{"id":1111,"date":"2021-08-18T20:33:41","date_gmt":"2021-08-18T23:33:41","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1111"},"modified":"2021-08-18T20:33:41","modified_gmt":"2021-08-18T23:33:41","slug":"ennia-favret-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/ennia-favret-2\/","title":{"rendered":"Ennia Favret"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Integrantes:<\/b>\u00a0Marcelo Barros, Gabriela Basz, Juan Bustos, Marisa Chamizo, Guillermo Lopez, Silvia Vogel y Diana Wolodarsky.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa investiga\u00e7\u00e3o come\u00e7ou tratando de nos orientar a respeito do t\u00edtulo proposto: O corpo cosm\u00e9tico. Como entend\u00ea-lo? De que \u00abcorpo\u00bb se trata? Que modo de pens\u00e1-lo no ensino de Lacan conv\u00e9m a sua abordagem? E o \u00abcosm\u00e9tico\u00bb: \u00e9 um corpo \u00abcosmetizado\u00bb, como disse E. Laurent no Argumento? Ou \u00e9 o corpo mesmo como um cosm\u00e9tico, como um produto-mercadoria? E o que dizer desde a psican\u00e1lise?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se algo distingue a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 que n\u00e3o se generaliza o tratamento do corpo. Temos reconhecido onde o corpo cosm\u00e9tico funciona delimitando o gozo e pelo contr\u00e1rio onde o gozo sem borda n\u00e3o encontra um limite. Desde velar o horror da castra\u00e7\u00e3o em defesa do narcisismo a proximidade da exposi\u00e7\u00e3o a um real sem maquiagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transmitimos as quest\u00f5es que ocuparam nossas buscas e elabora\u00e7\u00f5es, nossos interesses e nossas dificuldades em 8 pontos:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><b>O corpo.<\/b><\/li>\n<li><b>O cosm\u00e9tico.<\/b><\/li>\n<li><b>Corpo cosm\u00e9tico e o olhar.<\/b><\/li>\n<li><b>Corpo simbolizado \u2013 Corpo produto.<\/b><\/li>\n<li><b>Do cosm\u00e9tico como v\u00e9u da castra\u00e7\u00e3o a tentativa de eliminar o imposs\u00edvel.<\/b><\/li>\n<li><b>Pr\u00e1ticas sobre o corpo: denuncia e transgress\u00e3o.<\/b><\/li>\n<li><b>A \u00abarte para outra coisa\u00bb.<\/b><\/li>\n<li><b>O corpo cosm\u00e9tico e\/ou modificado e o psicanalista.<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">1- O corpo:<\/span><br \/>\nO corpo lacaniano \u00e9 primeiro o do est\u00e1dio do espelho, o valor f\u00e1lico da imagem do corpo, uma completude especular que se estabelece sobre uma discord\u00e2ncia, uma clivagem entre o corpo real e a imagem. O termo \u00abdeisc\u00eancia\u00bb, extra\u00eddo da bot\u00e2nica, \u00e9 usado por Lacan para falar da fala, a parti\u00e7\u00e3o do corpo vivente na esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<i>A terceira<\/i>\u00a0(LACAN, 2011), designa a cada registro um termo: corpo ao imagin\u00e1rio, morte ao simb\u00f3lico e vida ao real. \u00abO corpo se intruduz na economia de gozo (&#8230;) pela imagem do corpo. A rela\u00e7\u00e3o do homem com seu corpo, o que sublinha muito bem que \u00e9 imagin\u00e1ria \u00e9 o alcance que nela tem a imagem.. Lacan fala de \u00abconsist\u00eancia\u00bb imagin\u00e1ria. Este termo convida a pensar que o imagin\u00e1rio do corpo, no \u00faltimo ensino, n\u00e3o se reduz apenas aos efeitos do est\u00e1dio do espelho. \u00c9 um imagin\u00e1rio enodado de modo borromeo com os outros dois registros e isso tem consequ\u00eancias. Por isso, a f\u00f3rmula de Lacan \u00abtenho um corpo\u00bb e n\u00e3o \u00absou um corpo\u00bb: a consist\u00eancia que adquire o corpo enquanto algo que se tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tem um corpo e com a introdu\u00e7\u00e3o do gozo, transforma o modo de conceitu\u00e1-lo, trata-se de um corpo que produz ang\u00fastia quando surge a suspeita de estar reduzido a ele, ao real do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na nossa \u00e9poca, a ci\u00eancia e suas novas tecnologias, com suas ofertas sem limites, n\u00e3o interv\u00e9m sobre esse corpo sen\u00e3o sobre o organismo, mas operando sobre o organismo modificam a imagem corporal. Sem embargo&#8230; esse corpo real enquanto materialidade, \u00abentorpece\u00bb os sonhos da ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paula Sibila em\u00a0<i>O homem p\u00f3s-org\u00e2nico<\/i>\u00a0(SIBILIA, 2002) leva em conta como se est\u00e3o configurando os corpos, modelando-os, com a finalidade de extrair deles o maior proveito poss\u00edvel, a