{"id":90,"date":"2021-08-12T00:29:50","date_gmt":"2021-08-12T03:29:50","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=90"},"modified":"2021-08-15T19:37:04","modified_gmt":"2021-08-15T22:37:04","slug":"falar-com-o-corpo","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/portfolio-items\/falar-com-o-corpo\/","title":{"rendered":"Falar com o corpo"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-title title fusion-title-1 fusion-sep-none fusion-title-text fusion-title-size-three\"><h3 class=\"fusion-title-heading title-heading-left fusion-responsive-typography-calculated\" style=\"margin:0;--fontSize:30;line-height:1.3;\">Conclus\u00e3o do PIPOL V<\/h3><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s nos reencontraremos dentro de dois anos, no Pipol 6. E, tal como hoje, ser\u00e1 em torno de uma f\u00f3rmula. O significante que nos reuniu aqui \u00e9 o da sa\u00fade mental. A quest\u00e3o \u00e9 saber qual ser\u00e1 o significante que lhe dar\u00e1 continuidade, em 2013. Vou explicar minhas reflex\u00f5es a este respeito no encerramento deste Congresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sa\u00fade mental, sejamos francos, nela n\u00e3o cremos. Se n\u00f3s utilizamos o termo \u00e9 porque, todavia, nos pareceu que ele podia mediar o discurso anal\u00edtico e o discurso comum, o da massa. Por isso, o eco que o tema do Congresso teve na imprensa belga mostra bem que este ponto de vista estava bem pensado. Todo mundo compreende o que colocamos em quest\u00e3o. Ainda que, evidentemente, para chegar at\u00e9 a\u00ed tivemos que trabalhar com ast\u00facia. Localizamos o termo sa\u00fade mental em uma pergunta para a qual j\u00e1 t\u00ednhamos a resposta. N\u00e3o, a sa\u00fade mental n\u00e3o existe. Sonha-se com ela, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. Para essa pergunta t\u00ednhamos nossa resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um tem sua veia de louco e o testemunhamos ao localizar essa veia de loucura em nossa pr\u00e1tica, n\u00e3o em nosso paciente, mas, em n\u00f3s mesmos, analistas, terapeutas. \u00c9 como uma li\u00e7\u00e3o que nos demos a n\u00f3s mesmos. Uma li\u00e7\u00e3o que \u00e9 bom n\u00e3o esquecer daqui pra frente: em psican\u00e1lise, o caso cl\u00ednico n\u00e3o existe, n\u00e3o mais que a sa\u00fade mental. Expor um caso cl\u00ednico como se fosse de um paciente \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o; \u00e9 o resultado de uma objetividade que \u00e9 fingida porque estamos implicados, ainda que seja pelos efeitos da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos dentro do quadro cl\u00ednico e n\u00e3o saber\u00edamos abater nossa presen\u00e7a nem prescindir de seus efeitos. Tratamos, sem d\u00favida, de comprimir essa presen\u00e7a, de esmerilhar suas particularidades, de alcan\u00e7ar o universal do que chamamos o desejo do analista. E o controle, a pr\u00e1tica do que se chama supervis\u00e3o serve para isso: para lavar as esc\u00f3rias remanescentes que interferem no tratamento. Mas, a partir do momento que conseguimos apagar o que nos singulariza como sujeito, ent\u00e3o \u00e9 o analizante quem sonha; quem sonha conosco, seu interlocutor, com os rodeios de seu fantasma e com a identidade que atribui a esse interlocutor, que n\u00e3o saberiam n\u00e3o figurar no quadro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma palavra, isso lhes obriga a pintar voc\u00eas mesmos no quadro cl\u00ednico. \u00c9 como Vel\u00e1zquez, ao representar a ele mesmo, com o pincel na m\u00e3o, junto aos demais seres, com que povoa a tela As Meninas, o que \u00e9 algo que produz desorienta\u00e7\u00e3o. Isso porque, fica claro que ele n\u00e3o pode se situar a n\u00e3o ser que veja retratado como dividido. Voc\u00eas sabem que \u00e9 um quadro