{"id":1063,"date":"2021-08-18T19:25:10","date_gmt":"2021-08-18T22:25:10","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1063"},"modified":"2021-08-18T19:25:10","modified_gmt":"2021-08-18T22:25:10","slug":"gabriela-salomon-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/gabriela-salomon-2\/","title":{"rendered":"Gabriela Salomon"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo de investiga\u00e7\u00e3o est\u00e1 composto por Noem\u00ed Alazraki, Diana Antebi, Silvia Bonzini, Ver\u00f3nica Berenstein,\u00a0 Estela Carrera, Paola Gutkowski, Paula Kalfus,\u00a0 Nestor Rozenberg, Eugenia Serrano, Gustavo Sobel e Gabriela Salomon (Respons\u00e1vel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada integrante trabalhou intensamente com diversos textos e contribuiu na elabora\u00e7\u00e3o deste trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nO tema que nos convoca \u00e9 \u00abAs Urg\u00eancias do Parl\u00eatre\u00bb. Em nossa investiga\u00e7\u00e3o, nos propomos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Como repensar \u00aba urg\u00eancia\u00bb a partir do \u00faltimo ensino de Lacan com a leitura que J. A. Miller prop\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Como respondemos, os praticantes da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, \u00e0s urg\u00eancias diante de \u00abcorpos que falam\u00bb mais al\u00e9m do deciframento. Sujeitos angustiados, deprimidos, em p\u00e2nico, que consomem, violentos. Com tudo isso nos confrontamos nas enfermarias dos hospitais, no P.A.U.S.A. e ainda nos consult\u00f3rios, numa \u00e9poca marcada pela incid\u00eancia do discurso capitalista e da ci\u00eancia em sua alian\u00e7a com a t\u00e9cnica, no que \u00abFreud chamou o mal-estar na cultura e que Lacan decifra como os becos sem sa\u00edda da civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb.[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um analista poderia estar a par da urg\u00eancia de quem o solicita? Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que o que toma relevo ali \u00e9 sua forma\u00e7\u00e3o. Uma forma\u00e7\u00e3o que, em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica, permitiu captar que o uso do sentido \u00e9 um semblante a respeito do sintoma e, especialmente, a respeito da conting\u00eancia na qual se pode localizar sua origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">1) Repensar a urg\u00eancia<\/span><br \/>\nNo &#8216;Pref\u00e1cio \u00e0 Edi\u00e7\u00e3o Inglesa do Semin\u00e1rio 11&#8217;, do ano 1976, Lacan d\u00e1 testemunho de sua rela\u00e7\u00e3o com a urg\u00eancia, rela\u00e7\u00e3o articulada ao que\u00a0 apressa.\u00a0 Ali diz: \u00abAssinalo que, como sempre, os casos de urg\u00eancia me atrapalhavam enquanto eu escrevia isso.\u00bb[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dez anos antes, em \u00abDo sujeito enfim em quest\u00e3o\u00bb[3], explicita: \u00abAgora, pelo menos, podemos contentar-nos com a ideia de que, enquanto perdurar um vest\u00edgio do que instauramos, haver\u00e1 psicanalistas para responder a certas urg\u00eancias subjetivas&#8230;\u00bb. A forma\u00e7\u00e3o de um analista ter\u00e1, ent\u00e3o, uma estreita rela\u00e7\u00e3o com a urg\u00eancia, quer dizer, com a emerg\u00eancia do que faz furo como traumatismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J. A. Miller pensa a urg\u00eancia como anterior \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o mesma do inconsciente transferencial, e chama urg\u00eancia a \u00abuma modalidade temporal que corresponde ao advento de um traumatismo\u00bb[4]. A urg\u00eancia ser\u00e1, ent\u00e3o, isso que empurra, que n\u00e3o admite espera, o que p\u00f5e em movimento a demanda de um potencial analisante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na aula de 15\/11\/2006 sobre o inconsciente real, Miller retoma o pref\u00e1cio do Congresso de Roma[5], de 1953, onde Lacan faz uma primeira men\u00e7\u00e3o \u00e0 urg\u00eancia: \u00abNada h\u00e1 de criado que n\u00e3o apare\u00e7a na urg\u00eancia, e nada na urg\u00eancia que n\u00e3o gere sua supera\u00e7\u00e3o