{"id":288,"date":"2021-09-11T20:33:06","date_gmt":"2021-09-11T23:33:06","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/ix\/?p=288"},"modified":"2021-09-11T20:33:06","modified_gmt":"2021-09-11T23:33:06","slug":"indignai-vos-porem-henri-kaufmanner-ebp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/ix\/indignai-vos-porem-henri-kaufmanner-ebp\/","title":{"rendered":"Indignai-vos, por\u00e9m\u2026 &#8211; Henri Kaufmanner (EBP)"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p id=\"\" class=\"bold\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Henri Kaufmanner<\/strong><br \/>EBP<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Ligo a televis\u00e3o e logo me deparo com o notici\u00e1rio da tarde. Percebo um tom mais pesado na fala dos apresentadores, bem como uma forte indigna\u00e7\u00e3o em todos que s\u00e3o convocados a se manifestar nas entrevistas externas. Afinal, mais dois adolescentes haviam sido assassinados no fim de semana, nos primeiros dias de mar\u00e7o. Em cada nova chamada, o clima de indigna\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m. Familiares, membros da comunidade, l\u00edderes pol\u00edticos e respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a s\u00e3o convocados a se explicar. Alguns acusam, outros se justificam, por\u00e9m, \u00e9 ineg\u00e1vel que todos compartilham a mesma indigna\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o. Os registros de assassinatos t\u00eam subido vertiginosamente, e s\u00f3 no ano de 2018 chegaram ao n\u00famero de 285 mortes por esfaqueamentos no Reino Unido, naquilo que nomeiam como Knife Crimes.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m lembrar que armas de fogo s\u00e3o proibidas nos pa\u00edses que o comp\u00f5em, e por ser uma ilha, h\u00e1 um eficiente controle sobre a entrada dessas armas.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o expressar uma indigna\u00e7\u00e3o transbordando de constrangimento, ao comparar o n\u00famero de mortos na Gr\u00e3 Bretanha com, por exemplo, o n\u00famero de mortos por causas violentas no Brasil. No ano de 2017, as cifras por aqui alcan\u00e7aram o n\u00famero aproximado de 65 mil mortes, em sua maioria de jovens e negros, preval\u00eancia esta que, \u00e9 preciso assinalar, tamb\u00e9m se apresenta nas terras da Rainha. Apesar das diferen\u00e7as entre as realidades desses dois mundos, a indigna\u00e7\u00e3o de todos que tomaram a palavra na reportagem da BBC, era absolutamente sincera. Mesmo com as vis\u00edveis diferen\u00e7as e particularidades das condi\u00e7\u00f5es sociais, algo desse excesso, dessa revolta diante do Outro, insiste. Um ideal do bem comum provoca esse afeto, essa indigna\u00e7\u00e3o que invade cada um, e que n\u00e3o se mede por meio de estat\u00edsticas.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma importante caracter\u00edstica do tema de nosso IX ENAPOL. Em nosso tempo, \u00d3dio, C\u00f3lera e Indigna\u00e7\u00e3o se mostram intensificados globalmente. Estes nos desafiam, na medida em que apresentam sua clara vertente pol\u00edtica e sociol\u00f3gica, mas apesar disto, nos tocam tamb\u00e9m de maneira muito especifica, singular, mesmo que afetada pelos discursos dominantes nas sociedades em que nos inserimos.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos no Brasil, acontecimentos assustadores em escalas exponencialmente maiores. O que dizer, por exemplo, da enxurrada de lama sobre Brumadinho, que em uma lavada s\u00f3, enterrou um n\u00famero de pessoas bem maior que as estat\u00edsticas brit\u00e2nicas de viol\u00eancia. N\u00e3o deixamos tamb\u00e9m de acompanhar com preocupa\u00e7\u00e3o o que se passa em nossa vizinha Venezuela. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o nos indignarmos com o sofrimento de seu povo. Assim como n\u00e3o h\u00e1 como sermos indiferentes \u00e0s tentativas do presidente Donald Trump em construir um muro, separando a America First dos mexicanos e de todos aqueles que acreditam nesse sonho americano, como vimos recentemente com a marcha dos hondurenhos. Se n\u00e3o nos faltam raz\u00f5es para a indigna\u00e7\u00e3o, como podemos operar nessa realidade a partir da psican\u00e1lise, tocando o singular de cada ser falante?