maior for\u00e7a produtiva: certos tipos de corpos d\u00f3ceis, domesticados, disciplinados, funcionais na produ\u00e7\u00e3o fabril da sociedade industrial, a m\u00e1quina como modelo inspirador. O novo capitalismo tem o imperativo de alcan\u00e7ar uma nova configura\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, valendo-se de sortil\u00e9gios digitais, sonhos de autocria\u00e7\u00e3o tecnicamente poss\u00edveis: prop\u00f5em a transfer\u00eancia da mente, as experi\u00eancias, as recorda\u00e7\u00f5es, a bagagem completa de um ser humano, a partir de sua \u00abmorte f\u00edsica\u00bb, a um corpo rob\u00f3tico e, portanto, imune ao envelhecimento, enfermidades e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">2 &#8211; O cosm\u00e9tico:<\/span><br \/>\nSe voc\u00eas puserem no Google o sintagma \u00abLO REAL\u00bb, a primeira resposta que encontram \u00e9 \u00abL&#8217;Oreal!\u00bb Talvez n\u00e3o devesse surpreender que o primeiro que sai dessa busca, antes de toparmos com o real, seja algo da ordem da cosm\u00e9tica. E n\u00e3o \u00e9 qualquer marca, sen\u00e3o aquela que fagocitou a maioria das grandes marcas a n\u00edvel mundial. Esta massividade internacional n\u00e3o busca apenas homogeneizar o produto, sen\u00e3o o consumidor. O mercado prop\u00f5e o standard e a ci\u00eancia o faz poss\u00edvel. L&#8217;Oreal \u00e9 a marca de cosm\u00e9ticos que representa o cruzamento entre a cosm\u00e9tica, os neg\u00f3cios e o poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios autores, de diferentes perspectivas, abordam a fun\u00e7\u00e3o do cosm\u00e9tico na \u00e9poca. G. Lipovetsky o coloca como o signo mais imediato e espetacular da afirma\u00e7\u00e3o do eu, de sua unicidade. Segundo lemos em seus textos, estamos todos convidados a modelar a pr\u00f3pria imagem, a reciclar o corpo. Chama de \u00abneonarcisismo\u00bb essa busca de brilhar no gozo da pr\u00f3pria imagem inventada, renovada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A etimologia de Kosmos em sua vertente grega nos leva a ideia de totalidade, mas a vertente romana sublinha o Kosmein, mein: mundo e seu derivado \u00abinmundo\u00bb, sem mundo, sem ordem, sem beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O belo, tal como coloca Lacan (1988) na \u00ab\u00c9tica&#8230;\u00bb, \u00e9 a \u00faltima barreira que nos separa da Coisa (das Ding), \u00e9 uma beleza que est\u00e1 bem pr\u00f3xima do horror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde esta dupla perspectiva, consideramos o cosm\u00e9tico como aquele tratamento dado ao corpo que vela, maquia, cobre a castra\u00e7\u00e3o com o v\u00e9u da beleza e seu oposto, o anticosm\u00e9tico: o que desnuda, desvela, mostra, deforma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a cosm\u00e9tica vela a castra\u00e7\u00e3o, est\u00e1 articulada a uma falta, mas se a imagem \u00e9 de perfei\u00e7\u00e3o sem fissuras, algo demasiado pr\u00f3ximo de um real insuport\u00e1vel, entramos em uma dimens\u00e3o diferente, \u00e9 uma cosm\u00e9tica paradoxal&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulheres que, mediante procedimentos cir\u00fargicos se transformam em bonecas: 40 opera\u00e7\u00f5es fizeram a jovem ucraniana Leta Lukyanova modelar sua fisionomia at\u00e9 ser uma Barbie de carne e osso ou para os orientais fazerem uma nova face ocidental&#8230; ou, ao menos, uma opera\u00e7\u00e3o de p\u00e1lpebras para arredondas os olhos e reduzir as caracter\u00edsticas asi\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um reality: \u00abQuero uma cara famosa\u00bb. Os que participam, prestam-se a interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas para parecerem-se com uma figura conhecida. \u00ab<i>Traga seu corpo e leve-se o que quiser<\/i>\u00ab. \u00ab<i>Me refiz<\/i>\u00ab, diz um publicit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E os concursos de beleza&#8230; j\u00e1 que nos tradicionais n\u00e3o se aceitam corpos com interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, h\u00e1 novos concursos de&#8230; \u00abBeleza artificial\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, em todos os casos, de um excesso, um gozo desregulado, em busca de uma propor\u00e7\u00e3o perfeita que termina parecendo-se mais com o morto que com o vivo. Excesso que tamb\u00e9m se evidencia as despropor\u00e7\u00f5es intencionais ante as quais, se bem produzem recha\u00e7o, n\u00e3o podemos desembara\u00e7ar-nos nem subtrair o olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Freud considerava que a sugest\u00e3o era um procedimento cosm\u00e9tico e o comparava com a t\u00e9cnica das artes pict\u00f3ricas que operam\u00a0<\/b><i>per v\u00eda di porre<\/i><b>. A via da psican\u00e1lise vai no sentido inverso,\u00a0<\/b><i>per v\u00eda di levare<\/i><b>. Poder\u00edamos dizer que a psican\u00e1lise vai do cosm\u00e9tico a dimens\u00e3o do\u00a0<\/b><i>unheimlich.