{"id":1107,"date":"2021-08-18T20:30:39","date_gmt":"2021-08-18T23:30:39","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1107"},"modified":"2021-08-18T20:30:39","modified_gmt":"2021-08-18T23:30:39","slug":"marcelo-veras-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/marcelo-veras-2\/","title":{"rendered":"Marcelo Veras"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p class=\"Titulo4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre o ser e o ter<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Integrantes:<\/b>\u00a0Ana Stela Sande, Carla Fernandes, Claudio Melo, Lu\u00eds Felipe Monteiro, Marcelo Magnelli, Rog\u00e9rio Barros e Wilker Fran\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema \u00abcorpo cosm\u00e9tico\u00bb nos abre dois modos de interpreta\u00e7\u00e3o: o corpo em que a cosm\u00e9tica, tal qual um v\u00e9u, \u00e9 anteparo para o olhar e o corpo que, em si, se modifica \u2013 na carne \u2013 diante desse olhar. Nessa \u00faltima acep\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio corpo \u00e9 a cosm\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma li\u00e7\u00e3o que a psican\u00e1lise aprendeu com o capitalismo: tudo pode assumir o semblante de objeto\u00a0<i>a<\/i>. Partindo dessa constata\u00e7\u00e3o, o corpo e suas partes podem ser um\u00a0<i>gadget<\/i>\u00a0como qualquer outro. Ele \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s leis do consumo e tornou-se um prot\u00f3tipo condenado \u00e0 ser atualizado, tanto quanto os novos produtos de uma linha de montagem. O corpo tornou-se um grande balc\u00e3o de neg\u00f3cios onde cada pe\u00e7a avulsa pode ser uma mercadoria. Podemos estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre o corpo nas artes e literatura, objeto de contempla\u00e7\u00e3o, e o corpo na sociedade do olhar absoluto, objeto de exposi\u00e7\u00e3o. Assim, seguindo a l\u00f3gica do olhar da m\u00eddia que nos invade por todos os poros do vis\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar o elemento cosm\u00e9tico do olhar do Outro. A cosm\u00e9tica nasce do espelho e tenta corrigir a falha estrutural que separa\u00a0<i>a<\/i>\u00a0de\u00a0<i>i(a),<\/i>\u00a0eis uma das leituras que podemos fazer como resposta lacaniana \u00e0 pergunta \u00abo que \u00e9 um corpo?\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objeto olhar tomou todos os espa\u00e7os da vida contempor\u00e2nea. A profus\u00e3o de telas e c\u00e2meras relativizou por completo a dimens\u00e3o do p\u00fablico e do privado. A tecnologia avan\u00e7ou de tal modo que a interioridade do corpo \u00e9 o palco da s\u00e9rie televisiva mais assistida no mundo, CSI, onde as entranhas da v\u00edtima fascinam milh\u00f5es de espectadores. A fotografia, o cinema, os aparelhos de scanner, serviram para transmitir informa\u00e7\u00f5es em uma escala muito mais r\u00e1pida do que os textos. Mais do que nunca se leva a s\u00e9rio o ad\u00e1gio de que uma imagem vale por mil palavras. A cosm\u00e9tica sup\u00f5e que \u00e9 poss\u00edvel acrescentar ou retirar algo da imagem, promovendo a adequa\u00e7\u00e3o ou reconcilia\u00e7\u00e3o de uma imagem \u00e0 outra, sem que o equ\u00edvoco significante entre em cena. Nesse sentido, ela \u00e9 sempre uma tecnologia, um aparelhamento da exist\u00eancia para recobrir a falha, n\u00e3o somente do imagin\u00e1rio, mas igualmente do simb\u00f3lico. Se, por um lado, a imagem especular tenta adequar uma subst\u00e2ncia gozante, real, ao imagin\u00e1rio, por outro lado, o\u00a0<i>troumatisme<\/i>\u00a0da l\u00edngua faz obst\u00e1culo a essa adequa\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o houvesse o simb\u00f3lico, a rela\u00e7\u00e3o do corpo com a imagem seria apenas da ordem de uma etologia. Contudo, no momento em