que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Lacan, seguindo a esteira de Michel Foucault. Eu diria que, em psican\u00e1lise, todo caso cl\u00ednico deveria ter a estrutura de As meninas. E continuarei o ap\u00f3logo at\u00e9 chegar a assinalar que aquilo nos oferece o quadro de Vel\u00e1zquez, aquele que podemos ver em Madri, mas, tamb\u00e9m em uma reprodu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que v\u00ea o mestre. A saber, a parceria real, precisamente um mestre n\u00e3o representado, esfumado, esvanecido, degradado no reflexo que se perfila ao fundo do quadro; desse mestre n\u00e3o fica mais que seu lugar, lugar em que cada espectador, tudo o que chega se inscreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, eu diria que acontece o mesmo na experi\u00eancia anal\u00edtica. O lugar do mestre subsiste, mas, o mestre n\u00e3o est\u00e1 ali para ocup\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que resta da sa\u00fade mental quando o mestre j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia n\u00e3o cessou de deplorar inexist\u00eancia da sa\u00fade mental no homem. Ele foi desenhado como servo de suas ilus\u00f5es, de suas paix\u00f5es, de seus apetites. Ele foi pintado fundamentalmente desequilibrado, no empenho de restituir-lhe a ordem e a medida. Antigamente a sa\u00fade mental se chamava sabedoria ou virtude. Para estabelec\u00ea-la a colocavam em rela\u00e7\u00e3o com o amor pelo outro, com o amor pelo Outro divino. O que n\u00e3o era m\u00e1 ideia, porque poder\u00edamos dizer que a sa\u00fade mental \u00e9 uma ideia teol\u00f3gica que sup\u00f5e a boa vontade da natureza, benevol\u00eancia que se abria em dire\u00e7\u00e3o ao bem estar e a sa\u00fade de todo aquele que existe. Basta percorrer, no entanto, a vasta literatura a que rapidamente acabo de aludir, para inteirar-se que essa sa\u00fade mental sempre sup\u00f5e, sempre, algo que vem dominar uma parte da alma, sua parte racional ou divina. A sa\u00fade mental tem a ver, desde sempre, com o discurso do mestre e \u00e9, desde sempre, um assunto de governo. E \u00e9 seu destino imemor\u00e1vel o que se consuma, hoje em dia, a partir da considera\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 dada por parte de todos os aparatos de dom\u00ednio pol\u00edtico. O dom\u00ednio da parte racional da alma adquire, hoje, a forma do discurso da ci\u00eancia. E, \u00e9 atrav\u00e9s da ci\u00eancia que o mestre promove a sa\u00fade mental e se preocupa em proteg\u00ea-la, restabelec\u00ea-la, difundi-la entre o que chama popula\u00e7\u00f5es, termo que David Tarizzo fazia ressoar, de modo potente, instante atr\u00e1s nesta sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensa-se que a ci\u00eancia concorda com o real e que o sujeito tamb\u00e9m \u00e9 apto para concordar com seu corpo e com seu mundo, como faria com o real. O ideal da sa\u00fade mental traduz o imenso esfor\u00e7o que, hoje em dia, \u00e9 feito para levar a cabo o que chamarei de \u00abretifica\u00e7\u00e3o subjetiva de massas\u00bb, destinada a harmonizar o homem com o mundo contempor\u00e2neo. E dedicada, em suma, a combater e a reduzir o que Freud nomeou, de maneira inesquec\u00edvel, de mal estar na cultura. Desde Freud esse mal estar cresceu, em tais propor\u00e7\u00f5es, que o mestre teve que mobilizar todos seus recursos para classificar os sujeitos segundo a ordem e as desordens desta civiliza\u00e7\u00e3o. Agora \u00e9 como se a enfermidade mental estivesse por todos os lados; em todos os casos, o psi j\u00e1 se converteu em fator da pol\u00edtica. Ao longo dos \u00faltimos anos, nos pa\u00edses que interessam a este Congresso, o discurso do mestre penetrou de maneira profunda na dimens\u00e3o psi, no campo chamado de mental. J\u00e1 se consegue o amplo acesso