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">3 &#8211; O corpo cosm\u00e9tico e o olhar:<\/span><br \/>\nComo pensar o corpo cosm\u00e9tico, o que se d\u00e1 a ver, considerando o olhar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00e9rard Wajcman (2011) disse, em\u00a0<i>O olho absoluto<\/i>: \u00abAli onde h\u00e1 uma imagem para se ver, h\u00e1 um olho que enxerga\u00bb (ibid., p. 18) e definir\u00e1: \u00ab<i>Um olho sem p\u00e1lpebra est\u00e1 sobre o mundo<\/i>\u00bb (ibid., p. 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Postula que atualmente a ci\u00eancia injeta a cren\u00e7a e a promessa que tudo se pode ver. Trata-se de um salto que passa do desejo de ver, genuinamente humano, \u00e0 ideia de ver tudo. Se tudo se pode ver se transforma em uma lei. \u00ab<i>Esta voluntad se ha difundido, infiltrado, se impone a todo y a todos, lo gobierna todo. Habita ahora el esp\u00edritu de la \u00e9poca<\/i>\u00bb (ibid., p. 16). Uma puls\u00e3o com for\u00e7a de imperativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao tema do corpo cosm\u00e9tico, tomamos a exig\u00eancia de visibilidade, para coloc\u00e1-lo em tens\u00e3o com a impossibilidade de mostrar-ver tudo. Este imposs\u00edvel \u00e9 correlato de n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o tudo se poder\u00e1 mostrar-ver. O real finalmente n\u00e3o poder\u00e1 ser vis\u00edvel como o discurso da ci\u00eancia incentiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, podemos estabelecer que<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"5\">\n<tbody>\n<tr>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>exig\u00eancia de ver<\/i><\/td>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>corpo cosm\u00e9tico<\/i><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>________________________<\/i><\/td>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>__________________<\/i><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>imposibilidade de ver tudo<\/i><\/td>\n<td align=\"center\" width=\"50%\"><i>n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual<\/i><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Fica ent\u00e3o uma discord\u00e2ncia que n\u00e3o se apaga, um imposs\u00edvel que faz poss\u00edvel o lugar da psican\u00e1lise, em cada caso.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">4. Corpo simbolizado &#8211; Corpo produto:<\/span><br \/>\nO corpo cosm\u00e9tico tamb\u00e9m \u00e9, desde o ponto de vista do olhar, uma mercadoria que se compra e se mostra. Mas isso \u00e9 somente um aspecto que re\u00fane uma das poss\u00edveis interse\u00e7\u00f5es entre capitalismo e tecnologia, que d\u00e3o lugar a uma oferta que se reflete no desejo-direito de um corpo cosm\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan (2008) diferencia muito bem, na aula de 4\/6\/69 do semin\u00e1rio 16, que h\u00e1 tatuagens que identificam um certo contexto e que se diferenciam do tra\u00e7o que n\u00e3o marca nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os corpos marcados, tatuados de acordo com certas regras, em certas cerim\u00f4nias, correspondem com a ideia de um corpo simbolizado, um corpo em que foi depositado as inscri\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas. S\u00e3o tatuagens e marcas no corpo que identificam a perten\u00e7a a uma tribo, uma idade, ou um tiro de inicia\u00e7\u00e3o. Assim j\u00e1 pensava Freud no Mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o: rito de puberdade ou inicia\u00e7\u00e3o como um dos modos que a sociedade tem de resolver os excessos pulsionais dos adolescentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eric Laurent em uma reportagem publicado na revista La Naci\u00f3n (9\/7\/2008), ao ser interrogado acerca do fen\u00f4meno da viol\u00eancia nos jovens, afirmava: h\u00e1 que encontrar um novo ritual que ao mesmo tempo seja uma pr\u00e1tica de corpo e que permita a socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas