{"id":1115,"date":"2021-08-18T20:40:22","date_gmt":"2021-08-18T23:40:22","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1115"},"modified":"2021-08-18T20:40:22","modified_gmt":"2021-08-18T23:40:22","slug":"juan-fernando-perez-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/juan-fernando-perez-2\/","title":{"rendered":"Juan Fernando P\u00e9rez"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Alba Alfaro (NEL-Maracay)<br \/>\nAlfonso Gushiken (NEL-Lima)<br \/>\nGloria Gonz\u00e1lez (NEL-Bogot\u00e1)<br \/>\nGerardo R\u00e9quiz (NEL-Caracas)<br \/>\nJuan Fernando P\u00e9rez (NEL-Medell\u00edn, redator)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\">\u00abO\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>\u00a0adora seu corpo porque acredita que o tem.<br \/>\nNa realidade n\u00e3o o tem, mas o seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia\u00bb<br \/>\nLacan<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, como tal sustenta F. Naparstek, uma an\u00e1lise \u00ab\u00e9 uma r\u00e9plica da vida\u00bb,[1] ent\u00e3o haver\u00e1 necessariamente de esperar-se que o corpo seja o principal protagonista dessa r\u00e9plica. Ali a palavra\u00a0<i>vida<\/i>, ou seja, o corpo da vida, e a dupla acep\u00e7\u00e3o do termo\u00a0<i>r\u00e9plica<\/i>, ressaltam o afortunado da express\u00e3o de Fabi\u00e1n. Isto \u00e9 consistente com o que Freud, Lacan, Miller e muitos outros analistas t\u00eam destacado sobre a natureza de uma an\u00e1lise. Se ao anterior acrescentarmos que um testemunho de um passe \u00e9 uma r\u00e9plica reflexiva de uma experi\u00eancia anal\u00edtica, imp\u00f5e-se pensar que nesses testemunhos se encontrar\u00e3o as marcas principais do que levanta uma an\u00e1lise ao seu protagonista principal, o corpo. \u00c9 nesta base, talvez \u00f3bvia, que fomos investigar em v\u00e1rios testemunhos, o que acontece com o corpo no final de um percurso conclu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida exp\u00f5em-se resultados do trabalho de um cartel na NEL cujo tema foi o corpo e o final de an\u00e1lise.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">1.- De uma pacifica\u00e7\u00e3o do corpo nos testemunhos do passe<\/span><br \/>\nEm um relat\u00f3rio conclusivo de um cartel do passe, S. Cottet aponta que \u00aba hist\u00f3ria de uma an\u00e1lise parece esquematizar-se atrav\u00e9s de tr\u00eas elementos mais ou menos articulados: a novela familiar, os sintomas e a interpreta\u00e7\u00e3o\u00bb.[3] E ao precisar como se abre cada um desses elementos e como se enla\u00e7am, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer, quase sempre e de um modo mais ou menos vis\u00edvel, que o corpo est\u00e1 em jogo em cada elemento e que \u00e9 quem facilita o enlace. Muitas vezes o faz atrav\u00e9s de seu lugar em tudo o que para o sujeito implicam os avatares da castra\u00e7\u00e3o; outras, atrav\u00e9s do fantasma, provocando efeitos m\u00faltiplos; outras, na produ\u00e7\u00e3o e eventual solu\u00e7\u00e3o ou perman\u00eancia de um sintoma; ou \u00e9 encontrado tamb\u00e9m nas fixa\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es de gozo, ou afetado pelas interpreta\u00e7\u00f5es que apresenta uma an\u00e1lise. Sempre o corpo aparece em primeiro plano na cena anal\u00edtica. N\u00e3o insistiremos muito nisso. Por\u00e9m, ao ser essa subst\u00e2ncia o que define e enla\u00e7a, poder\u00e1 afirmar-se que o corpo sempre est\u00e1 em primeiro plano nos testemunhos de uma cura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exame de v\u00e1rias dessas narra\u00e7\u00f5es surpreende em ocasi\u00f5es, pois mesmo que o corpo nunca \u00e9 ignorado ali, n\u00e3o sempre ele \u00e9 apontado explicitamente como seu principal protagonista, em particular nos finais de an\u00e1lise. Outras dimens\u00f5es da empresa anal\u00edtica s\u00e3o apontadas nesse transe como