<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">Indigna\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">St\u00e9phane Hessel em seu pequeno libelo contra a indiferen\u00e7a, Indignai-vos\u00b9, convoca-nos todos a essa paix\u00e3o. Nomear como paix\u00f5es, o objeto de nossa investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tor\u00e7\u00e3o que se faz necess\u00e1ria. Miller, no texto \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u00b2\u201d, nos orienta a essa retifica\u00e7\u00e3o, afirmando que Lacan lan\u00e7a os afetos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s paix\u00f5es, as paix\u00f5es da alma. Em discord\u00e2ncia com a no\u00e7\u00e3o de que os afetos se apresentariam como uma tentativa de harmonizar as rela\u00e7\u00f5es entre o Eu e o mundo, o que estaria em jogo para Lacan, s\u00e3o os efeitos da linguagem sobre o corpo, e o gozo a\u00ed produzido, tocando diretamente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o objeto.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Hessel nos permite essa leitura, quando escreve que seus motivos n\u00e3o nasceram de uma emo\u00e7\u00e3o, mas de uma vontade de engajamento. Ele se dizia um otimista natural, que queria que tudo o que fosse desej\u00e1vel fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A vida de Hessel foi uma vida de resist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Em 1941, ele se ligou \u00e0 resist\u00eancia francesa, sob o comando do General De Gaulle, desde Londres. Trabalhou na contraespionagem de informa\u00e7\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o. Em uma noite do fim de mar\u00e7o de 1944, desembarcou clandestinamente na Fran\u00e7a tendo como miss\u00e3o fazer contato com as diferentes redes parisienses e encontrar novos lugares para as emiss\u00f5es da r\u00e1dio da resist\u00eancia, no intuito de criar condi\u00e7\u00f5es para a difus\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 Londres, informa\u00e7\u00f5es essas necess\u00e1rias para os preparativos da retomada da Fran\u00e7a. Foi preso pela Gestapo, torturado nos interrogat\u00f3rios. Neto de judeus, por parte de pai, foi enviado ao campo de concentra\u00e7\u00e3o de Buchenwald, na Alemanha. \u00c0s v\u00e9speras de ser fuzilado, conseguiu trocar sua identidade com a de outro franc\u00eas que havia morrido de tifo no campo de concentra\u00e7\u00e3o. Com seu novo nome, foi transferido para outro campo de concentra\u00e7\u00e3o, de onde fugiu. Sua hist\u00f3ria \u00e9 ainda marcada por in\u00fameros outros relatos de enfrentamento e resist\u00eancia. Este homem aos 93 anos, 3 anos antes de sua morte, escreveria sua convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o. Para ele, o motivo da resist\u00eancia, desde o nazismo, foi a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Em seu pequeno livro, reconhece que na atualidade \u00e9 muito dif\u00edcil ter clareza dos motivos para se indignar, mas acredita que basta procurar com aten\u00e7\u00e3o que as causas se revelar\u00e3o evidentes. Defende de forma veemente a indigna\u00e7\u00e3o como uma pr\u00e1tica pol\u00edtica n\u00e3o violenta. Ao tecer coment\u00e1rios sobre atos terroristas, diz que os compreende, por\u00e9m discorda de sua estrat\u00e9gia. Estes atos em nada adiantariam para a causa em jogo.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Para Hessel, os atos terroristas seriam explicados pela \u201cexaspera\u00e7\u00e3o\u201d daqueles que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o a um poder maior. Diz que nessas situa\u00e7\u00f5es muitas vezes as rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem n\u00e3o ser violentas. Contudo insiste: \u00e9 melhor es-perar que exas-perar. Hessel acredita na esperan\u00e7a, aquela que de acordo com seu relatado otimismo, tornaria poss\u00edvel tudo aquilo que se deseja.