{"id":1099,"date":"2021-08-18T20:22:14","date_gmt":"2021-08-18T23:22:14","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1099"},"modified":"2021-08-18T20:22:14","modified_gmt":"2021-08-18T23:22:14","slug":"adriana-luka-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/adriana-luka-2\/","title":{"rendered":"Adriana Luka"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Membros do grupo:<\/b>\u00a0Luc\u00eda Blanco, Ana Mar\u00eda Zambianchi, Nestor Yellati, Kuky Mildiner, Marisa Moretto, Karen Edelsztein, Paula Husni e Gabriela Trive\u00f1o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Transexualismo<\/span><br \/>\nO que \u00e9 um homem? O que \u00e9 uma mulher? s\u00e3o perguntas de Lacan que orientam esse trabalho sobre transexualismo em que corpo e g\u00eanero s\u00e3o colocados em debate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As quest\u00f5es de sexo e g\u00eanero, intimamente relacionadas, encontram respostas em distintas disciplinas, entre elas: a antropologia, a filosofia, a sociologia, etc., nas quais o cultural tem um valor predominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento feminista que j\u00e1 existe h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, p\u00f4s tanto no debate te\u00f3rico quanto no pr\u00e1tico, a quest\u00e3o de que ser homem ou ser mulher \u00e9 fruto de uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural e n\u00e3o de uma determina\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psiquiatria, a partir dos DSM e do CID-10, ocupou-se do tema do transexualismo localizando-o dentro dos transtornos sexuais e da identidade sexual e, recentemente, como \u00abdisforia de g\u00eanero\u00bb no questionado DSM V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista jur\u00eddico, a Lei da identidade de g\u00eanero sancionada em nosso pa\u00eds [Argentina] em 09\/05\/2012, abre um novo debate j\u00e1 que por ela se reconhece o direito \u00e0 identidade de g\u00eanero que pode envolver a modifica\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia corporal ou funcional atrav\u00e9s de m\u00e9todos farmacol\u00f3gicos e\/ou cir\u00fargicos sempre que estes sejam livremente solicitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise n\u00e3o pode manter-se alheia e deve colocar sua posi\u00e7\u00e3o a respeito das abordagens atuais de corpo e g\u00eanero que come\u00e7o a desdobrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo g\u00eanero surge nos EUA em 1955 gra\u00e7as a John Money, psic\u00f3logo e sex\u00f3logo investigador da identidade sexual para quem este termo define o masculino e o feminino a partir do cultural e n\u00e3o das diferen\u00e7as biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos estudos sobre g\u00eanero existem duas posi\u00e7\u00f5es: uma delas dos\u00a0<i>essencialistas<\/i>\u00a0que sustenta que o sexo n\u00e3o tem a ver com o social e outra dos\u00a0<i>construtivistas<\/i>\u00a0para quem o g\u00eanero e o sexo t\u00eam uma origem exclusivamente social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Julieta Vartabedian<\/b>, doutora em Antropologia Social e Cultural, em um interessante artigo parte da considera\u00e7\u00e3o de que o modelo sexual ocidental se fundamenta sobre premissas naturais dividindo os sexos em dois: com sua correspondente identidade como homem e como mulher. Esta dicotomia se v\u00ea quebrada pela presen\u00e7a de identidades portadoras de corpos que excedem a divis\u00e3o natural, entre eles a transexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu trabalho se baseia em um estudo sobre a transexualidade feminina, conhecida na medicina com as siglas\u00a0<b>H a M<\/b>, ou seja, pessoas que realizaram algum tipo de mudan\u00e7a corporal para identificar-se com o g\u00eanero feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sustenta que, dentro da teoria social, se deixou de considerar o corpo como biol\u00f3gico e que h\u00e1 duas orienta\u00e7\u00f5es: a que considera o corpo como simb\u00f3lico, sustentada pelos te\u00f3ricos que se centram na natureza simb\u00f3lica ou representacional do corpo como elemento portador de significado social. Estes tomam o corpo como um texto que pode ser lido como um s\u00edmbolo do mundo social onde habita. Entre esses te\u00f3ricos est\u00e3o\u00a0<i>Mary Douglas<\/i>\u00a0(1973) para quem o corpo representa os significados das met\u00e1foras sociais; Foucault, que