{"id":1094,"date":"2021-08-18T20:20:30","date_gmt":"2021-08-18T23:20:30","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1094"},"modified":"2021-08-18T20:20:30","modified_gmt":"2021-08-18T23:20:30","slug":"oscar-reymundo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/oscar-reymundo-2\/","title":{"rendered":"Oscar Reymundo"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Corpo, \u00abg\u00eanero\u00bb e sexua\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A expans\u00e3o do discurso de g\u00eanero, solid\u00e1rio com o nominalismo relativista, politicamente correto e progressista, n\u00e3o passa despercebida, n\u00e3o ao menos no Brasil, onde a influ\u00eancia da academia norte-americana no campo das humanidades \u00e9 de muito peso e est\u00e1 em toda parte: Psicologia, Sociologia, Letras, Direito, Antropologia. Perante este panorama n\u00e3o s\u00e3o poucos os esfor\u00e7os da psican\u00e1lise da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana para poder estar \u00e0 altura das quest\u00f5es colocadas pelo discurso de g\u00eanero, uma vez que essa \u00abmilit\u00e2ncia\u00bb j\u00e1 tem entrado nos consult\u00f3rios e constitui um desafio perante o qual n\u00e3o devemos recuar no trabalho de dotar \u00e0 nossa cl\u00ednica de um apoio real. O que significa este empenho militante atual, fundamentalmente feminino, de n\u00e3o querer saber sobre a diferen\u00e7a sexual? Um modo de nada querer saber da mulher como o Outro? Que oportunidade tem um psicanalista perante um sujeito declaradamente contempor\u00e2neo e partid\u00e1rio da democracia sexual que sustenta a diversidade dos sexos como uma teoria da qual se desprende uma pol\u00edtica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na psican\u00e1lise a pol\u00edtica que lhe \u00e9 pr\u00f3pria surgiu da interpreta\u00e7\u00e3o que Freud elaborou sobre o sintoma enquanto uma solu\u00e7\u00e3o que, com Lacan, aprendemos a situar como uma solu\u00e7\u00e3o perante o real da inexist\u00eancia de uma propor\u00e7\u00e3o entre os sexos. \u00c9 dessa pol\u00edtica que se desprende uma teoria sobre a sexualidade como uma opera\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, como uma elucubra\u00e7\u00e3o em cima do real da diferen\u00e7a sexual. Quer dizer, uma teoria da sexualidade formulada em termos de posi\u00e7\u00f5es sexuadas, masculina e feminina, que n\u00e3o se esgotam nas identifica\u00e7\u00f5es ed\u00edpicas, uma vez que o \u00c9dipo freudiano aborda a posi\u00e7\u00e3o sexuada inconsciente s\u00f3 na dimens\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es. Trata-se, ent\u00e3o, de uma teoria que nos permite pensar o masculino e o feminino como posi\u00e7\u00f5es de gozo para al\u00e9m das figuras de homem ou de mulher, para al\u00e9m destas identidades de g\u00eanero. Em outras palavras, para a psican\u00e1lise, a diferen\u00e7a sexual, a diferen\u00e7a das posi\u00e7\u00f5es sexuadas, n\u00e3o se elucida pela via das identidades de g\u00eanero. Se de um lado, a sexua\u00e7\u00e3o p\u00f5e necessariamente em jogo as identifica\u00e7\u00f5es, por outro lado, tem algo na sexua\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se pode reduzir \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e nem pode ser reduzido por ela como sustentam os partid\u00e1rios da teoria de g\u00eanero. A sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 resiste \u00e0 identidade, ela tamb\u00e9m resiste \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o.Nesse sentido, a afirma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica acerca da inexist\u00eancia de um saber sobre o que seja o homem e sobre o que seja a mulher significa, precisamente, que esses significantes \u2013 homem e mulher \u2013, adquirem diferentes significados segundo a \u00e9poca porque s\u00e3o identidades discursivamente produzidas que n\u00e3o absorvem o fato estabelecido pela psican\u00e1lise lacaniana de que a diferen\u00e7a entre os sexos \u00e9 real, irredut\u00edvel e n\u00e3o tem propor\u00e7\u00e3o alguma. Em outras palavras, a experi\u00eancia psicanal\u00edtica concebe a diferen\u00e7a entre os sexos de um modo diferente