u00e7\u00e3o alucinante do pai, deflagrada no in\u00edcio da adolesc\u00eancia do filho fez com que este \u00faltimo, seguindo o que n\u00e3o deixa de ser uma tradi\u00e7\u00e3o norte-americana, inscrever-se em uma Universidade bem distante do lar familiar e, por conseguinte, das pragas com que o pai passou a assol\u00e1-lo, o processo inquisit\u00f3rio empreendido pelo Diretor da Universidade na qual Marcus Messner procurava encontrar um abrigo o fez tomar uma decis\u00e3o que acabou por radicalizar a indigna\u00e7\u00e3o que custar\u00e1, a esse protagonista do romance de Roth (2008), o sangue da vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao ressaltar a palavra \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d em \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d, para designar a p\u00e1tria que, reiterando o que j\u00e1 lhe fazia o pai, solapava-lhe o pr\u00f3prio ser ao n\u00e3o dar lugar \u00e0s suas escolhas, Marcus Messner me parece ratificar, ainda, o que temos podido avan\u00e7ar, no \u00e2mbito das Escolas latino-americanas vinculadas \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, com rela\u00e7\u00e3o a essa paix\u00e3o hoje em dia t\u00e3o em voga: a indigna\u00e7\u00e3o. No argumento do IX Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (ENAPOL), a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 abordada como o afeto no qual um sujeito \u201cse det\u00e9m quando sua singularidade \u00e9 questionada, n\u00e3o reconhecida, recha\u00e7ada\u201d e, ent\u00e3o, somos convidados a \u201cinterrogar a rela\u00e7\u00e3o entre dignidade e essa singularidade que Freud chamou de\u00a0<i>Kern unseres Wesens<\/i>\u201d, ou seja, de \u00e2mago do ser (Carrijo da Cunha, Arenas e Zapata Mach\u00edn, 2018).<i>\u00a0<\/i>Esse mesmo argumento nos remete tamb\u00e9m a uma passagem do Semin\u00e1rio 8, na qual a express\u00e3o \u201c<i>estar indignado\u201d<\/i>\u00a0\u00e9 associada ao termo grego\u00a0<i>agaiomai<\/i>, quando Lacan (1960-1961 [1992], p. 145) busca a raiz de\u00a0<i>agalma<\/i>, essa outra palavra grega que lhe serve para designar o objeto precioso que podia ser encontrado, escondido, bem dentro, ou seja, no \u00e2mago, desse tipo de caixinha grega chamada sileno<a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote7sym\" name=\"sdfootnote7anc\"><sup>5<\/sup><\/a>\u00a0e do qual ele se servir\u00e1, alguns anos mais tarde, para designar o objeto que, ao mesmo tempo, como \u201cresto\u201d, determina a \u201cdivis\u00e3o\u201d do sujeito e \u201co destitui como sujeito\u201d (Lacan, 1967 [2003], p. 257).<\/p>\n<p align=\"justify\">Para discernir como esse objeto onde um sujeito localiza o \u00e2mago de seu ser \u00e9 tamb\u00e9m o que o destitui como sujeito, Lacan (1960-1961 [1992], p. 172) nos ensina que, no desejo, o que \u201cest\u00e1 em quest\u00e3o\u2026 \u00e9 um objeto, n\u00e3o um sujeito\u201d, pois se trata de \u201cum objeto diante do qual desfalecemos, vacilamos, desaparecemos como sujeito\u201d uma vez tal \u201cqueda\u201d, tal \u201cdeprecia\u00e7\u00e3o\u201d, somos sempre n\u00f3s \u201ccomo sujeito\u2026 que a sofremos\u201d. Por sua vez, com o objeto, acontece \u201cjustamente o contr\u00e1rio\u201d, ele \u201c\u00e9 supervalorizado\u201d para \u201csalvar nossa dignidade de sujeito\u201d, para \u201cfazer de n\u00f3s algo distinto de um sujeito submisso ao deslizamento infinito do significante, \u2026 algo distingo do sujeito da fala, esse algo de \u00fanico, de inapreci\u00e1vel, de insubstitu\u00edvel,\u2026 o verdadeiro ponto onde podemos designar aquilo a que chamei a dignidade do sujeito\u201d (Lacan, 1960-1961 [1992], p. 172-173). Nesse contexto, \u00e9 interessante ressaltar que, de