em seu livro \u00abVigiar e Punir\u00bb toma o corpo como um texto onde se podem ler as rela\u00e7\u00f5es de poder que se inscreveram nele enfatizando o sistema discursivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra linha te\u00f3rica considera o corpo como agente, isto \u00e9, um corpo como ativo no mundo social. Um de seus representantes \u00e9\u00a0<i>Merleau Ponty<\/i>\u00a0para quem o corpo \u00e9 ve\u00edculo do ser no mundo, percebe-se o mundo com o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vartadebian sustenta que a mudan\u00e7a f\u00edsica do chamado processo transexual se efetua sobre o corpo como espelho das constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dos anos noventa dentro das ci\u00eancias sociais, h\u00e1 uma tend\u00eancia de superar as posi\u00e7\u00f5es radicais cujo fim \u00e9 articular a materialidade do corpo com as constru\u00e7\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Insiste na necessidade de falar sobre a materialidade do corpo no pensamento feminista j\u00e1 que, embora existam horm\u00f4nios, \u00fateros, genes que diferenciam o macho da f\u00eamea, a mat\u00e9ria est\u00e1 sedimentada nos discursos sobre o sexo e a sexualidade que prefiguram e restringem os usos sobre o termo, ou seja, que o corpo \u00e9 um sistema que produz e \u00e9 produzido por significados sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O g\u00eanero se inscreve diretamente sobre o corpo da pessoa, a legitimidade do mesmo deriva da inscri\u00e7\u00e3o no corpo das marcas culturais da masculinidade ou feminilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem transexuais que n\u00e3o querem passar ao sexo oposto e buscam romper com o sistema dicot\u00f4mico tanto do sexo como do g\u00eanero; s\u00e3o os chamados transg\u00eaneros que s\u00e3o todos os que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com seu g\u00eanero. Surgem no contexto norte-americano para enfrentar a autoridade m\u00e9dica frente \u00e0 transexualidade. Eles tentam abolir a dicotomia dos g\u00eaneros e, inclusive, a categoria mesma de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora sustenta que a condi\u00e7\u00e3o homem, mulher, transexual n\u00e3o est\u00e3o inscrita s\u00f3 no corpo, a modifica\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio se realiza atrav\u00e9s das vestimentas, as maquiagens, etc. As transexuais podem com isto representar e atuar certa no\u00e7\u00e3o de mulher (como imagem), apesar das distintas interpreta\u00e7\u00f5es que se fa\u00e7am deste conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente ao que se chama de materialidade do corpo, corpo carnal, n\u00f3s falamos de um corpo vivente, um corpo que goza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Judith Butler<\/b>, te\u00f3rica das quest\u00f5es de g\u00eanero, em seu livro\u00a0<i>Corpos que importam<\/i>, retoma o conceito de identidade sexual introduzido por Stoller em 1968 e assinala a diferen\u00e7a entre os dados biol\u00f3gicos e os psico-sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Butler questiona as feministas e considera que se equivocam ao sustentar que as mulheres s\u00e3o um grupo de caracter\u00edsticas e interesses em comum j\u00e1 que esta posi\u00e7\u00e3o refor\u00e7a o ponto de vista bin\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eaneros em homens e mulheres. Sustenta que o g\u00eanero, mais do que um atributo fixo em uma pessoa, \u00e9 uma vari\u00e1vel fluida que muda e varia segundo os contextos e em diferentes momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz no pref\u00e1cio: \u00abO instante em que nossas percep\u00e7\u00f5es culturais habituais falham quando n\u00e3o conseguimos interpretar com seguran\u00e7a o corpo que estamos vendo, \u00e9 justamente o momento em que n\u00e3o estamos seguros de que o corpo observado seja de um homem ou uma mulher. A vacila\u00e7\u00e3o mesma entre as categorias constituem a experi\u00eancia do corpo em quest\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prop\u00f5e colocar em quest\u00e3o o t\u00eanue da realidade de g\u00eanero para contrapor a viol\u00eancia que exercem as normas de g\u00eanero como, por exemplo, o travestismo, como aquilo que estabelece que a realidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o r\u00edgida quanto cremos; e a respeito do transexualismo diz que n\u00e3o se pode emitir um