dos referenciais da civiliza\u00e7\u00e3o que tratam esta diferen\u00e7a segundo a perspectiva dos semblantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo da sexua\u00e7\u00e3o se define a partir da experi\u00eancia de gozo no corpo e de uma perda irrevers\u00edvel que inscreve neste campo um novo bin\u00e1rio que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o tradicional bin\u00e1rio homem-mulher. Trata-se, desta vez, de um bin\u00e1rio, poder\u00edamos dizer lacaniano, que n\u00e3o admite comuta\u00e7\u00e3o significante. Assim, com Lacan se abrem duas vias para pensar a diferen\u00e7a sexual a partir do gozo. N\u00e3o se trata aqui de dois significantes, mas de um s\u00f3, o significante f\u00e1lico e seu al\u00e9m, isto \u00e9, o significante f\u00e1lico e uma opera\u00e7\u00e3o que ultrapassa este significante e que, portanto, o implica. Uma nova l\u00f3gica que assinala que mesmo havendo a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica para ambos os sexos, nem tudo \u00e9 f\u00e1lico. Temos, ent\u00e3o, independentemente do sexo biol\u00f3gico e da identifica\u00e7\u00e3o, um ser falante que se constitui em rela\u00e7\u00e3o com o limite que demarca o significante f\u00e1lico, e um ser falante que n\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o essencial, estrutural, com esse limite, portanto, trata-se aqui de um ser cuja rela\u00e7\u00e3o com o limite \u00e9 da ordem da conting\u00eancia, assim como o amor, que \u00e9 tamb\u00e9m contingencial. A essa posi\u00e7\u00e3o de gozo estruturalmente relacionada com o limite chamamos de posi\u00e7\u00e3o masculina, enquanto que a posi\u00e7\u00e3o de gozo relacionada contingencialmente com o limite, assim como \u00e9 o encontro com o amor, chamamos de posi\u00e7\u00e3o feminina. Se do lado masculino o limite \u00e9 de estrutura, do lado feminino o limite \u00e9 dado pelo amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto acho fundamental repararmos que com Lacan j\u00e1 n\u00e3o temos a possibilidade de substituir os tradicionais significantes pelos significantes que ele elaborou, uma vez que posi\u00e7\u00e3o masculina de gozo n\u00e3o equivale ao homem, nem posi\u00e7\u00e3o feminina de gozo equivale \u00e0 mulher. Quer dizer que um homem pode situar-se no lado direito das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, assim como uma mulher pode situar-se no lado esquerdo destas f\u00f3rmulas. Contudo, n\u00e3o \u00e9 o mesmo estar de um lado ou do outro das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o com um corpo ou com outro, isto ter\u00e1 consequ\u00eancias cl\u00ednicas diferentes. J\u00e9sus Santiago, no seu trabalho \u00abA plasticidade da sexua\u00e7\u00e3o feminina\u00bb, destaca o teor pl\u00e1stico da sexua\u00e7\u00e3o, uma vez que esta implica um tr\u00e2nsito de um sujeito fantasm\u00e1tico, tanto para o lado masculino como para o feminino. N\u00e3o se trataria, ent\u00e3o, de um bin\u00e1rio de \u00abfixa\u00e7\u00e3o est\u00e1tica\u00bb, e esta caracter\u00edstica rompe com a possibilidade de correlacionar, de maneira inequ\u00edvoca, os g\u00eaneros aos modos de gozo formulados por Lacan. Assim, a plasticidade da sexua\u00e7\u00e3o se destaca na experi\u00eancia m\u00edstica de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, exemplo lacaniano do gozo feminino, fazendo com que esta experi\u00eancia se aproxime, retomando um assinalamento ir\u00f4nico de Heloisa Caldas, de \u00abum transexualismo bem sucedido\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o t\u00edtulo \u00abA ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 mais o que era\u00bb, no ano passado realizou-se o VIII Congresso da AMP onde, desde diversas perspectivas, foi situado o que na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana chamamos de\u00a0<i>feminiza\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo<\/i>\u00a0como efeito do decl\u00ednio da ordem simb\u00f3lica e o consequente avan\u00e7o do real sem lei. No curso \u00abEl Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica\u00bb, J.