{"id":1067,"date":"2021-08-18T19:30:33","date_gmt":"2021-08-18T22:30:33","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1067"},"modified":"2021-08-18T19:30:33","modified_gmt":"2021-08-18T22:30:33","slug":"ana-lucia-lutterbach-holck-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/ana-lucia-lutterbach-holck-2\/","title":{"rendered":"Ana L\u00facia Lutterbach Holck"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Participantes do grupo da Se\u00e7\u00e3o EBP do Rio de Janeiro: Adriano Aguiar (membro), Ana Cl\u00e1udia Jord\u00e3o, Ana Tereza Groisman (membro), N\u00faria Malajovich, Renata Martinez, Rodrigo Lyra e Ana Lucia Lutterbach Holck (respons\u00e1vel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEMA: \u00abUrg\u00eancias do parl\u00eatre\u00bb se insere no argumento do eixo 1 &#8211;\u00a0<b>Mais longe do inconsciente, mais perto dos corpos<\/b>: como a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode contribuir para a elucida\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica atual quando o real se agita nos corpos, quando os modos de corporifica\u00e7\u00e3o dos sintomas parecem escapar da decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo de estudos, preparat\u00f3rio para a conversa\u00e7\u00e3o do ENAPOL VI, partiu da investiga\u00e7\u00e3o da Unidade de Pesquisa, Pr\u00e1ticas da Letra, do Instituto de Cl\u00ednica psicanal\u00edtica do Rio de Janeiro (ICP). Nesta Unidade nos dedicamos, atualmente, ao estudo sobre a escrita e leitura na cl\u00ednica, tal como prop\u00f5e J.-A. Miller em seu curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, especialmente, nos cursos de 2006 e 2011 e no texto de apresenta\u00e7\u00e3o do tema do congresso da NLS (2011), \u00abLer um sintoma\u00bb[1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Urg\u00eancias do \u00abparl\u00eatre\u00bb:<\/span><br \/>\nO termo \u00aburg\u00eancias subjetivas\u00bb j\u00e1 era nosso conhecido, foi amplamente utilizado no debate sobre os Centros de atendimento. Nas urg\u00eancias do \u00abparl\u00eatre\u00bb, contamos com o que se escreve e se l\u00ea nas sess\u00f5es, al\u00e9m da fala e da escuta. Considera-se, portanto, n\u00e3o s\u00f3 o significante portador de sentido mas tamb\u00e9m o significante sem sentido que se inscreve no corpo como letra. Al\u00e9m de sua vertente simb\u00f3lica que d\u00e1 sentido e mortifica o corpo, o significante em sua vertente de gozo, letra que vivifica o corpo. Se o sujeito \u00e9 aquele marcado pelo significante que mortifica o corpo, o\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>\u00a0\u00e9 vivificado pelo gozo no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse salto nos interroga sobre a posi\u00e7\u00e3o do inconsciente e sobre o real na experi\u00eancia anal\u00edtica, tanto na entrada como no final da an\u00e1lise, tanto para os praticantes, quanto para os analisantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira li\u00e7\u00e3o de seu curso de 2006[2], Miller toma o \u00abPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u00bb (1976)[3] e faz dele uma esp\u00e9cie de ferramenta para trilhar um caminho da \u00aburg\u00eancia\u00bb nos escritos de Lacan. Com este texto em m\u00e3os ele l\u00ea a \u00abProposi\u00e7\u00e3o sobre o psicanalista da Escola\u00bb (1967) e seu antecedente, \u00abDo sujeito enfim em quest\u00e3o\u00bb (1966), al\u00e9m de \u00abFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u00bb[4] (1953). Ao fazer esse percurso, ele demonstra, ao mesmo tempo, a atualidade tanto dos \u00faltimos, como dos primeiros escritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas pontos[5] s\u00e3o marcados sobre a urg\u00eancia: trata-se de um pedido anterior ao estabelecimento do significante da transfer\u00eancia e pode despertar um analisante por vir. Decorre, muitas vezes, de uma queda das fic\u00e7\u00f5es que sustentavam o sujeito, uma falha na \u00abverdade mentirosa\u00bb. E, finalmente, est\u00e1 presente a pressa e seu efeito de precipita\u00e7\u00e3o da verdade \u00abque deve dar lugar \u00e0 mentira que ela comporta\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como surge antes da instala\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, decorre de uma falha, produzida pela emerg\u00eancia de um real, de um\u00a0<i>troumatismo<\/i>, que faz furo nas fic\u00e7\u00f5es engendradas pelo sujeito. Portanto, n\u00e3o estamos diante das condi\u00e7\u00f5es tradicionais para o trabalho de