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Resumindo ent\u00e3o, parece que para Hessel, a indigna\u00e7\u00e3o funciona como um tratamento da exaspera\u00e7\u00e3o, levando \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">No dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, da l\u00edngua Portuguesa\u00b3 encontramos como sin\u00f4nimos de exasperar: tornar \u00e1spero, enfurecido, irritar muito, encolerizar, enfurecer. Vejam que se trata de uma irrita\u00e7\u00e3o intensa, col\u00e9rica mesmo. Isso nos leva a arriscar mais um passo. A partir da convoca\u00e7\u00e3o de St\u00e9phane Hessel, podemos tomar a indigna\u00e7\u00e3o como um tratamento da c\u00f3lera pela via da esperan\u00e7a, pelo menos quando nos vemos submetidos a um Outro poderoso e que nos exaspera?<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Exaspera\u00e7\u00e3o ou c\u00f3lera se aproximariam da refer\u00eancia lacaniana da emo\u00e7\u00e3o, na forma como esta se apresenta no esquema de Inibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e Ang\u00fastia, estabelecido no semin\u00e1rio X\u2074. Na conjuga\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo de dificuldade, o embara\u00e7o, com a emo\u00e7\u00e3o, localizada no eixo que aponta a limita\u00e7\u00e3o do movimento. Neste encontro entre a emo\u00e7\u00e3o e o embara\u00e7o, ter\u00edamos as condi\u00e7\u00f5es que precipitariam \u00e0 passagem ao ato.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Nesta, o sujeito se precipita num campo, fora do sentido de sua vida, fora da dimens\u00e3o fantasm\u00e1tica de sua experi\u00eancia de ser. Assim, seguindo a l\u00f3gica de Hessel, a indigna\u00e7\u00e3o, deslocaria o sujeito dessa posi\u00e7\u00e3o exasperada, restaurando pela via do Ideal, um la\u00e7o com a fantasia, produzindo um deslocamento no eixo do movimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 perturba\u00e7\u00e3o\/efus\u00e3o, o e-moi. A partir da fantasia, articula-se a esperan\u00e7a otimista que tornaria poss\u00edvel tudo aquilo que se deseja. Isso nos faz pensar que a indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sem o objeto.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o haveria nesse la\u00e7o otimista da esperan\u00e7a, uma aproxima\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de bem?<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">Esperan\u00e7a ingl\u00f3ria<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o poucos os momentos em que Lacan se refere \u00e0 esperan\u00e7a. Recolho aqui aqueles que se fazem presentes em Televis\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Em resposta a Miller, Lacan diz:<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">O senhor pensa a esperan\u00e7a como n\u00e3o tendo objeto? [\u2026] Espere o que lhe apetecer. Saiba apenas que, por v\u00e1rias vezes, vi a esperan\u00e7a \u2013 aquilo a que se chama os r\u00f3seos amanh\u00e3s \u2013 levar ao suic\u00eddio, pura e simplesmente, pessoas a quem eu prezava tanto quanto a voc\u00ea\u2075.<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">[\u2026] A psican\u00e1lise certamente lhe permite esperar elucidar o inconsciente de que voc\u00ea \u00e9 sujeito. Mas todos sabem que n\u00e3o incentivo ningu\u00e9m a isso, ningu\u00e9m cujo desejo n\u00e3o esteja decidido [\u2026]. A \u00fanica chance que ex-siste decorre apenas do feliz acaso [bon heur], com o que pretendo dizer que a esperan\u00e7a n\u00e3o adiantar\u00e1 nada, o que basta para torn\u00e1-la in\u00fatil, isto \u00e9, para n\u00e3o permiti-la\u2076.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">O convite de Hessel, que repercutiu de maneira intensa na Europa, e que tem uma import\u00e2ncia pol\u00edtica inestim\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 o mesmo convite ofertado pelo psicanalista.