cerim\u00f4nias de inicia\u00e7\u00e3o, o corpo ocupa um lugar de protagonista: a circuncis\u00e3o, a extra\u00e7\u00e3o de um dente ou fios de cabelo, as incis\u00f5es ou escarifica\u00e7\u00f5es. Logo ao atravessar as provas, o jovem se reintegra a comunidade com um\u00a0<i>nome novo\u00a0<\/i>e algum tipo de marca para ser conhecido como tal por uma tribo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um antrop\u00f3logo contempor\u00e2neo que se interessa pelo protagonismo do corpo na sociedade atual, D. Le Breton (2009), sublinha o aumento das a\u00e7\u00f5es que implicam algum tipo de risco: tentativas de suic\u00eddio, cortes e escarifica\u00e7\u00f5es no corpo, a toxicomania, as batidas de carro e o consumo de \u00e1lcool. Conceitua estas a\u00e7\u00f5es como ritos, denomina-os ritos \u00abord\u00e1licos\u00bb. Descreve-os como absolutamente individuais e solit\u00e1rios, impondo-se em um contexto de desconex\u00e3o social real ou sentida como tal. Trata-se muitas vezes de atos desesperados que tentam p\u00f4r um limite ao gozo do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o pr\u00e1ticas de tatuagens ou interven\u00e7\u00f5es no corpo como figura feroz do supereu, com um imperativo que reduz a infinitiza\u00e7\u00e3o e que tem um estatuto diferente: n\u00e3o somente se trata de querer sobrepassar ou modificar os caracteres biol\u00f3gicos herdados, mas que sua caracter\u00edstica \u00e9 a de n\u00e3o estar articulados a nenhum sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santiago Sierra, artista de Madrid estabelecido no M\u00e9xico, tra\u00e7a uma \u00ab<i>L\u00ednea de 250 cent\u00edmetros tatuada sobre 6 personas remuneradas\u00bb<\/i>\u00a0pessoas remuneradas, seres an\u00f4nimos que aceitam uma marca permanente em suas costas, em seus corpos, sem nenhum sentido, em troca de pagamento. Forma com as 6 costas uma composi\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria que dura o breve tempo da performance. O artista trata o corpo como coisa intercambi\u00e1vel, uma mercadoria, um material para a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer o mesmo das inscri\u00e7\u00f5es tatuadas das marcas Vuitton, Bulgari, Cartier. Mostram corpos fabricados e manipulados por essas corporifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>N\u00e3o se trata de uma marca simb\u00f3lica que lhes permita viver se gozo de um modo mais pacificado, mas de uma recorr\u00eancia ao corpo como uma superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">5- Do cosm\u00e9tico como v\u00e9u da castra\u00e7\u00e3o \u00e0 tentativa de eliminar o imposs\u00edvel:<\/span><br \/>\nA dist\u00e2ncia temporal que h\u00e1 entre o belo conto de N. Hawthorne, \u00abLa marca de nacimiento\u00bb (1971), onde para apagar a mancha, o singular, se elimina a vida e o atual filme \u00abEl tiempo\u00bb de Kim Ki-duk (2006), p\u00f5e em evid\u00eancia a perseveran\u00e7a dos esfor\u00e7os desesperados atrav\u00e9s dos recursos cient\u00edficos, para tornar poss\u00edvel o imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u00abLa marca de nacimiento\u00bb, o protagonista \u00e9 um homem de ci\u00eancia do final do s\u00e9culo XVIII, enamorado da beleza de sua amada, mas que fica fixado obsessivamente com uma mancha que ela tem em sua bochecha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o suporta esta \u00abmarca visible de la imperfecci\u00f3n terrena\u00bb. Dedica-se, em uma busca fervorosa, para encontrar em seu laborat\u00f3rio a por\u00e7\u00e3o que pudesse elimin\u00e1-la. Quando parece ter encontrado a f\u00f3rmula, convence a sua mulher de tom\u00e1-la. Ingerida a mesma, o homem comprova como lentamente se desvanece a cor da mancha e quando se extingue por completo se extingue, tamb\u00e9m, a vida de sua mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kim Ki-duk, escritor e diretor, d\u00e1 um lugar privilegiado \u00e0s faces e \u00e0s m\u00e1scaras, em um jogo de espelhos que se oferece ao olhar, alimentada pela oferta do mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme mostra tr\u00eas cirurgias pl\u00e1sticas em que se alternam sucessivamente as faces de cada um do casal de protagonistas. Contudo, o peculiar \u00e9 que se pode localizar, em cada um deles, distintas coordenadas. \u00c9 assim como o desejo (hist\u00e9rico), a ang\u00fastia e o gozo geram cada uma das interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela, enlouquecida de ci\u00fames, sup\u00f5e que seu noivo observa outras mulheres porque se encontra cansado, n\u00e3o dela, sen\u00e3o de seu rosto. Enfrenta uma cirurgia, n\u00e3o para ser mais bonita, sen\u00e3o para ser outra. Ele, tomado pela ang\u00fastia do desencontro, submete-se a uma modifica\u00e7\u00e3o da face.