{"id":1090,"date":"2021-08-18T20:19:02","date_gmt":"2021-08-18T23:19:02","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1090"},"modified":"2021-08-18T20:19:02","modified_gmt":"2021-08-18T23:19:02","slug":"angela-fischer-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/angela-fischer-2\/","title":{"rendered":"Angela Fischer"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">O erro comum como defesa ante o real.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u00c9 como significante que o transexual n\u00e3o o quer mais, e n\u00e3o como \u00f3rg\u00e3o. No que ele padece de um erro, que \u00e9 justamente o erro comum. Sua paix\u00e3o, a do transexual, \u00e9 a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que n\u00e3o v\u00ea que o significante \u00e9 o gozo e que o falo \u00e9 apenas o significado.<br \/>\n<\/i>Jacques Lacan[1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise sustenta o imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual como o real da psican\u00e1lise; real que \u00e9 da ordem do traumatismo ou, como Lacan o denominou, do\u00a0<i>troumatisme<\/i>, aludindo ao vazio de significa\u00e7\u00e3o proveniente do impacto do real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o para p\u00f4r em debate nesta conversa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o modo de abordar e assumir a sexualidade, enfrentar o desejo, o amor e o gozo, e os efeitos no corpo que o discurso de g\u00eanero sustenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio gozo, tanto para o sujeito masculino como para o feminino, coloca sempre uma rela\u00e7\u00e3o perturbada, nos diz Lacan, entre o ser falante e seu corpo. Lacan passa este gozo sexual ao escrito, no sentido de que cada um guarda uma rela\u00e7\u00e3o particular com este gozo e \u00e9 com este com quem se faz uma parceria; \u00e9 isso justamente o que faz a barreira \u00e0 rela\u00e7\u00e3o \u00abdireta\u00bb entre os sexos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade reside em aceitar o significante que dar\u00e1 conta da diferen\u00e7a sexual anat\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA presen\u00e7a ou aus\u00eancia de p\u00eanis n\u00e3o \u00e9 um dado natural, sen\u00e3o um dado significante e por esta raz\u00e3o a diferen\u00e7a sexual anat\u00f4mica traz consequ\u00eancias no n\u00edvel da l\u00f3gica dos gozos e da constitui\u00e7\u00e3o do desejo de um e do outro lado.\u00bb[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lacan se refere \u00e0 mal-di\u00e7\u00e3o do sexo em Televis\u00e3o, n\u00e3o o faz nos termos da etimologia, mas sim em termos l\u00f3gicos, entendendo mal-di\u00e7\u00e3o como o imposs\u00edvel, e esta impossibilidade \u00e9 que entre os sexos femininos e masculinos n\u00e3o existe uma propor\u00e7\u00e3o que permita uma rela\u00e7\u00e3o. \u00abO que t\u00eam em comum a maldi\u00e7\u00e3o e o imposs\u00edvel \u00e9 que os dois termos designam algo que escapa ao alcance do sujeito\u00bb. \u00c9 no Semin\u00e1rio 20,\u00a0<i>Mais, ainda<\/i>, onde ele desenvolve esta falha fundamental da estrutura \u2013 a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013, a partir das elabora\u00e7\u00f5es sobre a sexualidade feminina, sobre o gozo feminino, porque n\u00e3o h\u00e1 como nomear a mulher sem que se a mal-diga, ou seja, que s\u00f3 se pode nome\u00e1-la desde o lado masculino, do lado f\u00e1lico, portanto, a se\u00a0<i>mal-diz<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexua\u00e7\u00e3o, para Lacan, assume-se a partir do significante f\u00e1lico, isto \u00e9, depender\u00e1 da maneira como cada sujeito, independentemente do seu sexo biol\u00f3gico, se localize em rela\u00e7\u00e3o a este significante; o sujeito escolhe, de uma maneira insond\u00e1vel, acerca do significante e do gozo. Mas a quest\u00e3o crucial tem a ver com o estrutural do feminino, enquanto encarna o real imposs\u00edvel de ser nomeado, situa-se para al\u00e9m do sentido e do nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abDe