que essa adequa\u00e7\u00e3o passa pelo desejo do Outro &#8211; por seus caprichos &#8211; passamos da etologia \u00e0 est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cl\u00ednica da castra\u00e7\u00e3o, descoberta freudiana, explorou o modo como a discord\u00e2ncia entre\u00a0<i>a<\/i>\u00a0e\u00a0<i>i(a)<\/i>\u00a0pode ser abordada a partir de sua express\u00e3o como inibi\u00e7\u00e3o, sintoma ou ang\u00fastia. Lacan, com a no\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<i>a<\/i>, vai mais al\u00e9m e aborda a mesma discord\u00e2ncia, n\u00e3o mais via castra\u00e7\u00e3o, mas explorando as rela\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o, separa\u00e7\u00e3o e aproxima\u00e7\u00e3o do objeto. Voltaremos a esse ponto mais adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1949, Lacan[1] estabelece as bases da forma\u00e7\u00e3o do eu em sua articula\u00e7\u00e3o com a identifica\u00e7\u00e3o especular. A fun\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio do espelho \u00e9 estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o do organismo com a sua realidade. A prematuridade do\u00a0<i>infans<\/i>\u00a0se equaciona em uma forma totalizada do corpo. Trata-se de uma identifica\u00e7\u00e3o (a imagem) alienante, que, inicialmente, simboliza o isso. A teoria lacaniana do est\u00e1dio do espelho \u00e9 compreendida, ent\u00e3o, como a encruzilhada estrutural da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito[2]. Sintetizamos: o corpo em fragmentos se reconstitui como uma unidade formal e imagin\u00e1ria, brindando o real do corpo com uma solu\u00e7\u00e3o do tipo ideal. Podemos, desde essa perspectiva, pensar o corpo e sua forma como um tratamento \u2013 e talvez, uma nomea\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria a\u00ed realizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo ocidental, a partir do s\u00e9culo XX, o gigantesco com\u00e9rcio da ind\u00fastria cosm\u00e9tica demonstra que, como em todos os aspectos da vida contempor\u00e2nea, o frenesi capitalista elevou as pr\u00e1ticas cosm\u00e9ticas a outro patamar. Se antes a tradi\u00e7\u00e3o e a cultura eram determinantes, hoje \u00e9 o mercado que dita as regras. O que percebemos \u2013 sobretudo no Brasil, pa\u00eds que concentra um dos maiores \u00edndices de cirurgias pl\u00e1sticas, e lugar onde o corpo feminino tornou-se mercadoria nos \u00absistemas de moda\u00bb[3] \u2013 \u00e9 que o uso que se faz do corpo denuncia a fragilidade de elabora\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que podem servir de esteio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 aqui uma ruptura radical entre pensar a cosm\u00e9tica como elemento cultural ou como bem de consumo. Os produtos da ind\u00fastria cosm\u00e9tica, como objetos\u00a0<i>a<\/i>, s\u00e3o em si mesmos objetos da puls\u00e3o que podem causar uma adi\u00e7\u00e3o como qualquer outra droga. Percebemos a mudan\u00e7a no momento em que a cosm\u00e9tica deixa de ser um conector entre os sexos para ser um modo de gozar em si, sem necessariamente passar pelo Outro. A cosm\u00e9tica deixa de responder \u00e0 uma l\u00f3gica f\u00e1lica para tentar fixar o gozo que escapa \u00e0 equa\u00e7\u00e3o\u00a0<i>a-a&#8217;<\/i>\u00a0diretamente no imagin\u00e1rio, sem as chicanas e equ\u00edvocos do simb\u00f3lico. Busca-se, portanto, tratar a falha imagin\u00e1ria com o pr\u00f3prio imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Da castra\u00e7\u00e3o \u00e0 separti\u00e7\u00e3o do objeto<\/span><br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel distinguir duas concep\u00e7\u00f5es diferentes da produ\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio. O corpo que se destaca de seus objetos, onde ele se distingue do seio que