as que ocupam o primeiro plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O anterior levanta uma primeira pergunta: qual seria o estatuto do corpo quando ele, e como produto de uma an\u00e1lise, \u00e9 encontrado frequentemente j\u00e1 mais como testemunha am\u00e1vel e silente e n\u00e3o como o obst\u00e1culo teimoso para a vida, como o protagonista de gozos que perturbam e provocam sofrimentos, que \u00e9 o que tipifica o percurso? Sob as circunst\u00e2ncias do final, j\u00e1 o analisante n\u00e3o pareceria encarregar-se muito explicitamente das urg\u00eancias e formas que construiu em sua vida para tentar virar-se com o corpo. Isto acontece e fica registrado em diversos testemunhos (n\u00e3o em todos), entretanto o que \u00e9 de interesse agora \u00e9, por exemplo, reconhecer como se conseguiu finalmente superar alguns preconceitos pr\u00f3prios do discurso da \u00e9poca, ou a paix\u00e3o pelo sentido, e desde a\u00ed como se adveio \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de seu desejo de analista; ou como se produziu uma corre\u00e7\u00e3o subjetiva necess\u00e1ria no dizer que permitiu interrogar o horror ao saber para finalmente dar acesso ao bem dizer; ou como o analisante compromete-se em executar o processo de remo\u00e7\u00e3o do SsS sem que agora o corporal pare\u00e7a ser quest\u00e3o de maior significa\u00e7\u00e3o expl\u00edcita; ou outros fatos cruciais que acontecem nas an\u00e1lises quando elas se aproximam do final no qual sua elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de seu progresso \u00faltimo. E ent\u00e3o, em tais circunst\u00e2ncias, o corporal pareceria se tornar em algo discreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais fatos ser\u00e3o os priorit\u00e1rios em n\u00e3o poucos casos dos finais de an\u00e1lise. Talvez este fen\u00f4meno haja de pensar-se sobre a forma que desde o s\u00e9culo XIX a medicina tendeu a conceber a sa\u00fade, ou seja, como o sil\u00eancio dos \u00f3rg\u00e3os? Esta compara\u00e7\u00e3o com certeza ir\u00e1 desagradar alguns analistas, na medida em que em uma an\u00e1lise n\u00e3o se trata de sa\u00fade, menos ainda de sa\u00fade mental; mas a invoca\u00e7\u00e3o dessa compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inteiramente equivocada, porque os finais de an\u00e1lise falam tamb\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o de uma capacidade para um bom viver, da capacidade para o trabalho criativo e para o enlace social j\u00e1 desprovido o sujeito da cren\u00e7a na exist\u00eancia do Outro. E a\u00ed um certo sil\u00eancio no protagonismo do corpo resulta significativo. Poder\u00edamos assim dizer que o sil\u00eancio sobre a carne seria um sinal de uma valiosa conquista subjetiva onde a subst\u00e2ncia torna-se muitas vezes em testemunha amig\u00e1vel de um processo no qual tem procurado um tipo de pacifica\u00e7\u00e3o e que tolera sem nenhuma reclama\u00e7\u00e3o os desconfortos que acarreta ser de qualquer maneira a subst\u00e2ncia gozante? Isto parece corroborar-se mesmo nos casos onde o corpo permanece em primeiro plano em um final de an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que quando ficaram para tr\u00e1s v\u00e1rios fen\u00f4menos relacionados com o corpo que a an\u00e1lise permitiu elaborar, goza-se tranquilamente daquilo que Lacan chama de \u00absua \u00fanica consist\u00eancia\u00bb. Aqui est\u00e3o alguns exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana Lucia Luttherbach relata como o significante \u00abbonita\u00bb tinha grande for\u00e7a na sua exist\u00eancia enquanto era \u00abo significante de uma identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que ir\u00e1 delinear o ilimitado do feminino, um tipo de pele, um continente para o que n\u00e3o se continha&#8230;\u00bb;[4] ou seja, foi o meio encontrado para fazer existir A mulher, e que, atrav\u00e9s