an\u00e1lise, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rotina, n\u00e3o h\u00e1 repeti\u00e7\u00e3o significante, o que se repete \u00e9 a incid\u00eancia do real sobre o corpo, situa\u00e7\u00e3o em que a pr\u00f3pria ang\u00fastia j\u00e1 \u00e9 uma defesa. Sem a instala\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do sujeito suposto saber, n\u00e3o h\u00e1 efic\u00e1cia da interpreta\u00e7\u00e3o, portanto, a urg\u00eancia nos interroga sobre a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica quando a busca de sentido ainda n\u00e3o est\u00e1 colocada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O come\u00e7o e o fim:<\/span><br \/>\nNeste aspecto, podemos verificar que h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o entre a ang\u00fastia que que antecede \u00e0 entrada em an\u00e1lise e o final, quando a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais dirigida a um analista. Encontramos essa aproxima\u00e7\u00e3o em uma passagem no final do Semin\u00e1rio da \u00c9tica, onde Lacan descreve o final de an\u00e1lise:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00abAo t\u00e9rmino da an\u00e1lise did\u00e1tica o sujeito deve atingir e conhecer o campo e o n\u00edvel do desarvoramento absoluto, no n\u00edvel do qual a ang\u00fastia j\u00e1 \u00e9 uma prote\u00e7\u00e3o, n\u00e3o\u00a0<i>Abwarten<\/i>\u00a0[espera] mas\u00a0<i>Erwartung<\/i>\u00a0[expectativa]. A ang\u00fastia j\u00e1 se desenvolve deixando um perigo delinear-se, enquanto que n\u00e3o h\u00e1 perigo no n\u00edvel da experi\u00eancia \u00faltima do\u00a0<i>Hiflosigkeit<\/i>\u00a0(desamparo)\u00bb.[6]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu curso o Ser e o Um, Miller nos diz que Lacan realizou uma esp\u00e9cie de for\u00e7amento em rela\u00e7\u00e3o aos obst\u00e1culos encontrados por Freud ao final da an\u00e1lise. Primeiro ao propor o final da an\u00e1lise como fratura da fantasia, extra\u00e7\u00e3o do objeto e seu efeito de destitui\u00e7\u00e3o do sujeito e redu\u00e7\u00e3o do desejo. Hoje, como ele se expressa: \u00abnossa experi\u00eancia faz o analisante confrontar-se com o sem sentido de seu gozo. Confronta-o com o que resta al\u00e9m da queda do objeto\u00a0<i>a<\/i>, com o Um do gozo e sua pura reitera\u00e7\u00e3o &#8211; o sinthoma\u00bb[7]. Um sinthoma que d\u00e1 lugar ao sentido mas \u00e9 definido como acontecimento de corpo, um corpo que\u00a0<i>se<\/i>\u00a0goza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de sua leitura do Semin\u00e1rio 23 de Lacan, O Sinthoma, Miller nos lembra que a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 efeito do inconsciente, mas ao contr\u00e1rio, \u00e9 pela transfer\u00eancia que o inconsciente se presentifica[8]: \u00ab&#8230;os psicanalistas fazem parte do conceito de inconsciente, posto que constituem seu destinat\u00e1rio\u00bb[9]. O inconsciente transferencial seria justamente aquele que \u00e9 instaurado pelo sujeito suposto saber e coloca em funcionamento uma engrenagem de um significante com o outro e produz efeito de sentido. No final da an\u00e1lise \u00e9 isolado um res\u00edduo do sintoma, n\u00e3o mais algo a ser decifrado ou suprimido, mas reduzido. A constata\u00e7\u00e3o que o Outro n\u00e3o existe no final da an\u00e1lise exige um outro tratamento, uma maneira de \u00abse virar\u00bb com o que fracassa e que Lacan chamava de \u00abn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sintoma, diferente das outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, n\u00e3o \u00e9 uma apari\u00e7\u00e3o pontual, como nos ensina Miller[10], o sintoma tem um sentido em jogo e clama pela interpreta\u00e7\u00e3o. No entanto, desde Freud, resta um res\u00edduo real, que permanece sem sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste caso, o inconsciente real seria o inconsciente depois do atravessamento da an\u00e1lise, sem o sujeito suposto saber: \u00abtemos certeza de estar no inconsciente quando o espa\u00e7o de um lapso n\u00e3o tem mais nenhum impacto de sentido ou de interpreta\u00e7\u00e3o\u00bb[11]. O inconsciente real \u00e9 exterior \u00e0 conex\u00e3o significante que produz sentido e hom\u00f3logo ao traumatismo. Portanto, a experi\u00eancia de final de an\u00e1lise seria uma esp\u00e9cie de avesso da urg\u00eancia. Enquanto conclus\u00e3o \u00e9 \u00edndice de um limite no sentido, enquanto que antes do in\u00edcio indica a eclos\u00e3o do sem sentido resultante de um certo fracasso do sintoma. E, neste caso, h\u00e1 um pedido do sujeito que pode