supostamente o completaria e o corpo que se produz a partir do canibalismo que \u00e9 a caracter\u00edstica da primeira identifica\u00e7\u00e3o freudiana ao pai[4]. Para Lacan, esta opera\u00e7\u00e3o se produz precisamente atrav\u00e9s da entrada do sujeito na linguagem, uma vez que a incorpora\u00e7\u00e3o converte o real do corpo em corpo habitado pela linguagem ou, seguindo suas palavras, \u00aba linguagem come o real\u00bb [5]. Todo o movimento lacaniano nos anos 70 serviu para marcar que nem tudo do corpo \u00e9 marcado pela linguagem, ponto de onde surge uma elabora\u00e7\u00e3o da feminilidade que n\u00e3o \u00e9 delimitada pela pontua\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As quest\u00f5es de estilo tornam-se cada vez mais importantes no momento em que as tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o mais garantem um sentimento de pertencimento e reconhecimento de um lugar no Outro. Alojar-se no Outro n\u00e3o \u00e9 mais uma condi\u00e7\u00e3o assegurada pelas rela\u00e7\u00f5es de filia\u00e7\u00e3o. Nada \u00e9 mais incerto do que o ditado\u00a0<i>Tal pai, tal filho<\/i>. Podemos aqui propor nossa hip\u00f3tese de que a nomea\u00e7\u00e3o paterna, que permitia uma identifica\u00e7\u00e3o junto \u00e0 fraternidade, foi substitu\u00edda por um olhar an\u00f4nimo. A exist\u00eancia era garantida por um lugar no simb\u00f3lico, hoje ela se garante por um lugar no campo esc\u00f3pico. Ou seja, do ser nomeado ao ser visto. Abre-se, desse modo, uma nova perspectiva para a leitura da teoria freudiana das identifica\u00e7\u00f5es. Os efeitos imagin\u00e1rios, potencializados pela tecnologia cosm\u00e9tica, avan\u00e7am na dire\u00e7\u00e3o de garantir a exist\u00eancia em si, e n\u00e3o a exist\u00eancia garantida pela identifica\u00e7\u00e3o grupal. A cada um, seu estilo de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cantora Lady Gaga causou impacto no p\u00fablico e grande repercuss\u00e3o na m\u00eddia ao aparecer vestida com uma roupa feita de carne crua em uma cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o. \u00c9 precisamente essa nova exposi\u00e7\u00e3o da roupa e do corpo feminino que nos interessa. Aqui, n\u00e3o h\u00e1 mais uma er\u00f3tica comandada por algum discurso, objeto ou palavra. O mais contundente \u00e9 que, para al\u00e9m do discurso, h\u00e1 uma n\u00edtida evoca\u00e7\u00e3o do sex-appeal bruto desta carne que recobre a pr\u00f3pria carne.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui percebemos que o corpo cosm\u00e9tico se inscreve em um registro mais al\u00e9m da castra\u00e7\u00e3o. E o que muda com a passagem do -\u03c6 da castra\u00e7\u00e3o para o objeto\u00a0<i>a<\/i>? Se \u00e9 o falo quem d\u00e1 um corpo para o gozo, ent\u00e3o \u00e9 ele que instala um regime dial\u00e9tico que, como significante do desejo, promove a passagem do mundo narc\u00edsico ao la\u00e7o social[6]. Por\u00e9m, quando o objeto\u00a0<i>a\u00a0<\/i>d\u00e1 corpo ao gozo, sem passar pelos circuitos do desejo, estamos em um regime\u00a0<i>a-<\/i>dial\u00e9tico, sem trocas, sem palavras. O parceiro, nesse caso, \u00e9 reduzido a ser um\u00a0<i>dealer<\/i>\u00a0de objetos para consumo. Lady Gaga, em um sex appeal nonsense, evoca a destitui\u00e7\u00e3o da cl\u00e1ssica investidura f\u00e1lica cujo apelo convocava o desejo e campo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia ao Sex Appeal do Inorg\u00e2nico de Mario Perniola ressoa neste ponto. Neste livro, o fil\u00f3sofo e professor de est\u00e9tica da Universidade de Roma parte de uma observa\u00e7\u00e3o de Walter Benjamin sobre a moda, para explorar a intr\u00ednseca participa\u00e7\u00e3o do inorg\u00e2nico na experi\u00eancia do corpo como coisa que sente. A moda prova, por meio dos contornos dos tecidos, que