do peso do mesmo, era conduzida a impasses tortuosos em seu curso regular pela vida. Isso, at\u00e9 que esse significante \u00abbonita\u00bb atinge um senso c\u00f4mico e o corpo se pacifica na escalada hist\u00e9rica que lhe envolvia esse destaque da beleza. Ent\u00e3o vir\u00e1 a elabora\u00e7\u00e3o dessa ruptura com aquele caminho dif\u00edcil em que o belo corpo que, como v\u00e9u, estava em primeiro plano, para que outros fatos, como a dedica\u00e7\u00e3o ao amor sem estrid\u00eancias ou fazer existir a psican\u00e1lise, se tornem os determinantes de sua exist\u00eancia. E o testemunho dir\u00e1 do corpo no final de an\u00e1lise que este se tornou um aliado simp\u00e1tico e discreto do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonardo Gorostiza por sua vez, salienta que em um momento dado de sua an\u00e1lise cessaram definitivamente umas cefaleias bastante intensas e as fotofobias derivadas de certos excessos no gozo com o corpo, e que algumas dores musculares tamb\u00e9m desapareceram, para dar passagem assim \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de seu\u00a0<i>sinthome<\/i>. Igualmente sublinha a presen\u00e7a destacada que tem na sua vida o objeto olhar, finalmente posto ao servi\u00e7o de fins onde o corpo n\u00e3o padece mais. Certamente Leonardo compreende o\u00a0<i>sinthome<\/i>\u00a0com Lacan, como acontecimento do corpo. Mas o que os seus testemunhos examinados aqui salientam do final em particular, \u00e9 como, ao resultar uma alian\u00e7a com o gozo \u00absem medida\u00bb, torna-se poss\u00edvel agora o surgimento do desejo do analista, assim como o esclarecer para si o estatuto da verdade diante do real, ou o definir um novo lugar para o pai, ou o trabalho subjetivo que envolve fazer existir a psican\u00e1lise ou outros fatos onde o corpo pareceria ser ent\u00e3o essencialmente um protagonista discreto e simp\u00e1tico de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos testemunhos de Lu\u00eds D. Salamone o corpo sempre ser\u00e1 protagonista de primeiro plano desde o in\u00edcio at\u00e9 o final da an\u00e1lise. Assim fatos como as dores de cabe\u00e7a e de est\u00f4mago, os terrores de morte e o ser ro\u00eddo pelos vermes, a presen\u00e7a de uma sede insaci\u00e1vel, ou outros fatos corporais, aparecem como fatos centrais de seu percurso. Mas, se chegar\u00e1 ao momento de atingir uma nova alian\u00e7a de gozo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sede, por exemplo, para ela se tornar agora em \u00abinteresses sedentos\u00bb, que d\u00e3o passagem a uma verdadeira possibilidade de cria\u00e7\u00e3o. Pode parecer, \u00e0s vezes, que em seus testemunhos se confundem sujeito e corpo. H\u00e1 momentos nos quais n\u00e3o sabemos bem se se fala de um ou de outro, pois refere-se indiferentemente a ambos. Lacan salienta este fato no semin\u00e1rio sobre a ang\u00fastia quando discute a rela\u00e7\u00e3o do corpo com o objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0e o suporte que encontra o sujeito nesse objeto, para indicar, igualmente, que h\u00e1 um suporte do sujeito no corpo, mas n\u00e3o uma fus\u00e3o. Da\u00ed Lacan pode dizer que o sujeito n\u00e3o \u00e9 um corpo, que tampouco o tem, mas que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o com ele. Essa rela\u00e7\u00e3o ao se fazer j\u00e1 discreta em Lu\u00eds Dario, seria aquilo que finalmente conquista como ser falante e do que testemunhar\u00e1 como algo essencial que sua an\u00e1lise lhe apresentou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G. Briole, fala, por exemplo, de como um sinal de uma doen\u00e7a (urina marrom, para hepatite), reconhecido em circunst\u00e2ncias perigosas para sua vida e no meio de cad\u00e1veres, resultou ser a situa\u00e7\u00e3o que desencadeia sua primeira demanda de an\u00e1lise, dessa vez a Lacan. Trata-se de um sinal que, como ferida, se