precipitar uma entrada em an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Escrita e leitura:<\/span><br \/>\nNo Semin\u00e1rio 20 (1972)[12] Lacan constata que havia valorizado o corpo mortificado pelo significante e deixado de lado sua dimens\u00e3o de ser vivo, e indica que a incid\u00eancia do significante sobre o corpo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mortifica\u00e7\u00e3o mas produz gozo, o corpo se define como aquilo que goza. Trata-se, portanto, de um corpo vivo, sexuado:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00abN\u00e3o \u00e9 l\u00e1 que se sup\u00f5e propriamente a experi\u00eancia psicanal\u00edtica? \u2013 a subst\u00e2ncia do corpo, com a condi\u00e7\u00e3o de que ela se defina apenas como aquilo que goza. Propriedade do corpo vivo, sem d\u00favida, mas n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que \u00e9 estar vivo, sen\u00e3o apenas isso, que um corpo, isso goza. Isso s\u00f3 se goza por corporific\u00e1-lo de maneira significante\u00bb[13].<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo de que se trata aqui n\u00e3o se define pela imagem ou pela forma, como o corpo do est\u00e1dio do espelho. Dizer subst\u00e2ncia do corpo implica que ele goza de si mesmo, n\u00e3o o corpo que seria o da rela\u00e7\u00e3o sexual mas um corpo existente onde a linguagem produz efeito de gozo, nas palavras de Miller, \u00aba repeti\u00e7\u00e3o do Um comemora uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo inesquec\u00edvel\u00bb[14].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado das fic\u00e7\u00f5es, o sujeito se sustenta pela fala mas do lado do gozo do corpo \u00e9 preciso tomar a linguagem pela escrita. Uma escrita pura, manejo da letra, do tra\u00e7o, onde o significante opera cortado da significa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata, portanto, de escuta mas de leitura. O que se escuta, s\u00e3o significa\u00e7\u00f5es que evocam compreens\u00e3o, onde h\u00e1 sempre um gozo implicado. A leitura \u00e9 outra coisa, a leitura parte do significante e, eventualmente, pode at\u00e9 dar lugar a significa\u00e7\u00f5es, pode-se passar da escuta \u00e0 leitura e para passar de uma \u00e0 outra \u00e9 preciso passar pelo escrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas duas vertentes do sintoma nos sugerem opera\u00e7\u00f5es anal\u00edticas distintas. A escuta do sentido e a leitura fora do sentido: \u00abA leitura, saber ler, consiste em manter \u00e0 dist\u00e2ncia o sentido e a palavra que ela veicula, a partir da escritura como fora de sentido, como letra, a partir de sua materialidade. [&#8230;] a disciplina da leitura aponta para a materialidade da escritura, isto \u00e9, a letra enquanto produz o acontecimento de gozo que determina a forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u00bb[15].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Sintoma e Sinthoma:<\/span><br \/>\nO testemunho do passe, para Lacan, seria a via para tentar dizer sobre essa experi\u00eancia e Miller pontua dois momentos do passe no ensino de Lacan: a travessia da fantasia e o sinthoma. Num primeiro momento, o passe era a revela\u00e7\u00e3o da verdade com consequ\u00eancias sobre o real, a travessia da fantasia e a queda do objeto\u00a0<i>a<\/i>. A fantasia, como significa\u00e7\u00e3o dada ao gozo mediante um cen\u00e1rio, mesmo quando essa significa\u00e7\u00e3o \u00e9 esvaziada, o gozo permanece. Com o sinthoma, a revela\u00e7\u00e3o da verdade pode ter uma incid\u00eancia sobre o real, mas o real como tal permanece intocado, resta o incur\u00e1vel que continua sua repeti\u00e7\u00e3o indiferente ao esfor\u00e7o de tentar domestic\u00e1-lo ou limit\u00e1-lo. O verdadeiro imposs\u00edvel, como observa Miller, \u00e9 o real, portanto, com o sinthoma, n\u00e3o se trata de transgredir, trata-se de poder cingir um certo n\u00famero de pontos de imposs\u00edvel, numa via al\u00e9m da verdade mentirosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Fragmento de um testemunho:<\/span><br \/>\nTrata-se de um fragmento de sonho no testemunho de passe de Ram Mandil, AE da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab[&#8230;]O homem que surge no sonho, ele mesmo um antigo AE e que tem o mesmo prenome que o meu, me fala sobre a transmiss\u00e3o do passe: \u00abvoc\u00ea deve faz\u00ea-lo como se transmite uma parte da Torah\u00bb. O nome dessa parte da Torah desaparece do sonho e no seu lugar surgem tr\u00eas letras A&#8230;V&#8230;D\u00bb. Desperto