in\u00edcio, a indigna\u00e7\u00e3o de Marcus Messner \u00e9 acionada quando ele se v\u00ea obrigado a frequentar serm\u00f5es nos quais ele n\u00e3o se reconhecia, nem encontrava qualquer valor subjetivo, fazendo-o apelar para o hino daqueles que, nas circunst\u00e2ncias em que se encontrava, passaram a ser inimigos de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Por\u00e9m, essa indigna\u00e7\u00e3o deixa de lhe ser mera rumina\u00e7\u00e3o de palavras para dar lugar a atos que terminam por extirpar-lhe o sangue da vida quando Olivia Hutton, essa mulher que o perturbava, com sua diferen\u00e7a e ousadia, em seu desejo, lhe \u00e9 apresentada, por seus colegas, sua m\u00e3e e, por fim, o Diretor da Universidade de Winesburg, como indigna. Assim, com seus atos, n\u00e3o apenas Marcus Messner, indignado, procura reafirmar a dignidade perdida como sujeito no deslizamento infinito dos versos de um hino chin\u00eas e de seus pr\u00f3prios argumentos: ele visa ainda conferir \u00e0 Olivia Hutton que, sobretudo ao final, se apresenta como irremediavelmente perdida, um valor que, muitas vezes, ele pr\u00f3prio vacilava em sustentar.<\/p>\n<p align=\"justify\">No boletim eletr\u00f4nico OCI, n. 7, destinado \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o do IX ENAPOL, Ana Lydia Santiago indaga a \u00c9ric Laurent se, de fato, a indigna\u00e7\u00e3o, como o que se experimenta \u201cdiante de uma injusti\u00e7a intr\u00ednseca a um ato\u201d perpetrado contra um sujeito, comportaria uma dimens\u00e3o mais simb\u00f3lica que as paix\u00f5es do \u00f3dio e da c\u00f3lera (Santiago e Laurent, 2019). Em sua resposta, \u00c9ric Laurent concorda quanto a esse aspecto simb\u00f3lico e mesmo sublimado da indigna\u00e7\u00e3o e, citando os movimentos ainda recentes que, na Espanha e nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, se designaram respectivamente como\u00a0<i>Los indignados<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Ocupy Wall Street<\/i>, situa o \u201cmomento da indigna\u00e7\u00e3o\u201d como aquele \u201cde um grito diante do Outro mau que se manifesta\u201d, mas que \u00e9 \u201cum grito de impot\u00eancia\u201d \u2013 afinal, o que aparece depois do grito da indigna\u00e7\u00e3o \u00e9, segundo \u00c9ric Laurent: \u201co que fazer?\u201d (Santiago e Laurent, 2019). Nesse contexto da impot\u00eancia, a indigna\u00e7\u00e3o, mesmo quando visa dar lugar ao que \u00e9 digno, n\u00e3o deixa de ser, como j\u00e1 entoava a can\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Skank<\/i>, \u201cuma mosca sem asas\u201d que \u201cn\u00e3o ultrapassa a janela de nossas casas\u201d (Rosa e Amaral, 1993).<\/p>\n<p align=\"justify\">No caso de Marcus Messner, sua indigna\u00e7\u00e3o contra as imposi\u00e7\u00f5es p\u00e1trias e tamb\u00e9m paternas n\u00e3o deixa de enred\u00e1-lo, inclusive fatalmente, no que procurava escapar. Afinal, ele termina como uma esp\u00e9cie de her\u00f3i p\u00e1trio e retorna, para sempre, \u00e0 casa paterna, mesmo se esta passa a ser, de fato, o solo da terra-m\u00e3e onde seu corpo morto \u00e9 depositado. Haveria algum modo de sair da impot\u00eancia que parece sempre espreitar a indigna\u00e7\u00e3o, por mais forte e determinante que essa paix\u00e3o seja? No boletim eletr\u00f4nico OCI, n. 4, um artigo de Torres (2019) me oferece uma pista para responder essa quest\u00e3o e concluir este texto, ao destacar que a indigna\u00e7\u00e3o pode separar o sujeito do mundo confinando-o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o hegeliana da Bela Alma.