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Ao psicanalista, no singular de sua pr\u00e1tica, interessa algo que n\u00e3o \u00e9 da ordem de um bem, mas do desejo decidido, causado por um objeto a ser elucidado, a partir da experi\u00eancia de cada sujeito, determinado que \u00e9 por seu inconsciente. N\u00e3o \u00e9 um atravessamento que se fa\u00e7a sem a ang\u00fastia.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Por isso a participa\u00e7\u00e3o do psicanalista na pol\u00edtica toca sempre em uma complexidade que encontra na proposta de Zadig um esfor\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o. Por mais que n\u00f3s, psicanalistas, nos aliemos ao esfor\u00e7o democr\u00e1tico de nossa sociedade, esfor\u00e7os muitas vezes fundamentais para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise, sabem que o real em jogo em nossa pr\u00e1tica \u00e9 da ordem do pulsional. Trata-se do corpo e, nesse caso, o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Lacan afirmava que toda moral deveria ser buscada \u201cem seu princ\u00edpio e em sua proveni\u00eancia, do lado do real\u201d\u2077. Em seu semin\u00e1rio sobre a \u00e9tica\u2078, mostrou a articula\u00e7\u00e3o do desejo com a lei, e como a lei era respons\u00e1vel pela consist\u00eancia l\u00f3gica da Coisa, Das Ding. Assim, h\u00e1 algo da indigna\u00e7\u00e3o que remete a esta articula\u00e7\u00e3o entre lei e desejo. Sabemos a partir de Lacan que nessa rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o bem h\u00e1 sempre uma mentira. N\u00e3o seria poss\u00edvel uma aproxima\u00e7\u00e3o direta com Das Ding, esse Bem almejado. Ao que parece, a indigna\u00e7\u00e3o nos permite mant\u00ea-lo no horizonte, mais al\u00e9m, evitando assim a aproxima\u00e7\u00e3o do objeto que se acredita bom. Uma aproxima\u00e7\u00e3o maior revelaria a dimens\u00e3o de objeto mau, que a dist\u00e2ncia n\u00e3o permitiria vislumbrar.<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">Indigna\u00e7\u00e3o e trag\u00e9dia<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Tomemos o exemplo de Ant\u00edgona. Ela \u00e9 aquela que leva sua indigna\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Aquilo que se apresenta como bem para ela, \u00e9 a dignidade de enterrar seu irm\u00e3o, Polinices, o que era absolutamente contr\u00e1rio \u00e0s leis da cidade.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Ao recorrer \u00e0 trag\u00e9dia de Ant\u00edgona em seu semin\u00e1rio VII, contudo, Lacan o faz para demarcar a especificidade da \u00e9tica da psican\u00e1lise. Ele nos mostra que o que est\u00e1 em jogo na psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma \u00e9tica do bem. Como lembra Ant\u00f4nio Teixeira, \u201ca trag\u00e9dia se op\u00f5e \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica do bem de todos, da mesma maneira que a dimens\u00e3o \u00e9tica do sujeito se situa em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 determina\u00e7\u00e3o significante do sujeito da ci\u00eancia\u201d\u2079.O que a trag\u00e9dia de Ant\u00edgona nos mostra \u00e9 que h\u00e1 algo de at\u00f3pico no sujeito, sendo que essa atopia, que diz respeito \u00e0 indestrutibilidade do desejo, deve ser colocada em jogo pela psican\u00e1lise. Das Ding \u00e9 esse imposs\u00edvel de ser operado pelo simb\u00f3lico e que funciona como ponto de atra\u00e7\u00e3o do singular do desejo. O que Ant\u00edgona revela, \u00e9 que o desejo, pelo menos em sua refer\u00eancia \u00e0 trag\u00e9dia, tem uma dimens\u00e3o transgressiva, pois para al\u00e9m do bem, para al\u00e9m da cidade, Ant\u00edgona sustenta a lei de seu desejo at\u00e9 a morte. Ant\u00edgona n\u00e3o cede de seu desejo, levando sua indigna\u00e7\u00e3o para debaixo da terra.