ju\u00edzo acerca de sua anatomia pela roupa que veste, e articula o corpo, j\u00e1 que este corpo pode ser pr\u00e9-operat\u00f3rio, transicional ou p\u00f3s-operat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloca a \u00eanfase em estender a legitimidade dos corpos naqueles vistos como falsos, irreais e inintelig\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Critica os nomes de homem e mulher tal como foram transmitidos pela tradi\u00e7\u00e3o e pela cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Entre as psicanalistas militantes desta postura tradicional, est\u00e1 Jessica Benjamim que, nos diz\u00a0<b>\u00c9ric Laurent\u00a0<\/b>em\u00a0<i>Piezas sueltas<\/i>, p\u00f5e o acento sobre as identifica\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas da crian\u00e7a e destaca a import\u00e2ncia do dom\u00ednio pr\u00e9-ed\u00edpico, um modo de retomar a \u00abpervers\u00e3o polimorfa\u00bb. O ed\u00edpico seria o que designa a identidade sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent destaca nesta aula a import\u00e2ncia que adquire a fun\u00e7\u00e3o paterna para interrogar o questionamento da identidade sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a reescritura da met\u00e1fora paterna em fun\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas, Lacan nomeia a ess\u00eancia da sexualidade, a saber, a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o significante entre os sexos e a castra\u00e7\u00e3o generalizada em forma de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexualidade, desde a psican\u00e1lise, excede a quest\u00e3o de g\u00eanero. Laurent o afirma no texto \u00abOs dois sexos e o Outro gozo\u00bb: \u00abh\u00e1 um obst\u00e1culo que impede que a dimens\u00e3o cultural de g\u00eanero recubra totalmente a sexua\u00e7\u00e3o e isto se deve porque o homem e a mulher est\u00e3o do mesmo lado, por\u00e9m separados pelo Outro gozo, eles s\u00f3 tem em comum o gozo f\u00e1lico, mas em rela\u00e7\u00e3o ao Outro gozo, t\u00eam um acesso diferente que os distribuem sem apelo em duas esp\u00e9cies\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Excede a quest\u00e3o de g\u00eanero enquanto se refere a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o aos modos de escolha de gozo de cada sujeito regulado pelo falo, do lado masculino ou do feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao situar o S(\u023a), Lacan prop\u00f5e dois registros do fantasma: do lado da sexualidade masculina, do\u00a0<i>a<\/i>, est\u00e1 em jogo um gozo que separa do Outro, um gozo do Um. Do lado do gozo feminino a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o buraco do Outro permite n\u00e3o s\u00f3 uma rela\u00e7\u00e3o com\u00a0<i>a<\/i>\u00a0mas tamb\u00e9m lhe d\u00e1 acesso ao Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Butler prop\u00f5e desconstruir as identidades sexuais para propor um interesse nas pr\u00e1ticas do gozo feminino, neste ponto, diz Laurent, se aproxima das propostas de Lacan na abordagem do gozo feminino j\u00e1 que, com ele, reconstr\u00f3i as identidades ao sustenta que\u00a0<i>A mulher<\/i>\u00a0n\u00e3o existe e que a particularidade de seu gozo se aborda uma por uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m a partir um por um que podemos abordar a quest\u00e3o transexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A princ\u00edpio, podemos nos perguntar se desde a psican\u00e1lise podemos usar esse nome dado a certos sujeitos j\u00e1 que foi Harry Benjamin, em 1953, quem definiu a transexualidade a partir da psiquiatria como um \u00abtranstorno puramente ps\u00edquico da identidade sexual, caracterizado pela convic\u00e7\u00e3o inquebrant\u00e1vel do sujeito de pertencer ao sexo oposto\u00bb. O termo foi criado para aliviar o sofrimento de certos pacientes propondo o uso de horm\u00f4nios e um ensaio de vida social com o sexo desejado durante 6 meses. A opera\u00e7\u00e3o era enfrentava se o desejo de mudar de sexo continuasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trans se define no dicion\u00e1rio como uma proposi\u00e7\u00e3o que significa ao lado, fora do&#8230; sexo. Se n\u00f3s falamos de sujeitos que apenas pelo fato de serem falantes est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o com a sexualidade, podemos dizer que usamos um termo tomado de outros discursos, por\u00e9m o que \u00e9 poss\u00edvel ler a partir