-A. Miller destaca a materializa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de uma estranha alteridade, e seu avan\u00e7o, presente nas rela\u00e7\u00f5es atuais do sujeito com o mundo. Trata-se de uma nova parceria do sujeito, de uma nova alian\u00e7a, efeito da generaliza\u00e7\u00e3o de um regime de gozo n\u00e3o-todo, situado nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o do lado direito, e que, vinculado ao real do feminino, assinala um gozo ligado \u00e0 suspens\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o, portanto, al\u00e9m de qualquer identifica\u00e7\u00e3o fundada em um tra\u00e7o significante. E aqui nos deparamos novamente com a subvers\u00e3o l\u00f3gica que Lacan introduziu porque ai onde n\u00e3o h\u00e1 a exce\u00e7\u00e3o, em lugar de \u00abn\u00e3o haver o Todo\u00bb do conjunto, h\u00e1 o \u00abn\u00e3o-todo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos efeitos do avan\u00e7o na cultura desse decl\u00ednio da exce\u00e7\u00e3o pode ser localizado no fato de nos depararmos com formas cl\u00ednicas que n\u00e3o s\u00e3o mais aquelas dos tempos freudianos, quando o Pai consistia. Estamos, ent\u00e3o, perante o desafio de atualizarmos nossa pr\u00e1tica conforme novas coordenadas que decorrem dos efeitos da perda de consist\u00eancia dos semblantes tradicionais, aqueles que participavam da velha ordem e que hoje vemos debilitar-se diante do avan\u00e7o da alian\u00e7a ci\u00eancia-capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos o exemplo da indecis\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade sexual e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de gozo como um sintoma contempor\u00e2neo apresentado por jovens, aparentemente neur\u00f3ticos, de ambos os sexos que \u00e0s vezes chegam aos nossos consult\u00f3rios depois de terem experimentado dolorosas experi\u00eancias de fracasso nas suas tentativas de definir sua sexualidade atrav\u00e9s de passagens ao ato heterossexuais e\/ou homossexuais. Tal \u00e9 o caso de Carla, 20 anos, que chegou \u00e0 primeira entrevista dizendo que depois de ter feito dois anos de uma terapia e de ter se \u00abentupido de rem\u00e9dio\u00bb continuava se \u00abmetendo em encrencas sexuais\u00bb; e diz que aceitou consultar um analista por insist\u00eancia de uma professora em quem ela confia muito. Militante que sustenta um discurso articulado sobre a igualdade dos sexos, ao longo de algumas entrevistas sua reivindica\u00e7\u00e3o do direito a n\u00e3o defini\u00e7\u00e3o sexual e sua cr\u00edtica a toda \u00abestabiliza\u00e7\u00e3o que limite o campo das diversidades sexuais\u00bb foram dando lugar a uma fala sobre o \u00abconfusa e sem rumo\u00bb que \u00e9 sua vida sexual, sobre o mal-estar perante o n\u00e3o saber se gosta de homem ou de mulher e sobre ter se dado conta de que nunca teve nem um namorado nem uma namorada, que ela sempre teve \u00abv\u00e1rios ficantes\u00bb, mas que \u00abtem vezes em que essa liberdade \u00e9 uma deriva muito angustiante\u00bb; e \u00e0 continua\u00e7\u00e3o acrescenta que, at\u00e9 esse momento, n\u00e3o tinha se dado conta de que \u00abficante deixa o sexo indiferenciado. Pode ser qualquer coisa\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro campo, como efeito da feminiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e das diversas formas que a foraclus\u00e3o do Nome do Pai pode assumir no campo da sexualidade, nos deparamos, hoje, com o fen\u00f4meno do transexualismo que, em muitos casos, longe est\u00e1 de apresentar as caracter\u00edsticas do del\u00edrio de um Schreber quem, mesmo sem ter se submetido a uma opera\u00e7\u00e3o de \u00abmudan\u00e7a de sexo\u00bb, sentiu seu corpo transformar-se em corpo de mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2009, uma jovem mulher, a quem chamarei Nanci, me procurou porque estando prestes a se submeter a uma \u00abopera\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de sexo\u00bb, queria, segundo suas palavras, \u00abaquietar uns pensamentos angustiantes\u00bb que a invadiam. \u00abJ\u00e1 tenho marcada a data da opera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o quero come\u00e7ar a nova vida com esta ang\u00fastia que me tira o sono e os sonhos\u00bb. Aos 19 anos