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A lei moral kantiana, e que estabelece o bem como uma dignidade compartilh\u00e1vel, seria apenas um mito, uma estrat\u00e9gia para nos aliviar da ang\u00fastia produzida pelo encontro com o objeto onde este deveria faltar. A formaliza\u00e7\u00e3o posterior do objeto a, revela algo a mais sobre esse mau de Das Ding. Algo que encontraremos nas discuss\u00f5es sobre o \u00f3dio, como no Kakon, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica permite-nos encontrar em Kant, ao que parece, uma estrat\u00e9gia, diante da constata\u00e7\u00e3o de que, com o avan\u00e7o da ci\u00eancia, o real n\u00e3o seria mais incorrupt\u00edvel. J\u00e1 naquele tempo, o advento da f\u00edsica newtoniana, inaugurava uma realidade contingente, que exigia o estabelecimento de uma moral absolutamente desgarrada dos objetos patol\u00f3gicos. Era necess\u00e1ria, para Kant, a sustenta\u00e7\u00e3o em um Bem Supremo. N\u00e3o era mais poss\u00edvel se organizar em torno de uma realidade que se orientava na consist\u00eancia daquilo que sempre retornava no mesmo lugar. O Outro, n\u00e3o mais se repetindo na regularidade com que se apresentava at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o mais aliviaria os sujeitos, do desvario do gozo. O Outro revelava, a certo modo, sua faceta indignante, algo da ordem do Deus obscuro.<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">O insuport\u00e1vel de si mesmo<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia a Deus me sugere que completemos uma trilogia trazendo \u00e0 cena o Presidente Schreber.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Em suas mem\u00f3rias, ele nos fala do momento primeiro em que experimenta a feminiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o desta \u00e9poca alguns sonhos, aos quais na ocasi\u00e3o n\u00e3o dei uma aten\u00e7\u00e3o particular e at\u00e9 hoje n\u00e3o daria, como diz o ditado, \u2018sonhos s\u00e3o ilus\u00f5es\u2019, se, em consequ\u00eancia das experi\u00eancias tida neste \u00ednterim, n\u00e3o tivesse tido que pensar ao menos na possibilidade\u00a0de estarem ligados a uma conex\u00e3o nervosa comigo. \u2026 uma vez de manh\u00e3, ainda deitado na cama (n\u00e3o sei mais se meio adormecido ou j\u00e1 desperto), tive a sensa\u00e7\u00e3o que me perturbou da maneira mais estranha, quando pensei nela depois, em completo estado de vig\u00edlia. Era uma ideia de que deveria ser realmente bom\/belo ser uma mulher se submetendo ao coito \u2013 esta ideia era t\u00e3o alheia a todo o meu modo de sentir que, permito-me afirmar, em plena consci\u00eancia eu a teria rejeitado com tal indigna\u00e7\u00e3o que de fato, depois de tudo que vivi neste \u00ednterim, n\u00e3o posso afastar a possibilidade de que ela me tenha sido inspirada por influ\u00eancias exteriores que estavam em jogo\u00b9\u2070.\u00a0<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Conhecemos bem o esfor\u00e7o de Schreber, o trabalho de seu del\u00edrio, para tornar suport\u00e1vel, aceit\u00e1vel, a experi\u00eancia de feminiza\u00e7\u00e3o que ele acreditava lhe ser impingida por esse Deus indignante, que n\u00e3o conhecia nada dos homens e que somente se relacionava com cad\u00e1veres. Esse Deus cuja presen\u00e7a lhe devastava, mas cuja dist\u00e2ncia lhe era insuport\u00e1vel. O velho presidente continua nos ensinando e, a partir de suas mem\u00f3rias, n\u00e3o h\u00e1 como desconhecer que h\u00e1 na indigna\u00e7\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sujeito, e essa inven\u00e7\u00e3o o alivia da experi\u00eancia do desamparo, localizada em Schreber pelo seu receio em ser deixado largado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de objeto, o liegen lassen.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Para Lacan, se sua feminiza\u00e7\u00e3o, ordenada em torno da experi\u00eancia de evira\u00e7\u00e3o, faria parte de sua reconstru\u00e7\u00e3o no campo imagin\u00e1rio, a identifica\u00e7\u00e3o ideal reordenaria toda a sua produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Lacan assinala ainda o papel fundamental da experi\u00eancia de morte em Schreber, para que ele passasse da indigna\u00e7\u00e3o ao consentimento. Da vol\u00fapia a beatitude, em torno da morte, Schreber organiza sua constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 em torno do assassinato d\u2019almas, que ele reordena sua experi\u00eancia de gozo e, lembremos, uma experi\u00eancia de realiza\u00e7\u00e3o assint\u00f3tica.