aos psicotr\u00f3picos, e a psicoterapia se expande em seus modos autorit\u00e1rios. Trata-se, sempre, de uma aprendizagem do controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este dom\u00ednio, que ontem escapava em grande parte aos governos, agora \u00e9 objeto de regula\u00e7\u00f5es com exig\u00eancias cada vez maiores. Isso acontece paralelamente ao reconhecimento p\u00fablico da psican\u00e1lise, mas, com a inten\u00e7\u00e3o de desvirtu\u00e1-la, ainda essa seja desconhecida por seus promotores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso anal\u00edtico, no entanto, por pequena que seja sua voz no estrondo contempor\u00e2neo, faz obje\u00e7\u00e3o e n\u00e3o carece de pot\u00eancia. Sua pot\u00eancia \u00e9 dada, de sa\u00edda, pelo fato de que ele n\u00e3o \u00e9 massificador; e, \u00e0 medida que a massifica\u00e7\u00e3o se estende e cresce, cresce tamb\u00e9m a aspira\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o massifica\u00e7\u00e3o. A exig\u00eancia de singularidade, que o discurso anal\u00edtico torna um direito, est\u00e1 dada de sa\u00edda, porque ele age um a um. Eu diria que isso o faz harm\u00f4nico com o individualismo democr\u00e1tico que difunde a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Falava-se, antigamente, de \u00abindica\u00e7\u00f5es para a psican\u00e1lise\u00bb quando se pensava que era poss\u00edvel selecionar os sujeitos em fun\u00e7\u00e3o de sua aptid\u00e3o cl\u00ednica para o discurso anal\u00edtico. Este tempo passou. Atualmente, ser escutado por um psicanalista equivale a um direito do homem. Cabe ao psicanalista arranjar-se com isso e modelar sua pr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe \u00e9 requerido. A psican\u00e1lise acompanha o sujeito no que ele delineia como protestos contra o mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Para essa ocasi\u00e3o se faz acompanhar do que melhor t\u00eam o humanismo ou a religi\u00e3o. Qualquer um sabe, hoje em dia, que encontrar\u00e1 na psican\u00e1lise uma ruptura com as ordens conformistas que urgem por todas as partes. Qualquer um sabe que, se acudir ao discurso anal\u00edtico, este discurso se colocar\u00e1 em marcha somente para ele: Para ele, o Um sozinho, como dizia Lacan, separado de seu trabalho, de sua fam\u00edlia, de seus amigos e seus amores. O que o sujeito encontra na psican\u00e1lise \u00e9 sua solid\u00e3o e seu ex\u00edlio. Sim, seu estatuto de exilado em rela\u00e7\u00e3o ao discurso do Outro. N\u00e3o \u00e9 o Outro com A mai\u00fascula o que est\u00e1 no centro do discurso anal\u00edtico, \u00e9 o Um sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida Lacan come\u00e7ou a ordenar a experi\u00eancia anal\u00edtica pelo campo do Outro, mas, isso foi para demonstrar que, definitivamente, esse Outro n\u00e3o existe, n\u00e3o mais que a sa\u00fade mental. O que existe \u00e9 o Um sozinho. Uma an\u00e1lise come\u00e7a por ai, pelo Um sozinho, quando algu\u00e9m n\u00e3o tem mais rem\u00e9dio que se confessar exilado, deslocado, indisposto, em desequil\u00edbrio no seio do discurso do Outro. Em uma an\u00e1lise busca-se um outro do Outro, que desta vez algu\u00e9m tenha o prazer de inventar, \u00e0 sua medida, outro suposto saber o que atormenta o Um sozinho. Por isso, n\u00f3s sabemos que este Outro est\u00e1 destinado a dissipar-se, a esvanecer-se at\u00e9 que somente reste o Um sozinho; j\u00e1 instru\u00eddo sobre o que lhe atormenta, esclarecido, como dizemos, acerca do sentido de seus sintomas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder-se-ia dizer, portanto, que ao final da experi\u00eancia anal\u00edtica j\u00e1 n\u00e3o sou incauto em rela\u00e7\u00e3o a meu inconsciente e seus artif\u00edcios? E isso porque o sintoma, uma vez esvaziado de seu sentido nem