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E novamente ela, culpada pelo desenlace, recorre \u00e0 cirurgia para perder seus tra\u00e7os faciais. J\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1 ser identificada. Frente a esta oblitera\u00e7\u00e3o, mostra um gesto de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Nessa impossibilidade, a psican\u00e1lise encontra sua raz\u00e3o de ser, sustentando a hi\u00e2ncia e operando sobre o gozo. Sua fun\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se baseia nos ideais, sen\u00e3o no ponto de impossibilidade, exige contentar-se com o que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para o g\u00eanero humano, o imposs\u00edvel da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">6- Pr\u00e1ticas sobre o corpo: den\u00fancia e transgress\u00e3o.<\/span><br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica cr\u00ea na exist\u00eancia de um corpo perfeito, sujeito \u00e0 condi\u00e7\u00f5es que derivam do mundo cl\u00e1ssico: o c\u00e2none, de onde se descreve o tamanho e a propor\u00e7\u00e3o que deve ter cada parte do corpo. Atualmente, coexistem certas pr\u00e1ticas orientadas \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da imperfei\u00e7\u00e3o, do que molesta, a concretiza\u00e7\u00e3o de um modelo de beleza, de um ideal e por outro lado as interven\u00e7\u00f5es no corpo que o recha\u00e7am e o denunciam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ideal de medida e harmonia foi questionado e transgredido, denunciado pelas pr\u00e1ticas do \u00abbody art\u00bb, a partir dos anos 70. Quase todos os artistas que se engajam nesse movimento usam seu pr\u00f3prio corpo ferido e doloroso como objeto e sujeito da experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As\u00a0<i>performances<\/i>, apesar de terem se espalhado e banalizado, mant\u00eam sua atualidade dispondo a no\u00e7\u00e3o de \u00abato\u00bb no centro do discurso. O ato requer, como na psican\u00e1lise, a presen\u00e7a de um corpo, sua materialidade e por essa raz\u00e3o nos interessam algumas express\u00f5es-instala\u00e7\u00f5es corporais art\u00edsticas, especialmente Orlan como figura paradigm\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a singularidade de ORLAN, escrita assim, com mai\u00fascula, \u00ab<i>como uma marca<\/i>\u00ab, como ela gosta dizer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela den\u00fancia os padr\u00f5es de beleza atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de um corpo: \u00abMi trabajo est\u00e1 en lucha con lo innato, lo inexorable, lo programado, la naturaleza, el ADN, se trata para m\u00ed de empujar el arte y la vida hasta sus extremos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ORLAN, em 68, prop\u00f5e \u00abyo soy una hombre y un mujer\u00bb, uma tentativa de apagar o imposs\u00edvel, aparece logo em suas interven\u00e7\u00f5es corporais, quadros vivos que encarnam mulheres arquet\u00edpicas: Santa Orlan copiada da Sta. Teresa de Bernini (paradigma para Lacan do Outro gozo), olhos semicerrados, boca semiaberta, corpo abandonado&#8230; modo barroco de representar o arrebatamento m\u00edstico. ORLAN zomba de g\u00eaneros e estere\u00f3tipos, acentuando o aspecto er\u00f3tico com a introdu\u00e7\u00e3o de um strip-tease.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela justifica seus motivos: \u00abLa cultura cristiana nos hace elegir entre el bien\u00a0<b>o<\/b>\u00a0el mal. En el barroco se ve la flecha del \u00e1ngel y a Santa Teresa que goza en un \u00e9xtasis er\u00f3tico y ext\u00e1tico. Es en ese punto que me interes\u00f3 el barroco. Es un trabajo sobre el simulacro, lo verdadero\u00a0<b>y<\/b>\u00a0lo falso, lo presente\u00a0<b>y<\/b>\u00a0lo pasado, lo vivo\u00a0<b>y\u00a0<\/b>lo artificial\u2026\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira de suas opera\u00e7\u00f5es foi muito cuidadosamente preparada, convenientemente anestesiada, leiam um texto de E. Lemoine \u00abLa robe\u00bb : \u00abla piel es decepcionante(&#8230;) hay error en las relaciones humanas porque uno no es nunca lo que se tiene(&#8230;) yo tengo la piel de un \u00e1ngel y soy un chacal&#8230; la piel de negro pero soy un blanco, piel de mujer pero soy un hombre; yo no tengo nunca la piel de lo que soy: no hay una excepci\u00f3n a la regla porque no soy nunca lo que tengo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Da entrevista (2009) que fizera J.