come\u00e7ou a freq\u00fcentar o movimento GLBT, decidira \u00abassumir definitivamente a identidade feminina\u00bb e adotou o nome de mulher. Ainda crian\u00e7a experimentara \u00abum sentimento de estranheza\u00bb quando se dirigiam a ela tratando-a como menino. \u00abDesde crian\u00e7a j\u00e1 tive a certeza de ter nascido em um corpo errado\u00bb. Nanci justifica sua milit\u00e2ncia no movimento GLBT e sua ativa participa\u00e7\u00e3o em um N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero dizendo que n\u00e3o quer esquecer o que ela passou porque \u00abessas lembran\u00e7as do que foi minha vida me d\u00e3o for\u00e7a para ajudar para que outras meninas tenham seu lugar na vida\u00bb. Com 17 anos achou que tinha encontrado a solu\u00e7\u00e3o para sair da casa paterna. Foi quando come\u00e7ou a namorar um homem por quem se apaixonou porque ele o tratava \u00abcom a ternura e a delicadeza que uma mulher deve ser tratada\u00bb, mas chegou uma hora em que a rela\u00e7\u00e3o se tornou insuport\u00e1vel porque o namorado come\u00e7ou a questionar que aquele adolescente tivesse trejeitos efeminados e se comportasse na cama como uma mulher quando se tratava de um rapaz gay. \u00abEle me pedia para eu fazer coisas insuport\u00e1veis para mim. Eu pedia para ele parar, mas ele insistia. Era uma loucura\u00bb. \u00abTudo com ele se tornou muito angustiante e confuso. Insuport\u00e1vel\u00bb. Em \u00abAmbig\u00fcidades sexuais\u00bb, Genevi\u00e8ve Morel diz do imposs\u00edvel, para o sujeito transexual, de suportar simbolicamente o gozo do \u00f3rg\u00e3o, isto \u00e9, do imposs\u00edvel de inventar uma constru\u00e7\u00e3o que permita interpretar esse gozo. Da\u00ed a conclus\u00e3o de que extirpando essa zona er\u00f3gena eliminaria a fonte da ang\u00fastia. Para o sujeito transexual, p\u00eanis, vagina, homem, mulher, n\u00e3o s\u00e3o, segundo sup\u00f5e o discurso da comunidade, significados do significante f\u00e1lico. Nesse sentido, a crian\u00e7a que Nanci foi rejeitou o gozo f\u00e1lico e assim, os ditos dos adultos que interpretaram a diferen\u00e7a anat\u00f4mica segundo crit\u00e9rios f\u00e1licos, isto \u00e9, menino ou menina com os atributos f\u00e1licos de cada um, ficaram sem valor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois dessa separa\u00e7\u00e3o Nanci disse que \u00abo mundo desabou, fiquei na rua, tentei suic\u00eddio, mas minha irm\u00e3 me salvou\u00bb. Foi morar, ent\u00e3o, com a irm\u00e3 mais velha, esp\u00edrita, m\u00e9dium, quem, provavelmente sem sab\u00ea-lo, introduziu o irm\u00e3o adolescente no discurso do g\u00eanero na medida em que lhe apresentou as raz\u00f5es de sua certeza sexual \u2013 a de ser mulher \u2013, em termos de um esp\u00edrito de mulher que habita um corpo masculino. Foi nessa \u00e9poca quando pensou, pela primeira vez, em fazer a opera\u00e7\u00e3o para ter uma vagina para sentir-se \u00abmelhor com o corpo e acabar com essa confus\u00e3o com os homens\u00bb. Mudar de \u00f3rg\u00e3o se constitui, ent\u00e3o, na condi\u00e7\u00e3o para se desfazer do erro do discurso sexual,\u00a0<i>erro comum<\/i>\u00a0chamou Lacan, que consiste em transformar o significado do gozo em significante amo, sob o qual a crian\u00e7a deve escolher ou n\u00e3o inscrever-se[1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abNunca me senti um homem, nem um gay. Tenho muitos amigos gays, mas a praia deles \u00e9 outra. Eu sou uma mulher presa em um corpo de homem e sei que somos muitas as que vivemos este drama. Eu n\u00e3o sou a \u00fanica\u00bb. Com 23 anos Nanci fez uma primeira interven\u00e7\u00e3o no corpo para implante de seios e uma pl\u00e1stica \u00abpara ter um rosto mais feminino\u00bb, mas ela disse que n\u00e3o foi suficiente. \u00abMeu corpo tem algo que eu n\u00e3o sinto como meu apesar do que os outros digam, mas gra\u00e7as a Deus, hoje, se pode dar um jeito nisso\u00bb. O sujeito transexual recha\u00e7a o discurso dos outros exatamente no ponto em que este discurso interpreta o \u00f3rg\u00e3o de modo exclusivamente f\u00e1lico. Assim, para Nanci, ter um p\u00eanis n\u00e3o significa ter o falo \u00abapesar do que os outros