{"id":1127,"date":"2021-08-18T21:15:52","date_gmt":"2021-08-19T00:15:52","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1127"},"modified":"2021-08-18T21:15:52","modified_gmt":"2021-08-19T00:15:52","slug":"monica-pelliza-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/monica-pelliza-2\/","title":{"rendered":"M\u00f3nica Pelliza"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">De que crian\u00e7a se trata?<\/span><\/strong><br \/>\nEste trabalho corresponde a um dos eixos de investiga\u00e7\u00e3o em desenvolvimento no \u00e2mbito da Conversa\u00e7\u00e3o do ENAPOL\u00a0<i>A crian\u00e7a amo<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Participantes do grupo: Giancarla Antezana, Liliana Bosia, Mar\u00eda Elena Cano, Edwin Jijena, Claudia Pe\u00f1aloza, Diego Tirado, Ricardo Torrej\u00f3n, Gabriela Urriolagoitia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto, reflete-se sobre alguns conceitos que possam dar conta da quest\u00e3o da crian\u00e7a, conforme estes pontos de refer\u00eancia: a crian\u00e7a freudiana, a crian\u00e7a lacaniana e a crian\u00e7a produto da hipermodernidade, tomada como a crian\u00e7a amo\/tirana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">A crian\u00e7a freudiana<\/span><\/strong><br \/>\nNo texto\u00a0<i>Sobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o<\/i>, Freud concebe a crian\u00e7a instalada como objeto do desejo dos pais: \u00abSua majestade, o beb\u00ea\u00bb &#8211; crian\u00e7a privilegiada, que imortaliza o narcisismo dos pais. Simultaneamente e em contraponto, Freud p\u00f5e em cena a crian\u00e7a \u00abperversa e polimorfa\u00bb, que escandalizou a sociedade vienense, em 1905. Trata-se de uma crian\u00e7a que goza atrav\u00e9s de v\u00e1rias partes de seu corpo; \u00e9 uma crian\u00e7a autoer\u00f3tica em seu modo de satisfa\u00e7\u00e3o. Essa erotiza\u00e7\u00e3o precoce do corpo revoluciona o conceito de \u00abinoc\u00eancia\u00bb como parte constitutiva da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pequeno Hans \u00e9 a estrela que retrata a crian\u00e7a freudiana. Ele apresenta uma forma\u00e7\u00e3o substitutiva: o \u00abmedo de cavalo\u00bb, produto de uma atividade masturbat\u00f3ria e tamb\u00e9m do nascimento da irm\u00e3, que o expulsa do mundo id\u00edlico com a m\u00e3e. Revela-se, assim, um excesso sexual que deve ser sufocado pelo recalque. Esse cavalo que d\u00e1 pinotes, na verdade, \u00e9 um animal que morde, e que morde os genitais, revelando, desse modo, um sofrimento que \u00e9 efeito de uma falha na amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o. Trata-se de um filho do \u00c9dipo que sustenta os ideais daquela \u00e9poca \u2013 princ\u00edpios do S\u00e9culo XX \u2013 e que, portanto, est\u00e1 assujeitado \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es da moral vitoriana. Por acaso, o pai do pequeno Hans n\u00e3o anteciparia o pai permissivo do S\u00e9culo XXI, que n\u00e3o se incomoda e n\u00e3o responde?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">A crian\u00e7a lacaniana<\/span><\/strong><br \/>\nA crian\u00e7a lacaniana \u00e9, essencialmente, uma crian\u00e7a traumatizada. No primeiro ensino de Lacan \u2013 anos 50 \u2013 encontramos uma crian\u00e7a envolta com a problem\u00e1tica ed\u00edpica: ser o falo imagin\u00e1rio da m\u00e3e que, atrav\u00e9s dessa crian\u00e7a, resolveu a pr\u00f3pria falta do p\u00eanis. Os sintomas da crian\u00e7a se estabelecem como respostas face \u00e0 castra\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e como substitutos do Pai Real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, no Semin\u00e1rio 11, surge um sujeito-crian\u00e7a, representado mas ainda inconsciente, em af\u00e2nise &#8211; dada a onipresen\u00e7a do sentido que vem do Outro &#8211; e que vai disparar uma estrat\u00e9gia de separa\u00e7\u00e3o \u2013 muitas vezes articulada ao Nome-do-Pai \u2013 para provocar uma falta no Outro do desejo e, assim, ele pr\u00f3prio tornar-se um sujeito desejante. A resposta da crian\u00e7a se constitui, aqui, em um sintoma que revela uma forma de gozo que sustenta o objeto\u00a0<i>a<\/i>. Essa resposta de gozo \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento passa pela subtra\u00e7\u00e3o\/cess\u00e3o desse gozo. O trauma se assenta no encontro com o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio 20, Lacan opera um giro no qual a linguagem, destinada \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e \u00e0 articula\u00e7\u00e3o com o Outro, passa a ser um dado secund\u00e1rio. O estatuto da linguagem, como afirma Miller, \u00e9 concebido como semblante, assim como a comunica\u00e7\u00e3o, o conceito de Outro, o Nome-do-Pai, o s\u00edmbolo f\u00e1lico. \u00abEle coloca em quest\u00e3o o conceito mesmo de linguagem, que passa a ser considerado um conceito derivado, e n\u00e3o origin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o lacaniana de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>, que \u00e9 a fala antes de seu ordenamento gramatical e lexicogr\u00e1fico.