na fala \/\u2026\/ Mas nada h\u00e1, tampouco, que n\u00e3o se torne contingente nela\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma aula, faz alus\u00e3o aos CPCT criados nesse momento na Europa, e menciona que a urg\u00eancia, com a qual deve-se andar de m\u00e3os dadas, \u00e9 a que solicita a supera\u00e7\u00e3o na fala do requerente, e mostra o fracasso da verdade mentirosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada \u00e9 criado sen\u00e3o a partir de alguma urg\u00eancia. Toma-se, assim, a urg\u00eancia pelo lado do que empurra. Se come\u00e7a pelo que, ent\u00e3o, na urg\u00eancia, e n\u00e3o sem ela, possa se produzir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abRebasar\u00bb (superar) segundo o\u00a0<i>Diccionario de la Real Academia<\/i>\u00a0<i>Espa\u00f1ola<\/i>, implica passar ou exceder certo limite, quer dizer, um transbordamento, algo imposs\u00edvel de simbolizar, o real, aquilo que ultrapassa o que a palavra pode nomear, o que faz refer\u00eancia ao trauma que Lacan l\u00ea como\u00a0<i>troumatisme<\/i>, furo traum\u00e1tico, ligado \u00e0 aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo \u00abgerar\u00bb na frase \u00a0\u00aba urg\u00eancia gera sua supera\u00e7\u00e3o na fala\u00bb pode ser lido no sentido de \u00abcriar, causar ou formar\u00bb. Mas em sua segundo acep\u00e7\u00e3o, gerar \u00e9 procriar, propagar a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos pensar que h\u00e1 algo que gera a urg\u00eancia no sentido em que se procria.\u00a0 Neste ponto pode-se pensar a mesma como o contr\u00e1rio da ruptura aguda da cadeia significante, defini\u00e7\u00e3o que utiliz\u00e1vamos e nos parece solid\u00e1ria ao primeiro ensino de Lacan, o do inconsciente estruturado como uma linguagem. Com o termo \u00abgera\u00bb, pode-se pensar a urg\u00eancia a partir da incid\u00eancia do vivo, do corpo. \u00c9 um ponto em que se pode apoiar a passagem do sujeito na urg\u00eancia \u00e0 urg\u00eancia do parl\u00eatre. Encontramo-nos aqui com uma mudan\u00e7a de perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se na perspectiva do sujeito trata-se de introduzir uma pausa, na do\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>\u00a0trataria-se de situar uma oferta, de estar a par da urg\u00eancia de quem o solicita. Neste ponto trata-se, ent\u00e3o, de que o analista se fa\u00e7a\u00a0<i>partenaire<\/i>, para que, o que nessa urg\u00eancia se engendra na fala, possa ser lido na vertente da verdade mentirosa. Estar a par da urg\u00eancia de quem o solicita \u00e9, tamb\u00e9m, deixar-se aspirar pelo real de cada\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">2) Antecedentes<\/span><br \/>\nEm Buenos Aires, nos anos 80, um grupo de analistas da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, sob a dire\u00e7\u00e3o de Ricardo Seldes, realiza uma experi\u00eancia na urg\u00eancia com os pacientes dos consult\u00f3rios externos do Hospital Dr. Gregorio Araoz Alfaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 2005 funda-se o P.A.U.S.A. (Psican\u00e1lise Aplicada \u00e0s Urg\u00eancias Subjetivas da Atualidade), centro criado pela Funda\u00e7\u00e3o do Campo Freudiano, a E.O.L. e o I.C.deB.A., para a assist\u00eancia, a doc\u00eancia e a investiga\u00e7\u00e3o. Os tratamentos oferecidos ali s\u00e3o de quatro meses, passando em primeira inst\u00e2ncia por uma ou mais entrevistas de admiss\u00e3o. Tenta-se, em primeiro lugar, situar a \u00aburg\u00eancia subjetiva\u00bb que traz o paciente. A orienta\u00e7\u00e3o do tratamento est\u00e1 dirigida a que se possa subjetivar essa urg\u00eancia e que isso abra a possibilidade de uma demanda de an\u00e1lise. Observamos que, em muitos casos, uma vez resolvida a urg\u00eancia que traz o paciente, o tratamento finaliza na institui\u00e7\u00e3o[6].