<\/p>\n<p><i>Mais algumas pitadas de Lacan<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">A posi\u00e7\u00e3o da Bela Alma \u00e9 aquela na qual se aponta, critica e afronta as desgra\u00e7as do mundo sem se perguntar como se d\u00e1 o pr\u00f3prio envolvimento neste mal: a Alma \u00e9 Bela porque se coloca como alheia ao Mal diante do qual ela, por exemplo, se indigna. Parece-me, ent\u00e3o, oportuno retornar \u00e0 seguinte constata\u00e7\u00e3o de Marcus Messner: \u201ccresci com sangue\u201d, esse mesmo do qual o pai \u201cnunca p\u00f4de\u201d ensin\u00e1-lo a gostar ou mesmo a se acostumar (Roth, 2008, p. 36). Atrav\u00e9s dessa formula\u00e7\u00e3o, assim como da pr\u00f3pria e curta vida desse personagem, verificamos um paradoxo do qual, de fato, ele n\u00e3o extrai todas as consequ\u00eancias: como filho de um a\u00e7ougueiro\u00a0<i>kosher<\/i>, o sangue lhe era familiar, cresceu com ele, mas era, tamb\u00e9m, um elemento do qual n\u00e3o aprendeu a gostar e, por conseguinte, mesmo precisando se livrar, ent\u00e3o, do sangue que lhe toma a dimens\u00e3o mesma de um objeto-dejeto, Marcus Messner n\u00e3o \u00e9 indiferente ao sangue, ou seja, esse objeto lhe \u00e9 tamb\u00e9m atraente, agalm\u00e1tico.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por n\u00e3o conseguir se haver, no \u00e2mbito de seu pr\u00f3prio desejo, inclusive quanto \u00e0 Olivia Hutton, com esse estranho objeto que ao mesmo tempo o degrada, assola e atrai, sua indigna\u00e7\u00e3o acaba por conduzi-lo \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de morrer esvaindo-se nessa subst\u00e2ncia, o sangue e, por que n\u00e3o, o gozo, que lhe era ao mesmo tempo repugnante e que se apegava, como uma esp\u00e9cie de visgo, a seu corpo. Desprender-se da posi\u00e7\u00e3o de Bela Alma implicaria ter, com rela\u00e7\u00e3o ao sangue, uma resposta diferente tanto de tom\u00e1-lo como tabu quanto de deixar-se arrebatar por ele. Nos termos que Lacan (1955, p. 45) um dia tomou emprestado de Heidegger, tratar-se-ia de realizar o: \u201cCome teu\u00a0<i>Dasein<\/i>\u201d, teu Ser-a\u00ed, o que te marca a exist\u00eancia ou, ainda, nos termos de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto cantado por Chico Buarque, tratar-se-ia de te haver \u201ccom a cova\u201d que \u00e9 \u201ca parte que te cabe desse latif\u00fandio\u201d (Melo Neto, 1954-1955 [1994], p. 183).<\/p>\n<p align=\"justify\">Por vezes, \u00e9 verdade, Marcus Messner chega bem perto de seu\u00a0<i>Dasein<\/i>, de sua cova no latif\u00fandio p\u00e1trio-paterno, do sangue com o qual, por mais que o limpasse, ele havia tamb\u00e9m crescido. Assim, por exemplo, ap\u00f3s reconhecer que o medo que tinha de Olivia Hutton aumentava quanto mais a desejava por ser uma mulher t\u00e3o fora dos padr\u00f5es da d\u00e9cada de 1950, Marcus Messner chega a dizer: \u201cEu\u00a0<i>era<\/i>\u00a0meu pai. N\u00e3o o havia deixado l\u00e1 em New Jersey, enredado em suas apreens\u00f5es e enlouquecido por premoni\u00e7\u00f5es assustadoras: eu me transformara nele em Ohio\u201d (Roth, 2008 [2009], p. 57). Por\u00e9m, esse tipo de reconhecimento n\u00e3o lhe \u00e9 determinante o bastante para ele desenredar-se da praga do pai porque, ao se valer do \u201cvelho, bom e desafiante norte-americano \u2018Vai se foder\u2019\u201d para se livrar das acusa\u00e7\u00f5es nefastas que o Diretor da Universidade de Winesburg lhe fazia, o protagonista em\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>, terminando sua vida como combatente norte-americano na Guerra da Coreia, n\u00e3o deixa de realizar fatalmente \u201co aprendizado daquilo que seu pai n\u00e3o muito educado vinha tentando duramente lhe ensinar h\u00e1 muito tempo: a via terr\u00edvel e incompreens\u00edvel pela qual as escolhas mais banais, fortuitas e at\u00e9 c\u00f4micas acabam no mais desproporcional resultado\u201d (Roth, 2008, p. 231).