por isso deixa de existir, ainda que sob uma forma que j\u00e1 n\u00e3o tem mais sentido? Darei um passo a mais na ironia em que me comprometi se digo que essa \u00e9 a \u00fanica sa\u00fade mental que sou capaz de conseguir. Sup\u00f5e, precisamente, que advenha o campo em que o mental tenha esvaziado para deixar o real nu. Para alcan\u00e7ar esse campo, esse campo \u00faltimo, h\u00e1 que se franquear o imagin\u00e1rio, o mental do imagin\u00e1rio. O mental do imagin\u00e1rio est\u00e1 sempre condicionado pela percep\u00e7\u00e3o da forma do semelhante. \u00c9 essa a unidade fundamental. Evito o chiste \u00abfunda-mental\u00bb porque ele n\u00e3o se traduz para todas as l\u00ednguas. Esta \u00e9 a unidade fundamental que Lacan ilustra com o est\u00e1dio do espelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Arist\u00f3teles, a alma \u00e9 a unidade suposta das fun\u00e7\u00f5es do corpo, e esta \u00e9 a que n\u00f3s traduzimos na experi\u00eancia do espelho como uma alma especular. Ela se encontra sempre transitada por uma tens\u00e3o essencial na qual se intercambiam, sem cessar, os lugares do mestre e do escravo. No est\u00e1dio do espelho se arraigam, por sua vez, a preval\u00eancia do discurso do mestre e sua paranoia territorial, que fazem do eu uma inst\u00e2ncia grosseira de del\u00edrio que n\u00e3o saberia reduzir nenhuma retifica\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. Mas, para alcan\u00e7ar o campo que chamo \u00abcampo \u00faltimo\u00bb, tamb\u00e9m h\u00e1 que atravessar o simb\u00f3lico e o mental do simb\u00f3lico. O mental do simb\u00f3lico \u00e9 a refra\u00e7\u00e3o do significante na alma especular. A essa refra\u00e7\u00e3o \u00e9 o que se chama significado. A esse significado essencialmente fugidio, nebuloso, indeterminado, meton\u00edmico e suscept\u00edvel, sem d\u00favida, a dar lugar a met\u00e1foras e efeitos de significa\u00e7\u00e3o, se pode chamar pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu pensamento, o meu, tem sua rotina, gira redondamente, \u00e9 reprimido, retorna. Diz-se que \u00e9 o inconsciente quando \u00e9 decifr\u00e1vel e se diz, ent\u00e3o, que no deciframento se alcan\u00e7a uma verdade. Mas, aten\u00e7\u00e3o! Trata-se sempre de sentido, ou seja, de mental, de ideias que produzem! Por isso Lacan uniu com um la\u00e7o essencial a verdade com a mentira. O campo \u00faltimo a que me refiro est\u00e1 mais al\u00e9m da mentira do mental. A parte mais opaca do que Freud chamava libido se descobre precisamente a\u00ed. Esse sentido da libido \u00e9 o desejo. O desejo est\u00e1 articulado com o simb\u00f3lico; ele se solta dos significantes como seus significados. Enlouquece a alma especular, anima os sintomas. Uma an\u00e1lise, no entanto, introduz uma defla\u00e7\u00e3o do desejo, que se desinfla e estaciona como acontece com esse semblante que chamamos falo, e que serve para pensar a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Mas, tanto o desejo como a rela\u00e7\u00e3o sexual s\u00e3o verdades mentirosas, mentiras do mental. Debaixo do desejo, uma vez atravessada sua tela fantas\u00edstica, h\u00e1 o que n\u00e3o mente sem que seja uma verdade. \u00c9 o que chamamos gozo. O desejo \u00e9 o sentido e o semblante da libido, sua mentira mental. O gozo \u00e9 o que da libido \u00e9 real. \u00c9 o produto de um encontro azarado do corpo com o significante. Esse encontro mortifica o corpo, mas, tamb\u00e9m recorta uma parcela de carne cuja palpita\u00e7\u00e3o anima todo o universo mental. O universo mental n\u00e3o faz sen\u00e3o refratar, indefinidamente, a carne palpitante a partir das mais carnavalescas maneiras e, tamb\u00e9m a dilata at\u00e9 proporcionar-lhe a forma articulada dessa fic\u00e7\u00e3o maior que chamamos o campo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comprovamos