o corpo \u00e9 um objeto-forma e sua conforma\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria depende dos elementos inorg\u00e2nicos neles investido. A men\u00e7\u00e3o ao inorg\u00e2nico \u00e9 um modo de p\u00f4r em relevo a experi\u00eancia do corpo para al\u00e9m da refer\u00eancia ao falo. O sex appeal do inorg\u00e2nico pensa o corpo como um \u00abdar-se como coisa que sente e agarrar uma coisa que sente\u00bb. Desde a\u00ed, o corpo \u00e9 compreendido como roupa, ou seja, como uma extens\u00e3o que vestimos. A no\u00e7\u00e3o de \u00ablook\u00bb sintetiza o argumento do autor: \u00abno look, a experi\u00eancia da roupa como corpo se prolonga, se estende, e se radicaliza na do corpo como roupa: maquiagem, tatuagem, gin\u00e1stica, hair dressing, diet\u00e9tica, aer\u00f3bica, body building, cirurgia pl\u00e1stica e engenharia gen\u00e9tica constituem os passos seguintes de um caminho que conduz ao homem quase coisa\u00bb[7].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse corpo-roupa, a beleza, o g\u00eanero, a idade deixam de importar. O que conta \u00e9 \u00aba disposi\u00e7\u00e3o e a atitude de cobrir e serem cobertos, para vestir e serem vestidos, para envolver e serem envolvidos por tecidos carnais, que n\u00e3o t\u00eam mais nada de org\u00e2nico, que n\u00e3o podem ser diferenciados do vestu\u00e1rio, dos tecidos, das roupas que habitualmente escondem\u00bb[8]. Nesta opera\u00e7\u00e3o, fica claro, como a perda da investidura f\u00e1lica do corpo \u00e9 correlata \u00e0 pr\u00f3tese de objetos a oferecidos no mercado na experi\u00eancia do pr\u00f3prio corpo. A l\u00f3gica do mercado presente em tudo o que rege os objetos na trama de conforma\u00e7\u00e3o do corpo cosm\u00e9tico convoca a seguinte quest\u00e3o: se esse apelo sexual\u00a0<i>nonsense<\/i>\u00a0alimenta um circuito pulsional ac\u00e9falo onde o corpo \u00e9 mais um objeto de consumo, para que serviria o parceiro al\u00e9m de ser poss\u00edvel gozar de partes dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo ensino de Lacan nos parece ser concebido precisamente para afrontar essas quest\u00f5es, t\u00e3o presentes no S\u00e9culo XXI. Ou seja, como pensar a psican\u00e1lise para al\u00e9m da dial\u00e9tica da castra\u00e7\u00e3o, do \u00abal\u00e9m do \u00c9dipo\u00bb, enfim, al\u00e9m do primado do falo simb\u00f3lico. Para Miller, isso somente \u00e9 poss\u00edvel no momento em que \u00e9 promovida por Lacan uma disjun\u00e7\u00e3o ente castra\u00e7\u00e3o e interdi\u00e7\u00e3o. A castra\u00e7\u00e3o deixa de ser referenciada \u00e0 lei f\u00e1lica e passa a indicar simplesmente o fato que h\u00e1 a possibilidade de se fazer uma nega\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, se pensamos a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio XX[9]. Por isso, Lacan \u00e9 levado a detalhar as separa\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas do objeto, extra\u00e7\u00f5es naturais do objeto no corpo, precisamente sem a interven\u00e7\u00e3o de um agente que seria o Outro. Trata-se do que ele chama, termo retomado de Freud, separa\u00e7\u00e3o. Miller chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, ao dissociar a extra\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0da castra\u00e7\u00e3o, Lacan chega a criar um neologismo, a\u00a0<i>separti\u00e7\u00e3o[10]<\/i>. N\u00e3o a castra\u00e7\u00e3o, mas a separa\u00e7\u00e3o dos objetos, a separa\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os. Ele fala da\u00a0<i>separti\u00e7\u00e3o<\/i>, para indicar que se trata como de uma parti\u00e7\u00e3o no interior, que concerne o sujeito do organismo[11].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Com que corpo eu vou?<\/span><br \/>\nA cl\u00e1ssica pergunta que nos remete ao universo feminino \u2013\u00a0<i>com que roupa eu vou?