fato, a cl\u00ednica demonstra at\u00e9 que ponto as posi\u00e7\u00f5es sexuadas s\u00e3o amb\u00edguas e vacilantes em fun\u00e7\u00e3o do companheiro que est\u00e1 em frente e em fun\u00e7\u00e3o da estrutura\u00bb[3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os sujeitos, seja qual for sua anatomia, est\u00e3o localizados no lado masculino, por\u00e9m, para a mulher, as coisas se complicam, h\u00e1 um dualismo, que concerne ao parceiro sexual e aos filhos. A mulher tem distintos modos de abordar o falo, e a\u00ed est\u00e1 a coisa toda. \u00abN\u00e3o \u00e9 porque ela \u00e9 n\u00e3o-toda na fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que ela deixe de estar nela de todo. Ela n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o de todo. Ela est\u00e1 l\u00e1 a toda. Mas h\u00e1 algo mais\u00bb[4].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, para uma mulher, sempre \u00abalgo mais\u00bb, algo para al\u00e9m desse lugar de objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0pelo qual \u00e9 tomada segundo o fantasma de seu parceiro, algo que aloja seu ser feminino e ao qual o homem deve consentir. Esse algo mais Lacan prop\u00f5e escrever como \u023a. \u00ab\u00c9 a inst\u00e2ncia que um homem n\u00e3o pode apontar em seu fantasma; entretanto, que ele leve em conta esse \u023a, \u00e9 o melhor que ele pode fazer por amor a uma mulher: aceitar que ela seja Outra, radicalmente estrangeira para ele, heterog\u00eanea ao fantasma que sustenta seu desejo de homem\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, o encontro com a diferen\u00e7a sexual anat\u00f4mica produz um efeito de subjetiva\u00e7\u00e3o particular para cada sujeito. Mas n\u00e3o se trata de ter ou n\u00e3o ter p\u00eanis, mas sim de a mulher ser n\u00e3o-toda f\u00e1lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se existe Outro radical, o propriamente\u00a0<i>hetero<\/i>\u00a0para ambos os sexos, inclusive esse gozo feminino que nem sequer se inscreve no significante, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 partenaire complementar. O inconsciente n\u00e3o sabe do feminino porque n\u00e3o est\u00e1 inscrito. Este impasse \u00e9 o que, por sua vez, permite as fic\u00e7\u00f5es ao redor do partenaire. O real como impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual, produz fic\u00e7\u00f5es pseudo-sexuais, ed\u00edpicas que servem como instrumentos para construir o fantasma e se alojam em um gozo. O fantasma, ao ser uma significa\u00e7\u00e3o cristalizada, garante a estabilidade com a que se sustenta uma realidade e \u00e9 desta maneira que se pode entend\u00ea-lo \u00abcomo trejeito do real\u00bb[5].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 impl\u00edcito na no\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>gender<\/i>\u00a0\u00e9 a possibilidade de atribuir uma palavra amo \u00e0s diferentes variedades de gozo, deixar de lado a diferen\u00e7a do bin\u00e1rio masculino e feminino e postular uma pluraliza\u00e7\u00e3o sob o significante\u00a0<i>g\u00eanero<\/i>, com a aspira\u00e7\u00e3o de encontrar uma identidade sexual \u00ablivremente determinada\u00bb, a salvo das influ\u00eancias culturais e sociais. Implica tamb\u00e9m, portanto, \u00abmudar de g\u00eanero\u00bb, para livrar-se do \u00ablastro\u00bb do real do gozo do corpo, sempre mais ou menos distante, extimo, estranho, inomin\u00e1vel. Precisamente, este \u00e9 o campo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os esfor\u00e7os nominalistas dos estudos de g\u00eanero por alcan\u00e7ar a chamada identidade s\u00e3o v\u00e3os no sentido de que a supracitada identidade n\u00e3o evita a divis\u00e3o do sujeito frente ao amor, o desejo e o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz Lacan, no Semin\u00e1rio 18,\u00a0<i>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/i>: \u00aba identidade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o o que acabo de expressar com estes termos, &#8216;homem&#8217; e &#8216;mulher&#8217;. \u00c9 