<\/p>\n<p class=\"Titulo4\" style=\"text-align: justify;\">3) Cl\u00ednica da Urg\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Ang\u00fastia<br \/>\n<\/b>Na \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe, marcar a ang\u00fastia constitui uma tarefa fundamental para o analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ang\u00fastia, esse afeto que n\u00e3o engana, d\u00e1 conta do fracasso do Nome do Pai, na medida em que este \u00e9 o operador maior da simboliza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a ang\u00fastia \u00e9 a via de acesso ao objeto \u00aba\u00bb, ao que n\u00e3o \u00e9 significante, ao real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 a ang\u00fastia? Tal como observa Lacan \u00ab\u00e9 o que do interior do corpo existe quando algo o desperta, o atormenta\u00bb[7]. Tamb\u00e9m \u00ab\u2026\u00e9, precisamente, algo que se situa em nosso corpo\u2026\u00bb[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como se apresenta na urg\u00eancia?<br \/>\n<\/b>Em nossa casu\u00edstica da PAUSA e tamb\u00e9m nos plant\u00f5es dos hospitais, nos encontramos com sujeitos nos quais a dimens\u00e3o da ang\u00fastia est\u00e1 presente em primeira inst\u00e2ncia. Sujeitos que, frente a uma ruptura amorosa, a briga com um filho, a perda da atividade de trabalho, ou a desorienta\u00e7\u00e3o, se precipitam ao acting-out ou \u00e0 passagem ao ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o do Seminario X, Lacan faz um quadro de dupla entrada, tentando uma defini\u00e7\u00e3o mais precisa da ang\u00fastia. Neste quadro, a passagem ao ato tem um lado na ang\u00fastia e o outro (essencial) no embara\u00e7o. Um significante a mais barra o sujeito (momento de maior embara\u00e7o do sujeito), produzindo uma identifica\u00e7\u00e3o ao objeto\u00a0<i>a<\/i>. \u00c9 \u00a0dali que o sujeito se precipita fora da cena, em um deixar-se cair (<i>se laisser tomber<\/i>) sem o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0<i>acting-out<\/i>, em contrapartida, tem um lado na confus\u00e3o ou\u00a0<i>\u00e9moi<\/i>. O sujeito se experimenta como\u00a0<b><i>a<\/i><\/b>, perde a refer\u00eancia ao significante. Surge ent\u00e3o um movimento que aponta a constituir-se como sujeito do significante. H\u00e1 no\u00a0<i>acting<\/i>\u00a0uma demonstra\u00e7\u00e3o (\u00ab<i>montrer sur la scene<\/i>\u00ab), um chamado ao Outro, um chamado \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, o problema \u00e9 se isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma quest\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 articul\u00e1vel pelos significantes, mas \u00e9 algo que est\u00e1 articulado na estrutura. A aposta de Lacan \u00e9 como o analista pelo seu desejo poderia voltar a situar o que esse sujeito \u00e9 como objeto no campo do desejo do Outro. Por isso n\u00e3o se trata de interpreta\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o de conseguir que se produza uma certeza de ocupar um lugar no desejo do Outro. Colocar em ato o que Lacan chamava \u00abte desejo ainda que n\u00e3o o saiba\u00bb, uma das maneiras que tem Lacan de chamar o desejo do analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A continua\u00e7\u00e3o deste tema, muito mais articulado, encontramos no semin\u00e1rio R.S.I. Ali, Lacan menciona a necessidade de localizar o real do Outro real. Outro real que h\u00e1 que entender na dire\u00e7\u00e3o de um grau m\u00e1ximo de alteridade. N\u00e3o \u00e9 o Outro como sede do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado do analista, trata-se de pescar o ponto real que est\u00e1 em jogo em seu analisante mais al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica. Dita localiza\u00e7\u00e3o, do lado do analisante, envolve uma certeza indiz\u00edvel de ter um lugar no desejo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o de outro tipo nesse processo. \u00c9 a identifica\u00e7\u00e3o ao real do Outro, real que n\u00e3o se faz por piedade, nem por dever, nem por solidariedade. Esta indica\u00e7\u00e3o nos parece fundamental na hora de receber um paciente em\u00a0<i>acting<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um casal chega no plant\u00e3o de um hospital pedindo um psic\u00f3logo. A mulher dir\u00e1 muito angustiada que ele bate nela fortemente. Ela colocou como condi\u00e7\u00e3o para continuar o casamento, que ele consultasse um psic\u00f3logo. Ela