enla\u00e7ar\u00e1 com outra, este ritual (sua circuncis\u00e3o), para tornarem-se fatos que come\u00e7ar\u00e3o a desvelar-lhe a especificidade do peso do corporal em sua exist\u00eancia, claro est\u00e1 j\u00e1 posto de presente, talvez sem saber, por sua condi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, uma terceira an\u00e1lise \u00e9 promovida de novo pelo corporal, uma afonia, e ser\u00e1 agora a compreens\u00e3o da passagem do desprendimento do corpo em Joyce (\u00abo qual caiu como uma casca\u00bb), o que lhe permitir\u00e1 poder desprender-se dos efeitos da fixa\u00e7\u00e3o \u00e0quela pequena \u00abpele\u00bb de sua velha ferida infantil, que regia: a procura constante de amor e seu ideal de ser \u00absalvador de vidas\u00bb, determinada pelas circunst\u00e2ncias em que ele viveu sua circuncis\u00e3o. O corpo cruza ent\u00e3o todo seu percurso anal\u00edtico, at\u00e9 o final, quando ser\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o total de sua voz, permitindo-lhe estabelecer que agora possa ser instrumento para querer dirigir-se a outro de uma maneira diferente, desta vez \u00e0 Escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novamente o corpo passa a ser, ap\u00f3s o final, essencialmente um meio, uma presen\u00e7a c\u00famplice e discreta. E merece salientar-se ao respeito que P. Bosquin-Caroz,[5] e C. Menghi[6] apontam algo muito semelhante a G. Briole, ao destacar como sua voz, viva e presente j\u00e1 em seu corpo ao final, deixa de ser obst\u00e1culo a suas vidas quotidianas e passa agora ao servi\u00e7o da causa anal\u00edtica, para tornar-se o meio e n\u00e3o o lastro em todos eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos testemunhos de E. Paskvan pode ser reconhecido como o corpo \u00e9 protagonista principal da an\u00e1lise enquanto prevaleceu um horror ao saber e que na defesa desse horror estabelece barreiras que lhe impedem construir um bem dizer, provocando efeitos que haver\u00e1 de sofrer o corpo. Trata-se, como pergunta assediante, do corpo da Outra que, como enigma e causa de gozo sintom\u00e1tico, produzia fen\u00f4menos f\u00f3bicos que acompanharam uma parte significativa de sua exist\u00eancia. Certos significantes retumbavam desde ali no corpo, fazendo sintoma. Uma vez franqueado o horror de saber, o corpo, j\u00e1 pacificado, n\u00e3o ser\u00e1 de novo destacado, e agora ir\u00e1 se referir \u00e0 maneira em que conseguiu desenvolver um bem dizer com o apoio da pesquisa em torno da tese de Lacan e outras fontes, tudo isto vai organizar uma de suas narrativas do final de an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estatuto especial do corporal nos testemunhos examinados de Silvia Salman, talvez pudesse ser entendido como um desafio para a interpreta\u00e7\u00e3o global que propusemos sobre o corpo no final de an\u00e1lise, enquanto este, no seu caso, iria para um primeiro plano no final da experi\u00eancia. Os significantes que Silvia extrai atrav\u00e9s de seu percurso, e como se encontrassem um encadeamento l\u00f3gico\u00a0<i>com<\/i>\u00a0o corpo, salientam visivelmente que ele ser\u00e1 ent\u00e3o definido como algo que tamb\u00e9m estava desanimado e era fugidio, a uma posi\u00e7\u00e3o onde consegue reconhecer-se na possibilidade de estar animado ao final da an\u00e1lise, limitando o gozo que a engrenagem sintom\u00e1tica mantinha escondida, para finalmente ser encarnado, atado e presente. Mas nessa muta\u00e7\u00e3o de gozo reconhecemos melhor que o que ocorreu foi uma nova alian\u00e7a com o corpo em que ele deixou de ser o instrumento para a montagem sintom\u00e1tica, para trazer-lhe agora uma posi\u00e7\u00e3o, mas leve, n\u00e3o sofrendo frente ao gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve-se acrescentar algo de especial import\u00e2ncia no contexto destas proposi\u00e7\u00f5es no que Silvia estabelece a partir de