digam\u00bb, portanto, eliminando o \u00f3rg\u00e3o tamb\u00e9m se elimina o erro que os outros insistem em cometer. Nesse sentido, ela se mostra decidida quando diz que \u00abJ\u00e1 me senti uma aberra\u00e7\u00e3o, mas isso acabou\u00bb, e marca as s\u00edlabas da palavra &#8216;acabou&#8217;, como que colocando um limite perante qualquer possibilidade de questionamento de sua certeza. Estas foram as raz\u00f5es que Nanci deu para sua decis\u00e3o de se submeter \u00e0 cirurgia que corrigiria esse \u00aberro de nascen\u00e7a\u00bb, como ela disse. Contudo, \u00abalguns pensamentos n\u00e3o se aquietam e n\u00e3o saem da cabe\u00e7a\u00bb, e tem se tornado mais insistentes desde que uma amiga, que j\u00e1 se submetera a uma opera\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de sexo, se suicidara algumas semanas antes da primeira entrevista. Segundo Nanci, o suic\u00eddio teria sido motivado pelo fato do namorado da amiga ter acabado o relacionamento assim que ele soube que ela era transexual. \u00abAcreditei que ele a amasse e a aceitasse como mulher\u00bb. Quando Nanci perguntou para a amiga por que ela tinha contado sobre a opera\u00e7\u00e3o, esta lhe disse algo que Nanci manifestou nunca antes ter pensado: \u00abEle falou numa mulher para casar. Eu n\u00e3o podia mentir\u00bb. Uma melancolia inevitavelmente desencadeada, neste caso, a partir da perda do amor, como assinala G. Morel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abPara n\u00e3o enlouquecer aprendi a pensar que a gente tem direito de ter o corpo que deve ter para se sentir \u00e0 vontade com ele e ningu\u00e9m tem nada com isso\u00bb. \u00abVirei uma militante do movimento GLBT porque h\u00e1 muita coisa para mudar neste pa\u00eds\u00bb. \u00abEncontrei um lugar no mundo e na minha fam\u00edlia, mas eu nunca tinha pensado no amor e nos segredos\u00bb. E a partir desse momento, vendo desabar a certeza de que a opera\u00e7\u00e3o seria uma garantia de felicidade e amor, Nanci foi invadida por pensamentos e por perguntas que a angustiam e lhe tiram o sono. \u00abSer\u00e1 que eu vou encontrar um homem que me ame e me aceite como mulher?\u00bb. \u00abVou ter que omitir uma parte da minha historia para ele me enxergar como uma mulher?\u00bb. Interrogada pelo analista acerca da possibilidade de adiar a data da opera\u00e7\u00e3o e assim ter tempo para melhor situar a quest\u00e3o do amor e os segredos, Nanci recusou essa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante as entrevistas e mesmo ela se achando \u00abmuito mais feminina do que muitas mulheres que nasceram num corpo de mulher\u00bb em nenhum momento Nanci se posicionou como A Feminina que falta \u00e0 esp\u00e9cie masculina. Os pensamentos e as perguntas que inquietavam Nanci, e sobre os quais ela trabalhou durante aquelas semanas, n\u00e3o me parecem estar relacionados com nenhuma certeza erot\u00f4mana em termos de ser amada pelo Homem. Ao contr\u00e1rio, o acontecido com a amiga lhe fez pensar, pela primeira vez, que ela podia vir a n\u00e3o ser aceita nem amada por um homem pela sua condi\u00e7\u00e3o transexual,e esta incerteza tampouco encontraria solu\u00e7\u00e3o em uma lei de identidade de g\u00eanero porque, ainda no caso de ela poder inscrever sua cidadania com nome de mulher e com sexo feminino, sua quest\u00e3o era \u00abser aceita com sua hist\u00f3ria por um homem que a amasse\u00bb e sua historia falava de um \u00aberro de nascen\u00e7a\u00bb que iria ser corrigido cirurgicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em uma das \u00faltimas entrevistas Nanci disse que \u00abter nascido com p\u00eanis n\u00e3o quero que se torne uma condena\u00bb e acrescentou que ela sabe que \u00aba vagina n\u00e3o faz \u00e0 mulher porque os sentimentos de uma mulher n\u00e3o est\u00e3o na vagina\u00bb. \u00abSer mulher \u00e9 uma quest\u00e3o de esp\u00edrito e nem sempre o corpo acompanha, mas com a medicina de hoje, n\u00e3o faz quem n\u00e3o quer\u00bb. Parece evidente que Nanci apostou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica, via \u00aba medicina de hoje\u00bb, de um corpo adequado \u00e0 sua identidade sexual feminina por fora da sexua\u00e7\u00e3o