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Na busca de refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas sobre a indigna\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise, encontro um texto de Miller que tem como t\u00edtulo, \u201cComo se revoltar\u201d\u00b9\u00b9. Pela forma como ele desenvolve suas ideias, n\u00e3o me pareceu por demais imprudente, aproximar a no\u00e7\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de revolta presente neste texto.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Miller assinala que a revolta \u00e9 distinta do saber, ela \u00e9 sem media\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se confunde nem com a revolu\u00e7\u00e3o e nem com a subvers\u00e3o, pois estas exigem uma certa dura\u00e7\u00e3o e um aprofundamento, enquanto a revolta \u00e9 localizada no tempo, podendo ser entendida como um n\u00e3o instant\u00e2neo. A revolta se daria a partir de um encontro ao acaso com um imposs\u00edvel a suportar.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Quando o sujeito se d\u00e1 conta de que seu imposs\u00edvel de suportar se encontra no interior de si mesmo, ele busca uma an\u00e1lise. Nesse caso, a indigna\u00e7\u00e3o pode passar, muitas vezes, desapercebida. N\u00e3o h\u00e1 a revolta, e assim, a express\u00e3o localiz\u00e1vel da indigna\u00e7\u00e3o, a menos que se localize o insuport\u00e1vel, no mundo, no exterior, enfim, no Outro. De maneira geral, buscamos uma an\u00e1lise quando percebemos que somos a pr\u00f3pria fonte de nossa indigna\u00e7\u00e3o. Uma parte de si mesmo se insurgiria contra seu pr\u00f3prio pensamento ou seu pr\u00f3prio corpo, quando algo n\u00e3o funciona bem. A forma como Schreber se refere \u00e0 experi\u00eancia de feminiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m expressa essa divis\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Miller descarta qualquer possibilidade de terapeutizar a revolta. Ela deve ser respeitada como tal, em seu sentido, em sua dignidade. Haveria na revolta, a capacidade de elevar uma pot\u00eancia negativa da dignidade humana, e da\u00ed seu poder de se coletivizar, em nome mesmo dessa humanidade.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">O revoltado, ou indignado, seria enfim, uma testemunha, potencialmente um m\u00e1rtir. Diferentemente da queixa, que insiste em revelar uma posi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">O sacrif\u00edcio advertido<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Miller afirma que haveria somente uma maneira de se revoltar. A revolta, e eu insistiria aqui na aproxima\u00e7\u00e3o com a indigna\u00e7\u00e3o, somente \u00e9 poss\u00edvel sacrificando-se. N\u00e3o haver\u00e1 indigna\u00e7\u00e3o que valha esse nome se n\u00e3o houver o sacrif\u00edcio de si mesmo. Dessa maneira, toda revolta se abre sobre o horizonte de morte, delineando uma via de acesso ao hero\u00edsmo.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Tal condi\u00e7\u00e3o revela o estatuto reflexivo em jogo na indigna\u00e7\u00e3o. Quando esta visa ao Outro a trajet\u00f3ria de sua flecha retorna sobre o pr\u00f3prio sujeito. Se a revolta aponta o Outro, aquele que priva, o sujeito mesmo \u00e9 afetado pelo retorno de sua indigna\u00e7\u00e3o sobre si mesmo, na medida em que o que esta em jogo \u00e9 sua pr\u00f3pria vida, \u00e9 ele quem se sacrifica e se separa das ra\u00edzes de sua exist\u00eancia. Quando o revoltado chega a perceber a natureza do imposs\u00edvel de suportar, descobre que esta tem seu pr\u00f3prio rosto.