-A.Miller\u00a0<\/b>transcrevemos um m\u00ednimo e significativo recorte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; JAM: Entre usted y su cuerpo, qu\u00e9 es lo que se desconect\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O: \u00a1Es que este cuerpo est\u00e1 programado para cosas que no me gustan para nada! Y sobre las cuales no tengo ning\u00fan control! Por ej., cuando de adolescente vi crecer mis senos, esa historia no me gustaba para nada. Yo no ten\u00eda nada de ganas de ser una mujer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-JAM: Ud. no ten\u00eda ganas de ser una mujer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O: No! Tener cr\u00edos como paridos por una vaca, todo eso me parec\u00eda extremadamente anacr\u00f3nico. No ten\u00eda ganas de ser un vientre. Esa maquinaria no me interesaba para nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-JAM: \u00bfEse rechazo ha sido precoz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-O: S\u00ed, Tuve mi primera menstruaci\u00f3n joven&#8230;en una \u00e9poca en que el aborto y la p\u00edldora no estaban. \u00a1Qued\u00e9 embarazada! Encontraba eso tan impensable\u2026por fuera de mi voluntad, contra mi voluntad.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Nestas palavras, encontramos uma sequencia que vai da interroga\u00e7\u00e3o ao recha\u00e7o de seu pr\u00f3prio corpo de mulher, que, habilmente, J.-A. Miller consegue que solte, que o diga. \u00c9 poss\u00edvel pensar que o encontro, com suas interven\u00e7\u00f5es, foi um modo de tratamento a esse recha\u00e7o inicial, pr\u00f3ximo ao horror produzido por um corpo\/m\u00e1quina de parir.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ORLAN argentina se chama Nicola Costantino, atualmente representa o pa\u00eds na Bienal de Veneza. Suas\u00a0<i>performances\u00a0<\/i>centram-se nas transforma\u00e7\u00f5es e usos de seu corpo. Impacta, como ORLAN, com suas \u00absavons de corps\u00bb, sabonetes com a forma de seu torso, realizados com gordura extra\u00edda de seu corpo, uma parte desse sabonete, \u00e9 \u00ab3% de Nicola\u00bb. \u00c9 gordura er\u00f3tica? Gordura repugnante? N\u00e3o \u00e9 a ideia, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma apela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o pr\u00e1ticas que almejam denunciar os c\u00e2nones de beleza e a arte como mercadoria, respondem ao limite que a transgress\u00e3o denuncia, por\u00e9m, tamb\u00e9m s\u00e3o testemunho de um imposs\u00edvel que a transgress\u00e3o s\u00f3 consegue bordear. A transgress\u00e3o mantem uma rela\u00e7\u00e3o com o limite, com a lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise se distingue de qualquer filosofia justamente neste ponto. Foucault, por exemplo, afirma com rela\u00e7\u00e3o a obra de Bataille, que uma vez localizada a transgress\u00e3o, como limite do ser ou da linguagem, o que se situa mais al\u00e9m \u00e9 a possibilidade de um \u00abnovo ser ilimitado\u00bb, uma exist\u00eancia distinta. A postura de Foucault leva-o a tratar a transgress\u00e3o como uma dimens\u00e3o que \u00abn\u00e3o se op\u00f5e a nada\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A partir da psican\u00e1lise, poder\u00edamos pensar a transgress\u00e3o como uma den\u00fancia do limite ou das formas institu\u00eddas por\u00e9m ao mesmo tempo como uma forma de tratamento ao real. Trataria-se de uma den\u00fancia contudo tamb\u00e9m de um modo de fazer com esse ponto de impossibilidade.