<\/i>\u00a0&#8211; est\u00e1 ligada ao semblante constru\u00eddo por objetos que, segundo Brousse[12], \u00abtocam o corpo feminino\u00bb. As roupas, joias, saltos altos, maquiagens e esmaltes s\u00e3o \u00abobjetos que fazem precisamente existir a m\u00e1scara mesma, como v\u00e9u diante da dificuldade de dizer (&#8230;) esses objetos que se agrupam sob uma categoria em psican\u00e1lise, que chamamos a categoria do falo\u00bb. Ou seja, s\u00e3o objetos que remetem ao campo f\u00e1lico e est\u00e3o relacionados a uma tentativa de ancoragem frente \u00e0 aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 ser uma mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Castillo[13], a insufici\u00eancia da imagem em responder\u00a0<i>Che vuoi?<\/i>, pode encontrar, com a cosm\u00e9tica, certa ortopedia. Nesta perspectiva, a cosm\u00e9tica corporal \u00e9 compreendida como \u00ab[&#8230;] uma satisfa\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 imagem do corpo que [&#8230;] pode ajudar a dialetizar, a entrar no jogo significante fazendo signo das marcas nesse corpo\u00bb. Ou seja, aqui a cosm\u00e9tica ajudaria a dialetizar a imagem corporal, a entrar no jogo significante fazendo signo das marcas corporais. Em outra vertente, as modifica\u00e7\u00f5es podem tomar o valor de acontecimento de corpo, enlace com a l\u00edngua singular de cada um\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na atualidade, frente \u00e0 queda dos ideais do Outro \u2013 I (A), cabe a cada um construir sua pr\u00f3pria imagem, fica a cargo do eu ideal \u2013\u00a0<i>i(a)<\/i>\u00a0produzir sua vestimenta, que se faz com o pr\u00f3prio corpo. Quando se entra no discurso capitalista, a infinitude de objetos posti\u00e7os se oferece como \u00absutura m\u00e1gica para a ferida mais profunda\u00bb. Podemos fazer uma leitura desse modo de se apresentar a partir da pergunta:\u00a0<i>com que corpo eu vou?<\/i>\u00a0O que remete a constru\u00e7\u00e3o de um corpo cosm\u00e9tico, produzido para dar conta de um gozo que n\u00e3o \u00e9 peneirado pelo campo simb\u00f3lico. Trata-se do circuito da puls\u00e3o em torno do pr\u00f3prio corpo tomado como objeto. Assim: \u00abdesponta uma nova dimens\u00e3o para a cl\u00e1ssica quest\u00e3o filos\u00f3fica do \u00abter\u00bb um corpo ou \u00abser\u00bb um corpo. Na era dos\u00a0<i>gadgets,<\/i>\u00a0podemos falar do corpo como aquilo que se veste. Vestir um corpo e ajust\u00e1-lo ao ser diante do espelho\u00bb[14].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solu\u00e7\u00e3o proposta \u00e9 fazer a diferencia\u00e7\u00e3o entre significante e letra dando outro status ao real, redefinindo letra como litoral entre saber e gozo. Gozo aqui \u00e9 diferente do mais de gozar dos discursos que se aproxima do semblante. A letra \u00e9 da ordem da conting\u00eancia, produto de um acaso, portanto singular. Na qualidade de marca, rompe com o semblante, dissolvendo o imagin\u00e1rio e produzindo gozo ao se apresentar como enxame, significante. Da\u00ed deduz-se o novo estatuto do real passando do imposs\u00edvel de dizer para contingente e singular n\u00e3o como uma nega\u00e7\u00e3o, mas um agregando o outro. A condi\u00e7\u00e3o do real agora \u00e9 de imposs\u00edvel estruturante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das implica\u00e7\u00f5es que esse avan\u00e7o te\u00f3rico traz \u00e9 um novo estatuto do corpo, que passa de corpo imagin\u00e1rio, produzido pelo Outro no est\u00e1dio do espelho, para um corpo real goz\u00e1vel. O gozo aparece, ent\u00e3o, como experi\u00eancia de corpo podendo prescindir do la\u00e7o simb\u00f3lico com o Outro. O sintoma tamb\u00e9m ganha um novo status separado do inconsciente. O S1 aparece como