{"id":670,"date":"2021-09-14T19:35:46","date_gmt":"2021-09-14T22:35:46","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/ix\/?p=670"},"modified":"2021-09-14T19:35:46","modified_gmt":"2021-09-14T22:35:46","slug":"o-desafio-da-colera-gustavo-a-zapata-machin-nel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/ix\/pt\/o-desafio-da-colera-gustavo-a-zapata-machin-nel\/","title":{"rendered":"O DESAFIO DA C\u00d3LERA &#8211; Gustavo A. Zapata Mach\u00edn (NEL)"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p class=\"bold\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Gustavo A. Zapata Mach\u00edn<\/strong> (NEL)<\/p>\n<p class=\"r i\" style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 uma raz\u00e3o particular que impede a alma de poder alterar ou estancar rapidamente suas paix\u00f5es, a qual me deu motivo de p\u00f4r mais acima, em sua defini\u00e7\u00e3o, que elas n\u00e3o s\u00e3o apenas causadas, mas tamb\u00e9m mantidas e fortalecidas por algum movimento particular dos esp\u00edritos. Esta raz\u00e3o \u00e9 que elas s\u00e3o quase todas acompanhadas de alguma emo\u00e7\u00e3o que se produz no cora\u00e7\u00e3o, e, por conseguinte, tamb\u00e9m em todo o sangue e nos esp\u00edritos, de modo que, enquanto essa emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessar, elas continuam presentes em nosso pensamento da mesma maneira que os objetos sens\u00edveis a\u00ed permanecem presentes, enquanto agem contra os \u00f3rg\u00e3os de nossos sentidos. E como a alma, tornando-se muito atenta a qualquer outra coisa, pode impedir-se de ouvir um pequeno ru\u00eddo ou de sentir uma pequena dor, mas n\u00e3o pode impedir-se, do mesmo modo, de ouvir o trov\u00e3o ou de sentir o fogo que queima a m\u00e3o, assim pode sobrepujar facilmente as paix\u00f5es menores, mas n\u00e3o as mais violentas e as mais fortes, a n\u00e3o ser depois que se apaziguou a emo\u00e7\u00e3o do sangue e dos esp\u00edritos. O m\u00e1ximo que pode fazer a vontade, enquanto essa emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 em vigor, \u00e9 n\u00e3o consentir em seus efeitos e reter muitos dos movimentos aos quais ela disp\u00f5e o corpo. Por exemplo, se a c\u00f3lera faz levantar a m\u00e3o para bater, a vontade pode comumente ret\u00ea-la; se o medo incita as pessoas a fugir, a vontade pode det\u00ea-las, e assim por diante\u201d.\u00b9<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Assim argumentava Ren\u00e9 Descartes no s\u00e9culo 17, em seu tratado das Paix\u00f5es da alma, sobre a origem e o efeito que t\u00eam as paix\u00f5es na vida das pessoas, sua fun\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o consigo mesmas e o modo como modulam a experi\u00eancia da vida afetiva. Inclusive prescreve, especialmente com a c\u00f3lera, qual seria a chave que dominaria seu impacto avassalador na alma: o uso da vontade comandada pela raz\u00e3o, prescri\u00e7\u00e3o que vamos encontrar novamente, hoje, na atual reflex\u00e3o psicol\u00f3gica e filos\u00f3fica em torno da c\u00f3lera.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">A elabora\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica acerca das paix\u00f5es contou sempre com a c\u00f3lera entre suas protagonistas. A Il\u00edada, atribu\u00edda a Homero, \u00e9 uma ode \u00e0 c\u00f3lera, e toda a filosofia grega a menciona, de um modo ou de outro, como uma paix\u00e3o de duas faces: uma face ca\u00f3tica, destrutiva, imposs\u00edvel de manejar, e outra face com prop\u00f3sito, construtiva, manej\u00e1vel. Desde sempre foi assimilada \u00e0 loucura, situada inclusive como uma dentre suas causas, e fazendo residir no corpo tanto sua causa como suas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">Por muito tempo foi tomada como uma paix\u00e3o ligada aos deuses; primeiro aos que residiam nos pante\u00f5es grego e romano e, depois, ao deus \u00fanico das religi\u00f5es monote\u00edstas. Podemos inclusive encontr\u00e1-la como um tra\u00e7o caracter\u00edstico das divindades das nossas civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas e nas mitologias religiosas mais complexas do oriente long\u00ednquo. Se nos atemos \u00e0 indica\u00e7\u00e3o de Lacan, no semin\u00e1rio A ang\u00fastia\u00b2, de que os deuses s\u00e3o um \u00edndice do real, ent\u00e3o temos um guia de trabalho para examinar a c\u00f3lera.<\/p>\n<p class=\"r\" style=\"text-align: justify;\">No argumento do nosso IX ENAPOL, temos uma assertiva assinalada: a c\u00f3lera n\u00e3o recebeu muita aten\u00e7\u00e3o por parte dos psicanalistas, o que \u00e9, em parte, certo, pois \u2013 mesmo que tanto Freud como Lacan tenham deixado coordenadas precisas para nos orientar na investiga\u00e7\u00e3o \u2013 a aposta est\u00e1 em situar as rela\u00e7\u00f5es da c\u00f3lera com a puls\u00e3o, com o desejo, com o gozo e estabelecer as possibilidades de uma cl\u00ednica que permita circunscrever suas rela\u00e7\u00f5es com o \u00f3dio, a indigna\u00e7\u00e3o e outras paix\u00f5es, sua especificidade, assumindo radicalmente, com o guia do ensino de Lacan, as consequ\u00eancias do corte que Freud opera, com sua inven\u00e7\u00e3o, no modo de pensar, e a arranjarmos com isso que comumente se chama de a \u201cnatureza humana\u201d. Este \u00e9 o verdadeiro desafio para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana: poder esclarecer algo nesse campo, numa \u00e9poca marcada pela desordem no real agudizada pela resposta sempre falha dada pela alian\u00e7a capitalismo + ci\u00eancia e que deixa o sujeito, novamente, \u00e0 merc\u00ea dos deuses.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Let\u00edcia Lopez<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Revis\u00e3o: Paola Salinas<\/p>\n<hr \/>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">Notas<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b9 DESCARTES, R. As paix\u00f5es da alma. Dispon\u00edvel em: http:\/\/filosofia.com.br\/figuras\/livros_inteiros\/116.txt. Acesso em 23 de fev. 2019.<\/p>\n<p class=\"r notes\" style=\"text-align: justify;\">\u00b2 LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[113,83],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=670"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":671,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/670\/revisions\/671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/ix\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}