seu \u00faltimo trecho de an\u00e1lise: a significa\u00e7\u00e3o do corpo do analista, tamb\u00e9m mencionado em outros testemunhos (por B. Seynhaeve, por exemplo), mas que Silvia destaca de maneira singular. Descreve o analista como \u00abaquele que aporta um corpo\u00bb, como aquele que faz retumbar, com seu corpo, um gozo pulsional que se encontrava estagnado nela em um saber sem consequ\u00eancias, para produzir dessa maneira uma muta\u00e7\u00e3o de gozo decisivo. \u00c9 um modo not\u00e1vel de considerar esta dimens\u00e3o da tem\u00e1tica aqui explorada e que permite afirmar que o corpo do analista poder\u00e1 chegar a ser ativo em diversas circunst\u00e2ncias pontuais, como agente principal\u00edssimo da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Testemunhos como os j\u00e1 indicados e ainda outros mais, ao considerar o corpo agora como se se tratasse de uma presen\u00e7a discreta, pareceriam construir-se sob a marca dessa satisfa\u00e7\u00e3o que Lacan assinala no \u00abPref\u00e1cio&#8230;\u00bb (1977) como necess\u00e1ria em um final de an\u00e1lise, quando j\u00e1 o analisante conseguiu ir desde um inconsciente transferencial at\u00e9 seu inconsciente real e cessou em suas ambi\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 verdade, apropriando-se do car\u00e1ter da verdade como mentirosa. Como se o corpo, agora como S1 solit\u00e1rio, n\u00e3o exigisse verdades que dizer, ainda que seja reconhecido como o lugar do gozo. Talvez quando a cretinice deixa de ser uma esperan\u00e7a (tal como salienta A. Vicens de seu final), o corpo deixa de ser elevado ao primeiro plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos agora outro plano da tem\u00e1tica examinada, ou talvez, consideremos a quest\u00e3o como algo moebiano e vejamos ent\u00e3o sua continuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">2.- Os restos sintom\u00e1ticos ou do\u00a0<i>sinthome<\/i><\/span><br \/>\nEssa certa mesura e discri\u00e7\u00e3o do corpo que acabamos de reconhecer em v\u00e1rios testemunhos, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 alheia ao que \u00e9 designado como \u00abrestos sintom\u00e1ticos\u00bb; isto \u00e9, o incur\u00e1vel do analisante, aquilo que Lacan nomeia como o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o escrever-se, tamb\u00e9m como o\u00a0<i>sinthome<\/i>, o que define as aporias de cada gozo. Tais restos podem localizar-se ou n\u00e3o visivelmente no corpo. Aqui s\u00e3o de interesse especial aqueles que s\u00e3o mais vis\u00edveis na ordem corporal, resenhados em diferentes contextos relativos ao passe. Esses restos, visto que s\u00e3o \u00abfragmentos de escrita e trechos de real\u00bb, possuem uma cristaliza\u00e7\u00e3o tal, que sua leitura se torna muitas vezes enigm\u00e1tica para quem os reconhece desde os testemunhos conclusivos, tal vez porque v\u00eam selar o m\u00e1ximo reconhecimento poss\u00edvel da diferen\u00e7a absoluta, embora, simultaneamente, introduzem a pergunta pelo ensino sobre ela. N\u00e3o sendo objeto de um \u00abpara todos\u00bb como enuncia\u00e7\u00e3o, abre-se a quest\u00e3o do que ensinam \u00e0 psican\u00e1lise. Vejamos primeiro alguns extratos de testemunhos conclusivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Monribot fala de uma \u00abfebre residual\u00bb a sua an\u00e1lise que aparece ainda em certos momentos de sua vida depois do final, o que em outras \u00e9pocas era motivo de sofrimentos importantes; ainda est\u00e1 presente, mas agora s\u00f3 como um sintoma circunstancial n\u00e3o tortuoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tique insiste no corpo de M.