e sua plasticidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o de realizar a opera\u00e7\u00e3o de \u00abmudan\u00e7a de sexo\u00bb n\u00e3o vacilou ao longo daquelas quatorze entrevistas, mas parece ter havido um tempo para compreender que a \u00abmudan\u00e7a de sexo\u00bb n\u00e3o traria consigo a realiza\u00e7\u00e3o de nenhum sonho de felicidade prometido pela medicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima entrevista Nanci disse estar agradecida pelo trabalho porque sem o peso da ang\u00fastia ela se sentia \u00abem melhores condi\u00e7\u00f5es para enfrentar um anova vida que terei que criar aos poucos\u00bb. Ela disse tamb\u00e9m que voltara a dormir e a sonhar e que nesses dias tinha organizado uma reuni\u00e3o com as irm\u00e3s para novamente assistir \u00abPriscila. A Rainha do deserto\u00bb. \u00abVi outro filme\u00bb. \u00abEu n\u00e3o vou morrer se n\u00e3o achar o homem que me ame, mas seria triste porque sem amor uma mulher fica azeda e murcha. Eu vejo isso na minha fam\u00edlia e em muitas mulheres e n\u00e3o quero isso para mim\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos pensar que sua decis\u00e3o de encontrar-se com um psicanalista possibilitou, em Nanci, as condi\u00e7\u00f5es para abrir um momento de compreender que lhe permitiu ponderar sobre as consequ\u00eancias de sua decis\u00e3o desde outra perspectiva que n\u00e3o a da garantia do amor? Outra perspectiva que permitiu colocar um limite a essa ang\u00fastia que lhe tirava o sono e os sonhos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, acredito que sim, que ela viu no mesmo filme, outro filme. Essa foi a \u00faltima vez que encontrei Nanci. Tempo depois soube por uma das integrantes do N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero que ela se operou, mora em outra cidade, trabalha e que continua na milit\u00e2ncia GLBT.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliografia consultada<\/b><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>BENETI, Ant\u00f4nio. Qual \u00e9 o seu sexo? Em:\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. n. 65. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, abril de 2013.<\/li>\n<li>BERENGUER, Enric. Sexuaci\u00f3n: la no identidad del sexo. Em:\u00a0<i>Colof\u00f3n<\/i>. n.22. Buenos Aires, novembro de 2002.<\/li>\n<li>CALDAS, Heloisa. O bin\u00e1rio lacaniano. Em:\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. n. 65. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, abril de 2013.<\/li>\n<li>DAFUNCHIO, Nieves, Confines de las psicosis. Teor\u00eda y Pr\u00e1ctica. Buenos Aires: Del Bucle, 2008.<\/li>\n<li>LACAN, Jacques.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/li>\n<li>LACAN, Jacques.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.<\/li>\n<li>MILLER, Jacques-Alain (con participaci\u00f3n de E. Laurent).<i>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/i>\u00a0(1996-97). Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/li>\n<li>MOREL, Genevi\u00e8ve.\u00a0<i>Ambig\u00fcedades sexuales:<\/i>sexuaci\u00f3n y psicosis. Buenos Aires, Manantial, 2002.<\/li>\n<li>SANTIAGO, J\u00e9sus. A plasticidade da sexua\u00e7\u00e3o feminina. Em:\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. n. 65. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, abril de 2013.<\/li>\n<li>SINATRA, Ernesto.\u00a0<i>@s nov@sadit@s: a implos\u00e3o do g\u00eanero na feminiza\u00e7\u00e3o do mundo<\/i>. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie, 2013.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">No cap\u00edtulo V de \u00abAmbig\u00fcedades sexuales\u00bb, G. Morel fala sobre os tr\u00eas tempos da sexua\u00e7\u00e3o e situa o transexualismo no segundo tempo, isto \u00e9, no tempo do discurso sexual e o do \u00aberro comum\u00bb que consiste em aplicar falsamente o universal ao particular.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[168],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1094"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1095,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1094\/revisions\/1095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}