claro que a quest\u00e3o do que surge precocemente s\u00f3 se coloca a partir de que, na idade adulta, \u00e9 pr\u00f3prio do destino dos seres falantes distribu\u00edrem-se entre homens e mulheres. Para compreender a \u00eanfase depositada nessas coisas, nesse caso, \u00e9 preciso nos darmos conta de que o que define o homem \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a mulher e vice-versa. Nada nos permite abstrair essas defini\u00e7\u00f5es do homem e da mulher da experi\u00eancia falante completa, inclusive nas institui\u00e7\u00f5es em que elas se expressam, a saber, no casamento\u00bb[6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia falante tem a ver com as conting\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao seu encontro com o gozo, e o Outro sexo, para al\u00e9m da anatomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abPara o menino, na idade adulta, trata-se de parecer-homem. \u00c9 isso que constitui a rela\u00e7\u00e3o com a outra parte. \u00c9 \u00e0 luz disso, que constitui uma rela\u00e7\u00e3o fundamental, que cabe interrogar tudo o que, no comportamento infantil, pode ser interpretado como orientando-se para esse parecer-homem. Desse parecer-homem, um dos correlatos essenciais \u00e9 dar sinal \u00e0 menina de que se o \u00e9. Em s\u00edntese, vemo-nos imediatamente colocados na dimens\u00e3o do semblante.\u00bb[7]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ordena esse jogo de semblantes \u00e9 o falo, o semblante por excel\u00eancia tanto para os meninos quanto para as meninas \u00abPara os homens, a menina \u00e9 o falo, e \u00e9 isso que os castra. Para as mulheres, o menino \u00e9 a mesma coisa, o falo, e ele \u00e9 tamb\u00e9m o que as castra, porque elas s\u00f3 adquirem um p\u00eanis, e isso \u00e9 falho. No come\u00e7o, nem o menino nem a menina correm riscos, a n\u00e3o ser pelos dramas que desencadeiam; por um momento eles s\u00e3o o falo.\u00bb[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo contr\u00e1rio, percebe-se que em muitos dos estudos culturais dedicados ao g\u00eanero a problem\u00e1tica sexual tende a diluir-se em discursos que outorgam prioridade aos direitos individuais ou a elabora\u00e7\u00f5es de \u00edndole social ou cultura. Como assinala M. Barros, o tratamento da quest\u00e3o sexual em termos de rela\u00e7\u00f5es de poder \u00e9, na realidade, um empuxo \u00ab\u00e0 desexualiza\u00e7\u00e3o do conflito\u00bb.[9]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de algo que, ao seu pr\u00f3prio modo, igualmente se colocam as teorias performativas de Judith Butler e Jean Copjec. A esse respeito diz Butler: \u00abGostaria de sugerir que em todos os debates relacionados com a prioridade te\u00f3rica da diferen\u00e7a sexual sobre o g\u00eanero, do g\u00eanero sobre a sexualidade ou da sexualidade sobre o g\u00eanero, subjaz outro tipo de problema, que \u00e9 o problema que coloca a diferen\u00e7a sexual, a saber, a permanente dificuldade de determinar onde come\u00e7a e onde termina o biol\u00f3gico, o ps\u00edquico, o discursivo e o social\u00bb[10].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou como diz J. Copjec: \u00abAs alternativas [entre] o sexo como subst\u00e2ncia\/o sexo como significa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as \u00fanicas poss\u00edveis? Se n\u00e3o for assim, que outra coisa pode ser o sexo? Ou existe um modo diferente de conceber a divis\u00e3o dos sujeitos em dois sexos que n\u00e3o responda a uma heterossexualidade normativa? A identidade sexual se constr\u00f3i da mesma maneira ou opera no mesmo n\u00edvel que a identidade racial de classe; ou a diferen\u00e7a sexual difere destes outros tipos de diferen\u00e7a?