tem 49 e ele 29 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A analista o entrevista primeiro. Ele diz que n\u00e3o sabe o que lhe acontece, por que se comporta de maneira violenta. Vive com sua m\u00e3e e com sua mulher, e diz que s\u00f3 veio ao hospital porque sua mulher lhe pediu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista com a mulher, ela diz: \u00abMe custa separar-me dele, deix\u00e1-lo, sou empreendedora e<b>\u00a0<\/b>ele joga tudo fora (\u00abme tira todo abajo\u00bb). De repente se descontrola, quer ir embora. Ele me bate forte, eu tento cont\u00ea-lo, mas ele escapa e eu me desespero. Eu o\u00a0 conheci e me casei quatro meses depois. N\u00e3o me casei apaixonada. N\u00e3o sei o que se passa comigo\u00bb. \u00abN\u00e3o sabe o que acontece com ele\u00bb,\u00a0 lhe \u00e9 observado, \u00abN\u00e3o sei se \u00e9 amor ou se quero ajud\u00e1-lo ou proteg\u00ea-lo\u00bb, responde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A analista lhe pergunta se tem filhos, diante do que responde: \u00abTenho um problema, mas isso n\u00e3o vem ao caso\u00bb. A analista demonstra interesse pelo que ela diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contar\u00e1, ent\u00e3o, que esteve casada com um homem por 27 anos. \u00abPassamos muitas coisas lindas e feias. Fui torturada. Ele trabalhava para um pol\u00edtico, o amea\u00e7aram, fugiu, eu estava gr\u00e1vida e fiquei, me amea\u00e7aram primeiro, depois me levaram, fui torturada, perdi meu beb\u00ea, me esvaziaram. Nunca contei isso a ningu\u00e9m.\u00bb E acrescenta: \u00abmeu pai, quando n\u00e3o gostava de algo, me batia.\u00bb A analista interv\u00e9m:\u00a0<i>H\u00e1 algo que se repete, um homem te bate, por um homem \u00e9 torturada&#8230;<\/i>\u00a0finalmente o sujeito conclui: \u00abN\u00e3o sei porque me castigo tanto \u2013 responde \u2013 estou perdendo tudo. Talvez eu tenha algo, eu busque isso. Necessito ajuda. Onde poderia me tratar? \u00c9 derivada ao P.A.U.S.A.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-nos que o caso mostra como, a partir de poder localizar algo de seu fantasma \u00abser espancada\u00bb, se abre no sujeito uma pergunta por seu gozo \u00abn\u00e3o sei porque me castigo tanto\u00bb e uma demanda de tratamento. Se o risco na urg\u00eancia \u00e9 que o uso da palavra se torne \u00abcataplasma de sentido\u00bb[9], neste caso apontou em dire\u00e7\u00e3o a sua insist\u00eancia de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o queremos deixar de mencionar uma modalidade atual em que se apresenta a ang\u00fastia: os \u00abataques de p\u00e2nico\u00bb, que podem ser lidos a partir do que Miller chama ang\u00fastia constituinte, essa ang\u00fastia labir\u00edntica, sem limite, pr\u00f3xima ao que Freud chamava a \u00ab<i>Hiflosigkeit<\/i>\u00ab, o desamparo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na maioria dos casos, os sujeitos chegam pedindo medica\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes tentamos, pela via da fala, que a ang\u00fastia seja localizada como resposta ao Desejo do Outro, e, em outros, buscamos veicular esse \u00abp\u00e2nico\u00bb como signo de um gozo deslocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Que corpo na urg\u00eancia?<br \/>\n<\/b>Se falamos de corpo vivo, \u00e9 um corpo que est\u00e1 afetado pelo gozo. Gozo, ent\u00e3o, como um afeto do corpo. Trata-se de ver a partir de qual incid\u00eancia o afeto de gozo chega ao corpo. Mas devemos acrescentar tamb\u00e9m que o significante \u00e9 causa de gozo. Temos, ao final desta perspectiva, uma cl\u00ednica que toma como centro o sintoma como acontecimento de corpo. Definir o sintoma como acontecimento de corpo se deduz de que o sintoma \u00e9 gozo, e esse gozo passa pelo corpo: \u00abDeixemos o sintoma no que ele \u00e9: um edvento corporal, ligado a que: a gente o tem \/\u2026\/\u00bb[10]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sintoma como acontecimento de corpo transmite a ideia de que o\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>\u00a0tem um corpo, n\u00e3o \u00e9 um corpo. O homem tem sintomas com os quais j\u00e1 n\u00e3o pode identificar-se, e ser\u00e1 atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise que o sujeito poder\u00e1, ao final, identificar-se com um sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse corpo acontecem eventos que deixam marcas, acontecimentos de corpo, acontecimentos de discurso. Essas marcas constituem o sintoma desde que haja um sujeito que as possa ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O que faz um analista com isto?