-H. Roch ap\u00f3s o final; acerca dele, a analisante consegue finalmente assumir uma posi\u00e7\u00e3o onde a impot\u00eancia que o mesmo envolvia (e que causou sua demanda de an\u00e1lise) n\u00e3o \u00e9 mais o fator determinante dessa presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C. Menghi fala da voz permanecendo nela que, como uma esp\u00e9cie de voz interior, era portadora da desesperan\u00e7a e que a acompanhou dolorosamente, ainda no seu corpo, quase at\u00e9 o fim. Agora que atenuou essa voz que, no entanto, perdura causando efeitos, situa-se em \u00abum Outro enfraquecido\u00bb,[7] como instrumento \u00fatil que p\u00f5e em evid\u00eancia a louca ilus\u00e3o da cora\u00e7\u00e3o absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Silvia Salman sua \u00abencarnada\u00bb, como nome do\u00a0<i>sinthome<\/i>, por\u00e1 um limite ao \u00abn\u00e3o deixar-se agarrar\u00bb que atormentou nela o amor em particular, para determinar assim um \u00abganho do corpo\u00bb (como E. Laurent indica o fato), n\u00e3o sem que permane\u00e7a \u00abuma certa forma de ausentar-se\u00bb.[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Angelina Harari relata em seus testemunhos que consentiu em um deixar-se enganar de \u00abtodohomem\u00bb como maneira de fazer existir A mulher e gozar assim, \u00abclandestinamente\u00bb do erotismo, \u00e0s vezes empurrada por seus analistas primeiros. Chegar\u00e1 ao final, atrav\u00e9s de uma terceira an\u00e1lise, a formar uma dupla de forma singular, ao poder \u00abfinalmente consentir o fato de ser uma mulher\u00a0<i>n\u00e3o toda para Um<\/i>\u00ab, [9] de acordo com o que se salienta no relat\u00f3rio do cartel B9 da ECF sobre seu caso, quando precisa a natureza daquele gozo que resta al\u00e9m do passe. Este, insiste, em palavras de Angelina em algo que \u00abpassa pelo gozo das l\u00ednguas em plural\u00bb, e para o qual, diz, \u00abn\u00e3o h\u00e1 cura\u00bb.[10]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gustavo Stiglitz sofria de diversas formas de dorm\u00eancia, o que o apresentava sempre como \u00abdesvairado\u00bb perante o Outro. Isto acompanhado de uma ins\u00f4nia noturna e de uma dificuldade persistente para levantar-se. Embora a psican\u00e1lise o fizesse despertar, fato que se traduziu em um melhor viver, o despertar pelas manh\u00e3s ainda \u00e9 dif\u00edcil e requer de seu parceiro que, como amor sintom\u00e1tico, lhe diga em tais circunst\u00e2ncias um doce \u00abfala-me\u00bb que o envolve com a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">4.- A t\u00edtulo de conclus\u00e3o<\/span><br \/>\nPerguntamo-nos ao longo deste artigo entre o resolvido no corpo e o que insiste ali como resto sintom\u00e1tico. Por acaso o pacificado estava mais solidamente arraigado no simb\u00f3lico ou no imagin\u00e1rio, e o que insiste est\u00e1 atado a um real que a an\u00e1lise n\u00e3o consegue afetar? Pelo menos em Monribot o fato pareceria ser desta ordem. Ele come\u00e7a sua jornada pela vida sob uma grave amea\u00e7a de morte, amea\u00e7a impregnada em grande medida por graves estados febris que n\u00e3o s\u00f3 deixariam uma marca na subjetividade, mas tamb\u00e9m em alguns \u00f3rg\u00e3os. Outros testemunhos n\u00e3o permitiriam considerar claramente tal hip\u00f3tese que, no entanto, merece ser explorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado est\u00e1 a quest\u00e3o dos restos sintom\u00e1ticos e o\u00a0<i>sinthome<\/i>. Este \u00faltimo, como evidenciam de Lacan v\u00e1rios testemunhos, h\u00e1 ser entendido como um saber virar-se com algo sintom\u00e1tico que j\u00e1 n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 a melhor maneira de designar os restos sintom\u00e1ticos. Tal equival\u00eancia tem consequ\u00eancias no exame do tema, consequ\u00eancias n\u00e3o sempre tidas em conta, pois n\u00e3o fica, seja por caso, a op\u00e7\u00e3o de defini-los como uma forma da resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta por sublinhar pelo menos o uso do corpo por parte do analista como agente da interpreta\u00e7\u00e3o e sua implica\u00e7\u00e3o em particular nos progressos de uma experi\u00eancia anal\u00edtica. Talvez&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliograf\u00eda<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Naparstek, p. 49<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">O objetivo central no cartel foi, portanto estabelecer elementos de resposta para a pergunta relativa sobre o que pode ser encontrado nos testemunhos sobre os efeitos da experi\u00eancia anal\u00edtica no corpo.