{"id":637,"date":"2021-09-14T19:11:15","date_gmt":"2021-09-14T22:11:15","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/ix\/?p=637"},"modified":"2021-09-14T19:11:15","modified_gmt":"2021-09-14T22:11:15","slug":"falar-de-paixoes-susana-dicker-nel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/ix\/pt\/falar-de-paixoes-susana-dicker-nel\/","title":{"rendered":"FALAR DE PAIX\u00d5ES &#8211; Susana Dicker (NEL)"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p class=\"bold\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Susana Dicker<\/strong> (NEL)<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Perguntar por essas tr\u00eas paix\u00f5es \u2013 \u00f3dio, c\u00f3lera e indigna\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 entrar nesse terreno que Lacan elegeu separar dos afetos freudianos e, em particular, dessa vers\u00e3o da psican\u00e1lise, que manteve a confus\u00e3o com as emo\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, \u00e9 oportuno lembrar a afirma\u00e7\u00e3o de \u00c9ric Laurent, \u201cchamamos de paix\u00e3o uma articula\u00e7\u00e3o do inconsciente com o real do gozo\u201d\u00b9, enquanto fantasia e puls\u00e3o est\u00e3o comprometidas nela. \u201cUma solda entre o saber do inconsciente e o gozo\u201d\u00b2, um la\u00e7o do inconsciente e do real atrav\u00e9s do a em um corpo vivo.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Nossa pr\u00e1tica se orienta para o mais singular do gozo do ser falante. Da\u00ed que, quando pensamos nessas paix\u00f5es, express\u00f5es desse gozo singular, nos deparamos com o paradoxo de que n\u00e3o se manifestam sem a afec\u00e7\u00e3o que o Outro produz no parl\u00eatre. Seja a partir do Outro da civiliza\u00e7\u00e3o, seja a partir do Outro do amor, tais paix\u00f5es do parl\u00eatre n\u00e3o se apresentam sem as do Outro. Lacan o plasmou nessa dicotomia entre paix\u00f5es do ser, da rela\u00e7\u00e3o com o Outro, da aliena\u00e7\u00e3o, e paix\u00f5es da alma, paix\u00f5es do a. Quando \u00e9 assim, falamos do Outro e do Um? Ou concordamos com o conceito de extimidade e aceitamos que o Outro \u00e9 Outro dentro de mim mesmo?<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Ali onde o ser falante se defende da puls\u00e3o que o habita, situando-a no campo do Outro, fazendo-o respons\u00e1vel do que lhe ocorre, temos a opera\u00e7\u00e3o da fantasia que encontra sua ocasi\u00e3o num Outro habitado por um vazio em que \u00e9 poss\u00edvel depositar a causa da ang\u00fastia, que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o objeto de sua fantasia. Mas podemos tra\u00e7ar uma ponte para n\u00e3o ficarmos presos nessa dicotomia na medida em que a vida do parl\u00eatre inclui o la\u00e7o ao Outro e, entretanto, \u00e9 respons\u00e1vel por seu gozo, que n\u00e3o faz la\u00e7o. Uma cita\u00e7\u00e3o de Lacan instala esta ponte: \u201cEu te amo, mas porque inexplicavelmente amo em ti algo mais do que tu \u2013 o objeto a min\u00fasculo \u2013 eu te mutilo\u201d\u00b3. \u00c9 pensar a paix\u00e3o da falta-a-ser a partir do a e dar lugar aos arranjos singulares de cada ser falante. Eis aqui o que d\u00e1 ao Outro sua posi\u00e7\u00e3o: acede-se a ele pelo lugar de um gozo, mas, na medida em que o gozo est\u00e1 proibido, essa posi\u00e7\u00e3o do Outro est\u00e1 constru\u00edda n\u00e3o sem o aparelho significante, o que nos instala no terreno da demanda. E, se se demanda dar o que n\u00e3o se tem, j\u00e1 n\u00e3o estamos na ordem do ter, mas do ser, ser de gozo.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Pensar a paix\u00e3o como um la\u00e7o do inconsciente e o real atrav\u00e9s do a em um corpo vivo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem a puls\u00e3o. E, se dela Freud dizia que seu fim \u00e9 ativo, ainda que ela seja muda, podemos concluir que as paix\u00f5es s\u00e3o um de seus modos de express\u00e3o. Germ\u00e1n Garc\u00eda o diz nestes termos: \u201cContra a tradi\u00e7\u00e3o que identifica a paix\u00e3o com o patol\u00f3gico (\u2026) deve-se dizer, com a psican\u00e1lise, que as paix\u00f5es falam na decis\u00e3o de tomar a palavra e nas figuras que constituem a dimens\u00e3o sem\u00e2ntica da linguagem, dimens\u00e3o irredut\u00edvel \u00e0 sintaxe\u201d\u2074.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">E isso \u00e9 not\u00e1vel, em particular, na c\u00f3lera e na indigna\u00e7\u00e3o. Enquanto no \u00f3dio se trata de uma temporalidade diferente, Lacan coloca a c\u00f3lera como irrup\u00e7\u00e3o do real. \u201cQuando no plano do Outro, do significante, ou seja, sempre, mais ou menos, no da f\u00e9, da boa f\u00e9, n\u00e3o se joga o jogo\u201d\u2075. Disrup\u00e7\u00e3o que quebra a cren\u00e7a no Outro e comove a trama simb\u00f3lica que sustentava o sujeito.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">E a indigna\u00e7\u00e3o? \u201cN\u00e3o \u00e9 a c\u00f3lera. (Esta) \u00e9 um afeto e a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva, a daquele que responde como sujeito no pessoal e no social ao se ver in-dignado, despojado de sua dignidade subjetiva [\u2026] Manifestar a indigna\u00e7\u00e3o, penso com Lacan, \u00e9 negar-se a ser reduzido ao ign\u00f3bil de um ser que teria que engolir a vergonha de viver sem o valor dado pelos significantes que o identificariam em sua dignidade subjetiva\u2076.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Podemos concordar ou n\u00e3o com Gallano, mas, como psicanalistas, n\u00e3o podemos desconhecer a rela\u00e7\u00e3o entre a indigna\u00e7\u00e3o e a dignidade como \u00e9tica do desejo. A indigna\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o ligada \u00e0 abje\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 sem o objeto a como abjeto, dejeto. Isso nos orienta em dire\u00e7\u00e3o a uma pol\u00edtica do sintoma com seu antecedente em Freud, que acreditou na dignidade dos dejetos da vida ps\u00edquica, levou-os a s\u00e9rio. Oportunidade do sujeito de conseguir sua salva\u00e7\u00e3o se damos lugar \u00e0 dignidade de seu gozo e apostamos na dignidade do Sinthoma.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Ruth Jeunon Sousa<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Revis\u00e3o: Paola Salinas<\/p>\n<hr \/>\n<p class=\"r notes\">Notas<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u00b9 LAURENT, \u00c9. As paix\u00f5es do ser. Escola Brasileira de Psicanalise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Bahia e Instituto de Psicanalise da Bahia, Salvador: nov. 2000. p. 87.<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u00b2 ___________ Ibid. p. 87.<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u00b3 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 249.<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u2074 GARC\u00cdA, G. \u201cEl retorno de las pasiones\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/wapol.org\/ornicar\/articles\/grc0029.htm<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u2075 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10, a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 23.<\/p>\n<p class=\"r notes\">\u2076 GALLANO, C. \u201cGenocidio social\u2026\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/traficantes.net\/sites\/default\/files\/Impactos%20subetivos%20del%20actual%20genocidio%20social.pdf<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[111,83],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=637"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":638,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637\/revisions\/638"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}