irrup\u00e7\u00e3o de gozo e sua liga\u00e7\u00e3o com a letra n\u00e3o se d\u00e1 como necess\u00e1ria, mas como contingente e singular. Nesse novo status, n\u00e3o h\u00e1 sintoma sem corpo. O corpo, \u00abgoz\u00e1vel\u00bb e \u00abliteraliz\u00e1vel\u00bb, est\u00e1 dependente da defini\u00e7\u00e3o de sintoma como acontecimento real, contingente e singular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent[15], ao comentar os del\u00edrios das neuroci\u00eancias em sua tentativa de localiza\u00e7\u00e3o no corpo do\u00a0<i>falasser<\/i>, enuncia que, a despeito deste investimento, algo parece sempre escapar. Conclui que \u00ab[&#8230;]n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o unificada poss\u00edvel do sujeito do qual a psican\u00e1lise se ocupa [&#8230;] o corpo \u00e9 sempre desmembrado\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despeito dos avan\u00e7os da chamada \u00abSociedade das Imagens\u00bb, para a psican\u00e1lise, a imagem unificadora do corpo n\u00e3o anula o despeda\u00e7amento da experi\u00eancia da puls\u00e3o \u2013 lim\u00edtrofe entre o soma e a psique, como j\u00e1 havia nos ensinado Freud[16]. Dafunchio (2013)[17], interessada nos efeitos do decl\u00ednio da nomea\u00e7\u00e3o paterna e na emerg\u00eancia de novas nomea\u00e7\u00f5es sobre o corpo, estabelece que na nomea\u00e7\u00e3o ed\u00edpica, \u00ab[&#8230;] o corpo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que se sustenta em uma fun\u00e7\u00e3o eminentemente simb\u00f3lica que faz media\u00e7\u00e3o entre o corpo imagin\u00e1rio e o corpo real\u00bb, havendo, a\u00ed, espa\u00e7o para que se realizem interven\u00e7\u00f5es anal\u00edticas, pautadas numa ordem simb\u00f3lica flex\u00edvel. Por sua vez, na contemporaneidade, as novas nomea\u00e7\u00f5es suplantam a ordem simb\u00f3lica e s\u00e3o tecidas mais nas dimens\u00f5es imagin\u00e1rias e reais do corpo, cuja consequ\u00eancia para experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 a quase impermeabilidade \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclu\u00edmos que as interven\u00e7\u00f5es cosm\u00e9ticas s\u00e3o realizadas em um mundo onde masculino e feminino n\u00e3o mais se ordenam exclusivamente em torno da lei f\u00e1lica. Para al\u00e9m do \u00c9dipo e da castra\u00e7\u00e3o, \u00e9 em torno do objeto e da possibilidade de recorrer ao corpo como tecnologia para a localiza\u00e7\u00e3o do gozo, sempre excedente, que a sociedade do olhar se orienta. Ser\u00e1 preciso, ent\u00e3o, pensar a fun\u00e7\u00e3o cosm\u00e9tica do corpo no caso a caso, fazendo da experi\u00eancia anal\u00edtica o fundamento para a formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre os usos dos corpos frente a agita\u00e7\u00e3o do real na contemporaneidade. As diversas reedi\u00e7\u00f5es da imagem corporal (cirurgias pl\u00e1sticas, excesso de exerc\u00edcios f\u00edsicos para construir um novo formato, escarifica\u00e7\u00f5es, dentre muitas outras) evidenciam uma possibilidade do\u00a0<i>falasser<\/i>\u00a0ter um corpo[18], realizando um enlace imagin\u00e1rio frente \u00e0 emerg\u00eancia do \u00abreal sem lei\u00bb (MILLER, 2012)[19]. Como a psican\u00e1lise pode responder \u00e0 essa busca fren\u00e9tica por ter um corpo ideal? A aposta vem na identifica\u00e7\u00e3o ao sintoma, \u00fanica identifica\u00e7\u00e3o que, por ser uma equa\u00e7\u00e3o que leva em conta o gozo que \u00e9 res\u00edduo que escapa ao encontro com o Outro, aponta para o corpo que se \u00e9, e n\u00e3o para o corpo que se tem. Podem ser pensadas, assim, como atos que incidem na imagem do corpo como tentativa de dar limite ao excesso de gozo \u2013 nomea\u00e7\u00f5es, que se fazem entre os registros imagin\u00e1rio e real, distantes da ordem simb\u00f3lica.