\u00bb[11]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se observa, ambas as autoras se perguntam pela quest\u00e3o real do sexo. Podemos assinalar, junto com M. Barros[12], que a face real do sexo \u00e9 o que n\u00e3o entra em nossos c\u00e1lculos e que o usa da palavra \u00abg\u00eanero\u00bb no lugar de \u00absexo\u00bb obedece a uma l\u00f3gica repressiva que pretende expulsar a diferen\u00e7a dos sexos, a mesma que nunca se apresenta ante o sujeito sem ang\u00fastia. \u00abA posi\u00e7\u00e3o subjetiva do &#8216;progressista&#8217; mostra certo puritanismo latente. O for\u00e7amento da palavra &#8216;g\u00eanero&#8217; expulsa o corpo e constitui o paradigma de um processo de neutraliza\u00e7\u00e3o e desexualiza\u00e7\u00e3o da linguagem. Instaura-se ent\u00e3o uma ret\u00f3rica descafeinada que substitui &#8216;negro&#8217; por &#8216;afro-americano&#8217; ou imp\u00f5e leis de cotas. Mas a diferen\u00e7a suprimida retorna da pior maneira atrav\u00e9s dos fen\u00f4menos de viol\u00eancia manifesta ou disfar\u00e7ada\u00bb[13].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate basicamente se op\u00f5e a distribui\u00e7\u00e3o de masculino e feminino para os sujeitos repartidos pelo significante f\u00e1lico. Deste \u00e2ngulo, como assinala novamente M. Barros, \u00abcabe estabelecer uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre sexua\u00e7\u00e3o e castra\u00e7\u00e3o (&#8230;) Zizek adverte que o verdadeiramente promovido [por tr\u00e1s da pluralidade sexual] \u00e9 o unissex (&#8230;) por\u00e9m antes de recorrer ao fetiche cultural da domina\u00e7\u00e3o masculina devemos considerar a perspectiva da aspira\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o-sexo, a um aqu\u00e9m da sexua\u00e7\u00e3o, a uma expuls\u00e3o decididamente forclusiva do &#8216;sexuante'\u00bb[14]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe a tend\u00eancia a sustentar que sem repress\u00e3o n\u00e3o haveria dificuldades na sexualidade, seria poss\u00edvel o encontro entre os sexos, harmonia dos gozos, entretanto \u00ab&#8230; a fun\u00e7\u00e3o das palavras amo \u00e9 tamb\u00e9m a de mortificar o gozo. Quando o S1 \u00e9 reprimido, a mortifica\u00e7\u00e3o do gozo-castra\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o opera. A consequ\u00eancia no n\u00edvel do corpo \u00e9 decisiva. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nenhum limite para a produ\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0mais de gozar. \u00c9 a explora\u00e7\u00e3o a morte. Porque o que est\u00e1 implicado n\u00e3o \u00e9 somente o ter sen\u00e3o tamb\u00e9m o ser. O sujeito, ao n\u00e3o estar identificado a nenhum amo em particular, est\u00e1 mais liberado da palmat\u00f3ria do amo absoluto\u00bb[15]. Como assinala Barros \u00ab[h\u00e1 ideais que regem nossa \u00e9poca] e s\u00e3o muito fortes. Podemos mencionar, entre outros, o ideal do direito \u00e0 felicidade, o da igualdade dos g\u00eaneros, o do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos sujeitos. Estes ideais podem constituir a condi\u00e7\u00e3o para a repress\u00e3o do sexual, ainda mais eficazmente que os da tradi\u00e7\u00e3o\u00bb[16].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a exig\u00eancia dos discursos de g\u00eanero: capturar com estes significantes os modos de gozo dos sujeitos \u00abnormalizando\u00bb suas escolhas como, por exemplo, com o chamado \u00abfalo l\u00e9sbico\u00bb[17]. O que se obt\u00e9m \u00e9 deixar de lado o corpo como sexuado, aspirando, desse modo, a suprimir o mal-estar do corpo e do gozo no\u00a0<i>falasser.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma sujeito que se declara l\u00e9sbica por achar \u00abasqueroso\u00bb o p\u00eanis, fato que, segundo considera, \u00e9 o \u00fanico impedimento que encontra para ter uma rela\u00e7\u00e3o com um homem \u2013 o que a impediu de ter suas primeiras experi\u00eancias sexuais com rapazes \u2013, acha que seu recha\u00e7o se deve ao temor de repetir o lugar passivo que a m\u00e3e tem em rela\u00e7\u00e3o ao seu pai. A escolha l\u00e9sbica fecha esta quest\u00e3o, mas n\u00e3o consegue obter prazer do corpo feminino e isso precisamente constitui o motivo da consulta. Segundo G. Morel: \u00abo fato de que haja duas inscri\u00e7\u00f5es a respeito da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica n\u00e3o contradiz a possibilidade de que um sujeito mantenha uma posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua no caso da neurose, ou que se invente uma sexua\u00e7\u00e3o in\u00e9dita e fora da norma, no caso da psicose\u00bb[18].