<\/p>\n<p align=\"justify\">A praga do pai que atormenta Marcus Messner n\u00e3o \u00e9, portanto, apenas aquelas que lhe ressoam nos cerceamentos persecut\u00f3rios que fizeram esse personagem se distanciar, o m\u00e1ximo que p\u00f4de, do lugar onde foi criado e viveu os dezessete primeiros anos de sua curta exist\u00eancia. A praga do pai \u00e9, sobretudo, o pr\u00f3prio pai como praga, ou seja, como uma esp\u00e9cie de parasita linguageiro que o acompanha por mais longe que Marcus Messner, como filho, possa ir. Essa acep\u00e7\u00e3o do pai como praga e n\u00e3o apenas como praguejador evoca, a meu ver, a concep\u00e7\u00e3o, sustentada pelo \u00faltimo Lacan (1975-1976 [2007]), de que a refer\u00eancia paterna \u00e9 um sintoma do qual s\u00f3 nos livramos quando dele nos servimos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Onde Marcus Messner se det\u00e9m, Philip Roth avan\u00e7a. Afinal, esse escritor norte-americano nos mostra a fal\u00e1cia do indignado \u201cvai se foder\u201d como modo de se tentar ir al\u00e9m do pai e, se\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0termina com uma \u201cNota Hist\u00f3rica\u201d na qual se destaca como as \u201cagita\u00e7\u00f5es sociais, transforma\u00e7\u00f5es e protestos da turbulenta d\u00e9cada de 60\u201d acabam subvertendo radicalmente at\u00e9 mesmo o conservador\u00a0<i>campus\u00a0<\/i>universit\u00e1rio de Winesburg que, dez anos antes, n\u00e3o conferia a um Marcus Messner qualquer lugar digno de sua diferen\u00e7a (Roth, 2008 [2009], p. 169), basta lermos\u00a0<i>A marca humana<\/i>\u00a0(Roth, 2000 [2014]) para constatarmos o qu\u00e3o opressora pode ser tamb\u00e9m a libera\u00e7\u00e3o que, desde a d\u00e9cada de 1960, ganha a Am\u00e9rica e, ainda, todo o mundo. Nesse contexto, aquele que, ainda em vida, foi muitas vezes sagrado como um dos maiores escritores norte-americanos foi tamb\u00e9m aquele cuja obra se trama como uma efetiva desmontagem do\u00a0<i>American Way of Life<\/i>\u00a0que se tornou, nos nossos dias, cada vez mais o\u00a0<i>Global Way of Life<\/i>.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p align=\"justify\">A B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M.\u00a0<i>Lev\u00edtico<\/i>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1989, 4<sup>a<\/sup>\u00a0impress\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M.\u00a0<i>Deuteron\u00f4mio<\/i>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1989, 4<sup>a<\/sup>\u00a0impress\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">CARRIJO DA CUNHA, Lu\u00eds Fernando, ZAPATA MACH\u00cdN, Gustavo e ARENAS, Geraldo. Argumento: \u00f3dio, c\u00f3lera, indigna\u00e7\u00e3o: desafios para a psican\u00e1lise. IX ENAPOL, dispon\u00edvel na internet (acesso em 1\u00ba de julho de 2019):\u00a0<a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/argumento\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/argumento\/<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">FREUD, Sigmund (1910 [2013]). Sobre o sentido antit\u00e9tico das palavras primitivas. In: ____.\u00a0<i>Obras completas, v. 9: observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva [\u201cO homem dos ratos\u201d], Uma recorda\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia de Leonardo Da Vinci e outros textos (1909-1910)<\/i>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p align=\"justify\">FREUD, Sigmund. (1912-1913 [2012]). Totem e tabu. In: ____.\u00a0<i>Obras completas, v. 11: Totem e tabu, Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do Movimento Psicanal\u00edtico e outros textos (1912-1914)<\/i>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p align=\"justify\">LACAN, Jacques (1955 [1996]. Semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. In: ____.