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bem percept\u00edvel, a presen\u00e7a da morte e do hero\u00edsmo, na trilogia dos indignados a que recorri em minha exposi\u00e7\u00e3o. St\u00e9phane Hessel escapou da morte diversas vezes, esta sempre esteve presente em sua vida de resist\u00eancia. Se ele sempre levou sua indigna\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, contou tamb\u00e9m com um enorme talento para escapar e sobreviver \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mort\u00edferas que enfrentou em atos de ineg\u00e1vel hero\u00edsmo. Ant\u00edgona, a hero\u00edna tr\u00e1gica, marcada pela hist\u00f3ria de \u00c9dipo, seu pai, sustenta sua indigna\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser enterrada viva, e Schreber, ao se apresentar ao mundo a partir de suas mem\u00f3rias, revela-se como um caso \u00fanico na humanidade. Ele afirmava que tanto a ci\u00eancia, como a religi\u00e3o, teriam como aprender com sua experi\u00eancia. Em suas mem\u00f3rias ele relata a dimens\u00e3o sacrificial a que se oferecia para salvar a humanidade. Embora pela via delirante, experimenta a morte, a queda de todas as identifica\u00e7\u00f5es, antes de inventar sua solu\u00e7\u00e3o elegante.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Miller, enfim, conclui que revoltar-se de uma boa maneira \u00e9 o que se poderia esperar de um analista, ao menos de um que tenha conseguido isolar seu imposs\u00edvel de suportar. Para se revoltar de uma boa maneira, conv\u00e9m estar advertido da revers\u00e3o da revolta e de sua relatividade. Que o imposs\u00edvel de suportar \u00e9 de cada um, e que a revolta em nome da justi\u00e7a \u00e9 frequentemente habitada por uma revolta causada por uma inveja do gozo, pelo sonho de uma justi\u00e7a distributiva do mesmo. Seria importante ter cuidados com esta inveja, se queremos nos revoltar de uma boa maneira. Isso nos interessa enquanto cidad\u00e3os e psicanalistas, bem como interessa \u00e0 psican\u00e1lise.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 o caso de enveredarmos pelo modo suicida.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Indigna\u00e7\u00e3o sim, por\u00e9m n\u00e3o toda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Notas<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b9 HESSEL, S. Indignai-vos. Trad.: Marli Peres. S\u00e3o Paulo: Editora Leya, 2011.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b2 MILLER, J-A. Les affects dans l\u2019esperi\u00e9nce analytique. La Cause du d\u00e9sir, n\u00ba 93, Paris, 2016\/2, p.98-111.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b3 BUARQUE DE HOLANDA, A. Novo Dicion\u00e1rio da Lingua Portuguesa. 2a Ed. Rio de Janneiro: Nova Fronteira, 1986.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2074 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia (1962\/1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p.99.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2075 LACAN, Jacques. Televis\u00e3o, In.: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zaah, 2003, p.540.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2076 Id.: p.541.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2077 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia (1962\/1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.164.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2078 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise (1959\/1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2079 TEIXEIRA, Ant\u00f4nio. O topos \u00e9tico da psican\u00e1lise. Porto Alegre: Edipucrs, 1999, p.50.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b9\u2070 SCHREBER, D. P.\u00a0Mem\u00f3rias de um doente dos nervos\u00a0(1903). Trad.: Marilena Carone. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p.59.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b9\u00b9 MILLER, J-A. Comment se r\u00e9volter\u00a0? La Cause freudienne, n\u00ba 75, Paris, 2010\/2, p. 212-217.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":289,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions\/289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}