que esse encontro marca o corpo com um tra\u00e7ado inesquec\u00edvel. \u00c9 o que chamamos acontecimento de corpo. Este acontecimento \u00e9 um acontecimento de gozo que n\u00e3o volta jamais ao zero. Para saber fazer com esse gozo \u00e9 preciso tempo, tempo de an\u00e1lise. E, sobretudo, para saber fazer com esse gozo sem a muleta, a tela e os artif\u00edcios do inconsciente simb\u00f3lico e suas interpreta\u00e7\u00f5es. Por isso falamos que se trata de inconsciente real, o que n\u00e3o se decifra. Aquele que, pelo contr\u00e1rio, motiva o ciframento simb\u00f3lico do inconsciente. Esse corpo n\u00e3o fala, goza em sil\u00eancio, nesse sil\u00eancio que Freud atribu\u00eda \u00e0s puls\u00f5es; mas, \u00e9 com esse corpo com que se fala a partir desse gozo fixado de uma vez por todas. O homem fala com seu corpo. Em express\u00e3o de Lacan, ele \u00e9 ser falante por natureza. Pois bem, esse corpo que n\u00e3o fala, mas serve para falar, esse corpo como meio da palavra, \u00e9 justamente o que se emparelha, a rigor, com a sa\u00fade mental que n\u00e3o existe. Se a sa\u00fade mental n\u00e3o existe \u00e9 porque o corpo gozante, a carne, exclui o mental ao mesmo tempo em que o condiciona, o enlouquece, o extravia. Se o homem inventou a rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 para velar o horror dessa carne percorrida por um estremecimento que n\u00e3o cessa, que \u00e9 o que \u00e9, como dizia Angelus Silesius: sem porqu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00abfalar com seu corpo\u00bb \u00e9 tra\u00eddo por cada sintoma e cada acontecimento de corpo. Esse falar com o seu corpo est\u00e1 no horizonte de toda interpreta\u00e7\u00e3o e de toda resolu\u00e7\u00e3o dos problemas do desejo. Os problemas do desejo, como sabemos, podem ser colocados em forma de equa\u00e7\u00e3o; sabemos disso desde Lacan, que se esfor\u00e7ou para faz\u00ea-lo. E essa equa\u00e7\u00e3o tem, sem d\u00favidas, solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o o que Lacan chamou o passe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O gozo no n\u00edvel do inconsciente real, todavia, n\u00e3o teria como ser situado em uma equa\u00e7\u00e3o e permanece insol\u00favel. Freud soube disso antes que Lacan o anunciara. H\u00e1 sempre um resto com os sintomas. Por isso n\u00e3o h\u00e1 final absoluto para uma an\u00e1lise, que durar\u00e1 tanto quanto o insol\u00favel continue sendo insuport\u00e1vel. Ela acaba quando o homem simplesmente encontra ai uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 aqui est\u00e1, portanto, o que pude extrair de uma reflex\u00e3o sobre a inexist\u00eancia da sa\u00fade mental, torturando-me os miolos; falando com propriedade, o que se emparelha com o significante \u00e9 \u00abfalar com o corpo\u00bb. Voc\u00eas poder\u00e3o dizer que esse assunto \u00e9 muito dif\u00edcil para o PIPOL VI. Mas, se \u00e9 assim, n\u00e3o temam, encontraremos outra coisa. Espero, ent\u00e3o, sugest\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ilka Franco Ferrari<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>Jacques-Alain Miller<\/strong><br \/>\nConclus\u00e3o do PIPOL V<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":68,"menu_order":12,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[15],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/90"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/90\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":383,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/90\/revisions\/383"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=90"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=90"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=90"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}