\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 13-66.<\/p>\n<p align=\"justify\">LACAN, Jacques (1960-1961 [1992]).\u00a0<i>O semin\u00e1rio. Livro 8: a transfer\u00eancia<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LACAN, Jacques (1967 [2003]. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: ____.\u00a0<i>Outros escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 248-264.<\/p>\n<p align=\"justify\">LACAN, Jacques (1975-1976 [2007]).\u00a0<i>O semin\u00e1rio. Livro 23: o sinthoma<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/p>\n<p align=\"justify\">LAIA, S\u00e9rgio (2010). 4 vezes Roth e mais um ainda por vir.\u00a0<i>Correio<\/i>, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), S\u00e3o Paulo, n. 66, p. 99-104.<\/p>\n<p align=\"justify\">LINS BRAND\u00c3O, Jacyntho. Nota sobre uma cita\u00e7\u00e3oo e um lugar comum utilizados por Lacan em \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista na Escola:\u00a0<i>agalma<\/i>\u00a0e\u00a0<i>sicut palea<\/i>.\u00a0<i>Correio<\/i>, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), S\u00e3o Paulo, n. 81, p. 124-138.<\/p>\n<p align=\"justify\">MELO NETO, Jo\u00e3o Cabral (1954-1955 [1994]). Morte e vida severina. In: ____.\u00a0<i>Obra completa<\/i>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p. 169-202.<\/p>\n<p align=\"justify\">PIGLIA, Ricardo (1991). Memoria y tradicio\u0301n.\u00a0<i>Congresso Abralic, 2<\/i>,\u00a0Belo Horizonte: Editora UFMG, v. 1, p. 60-66.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROSA, Samuel e AMARAL, Chico (1993). In(dig)Na\u00e7\u00e3o.\u00a0<i>Skank<\/i>, CD. Informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel na internet (acesso em 1\u00ba de julho de 2019):\u00a0<a href=\"http:\/\/www.skank.com.br\/musica\/indignacao\/\">http:\/\/www.skank.com.br\/musica\/indignacao\/<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">ROTH, Philip (2000 [2014]).\u00a0<i>A marca humana<\/i>. S\u00e3o Paulo: Companhia de Bolso.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROTH, Philip (2006).\u00a0<i>Everyman\u00a0<\/i>. Boston-New York: Houghton Mifflin Company.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROTH, Philip (2008).\u00a0<i>Indignation\u00a0<\/i>. Boston-New York: Houghton Mifflin Company.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROTH, Philip (2008 [2009]).\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p align=\"justify\">ROTH, Philip (2010).\u00a0<i>Nemesis<\/i>. Boston-New York: Houghton Mifflin Company.<\/p>\n<p align=\"justify\">SANTIAGO, Ana Lydia e LAURENT, \u00c9ric (2019). Ana Lydia Santiago pergunta a \u00c9ric Laurent (Parte 5),\u00a0<i>Boletim OCI<\/i>, IX ENAPOL, 26 de junho de 2019. Dispon\u00edvel na internet (acesso em 1\u00ba de julho de 2019):\u00a0<a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-7\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-7\/<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">TORRES, M\u00f3nica (2019). \u00c9 a indigna\u00e7\u00e3o uma paix\u00e3o?.\u00a0<i>Boletim OCI<\/i>, IX ENAPOL, 24 de abril de 2019. Dispon\u00edvel na internet (acesso em 1\u00ba de julho de 2019):\u00a0<a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-4\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-4\/<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">*<\/a><sup>*<\/sup>\u00a0Texto apresentado, no dia 3 de julho de 2019, em Belo Horizonte, na atividade\u00a0<i>Lacan na Academia: conversando com a literatura<\/i>, promovida pela Academia Mineira de Letras e pela Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-MG).