<br \/>\n<\/b>Uma menina \u00e9 trazida \u00e0 admiss\u00e3o de P.A.U.S.A. por sua av\u00f3, buscando um certificado para o jardim de inf\u00e2ncia, para ser admitida na classe de 5 anos. Apresenta severas dificuldades na articula\u00e7\u00e3o das palavras. A analista rejeita a demanda burocr\u00e1tica e chama os pais para uma nova entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai dir\u00e1 que n\u00e3o pode intervir na rela\u00e7\u00e3o que a menina tem com sua m\u00e3e. Menciona as dificuldades de ambas para se separarem. Por sua vez, o pouco que a menina fala \u00e9 dirigido exclusivamente a seus pais, seu tom de voz \u00e9 baixo e na articula\u00e7\u00e3o que faz das palavras predominam as vogais sobre as consoantes. O efeito \u00e9 o de uma g\u00edria abobalhada quase inintelig\u00edvel para um ouvido n\u00e3o familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No consult\u00f3rio com a menina, a analista aproxima uma caixa com bonecos. A pequena agarra pequenos animais e os coloca sobrepostos, um ao lado do outro. A interven\u00e7\u00e3o inicial da analista \u00e9 juntar ainda mais os pequenos bonecos at\u00e9 esmag\u00e1-los uns com os outros com um gesto de for\u00e7a exagerada, entretanto, ela segue absorta na sua tarefa de grude. Ambas, a menina e a analista, permanecem em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir daqui, a analista ir\u00e1 aproximando seu corpo ao da menina at\u00e9 que seja ela a esmagada. A menina resiste ao aperto em sil\u00eancio, e tenta seguir com seus bonecos. At\u00e9 que, finalmente, exclama com precisa claridade: \u00abSai de cima j\u00e1! Quero ir para a minha casa!\u00bb, finalizando aqui a entrevista e dando a ela entrada ao dispositivo P.A.U.S.A.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00faltima interven\u00e7\u00e3o poderia ser pensada como uma perturba\u00e7\u00e3o da defesa, opera\u00e7\u00e3o diferenciada da interpreta\u00e7\u00e3o, entendendo a defesa tal como a define J.A. Miller em seu curso, A experi\u00eancia do real na cura psicanal\u00edtica, isso \u00e9 como a rela\u00e7\u00e3o subjetiva com o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Outro caso<br \/>\n<\/b>Um homem de 35 anos consulta porque seu corpo\u00a0<i>treme<\/i>. Ele tem a\u00a0<i>certeza<\/i>\u00a0de estar louco, seu del\u00edrio erotoman\u00edaco o aniquila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De seu pai dir\u00e1: \u00abQuando eu era menino eu desejava muito sexualmente a meu pai. Eu n\u00e3o sentia como um abuso e queria devolver a car\u00edcia. Aos 4 anos me metia na cama com meu pai nu. Ele tinha uma ere\u00e7\u00e3o. Senti vergonha e\u00a0<i>tremi<\/i>\u00a0at\u00e9 adormecer.\u00bb Alertamos que aos seus 4 anos, frente ao encontro contingente com o gozo, seu corpo responde com o\u00a0<i>tremor<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 16 anos consulta um neurologista por um tremor em todo o corpo. Sentiu que enlouquecia. Esse\u00a0<i>tremor<\/i>\u00a0aparece em ocasi\u00f5es em que se encontrava deitado na cama com sua m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica permitiu a este sujeito sintomatizar um gozo fixado no corpo, \u00ab<i>o tremor<\/i>\u00ab. Aprendeu a ser alertado por esse tremor que atua como limite \u00e0 certeza de ficar louco. Cada vez que diz \u00e0 analista que est\u00e1 ficando louco, ela responde:\u00a0<i>Nada a ver!