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em junho deste ano, a CNN divulgou a hist\u00f3ria de um transexual peruano que depois de viver por mais de 28 meses, com reconhecimento legal e matrim\u00f4nio, agora solicita \u00e0s autoridades que lhe devolvam legalmente o nome e o sexo com que nasceu. Diz que ao escutar a mensagem da B\u00edblia, caiu desmaiado e ao despertar n\u00e3o se reconheceu como uma mulher. Passou por uma s\u00e9rie de cirurgias previamente autorizadas por m\u00e9dicos e psic\u00f3logos para voltar a ter aspecto masculino, e s\u00f3 lhe falta o reconhecimento legal. \u00c9 agora um pastor que prega a palavra de Deus e quer salvar os homossexuais e l\u00e9sbicas que ca\u00edram em pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na psicose, a falta de Nome do Pai, a identifica\u00e7\u00e3o do sujeito \u00ab\u00c0 mulher\u00bb, amarra o Simb\u00f3lico e o Imagin\u00e1rio, mas o Real fica solto. A demanda de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica busca amarrar o Real com os outros dois. Como observa C. Millot, o sintoma transexual funciona como uma tentativa de aliviar a aus\u00eancia de significante do Nome do Pai, na medida em que o transexual tende a encarnar A Mulher toda inteira, precisamente a que Lacan disse que n\u00e3o existe[19].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na apresenta\u00e7\u00e3o do tema do Congresso da AMP, disse Miller: \u00abO real inventado por Lacan n\u00e3o \u00e9 o real da ci\u00eancia. \u00c9 um real ao acaso, contingente, na medida em que falta a lei natural da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. \u00c9 um furo no saber inclu\u00eddo no real. Lacan utilizou a linguagem matem\u00e1tica que \u00e9 a mais favor\u00e1vel \u00e0 ci\u00eancia. Nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, por exemplo, procurou captar os impasses da sexualidade em uma trama l\u00f3gico-matem\u00e1tica. (&#8230;) [Por\u00e9m] isso \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria que interv\u00e9m depois do choque inicial do corpo com\u00a0<i>a lal\u00edngua<\/i>\u00a0que constitui um real sem lei, sem regra l\u00f3gica. A l\u00f3gica se introduz somente depois, com a elucubra\u00e7\u00e3o, a fantasia, o sujeito suposto saber e a psican\u00e1lise.\u00bb[20]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim se expressa H\u00e9l\u00e8ne Cixous: \u00abPredizer o que acontecer\u00e1 com a diferen\u00e7a sexual dentro de um tempo outro (dois ou trezentos anos?) \u00e9 imposs\u00edvel. Mas n\u00e3o h\u00e1 que enganar-se&#8230; n\u00e3o se pode seguir falando da mulher e do homem sem ficar presos nos adere\u00e7os de um cen\u00e1rio ideol\u00f3gico no qual a multiplica\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es, imagens, reflexos, mitos, identifica\u00e7\u00f5es, transforma, deforma, altera sem cessar o imagin\u00e1rio de cada um e, de antem\u00e3o, torna caduca toda conceitualiza\u00e7\u00e3o\u00bb[21].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A deriva sexual desse s\u00e9culo \u00e9 tomada pelo discurso de g\u00eanero assim como pela tecnologia cient\u00edfica, que sustenta uma diversidade sexuada baseada na gen\u00e9tica e\/ou na anatomia tratando de produzir um sujeito universaliz\u00e1vel. N\u00e3o podemos desconhecer o debate que est\u00e1 nos discursos de g\u00eanero, as mudan\u00e7as na ordem simb\u00f3lica, para al\u00e9m do que escutamos em nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica, onde os sujeitos homossexuais de alguma maneira se atribuem estes postulados que deixam de lado a divis\u00e3o que produz o encontro com o desejo, o gozo e o Outro sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescenta Miller na apresenta\u00e7\u00e3o do tema do nosso Congresso de 2014: \u00abPor\u00e9m, no s\u00e9culo XXI, cabe \u00e0 psican\u00e1lise explorar outra dimens\u00e3o: aquela da defesa contra o real sem lei e fora de sentido. Lacan indica essa dire\u00e7\u00e3o com sua no\u00e7\u00e3o do real tal como Freud o faz com o conceito m\u00edtico da puls\u00e3o\u00bb[22].