e me vem imediatamente a palavra em hebraico: \u00abavdalah\u00bb. Sei apenas que essa palavra existe, mas n\u00e3o sei o que significa. Vou direto ao Google e constato seu significado: \u00absepara\u00e7\u00e3o\u00bb. Trata-se da parte da cerim\u00f4nia judaica que separa os dias festivos dos dias comuns, o\u00a0<i>shabat<\/i>\u00a0dos outros dias da semana. Me dou conta de que \u00abavdalah\u00bb \u00e9 menos a redu\u00e7\u00e3o destas letras a um significado e mais o nome que dei a elas, a partir de sua materialidade sonora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do analista escuto apenas a frase: \u00abfazer as letras ( les lettres, letras\/cartas) chegarem ao seu destino\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escuta das letras A.V.D. poderia desencadear sentidos, infinitamente, tanto em franc\u00eas, a l\u00edngua em que foi realizada a an\u00e1lise, (\u00abvue au de l\u00e1\u00bb; \u00abvide l\u00e1\u00bb etc) como em portugu\u00eas (\u00ab\u00e1vida l\u00e1\u00bb etc). No entanto, a leitura, sua materialidade sonora, permitiu fazer destas letras um nome, um sinthome que estanca do sentido, uma fix\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a urg\u00eancia pr\u00e9via \u00e0 transfer\u00eancia, apresento dois casos que foram debatidos ao grupo de estudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>1) Primeiro caso, trazido por Rodrigo Lyra:<\/b><br \/>\n\u00abJo\u00e3o, de 26 anos, frequentava diariamente as \u00abcracol\u00e2ndias\u00bb da cidade do Rio de Janeiro, locais de uso intenso de drogas, especialmente o crack. O uso compulsivo j\u00e1 provocava importantes danos \u00e0 sa\u00fade e um completo rompimento de v\u00ednculos familiares e sociais, que jamais haviam sido s\u00f3lidos. Apesar dos encontros regulares com o paciente e de sua presen\u00e7a ass\u00eddua no CAPS (Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial) , o gozo em quest\u00e3o n\u00e3o se articulava a nenhuma fic\u00e7\u00e3o do saber: n\u00e3o havia sentido, n\u00e3o havia pergunta, n\u00e3o havia hist\u00f3ria. Relata, ent\u00e3o, a predile\u00e7\u00e3o por, nas cracol\u00e2ndias, isolar-se em um canto, olhando longamente a cena de degrada\u00e7\u00e3o. A emerg\u00eancia desse objeto olhar, extra\u00edda com decis\u00e3o pela analista, permitiu a formula\u00e7\u00e3o de um desejo de saber, que girou inicialmente mais em torno do objeto do que em torno da drogas como quest\u00e3o. O objeto produziu um desejo de saber\u00bb. Uma interven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o visa o sentido, mas aponta o objeto em jogo, produziu um certo deslocamento em sua fala que lhe permitiu introduzir um pouco de hist\u00f3ria onde s\u00f3 havia a descri\u00e7\u00e3o de sua rotina na rela\u00e7\u00e3o com a droga\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de n\u00e3o se tratar de um caso de urg\u00eancia, ele nos ensina como perturbar a rotina da repeti\u00e7\u00e3o de gozo com uma interven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o visa o sentido mas pode desencadear o desejo de saber, desencadear uma entrada no dispositivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>2) Segundo caso, de Ana Tereza Groisman:<\/b><br \/>\n\u00abUm rapaz procura tratamento em busca de uma \u00abcura\u00bb, angustiado diz que tem uma \u00abmania\u00bb e deseja se livrar dela. A mania de extrair protuber\u00e2ncias na superf\u00edcie do corpo o acompanha \u00abdesde sempre\u00bbe apesar das marcas que deixava no corpo, nunca lhe atrapalhou, \u00abtirando isso est\u00e1 tudo perfeito\u00bb. O No entanto, a partir de um coment\u00e1rio de uma amiga \u00abpsi\u00bb &#8211; \u00abisso \u00e9 sinal de alguma desordem ps\u00edquica\u00bb &#8211; surge ang\u00fastia e estranhamento. Este estranhamento se espalha, seu corpo passa a se tornar um entrave, n\u00e3o lhe obedece. Sua \u00abmania\u00bb de in\u00edcio n\u00e3o parece se enla\u00e7ar com mais nada, \u00ab\u00e9 s\u00f3 isso mesmo o resto est\u00e1 \u00f3timo\u00bb. Ele descreve detalhadamente todo o ritual de sua mania, fala o que sente na hora (excita\u00e7\u00e3o, prazer, al\u00edvio e em seguida culpa) mas n\u00e3o parece ser tocado pelo que diz, s\u00f3 quer se curar desta \u00abpequena desordem\u00bb, o resto permanece em perfeita ordem.