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">**<\/a><sup>**<\/sup>\u00a0Psicanalista; Analista da Escola (AE \u2013 2017-2020) e Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e pela Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP); Professor do Curso de Psicologia e do Mestrado em Estudos Culturais Contempor\u00e2neos da Universidade FUMEC (Funda\u00e7\u00e3o Mineira de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">1<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0Essa tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo, embora poss\u00edvel, deixa de lado a observa\u00e7\u00e3o, presente na orelha da edi\u00e7\u00e3o norte-americana, de que\u00a0<i>Everyman<\/i>\u00a0\u00e9 um termo se refere a \u201cuma pe\u00e7a an\u00f4nima e aleg\u00f3rica do s\u00e9culo XV\u2026 cujo tema \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o da vida \u00e0 morte\u201d (Roth, 2006) .<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote4\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote4anc\" name=\"sdfootnote4sym\">2<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0Ver:\u00a0<i>Lev\u00edtico<\/i>, 11 e\u00a0<i>Deuteron\u00f4mio<\/i>, 12, 13-28; 14, 3-21.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote5\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote5anc\" name=\"sdfootnote5sym\">3<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0Em ingl\u00eas,\u00a0<i>I grew up with blood\u00a0<\/i>(Roth, 2008, p. 36). Acima, inclusive para o que argumento neste texto, preferi traduzir mais literalmente do que o fez Jorio Dauser: \u201cCresci cercado de sangue\u201d (Roth, 2008 [2009], p. 35). Ao verter\u00a0<i>with<\/i><i><u>\u00a0<\/u><\/i>para \u201ccercado de\u201d, Dauser me parece dar ao sangue uma delimita\u00e7\u00e3o quanto a Marcus Messner e \u00e9 justamente essa delimita\u00e7\u00e3o que a preposi\u00e7\u00e3o inglesa\u00a0<i>with<\/i>\u00a0n\u00e3o torna t\u00e3o clara.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote6\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote6anc\" name=\"sdfootnote6sym\">4<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0Aqui, mais uma vez, decido por uma tradu\u00e7\u00e3o mais literal que a de Jorio Dauster (Roth, 2008 [2009], p. 67) porque me pareceu importante manter o termo \u201cnome\u201d como correspondente em portugu\u00eas a\u00a0<i>nom<\/i>\u00a0em vez de substitui-lo, como aparece na vers\u00e3o brasileira, por \u201cpalavra\u201d. Afinal,\u00a0<i>Indigna\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0acaba sendo o\u00a0<i>nome<\/i>\u00a0do livro de Roth e serve a Marcus Messner como uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia frente ao desvarios que ele encontrava particularmente no que concerne a seu pr\u00f3prio pai e coletivamente na Universidade onde estudava e no pa\u00eds onde vivia.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote7\">\n<p align=\"justify\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/praga-do-pai-indignacao-do-filho\/#sdfootnote7anc\" name=\"sdfootnote7sym\">5<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0Para um maior detalhamento sobre as acep\u00e7\u00f5es do termo\u00a0<i>agalma<\/i>, considero importante a leitura atenta da 10<sup>a<\/sup>\u00a0li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 8 (Lacan,1960-1961 [1982], p. 139-151) e, ainda, um esclarecedor artigo de Lins Brand\u00e3o (2017, p. 125-131).<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=256"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":257,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/256\/revisions\/257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}