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">7- A \u00abarte para outra coisa\u00bb:<\/span><br \/>\n\u00abAl arte debemos tomarlo como modelo, como modelo para otra cosa\u00bb. ( J. Lacan )<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, encontramo-nos com pr\u00e1ticas art\u00edsticas que mostram a desordem do gozo, desordem da sexualidade. Uma aproxima\u00e7\u00e3o ao indiz\u00edvel: \u00aba arte para outra coisa\u00bb, n\u00e3o \u00e9 a sublima\u00e7\u00e3o, \u00e9 a exibi\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o pode ser dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coment\u00e1rio por G. Wajcman da fotograf\u00eda de Nan Goldin mostra qual \u00e9 o paradigma de certas pr\u00e1ticas art\u00edsticas que tem corpo como protagonista principales una gran artista del malestar en el goce, del desorden del amor [&#8230;] las im\u00e1genes han perdido todo su brillo [&#8230;] es la hora del falo reventado: ca\u00eddo, marchito. Ni feas ni provocativas, ni repulsivas, ni excitantes: simplemente verdaderas\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucien Freud, Egon Shiele, Francis Bacon pintaram corpos deformados. Deformar as figuras foi para eles um modo de aproxima\u00e7\u00e3o a algo \u00abmais real\u00bb, tentativas de eliminar uma narra\u00e7\u00e3o. F. Bacon dizia que tratava-se de \u00abtocar o sistema nervoso\u00bb dos corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, h\u00e1 uma arte atual que n\u00e3o se inscreve dentro dessa perspectiva: a chamada \u00abarte psic\u00f3tica\u00bb ou de \u00abmal gosto\u00bb trata-se de outra coisa: visa a exibi\u00e7\u00e3o de um real separado de qualquer nexo causa-efeito, n\u00e3o ligado a nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">8- O corpo cosm\u00e9tico e\/ou modificado e o psicanalista:<\/span><br \/>\nO analista opera nessa hi\u00e2ncia que a ci\u00eancia n\u00e3o cobre, hi\u00e2ncia imune a qualquer cosm\u00e9tica. Trabalha com a incapacidade dos semblantes transbordados pelo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, em seu \u00faltimo ensino, p\u00f5e em destaque que o sujeito n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 significante, e para dar conta disso recorre ao termo\u00a0<i>parletre<\/i>. A singularidade est\u00e1 dada pela particular maneira em que uma palavra ou frase colidiu com cada corpo e fez, desse imprevis\u00edvel encontro, acontecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter um corpo a diferen\u00e7a de s\u00ea-lo. Como nos apropriamos do corpo? O que \u00e9 que faz borda ou contorno, relevo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o inconsciente \u00e9 hom\u00f3logo aos orif\u00edcios do corpo, d\u00e1 conta desse movimento estrutural que nos diz que, \u00e0s vezes, esses orif\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o suficientes para constituir um corpo, h\u00e1 sujeitos que necessitam perfur\u00e1-lo com insist\u00eancia. Como se cada novo furo prometera algo de uma articula\u00e7\u00e3o que fracassou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comprovamos que, \u00e0s vezes, a subjetividade \u00e9 suficiente para fazer que um sintoma ressoe nele. Por vezes, assistimos a verdadeiras performances bizarras que d\u00e3o conta das piruetas para equipar um semblante: piercing, tatuagens, cortes, deforma\u00e7\u00f5es, infiltra\u00e7\u00f5es. Outras das consequ\u00eancias do fracasso por n\u00e3o conseguir aparelh\u00e1-lo ou sustent\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma ou ang\u00fastia s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es das dificuldades que revelam viver ou ter um corpo. Distor\u00e7\u00f5es especulares, transforma\u00e7\u00f5es substanciais, mutila\u00e7\u00f5es ou perfura\u00e7\u00f5es s\u00e3o formas em que se apresentam cada vez mais os corpos, naturalizando-se estas pr\u00e1ticas em uma suposta justificativa est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab&#8230; h\u00e1 coisas que fazem que o mundo seja imundo, se assim posso me exprimir. \u00c9 disso que se ocupam os analistas, de modo que, ao contr\u00e1rio do que se acredita, eles s\u00e3o muito mais confrontados ao real que os pr\u00f3prios cientistas. Eles s\u00f3 se ocupam disso. S\u00e3o for\u00e7ados a sofr\u00ea-lo, isto \u00e9, esticar as costas o tempo todo. Conv\u00e9m para esse fim que estejam excepcionalmente coura\u00e7ados contra a ang\u00fastia.<b>\u00bb\u00a0<\/b>(J.Lacan : \u00abA ang\u00fastia dos cientista\u00bb in: \u00abO triunfo da religi\u00e3o\u00bb, p. 63)<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Melo e Rog\u00e9rio Barros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliograf\u00eda consultada<\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">Alvarez , P.: \u00abEl cuerpo que habla\u00bb, en Colof\u00f3n n\u00b033, 2013<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Bacon, F.: Entrevistado por Mario Perinola y publicado en \u00bb El arte y su sombra\u00bb.