<\/i>\u00a0Isso o mant\u00e9m a distancia do furo e lhe diz que o real mente. A certeza de ficar louco passou a ser uma verdade encarnada no\u00a0<i>tremor<\/i>\u00a0do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste caso podemos situar o que se chama fen\u00f4meno de corpo: aqueles que se instalam de maneira permanente constituindo um \u00absem sentido encarnado\u00bb[11]. Fen\u00f4nemos de corpo que bem podemos chamar sinthomas e que ordenam a vida do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Finalmente, de que se trata nas Urg\u00eancias do Parl\u00eatre?<br \/>\n<\/b>Reinventar um Outro que n\u00e3o existe. Causar um sujeito para que encontre um caminho singular de palavra depois do encontro com o traumatismo. Como diz Laurent[12], \u00abO analista \u00e9 um\u00a0<i>partenaire<\/i>\u00a0que traumatiza o discurso comum para autorizar outro discurso, o do inconsciente. \/\u2026\/ Sabe que a linguagem \u00e9 um virus, e n\u00e3o pode reduzir sua posi\u00e7\u00e3o a de um doador de sentido\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por \u00faltimo, retomando o que propusemos na introdu\u00e7\u00e3o, trata-se de um assunto de forma\u00e7\u00e3o do analista, que o analista tenha feito a experi\u00eancia\u00a0 de reduzir o sentido do sintoma \u00e0 conting\u00eancia, e ent\u00e3o ser\u00e1 capaz de ocupar esse lugar insensato onde o sentido e o sem sentido se conjugam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dizia Fran\u00e7ois Leguil, no ano de 1988, em Buenos Aires: \u00abSe espera que el analista que se enfrenta con la urgencia no sea un hombre de vuelta de todo, pero si un hombre de vuelta de su propia urgencia\u00bb.[13]\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Anna Carolina Nogueira<br \/>\nRevis\u00e3o: Ana Lucia Lutterbach Holck<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J. A., \u00abO real no S\u00e9culo XXI\u00bb. Em: \u00ab<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise.\u00a0<\/i>n. 63. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, 2012, p.11<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., \u00abPref\u00e1cio \u00e0 Edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u00bb, Em:\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2003, p. 569.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., \u00abDo sujeito enfim em quest\u00e3o\u00bb, Em:\u00a0<i>Escritos<\/i>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 237<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2010, p. 9<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., \u00abFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u00bb, Em:\u00a0<i>Escritos<\/i>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 242<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">P.A.U.S.A. recebe setecentos pacientes anuais, dos quais 30% continua seu tratamento uma vez que foi finalizado o tempo institucional.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,\u00a0<i>R.S.I<\/i>, Aula de 17de dezembro de 1974, in\u00e9dito<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., \u00abLa Tercera\u00bb. Em:\u00a0<i>Intervenciones y Textos 2<\/i>, Argentina, Editorial Manantial, 1993, p. 102.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.A., \u00abM\u00e1s All\u00e1 del Narcisismo\u00bb, Em:\u00a0<i>El Lugar y el Lazo<\/i>, Argentina, Paid\u00f3s, 2013, p. 62<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., \u00bb Joyce, O Sintoma\u00bb. Em:\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2003, p. 565<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J. A. y otros,\u00a0<i>Embrollos del Cuerpo<\/i>, Argentina, Paid\u00f3s, 2012, p. 110<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, Eric,\u00a0<i>El rev\u00e9s del trauma.<\/i>\u00a0Em: Virtualia 6, revista digital de la E.O.L., Argentina, 2002.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LEGUIL, F., \u00abReflexiones sobre la urgencia\u00bb. Em:\u00a0<i>La Urgencia: El psicoanalista en la pr\u00e1ctica<\/i>\u00a0<i>Hospitalaria<\/i>, Argentina, R. Vergara Ediciones, 1988, p. 28<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[164],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1063"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1064,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1063\/revisions\/1064"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}