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 saber no real. H\u00e1 uma const\u00e2ncia nessa variabilidade mesma que indica que n\u00e3o h\u00e1 um saber prescrito no real e que a conting\u00eancia decide o modo de gozo do sujeito. O real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, da incompatibilidade dos sexos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A orienta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel pela conting\u00eancia, uma aposta do ato anal\u00edtico que, via transfer\u00eancia, possa p\u00f4r ao trabalho em um analisante as sa\u00eddas sintom\u00e1ticas frente ao seu encontro singular com o \u00aberro comum\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliograf\u00eda<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 19, &#8230;ou pior<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012, p.17.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Barros, Marcelo.\u00a0<i>La condici\u00f3n Femenina<\/i>. Buenos Aires: Editorial Grama, 2011. p 58.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem, p. 77.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 20, Mais, ainda<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 80.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. Televis\u00e3o. Em:\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 511.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 18, De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 30-31.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem, p. 31<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem, p. 33.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Barros. Marcelo.\u00a0<i>Psicopatolog\u00eda: cl\u00ednica y \u00c9tica<\/i>. Fabi\u00e1n Schejtman (comp.). Buenos Aires: Editorial Grama, 2013, p.253.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Butler, J.\u00a0<i>Deshacer el g\u00e9nero<\/i>. Barcelona: Editorial Paid\u00f3s, 2006, p 262.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Copjec, J.\u00a0<i>Imaginemos que la mujer no existe<\/i>. Buenos Aires: Fondo de cultura Econ\u00f3mica, 2006.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Barros, M., op. cit, p. 252<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibidem, p. 257.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibidem, p. 258.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Aflalo, A.\u00a0<i>El Orden simb\u00f3lico en el siglo XXI<\/i>. Volumen de VIII Congreso de la AMP. Buenos Aires: Editorial Grama, 2012, p 270.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Barros, M. op. cit, p. 250.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Braidotti, R.\u00a0<i>Metamorfosis<\/i>. Madri: Ediciones Akal, 2005.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Morel, G.\u00a0<i>Ambig\u00fcedades sexuales:<\/i>\u00a0sexuaci\u00f3n y psicosis. Buenos Aires: Manantial, 2002.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Millot, C.\u00a0<i>Ensayo sobre transexualismo<\/i>. Barcelona: Ediciones Paradiso, 1984.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A.\u00a0<i>O real no s\u00e9culo XXI. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. n. 63. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Cixous, H<i>. La risa de Medusa<\/i>. Barcelona: Anthropos Editorial, 2001, p 19.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller,\u00a0<i>Idem.<\/i><\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[168],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1090"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1091,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1090\/revisions\/1091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}