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, Jacques. (1966). O est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu. In: ___. Escritos. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Recalcati, M. Cl\u00ednica del vac\u00edo: anorexias, dependencias, psicosis. Madrid: Editorial Sintesis, 2003.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Barthes, Roland. (1980). Sistema da moda. (Tradu\u00e7\u00e3o de Lineide do Lago Salvador Mosca). S\u00e3o Paulo, Companhia Editora Nacional \/ Edusp.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Para a psican\u00e1lise torna-se fundamental estabelecer as condi\u00e7\u00f5es de alteridade que presidem a experi\u00eancia subjetiva do pr\u00f3prio corpo. Esta experi\u00eancia foi descrita por Freud no cap VII do texto sobre a Psicologia das Massas com o nome de incorpora\u00e7\u00e3o,\u00a0<i>Einverliebung<\/i>.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. Le Sinthome. Seminaire XXIII, p. 31, Editions du Seuil 2005.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J., Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano. In: Escritos, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1998.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Perniola, M. O Sex Appel do Inorg\u00e2nico. S\u00e3o Paulo: Studio Nobel, 2005, p. 62<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem, p. 63<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A. Aula V do curso de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana intitulado \u00abA obra de Lacan\u00bb do dia 2 de mar\u00e7o de 2011 \u2013 in\u00e9dito.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller J-A. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do Semin\u00e1rio 10 da Ang\u00fastia de Jacques Lacan, op cit.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">id. p.56<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Brousse, M.H. O que \u00e9 uma mulher? Latusa digital ano 09, n. 49. Junho de 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Cosmos-cosmetica_Jorge-Castillo.html\">http:\/\/enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Cosmos-cosmetica_Jorge-Castillo.html<\/a>. Acesso em 20 ago. 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Veras, M. (2006). Dismorfof\u00f3bico. Letra Cl\u00ednica, revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/se\u00e7\u00e3o Pernambuco,\u00a0<i>1<\/i>, 97\u2013102.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, \u00c9ric. Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund. (1996). Os instintos e suas vicissitudes (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1915).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Las-nuevas-nominaciones_Nieves-Soria-Dafunchio.html\">http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Las-nuevas-nominaciones_Nieves-Soria-Dafunchio.html<\/a>. Acesso em 20 ago. 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Besset, Vera Lopes et al . Rev. Mal-Estar Subj., Fortaleza, v. 10, n. 4, dez. 2010, Sinteticamente, destacamos: \u00abUm corpo \u00e9 sempre, para um sujeito, algo de seu. Nesse sentido, para existir, cada um depende de ter um corpo\u00bb (ibid., p. 1256).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=38&amp;intEdicion=13&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2493&amp;intIdiomaArticulo=9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina=4&amp;intPublicacion=38&amp;intEdicion=13&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2493&amp;intIdiomaArticulo=9<\/a>. Acesso em 20 ago. 2013.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1107"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1108,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107\/revisions\/1108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}