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste caso, o coment\u00e1rio de uma amiga \u00abpsi\u00bb incide sobre o sujeito e a mania, que o acompanhava h\u00e1 anos, torna-se estranha e a urg\u00eancia que adv\u00e9m o leva a procurar um analista. Por enquanto, foram apenas algumas sess\u00f5es, suficientes para constatar a mudan\u00e7a de estatuto da mania para algo estranho no corpo. A aposta deste tratamento \u00e9 que o pedido de que a \u00abmania\u00bb seja extirpada, como as protuber\u00e2ncias que ele arranca do corpo, d\u00ea lugar \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de saber que lhe permitir\u00e1 fazer da mania um sintoma com algum sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na urg\u00eancia h\u00e1 um encontro com o real, com o traum\u00e1tico e a presen\u00e7a do analista visa estabelecer ali um sintoma que interrogue o sujeito e abra a via do sentido. Trata-se, portanto, da instala\u00e7\u00e3o de um\u00a0<i>sintoma<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final da an\u00e1lise, depois de um percurso na busca de sentido, o sujeito confronta-se com o limite do real e a inven\u00e7\u00e3o de um\u00a0<i>sinthoma<\/i>, ponto de limite mas tamb\u00e9m algo que permite ao sujeito uma maneira de lidar com o Um do gozo sem sentido.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliografia elementar<\/b><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>LACAN,J. [1953]Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise in\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998<\/li>\n<li>LACAN,J. [1966]Do sujeito enfim em quest\u00e3o in\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998 LACAN,J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola in\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2003<\/li>\n<li>LACAN,J. [1972]Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11 in\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2003<\/li>\n<li>[1975-1976]O Semin\u00e1rio. O Sinthoma. Livro 23<\/li>\n<li>MILLER,J.-A. [1999]Elementos da biologia lacaniana.<\/li>\n<li>MILLER,J.-A. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2010.<\/li>\n<li>MILLER,J.-A. [2012] O Real no s\u00e9culo XXI in Op\u00e7\u00e3o 63<\/li>\n<li>MILLER,J.-A. [2012]Conclus\u00e3o do PIPOL V no site do ENAPOL VI<\/li>\n<li>E. LAURENT. [2012] Falar com seu sintoma, falar com seu corpo no site do ENAPOL V<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J.-A. Lire un sympt\u00f4me. Mental n.26, 2011<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J.-A. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2010.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. [1972]Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11 in\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2003, p. 571<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. [1953]Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise in\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998, p.242; citado por Miller na op,cit., p.20<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J.-A. Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2010. p.19<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. [1959-1960]O Semin\u00e1rio. Livro VII. A \u00c9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1988<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J-A. Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, O Ser e o Um. Li\u00e7\u00e3o de 30 de mar\u00e7o de 2011. In\u00e9dito<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>idem<\/i>, p. 14<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. [1964]Posi\u00e7\u00e3o do inconsciente in\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1998, p.848<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J-A. Lire un sympt\u00f4me. Mental n.26, 2011<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. [1972]Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11 in\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2003, p. 571<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,J. (1972-1973\/1982) O Semin\u00e1rio. Livro 20<i>. mais, ainda.\u00a0<\/i>Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1988<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">idem, p. 35<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER,J-A. Aula de 23 de mar\u00e7o de 2011. In\u00e9dito.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>idem<\/i><\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[164],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1067"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1068,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1067\/revisions\/1068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}