do nosso, o da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller fala de uma \u00abdesordem crescente da sexualidade no real do s\u00e9culo XXI\u00bb; a ordem natural se v\u00ea perturbada. \u00c9, em especial, pela ci\u00eancia, o capitalismo e o crescente mercado de consumo que se oferece todo tipo de opera\u00e7\u00f5es, implantes, etc. sem deter-se nas consequ\u00eancias subjetivas de quem os demanda ou a quem se oferece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como situar o transexual nas formulas da sexua\u00e7\u00e3o consideradas como maneiras diversas de rela\u00e7\u00e3o ao gozo de cada sujeito, mas que d\u00e3o conta da aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>J.-A. Miller<\/b>\u00a0diz que as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o aprisionam o gozo em um s\u00edmbolo, a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o que levaria a dividir os seres viventes nitidamente em dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abAinda que consideremos os universos de gozo como cr\u00edticos a respeito da identidade, ainda que os consideremos por fora da vontade de designar um nome, \u00e9 necess\u00e1rio descrev\u00ea-los. \u00c9 a partir do pai como fun\u00e7\u00e3o, como inscri\u00e7\u00e3o de um S1, que pode ler-se o modo em que o gozo foi capturado na experi\u00eancia singular e particular de cada um de modo contingente, o que permite falar de variedade ou\u00a0<i>varidade<\/i>\u00a0destes modos de gozo\u00bb (\u00c9ric Laurent).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomemos Lacan no Semin\u00e1rio 18, p\u00e1gina 132, onde diz: \u00abo homem \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica na qualidade de\u00a0<i>todo homem<\/i>. Mas [&#8230;] h\u00e1 enormes d\u00favidas incidindo sobre o fato de que o todo homem existe [&#8230;] \u2013 ele s\u00f3 pode s\u00ea-lo na qualidade de\u00a0<i>todohomem<\/i>\u00a0(<i>touthomme<\/i>), isto \u00e9, de um significante, nada mais. [&#8230;] A mulher s\u00f3 pode ocupar seu lugar na rela\u00e7\u00e3o sexual, s\u00f3 pode s\u00ea-lo, na qualidade de\u00a0<i>uma mulher<\/i>\u00a0[&#8230;] n\u00e3o existe\u00a0<i>toda mulher\u00bb<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na p\u00e1gina 30 do mesmo Semin\u00e1rio diz: \u00abo transexualismo consiste, precisamente, num desejo muito energ\u00e9tico de passar, seja por que meio for, para o sexo oposto, nem que seja submetendo-se a uma opera\u00e7\u00e3o, quando se est\u00e1 do lado masculino\u00bb. Critica R. Stoller, ao dizer que este autor do livro\u00a0<i>Sex and Gender<\/i>\u00a0elude a face psic\u00f3tica destes casos por desconhecer a foraclus\u00e3o lacaniana e seus trabalhos, desde a cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, baseiam-se em uma concep\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do sexo. Lacan sustenta no Semin\u00e1rio que o que define um homem \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com uma mulher e vice-versa e que estas defini\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser abstra\u00eddas da totalidade da experi\u00eancia falante, inclusive das institui\u00e7\u00f5es onde estas se expressam, por exemplo, o matrim\u00f4nio. Como incluir aqui o matrim\u00f4nio igualit\u00e1rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ano depois, no Semin\u00e1rio\u00a0<i>&#8230;ou pior<\/i>, na aula de 08\/12, diz Lacan: \u00abpara ter acesso ao outro sexo, realmente \u00e9 preciso pagar o pre\u00e7o, o da pequena diferen\u00e7a, que passa enganosamente para o real por interm\u00e9dio do \u00f3rg\u00e3o, justamente no que ele deixa de ser tomado como tal e, ao mesmo tempo, revela o que significa ser \u00f3rg\u00e3o. Um \u00f3rg\u00e3o s\u00f3 \u00e9 instrumento por meio disto em que todo instrumento se baseia: \u00e9 que ele \u00e9 um significante. \u00c9 como significante que o transexual n\u00e3o o quer mais, e n\u00e3o como \u00f3rg\u00e3o. No que ele padece de um erro, que \u00e9 justamente o erro comum. Sua paix\u00e3o, a do transexual, \u00e9 a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que n\u00e3o v\u00ea que o significante \u00e9 o gozo e que o falo \u00e9 apenas o significado. O transexual n\u00e3o quer mais ser significado como falo pelo discurso sexual, o qual, como anuncio, \u00e9 imposs\u00edvel. Existe apenas um erro, que \u00e9 querer for\u00e7ar pela cirurgia o discurso sexual, que, na medida em que \u00e9 imposs\u00edvel, \u00e9 a passagem do real.