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Brousse, M.H: \u00ab\u00bb Corps sacralis\u00e9. Corps ouverts: de l&#8217; existence ,mis en question, de la peau\u00bb , en Quarto 101-102, 2012 , Bruxelles<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Eco, U. \u00bb Historia de la belleza\u00bb, Delbolsillo, 2010<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Freud, S. \u00abEl malestar en la cultura\u00bb, OC, T III, Ed Biblioteca Nueva, Espa\u00f1a<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Focchi, M.: \u00abEl cuerpo, el espacio, el p\u00e1nico,\u00bb , en Colof\u00f3n n\u00b033, 2013<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Foucault, M .: \u00abTecnolog\u00edas del yo\u00bb, Barcelona, Espa\u00f1a, 1990<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Garc\u00eda , G. \u00abPara otra cosa\u00bb, Liber ed, BsAs, 2011<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Hawthorne, N. :<i>\u00a0\u00ab<\/i>La marca de nacimiento\u00bb , en \u00abHistorias dos veces contadas\u00bb. Compa\u00f1\u00eda Fabril Ed. , Bs As. 1971<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ki Kim -duk: \u00abEl tiempo\u00bb, filme, Corea del Sur\/ Jap\u00f3n, 2006<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O triunfo da religi\u00e3o, precedido de, discurso aos cat\u00f3licos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. (2011). A terceira.\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/i>,\u00a0<i>62<\/i>.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise &#8211; Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente &#8211; Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia &#8211; Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2010.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 16: de um outro ao outro; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J.: El Seminario 21, \u00abLes Non-Dupes Errent\u00bb, clase del 9\/4\/74, in\u00e9dito.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E.: \u00abHemos transformado el cuerpo humano en un nuevo dios\u00bb. Ed Tres Haches, Bs. As, 2010.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E. : \u00bb Hablar con el propio s\u00edntoma, hablar con el propio cuerpo\u00bb Argumento VI Enapol.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent , E. : entrevista publicada en el diario La Naci\u00f3n 9\/7\/2008<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Le Breton D. Condutas de risco: dos jogos de morte ao jogo de viver. Campinas: Autores Associados; 2009.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A.: \u00abLo real en el siglo XXI\u00bb, en Lacaniana n\u00b0 13.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A. : \u00bb Embrollos del cuerpo\u00bb, col ICdeBA\/Paidos, 2012<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A. : \u00abPiezas sueltas. Lituraterre desconocida\u00bb, en Freudiana 51<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A.: \u00abLa experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica\u00bb, cap XVIII, Paidos, 2003<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A. \u00bb Sutilezas anal\u00edticas \u00bb , Paidos, BsAs,<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A. : \u00abBiolog\u00eda lacaniana y acontecimiento del cuerpo\u00bb, Col Diva, 2002<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Orlan y J.-A. Miller, Entrevista publicada en Enlaces, N\u00b014, BsAs, 2009<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Orlan, Entrevistada realizada por Colof\u00f3n , n\u00b0 33, 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ramirez, J.A.: \u00abCorpus solus\u00bb, ed Siruela, Madrid, 2003<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Seldes, R.: \u00abLa eficacia del psicoan\u00e1lisis\u00bb, en Virtualia 1, BsAs 2001.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Sibila , P.: \u00abO homem p\u00f3s-org\u00e2nico &#8211; Corpo, subjetividade e tecnologias digitais\u00bb, Relume-Dumar\u00e1, Rio de Janeiro, 2002.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Wajcman, G.: \u00abLas fronteras de lo \u00edntimo\u00bb en EL Caldero de la Escuela n\u00b019. 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Wajcman, G. : \u00abEl ojo absoluto\u00bb, Manantial, BsAS, 2011<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1111"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1112,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions\/1112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}