{"id":627,"date":"2021-09-14T19:05:30","date_gmt":"2021-09-14T22:05:30","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/ix\/?p=627"},"modified":"2021-09-14T19:05:30","modified_gmt":"2021-09-14T22:05:30","slug":"odio-semblante-e-ser-romildo-do-rego-barros-ebp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/ix\/pt\/odio-semblante-e-ser-romildo-do-rego-barros-ebp\/","title":{"rendered":"\u00d3DIO, SEMBLANTE E SER &#8211; Romildo do R\u00eago Barros (EBP)"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p class=\"bold\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Romildo do R\u00eago Barros<\/strong> (EBP)<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">Uma ideia verdadeira simplesmente porque \u00e9 verdadeira nunca vence uma paix\u00e3o, somente uma paix\u00e3o vence uma outra paix\u00e3o se for mais forte e contr\u00e1ria a ela. (Espinosa)<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Lacan nos deixou uma contribui\u00e7\u00e3o decisiva logo no seu primeiro semin\u00e1rio, quando definiu o \u00f3dio, juntamente com o amor e a ignor\u00e2ncia, como uma paix\u00e3o do ser, e n\u00e3o como um afeto ou um sentimento. Lacan cita esse trio de paix\u00f5es tamb\u00e9m em \u201cFun\u00e7\u00e3o e Campo da Fala e da Linguagem\u201d e na \u201cDire\u00e7\u00e3o do Tratamento\u2026\u201d (onde os cita como formas de \u201cdemanda sem objeto\u201d, etc.). Apesar de poderem muitas vezes nascer de conting\u00eancias, s\u00e3o paix\u00f5es no sentido de que operam como necessidades.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Acho que a particularidade do \u00f3dio, entre outras, est\u00e1 na perman\u00eancia da paix\u00e3o, no seu car\u00e1ter de fundamento, que n\u00e3o se extingue ao ser \u201cexpresso\u201d sob a forma da ira ou da c\u00f3lera\u00b2.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">O \u00f3dio tem uma perman\u00eancia que se liga ao fato de que o seu objetivo n\u00e3o \u00e9 a dor nem a ang\u00fastia do outro, como no sadismo, mas a sua destrui\u00e7\u00e3o: \u00e9 preciso que o ser do outro odiado n\u00e3o mais fa\u00e7a parte do mundo, n\u00e3o mais retorne. Cabe aqui lembrar a deliciosa hist\u00f3ria de sua juventude contada por Lacan, no Semin\u00e1rio 20, que se passava no pr\u00e9dio onde morava, cujo porteiro dedicava aos ratos um \u00f3dio absoluto, descrito por Lacan como \u201cum \u00f3dio igual ao ser do rato\u201d\u00b3.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo que n\u00e3o ocorra nunca, a destrui\u00e7\u00e3o do outro continua no horizonte do \u00f3dio: basta pensar no \u00f3dio religioso, no \u00f3dio racial ou no \u00f3dio de classe, todos eles acima das conting\u00eancias, e ver\u00e3o do que estou falando. Em um certo sentido, a f\u00faria seria at\u00e9 uma suspens\u00e3o da paix\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Um exemplo, a partir de um fato ocorrido no ano passado, no Rio: em uma esquina de Copacabana, um imigrante s\u00edrio vendia esfihas. Chega um desconhecido e come\u00e7a a gritar, amea\u00e7ando com um cano de ferro: \u201cvolte para seu pa\u00eds!\u201d. A chegada de outras pessoas impediu o massacre.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Podemos ver nesse fato mais de um n\u00edvel: no primeiro, temos a f\u00faria, que impele o passante \u00e0 agress\u00e3o contra algu\u00e9m que ele n\u00e3o conhecia, talvez nunca o tivesse visto, mas que, se posso dizer assim, brandia com seu pr\u00f3prio corpo e com suas esfihas um significante que mostrava a exclus\u00e3o: s\u00edrio, ou imigrante, ou refugiado, ou at\u00e9 terrorista; um significante que tinha a fun\u00e7\u00e3o precisa de representar a estranheza. O s\u00edrio era suposto excluir o passante, assim como o passante o exclu\u00eda. \u201cVolte para seu pa\u00eds!\u201d era uma ordem, ou mesmo um pedido, de que fosse recomposta a pureza do corpo sem estranheza, sem o suplemento real que constitui uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 inteireza do imagin\u00e1rio. Um real que fosse equivalente ao imagin\u00e1rio. Uma pergunta: n\u00e3o ser\u00e1 esse o cerne do fascismo? Nesse sentido, o estranho n\u00e3o precisava ser s\u00edrio nem vender esfihas: podia ser negro, \u00edndio, mulher ou gay. Bastava pertencer a uma hipot\u00e9tica minoria, mesmo que, como no caso dos negros e mulheres no Brasil, isso esteja longe de ser uma verdade estat\u00edstica. Eles s\u00e3o minoria n\u00e3o por serem menos numerosos do que a maioria, mas por serem suplementares, por se situarem al\u00e9m do todo que se reconhece como todo\u2074. Esse \u00e9, me parece, o verdadeiro sentido da segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Penso que, contrariamente a Deleuze, Lacan, assim como Freud, situou diferentemente essa rela\u00e7\u00e3o. Ela foi situada por ambos de modo topol\u00f3gico: h\u00e1 uma expuls\u00e3o origin\u00e1ria (Austossung), constituindo o dentro e o fora que, a partir da\u00ed, se op\u00f5em. O que foi expulso do sujeito retorna como \u00f3dio do estranho, que \u00e9 um desdobramento do \u00f3dio de si.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">No caso do s\u00edrio, como indica Freud em \u201cA negativa\u201d (1925), o estranho que o agressor situa \u00e9, na verdade, uma proje\u00e7\u00e3o. Ou \u201cum reencontro\u201d, como dizia Freud. O encontro com o s\u00edrio apela para uma expuls\u00e3o que, na verdade, j\u00e1 houve e constituiu o sujeito. \u00c9 literalmente um encontro com o real.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A f\u00faria, ou a ira, para usar o termo de S\u00eaneca, \u00e9 a explos\u00e3o contingente de um afeto que se enra\u00edza na paix\u00e3o do \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Notas<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b9 N. A.: Texto extra\u00eddo da discuss\u00e3o ocorrida na EBP Se\u00e7\u00e3o SP, em 26 de novembro de 2018.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b2 S\u00caNECA., Sobre a Ira. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras. Livro de S\u00eaneca para Novatus, seu irm\u00e3o mais velho.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b3 LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 20, Mais, ainda. Rio De Janeiro: Jorge Zahar, 1989, p. 200.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u2074 N.A.: Vale lembrar aqui a defini\u00e7\u00e3o que Gilles Deleuze deu sobre maioria e minoria, em uma entrevista dada a Tony Negri nos anos 90: \u201cAs maiorias e minorias n\u00e3o se distinguem pelo n\u00famero. Uma minoria pode ser mais numerosa do que uma maioria. O que define a maioria \u00e9 um modelo com o qual se deve estar conforme: por exemplo, o europeu m\u00e9dio adulto macho morador das cidades\u2026 Enquanto que uma minoria n\u00e3o tem modelo, \u00e9 um devir, um processo\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/clinicand.com\/2018\/04\/28\/596\/<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[111,83],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/627"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=627"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/627\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":628,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/627\/revisions\/628"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=627"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=627"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=627"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}