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui nos encontramos com um obst\u00e1culo da Lei de identidade de g\u00eanero, entendida como a viv\u00eancia interna e individual do g\u00eanero tal como cada pessoa o sente, a qual pode ou n\u00e3o corresponder ao sexo biol\u00f3gico. Isto pode implicar a modifica\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia ou fun\u00e7\u00e3o corporal atrav\u00e9s de meios farmacol\u00f3gicos, cir\u00fargicos ou de outra \u00edndole sempre que isso seja livremente escolhido. Estas modifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o amparadas pelo Estado pelo Plano M\u00e9dico obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do \u00faltimo ensino podemos considerar que, para um sujeito, a opera\u00e7\u00e3o pode ser uma supl\u00eancia que permite a amarra\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas registros, enquanto quer corrigir um erro, que ajustaria o real do sexo ao mundo imagin\u00e1rio-simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros casos pode haver um desencadeamento psic\u00f3tico, o que nos leva a insistir que s\u00f3 se pode esclarecer no estudo do caso a caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Genevi\u00e8ve Morel \u00e9 partid\u00e1ria, seguindo o Lacan destes anos, da n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica j\u00e1 que isso n\u00e3o evitaria a invas\u00e3o de gozo e, em consequ\u00eancia, culminaria em suic\u00eddios, del\u00edrios, etc. Tratados um por um, pela pr\u00e1tica anal\u00edtica pode se encontrar outras solu\u00e7\u00f5es, por exemplo, o travestismo, que ao n\u00e3o implicar uma mutila\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o permite uma identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloca que, frequentemente, a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para experimentar o gozo do outro sexo, mas sim por uma quest\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se se trata de uma quest\u00e3o de ser (mulher ou homem em transexuais); trata-se de uma ilus\u00e3o que a psican\u00e1lise toma como efeito da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, como disse Antoni Vicens. Mas o ser n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia. Que o ser falante seja n\u00e3o-todo \u00e9 o que o faz existente. A idealiza\u00e7\u00e3o do ser, que alguns sujeitos masculinos buscam mediante a opera\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o, \u00e9 a exist\u00eancia d&#8217;A mulher que n\u00e3o existe. F\u00f3rmula de Lacan que assinala essa exist\u00eancia como n\u00e3o-toda, as mulheres s\u00f3 existem uma por uma e nenhuma satura a significa\u00e7\u00e3o que se poderia dar a uma suposta fun\u00e7\u00e3o \u00abser Mulher\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, a identidade de ser, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o podemos, desde a psican\u00e1lise, falar de identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J.-A. Miller diz que se trata de substituir, ao estilo da met\u00e1fora, a identidade pela identifica\u00e7\u00e3o. Em nosso pa\u00eds grupos identificados como os trans, conseguiram que se promulgue uma lei que os represente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos nos referir \u00e0s psicoses extraordin\u00e1rias para as quais A mulher existe como Scherber. Lacan o prop\u00f5e, em 1958, como um caso de transexualismo delirante para estudar o transexualismo na psicose. Schreber n\u00e3o necessitou de uma opera\u00e7\u00e3o, encontrou seu ser, se \u00e9 disso que se trata, ser uma mulher em seu del\u00edrio, \u00abse pudesse ser uma mulher no momento do coito, seria a mulher de Deus para engendrar uma nova humanidade\u00bb. O gozo adquire uma prevalecente significa\u00e7\u00e3o feminina sem opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar comentarei a experi\u00eancia que se est\u00e1 levando a cabo no Hospital Durand onde funciona um servi\u00e7o que, junto com o Hospital Gutierrez de La Plata, realizam cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o de sexo. No Hospital Durand se atendem as chamadas \u00abdiversidades sexuais\u00bb entre ele, transexuais. Esta experi\u00eancia foi publicada em um livro\u00a0<i>Corpos Equivocados<\/i>, cujos autores s\u00e3o o Dr. Adri\u00e1n Helien, psiquiatra e sex\u00f3logo, coordenador do