<br \/>\nDeixe-nos salientar que a constru\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento consistente nesse sentido exige considerar planos como a cl\u00ednica psicanal\u00edtica dos eventos do corpo, a teoria do final de an\u00e1lise, o estatuto te\u00f3rico da chamada \u00aba cl\u00ednica do passe\u00bb, quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas tais como a que autoriza a se deslocar do singular para alguma forma de generaliza\u00e7\u00e3o, entre outros problemas principais. Aqui se fala desde \u00e2ngulos diferentes sobre tais quest\u00f5es, algumas de forma impl\u00edcita foram tidas em conta.<br \/>\nForam realizadas reuni\u00f5es pela internet entre cinco membros da NEL durante cerca de cinco meses do ano 2013, embora, durante este per\u00edodo houve tamb\u00e9m um significativo interc\u00e2mbio entre seus membros, por e-mail. O cartel foi formado a partir da proposta de trabalho feita pela Comiss\u00e3o Cient\u00edfica de ENAPOL 6. Para o efeito foram examinados e submetidos a discuss\u00e3o v\u00e1rios testemunhos de passe, nos quais se procurou privilegiar sobretudo a problem\u00e1tica indicada, al\u00e9m de ter sido considerada uma bibliografia espec\u00edfica referida ao tema, incluindo alguns relat\u00f3rios das comiss\u00f5es do passe e cr\u00f4nicas de congressos da AMP nas quais foram resenhadas sess\u00f5es sobre o passe. Outros testemunhos conclusivos, al\u00e9m dos j\u00e1 indicados, tamb\u00e9m foram levados em considera\u00e7\u00e3o no cartel, embora n\u00e3o tenham sido objeto de um exame detalhado.<br \/>\nOs testemunhos de passe escolhidos por um ou outro cartelizante e que foram examinados durante o trabalho do cartel s\u00e3o dos seguintes AE: Guy Briole, Leonardo Gorostiza, Angelina Harari, Ana Lucia Luttherbach Holch, Patrick Monribot, Estela Paskvan, Marie-H\u00e9l\u00e8ne Roch, Lu\u00eds Dar\u00edo Salamone, Silvia Salman e Gustavo Stiglitz. N\u00e3o todos s\u00e3o objeto de um exame muito espec\u00edfico neste texto, mas as suas proposi\u00e7\u00f5es influ\u00edram em sua publica\u00e7\u00e3o. Entre aqueles que tamb\u00e9m foram tidos em conta para algumas refer\u00eancias pontuais, embora n\u00e3o discutidos no cartel, mas de uma maneira parcial, encontram-se testemunhos de Patricia Bosqu\u00edn-Caroz, Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, Florencia Dassen, Gabriela Dargenton, Araceli Fuentes, An\u00edbal Laserre, Celine Menghi, Ana Lyda Santiago, Bernard Seynhaeve, Hebe Tizio, Mauricio Tarrab, Lu\u00eds Tudanca e Antoni Vicens.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Cottet, p. 134<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lutterbach, a, p. 16<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">AMP, v\u00e1rios, p. 313<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Menghi, C., p. 53.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Menghi, C., p. 53.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Salman, S. (b), p. 55.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Bassols e outros, p. 144.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Harari, A. p. 49.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[176],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1115"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1116,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions\/1116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}