servi\u00e7o, e a jornalista Alba Piotto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma entrevista realizada pela dire\u00e7\u00e3o da revista E-Mariposa do Departamento de Psiquiatria e Psican\u00e1lise do ICdeBA, o Dr. Helien disse que os pacientes que chegam ao consult\u00f3rio, muitos deles profissionais, n\u00e3o podem entrar no mercado de trabalho e lutam durante sua vida por seu ser, que dizem \u00abest\u00e1 em um corpo equivocado\u00bb solicitando a mudan\u00e7a de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recebem-nos no Servi\u00e7o de Urologia e a equipe est\u00e1 integrada por cirurgi\u00f5es, endocrinologistas, uma ginecologista e uma equipe de cirurgia pl\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte-se da n\u00e3o patologiza\u00e7\u00e3o por querer assumir uma identidade de g\u00eanero diferente de seu sexo biol\u00f3gico. Objetivo da Lei de identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que interessa colocar \u00e9 se essas solu\u00e7\u00f5es que o sujeito encontra, se concordamos que o s\u00e3o, esta coincid\u00eancia de corpo, imagin\u00e1rio e nomina\u00e7\u00e3o, tem consequ\u00eancias subjetivas naqueles que passam pelas redesigna\u00e7\u00f5es de g\u00eanero via opera\u00e7\u00e3o. Identifica-se o sujeito com esse corpo que fala com o gozo pulsional que desconhece?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da Lei de identidade de g\u00eanero, a demanda triplicou com uma grande diversidade, h\u00e1 confus\u00e3o entre orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero, em consequ\u00eancia, alguns s\u00f3 pedem tratamento hormonal e n\u00e3o buscam operar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mudan\u00e7a de nome, redesigna\u00e7\u00e3o genital ou tratamento hormonal, n\u00e3o desde o universal e sim a partir do um por um, ser\u00e1 o analista, \u00e0 diferen\u00e7a da ci\u00eancia, o que permitir\u00e1 que esse corpo fale atrav\u00e9s do sintoma, disso que perturba seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um tema complexo, mas que fala da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Distintos discursos, distintos enfoques, o nosso \u00e9 o da psican\u00e1lise, o que n\u00e3o impede o debate. Est\u00e3o convidados.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliograf\u00eda:<\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J.\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, livro 18, De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A.\u00a0<i>O real no s\u00e9culo XXI. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. n. 63. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E. Los dos sexos y el Otro goce.\u00a0<i>Revista Enlaces<\/i>, n. 7, 2002.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent E.\u00a0<i>Piezas sueltas<\/i>, curso en edici\u00f3n de J-A Miller, clase 19. La relaci\u00f3n corporal.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Vincens, A. \u00abLa feminizaci\u00f3n de la Escuela\u00bb. Blog de la ELP, 2013<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Morel, G.\u00a0<i>Ambig\u00fcedades sexuales:<\/i>\u00a0sexuaci\u00f3n y psicosis. Buenos Aires: Manantial, 2002.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Butler, J.\u00a0<i>El g\u00e9nero en disputa<\/i>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2007.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Vartabedian, J. \u00abEl cuerpo como espejo de las construcciones de g\u00e9nero. Una aproximaci\u00f3n a la transexualidad femenina.\u00bb Texto virtual Universidad de Barcelona.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Adri\u00e1n Helien y Alba Piotto : \u00bf<i>Existen cuerpos equivocados<\/i>? entrevista realizada a los autores. Publicaci\u00f3n virtual.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ley de la Identidad de G\u00e9nero. Texto completo 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Nestor Yellati, Diana Algaze: entrevista para la revista E- Mariposa al Dr Helien<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[168],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1099"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1099"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1099\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1100,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1099\/revisions\/1100"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}