\u00bb[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Lal\u00edngua\u00a0<\/i>revela um gozo do\u00a0<i>bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1,<\/i>\u00a0que reenvia ao gozo Uno que prescinde do Outro. O Outro \u00e9 o Outro do Um e a fala se encarna no gozo Uno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o Semin\u00e1rio 20 e a Confer\u00eancia de Genebra, o sintoma se cristaliza n\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com o Outro, mas sim em\u00a0<i>lal\u00edngua.<\/i>\u00a0O traum\u00e1tico se define pelo encontro com as palavras, com o S1 sozinho, n\u00e3o significado por um S2. O simb\u00f3lico \u00e9 secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a esse encontro ins\u00f3lito e contingente de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0com o corpo. Esse gozo Uno revela que n\u00e3o existe gozo do Outro, sustentando-se, portanto, a proposi\u00e7\u00e3o\u00a0<i>A rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No acontecimento traum\u00e1tico, encontramos um corpo afetado, onde ficam os tra\u00e7os de afeta\u00e7\u00e3o perturbadores na vida do\u00a0<i>parl\u00eatre<\/i>, diz Miller. Assim, o acontecimento contingente \u00e9 o impacto de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0sobre o\u00a0<i>parl\u00eatre.<\/i>\u00a0\u00abN\u00e3o \u00e9 o \u00c9dipo que \u00e9 o princ\u00edpio do acontecimento fundamental, tra\u00e7ador de afeta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua\u00bb.[2] Isso produz o trauma. O estatuto do acontecimento j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais produzido pelo Outro, pelo fantasm\u00e1tico, mas sim pela incid\u00eancia de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>, que impacta o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan muda, assim, a leitura do pequeno Hans, que entra na s\u00e9rie das crian\u00e7as afetadas por um\u00a0<i>troumatisme<\/i>: frente \u00e0 falta de sentido &#8211; S1 &#8211; produzida pela ere\u00e7\u00e3o \u2013 que se apresenta como um gozo sem-limite \u2013 ele desenvolve uma fobia. Lacan mostra que os sintomas t\u00eam sentido quando relacionados \u00e0 realidade sexual. Ele afirma que \u00ab(&#8230;) o inconsciente, foi Freud quem o inventou (&#8230;) uma inven\u00e7\u00e3o no sentido de que \u00e9 uma descoberta associada ao encontro que certos seres t\u00eam com sua pr\u00f3pria ere\u00e7\u00e3o.\u00bb[3] Esse gozo passa a ser\u00a0<i>estranho, alheio<\/i>, j\u00e1 que o pequeno Hans tem que enfrentar isso sem entender nada, estando ainda no in\u00edcio de sua fobia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan comenta sobre a observa\u00e7\u00e3o do caso da menina Sandy, de 2 anos e 5 meses, realizada por Anneliese Schnurmann[4]: \u00abA primeira frase realmente longa e articulada que ela pronuncia \u2013 tem um certo retardamento em sua evolu\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 para dizer que o cachorro morde a perna do menino mau, e isso em pleno\u00a0<i>acting<\/i>\u00a0de sua fobia.\u00bb[5] \u00c9 importante sublinhar que o sem-sentido do S1 sozinho, que estabelece um furo no saber, \u00e9 o que impulsiona a pequena Sandy a falar buscando um sentido (S2) que a pacifique. Ela se acidenta durante o banho e um peda\u00e7o de sabonete se introduz em sua vagina; fica chocada com o evento \u2013 que lhe \u00e9 estranho \u2013 e demora muito para se acalmar. O uso da linguagem \u00e9 secund\u00e1rio e o efeito desse acontecimento de corpo \u00e9 a resolu\u00e7\u00e3o da fobia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">E hoje? A crian\u00e7a amo-tirana<\/span><\/strong><br \/>\nEm\u00a0<i>Uma fantasia,<\/i>\u00a0Miller assinala que o objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0est\u00e1 no Z\u00eanite social. Esse objeto mais-de-gozar comanda o discurso hipermoderno. \u00abEla (a pr\u00e1tica lacaniana) conduz seu jogo na dimens\u00e3o de um real que falha, de tal modo que a rela\u00e7\u00e3o dos dois sexos entre si tornar-se-\u00e1 cada vez mais imposs\u00edvel. Ent\u00e3o, o um-sozinho ser\u00e1 o s<i>tandard\u00a0<\/i>p\u00f3s-humano[6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, a vida humana se regula pelo imediatismo da tecnoci\u00eancia e do tecnocapitalismo. Miller afirma que \u00abo Nome-do-Pai tradicional foi atingido e depreciado pela combina\u00e7\u00e3o de dois discursos, o da ci\u00eancia e o do capitalismo[7]. As leis de mercado substitu\u00edram as tradicionais. Estamos dominados pela ditadura do mais-de-gozar que faz explodir a tradi\u00e7\u00e3o, o discurso do mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramo-nos, agora, com uma crian\u00e7a filha do discurso capitalista, colocada como objeto de consumo de uma engrenagem que impulsiona direto ao gozo. \u00c9 desse lugar que a crian\u00e7a se constitui em amo-tirana e caprichosa, comandando os pais, a fam\u00edlia, os educadores, o Outro social. Esse Outro ao qual a crian\u00e7a se dirige \u00e9, por sua vez, um pai e\/ou uma m\u00e3e produtos da hipermodernidade, eles pr\u00f3prios sendo\u00a0<i>cool,<\/i>\u00a0permissivos, hedonistas, enfim, caprichosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 frequente, nos dias de hoje, ver uma m\u00e3e aprisionada pela imagem do celular ou de qualquer dispositivo de inform\u00e1tica, enquanto amamenta. S\u00e3o pais ausentes, arbitr\u00e1rios, narcisistas e individualistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as crian\u00e7as? Nessas crian\u00e7as caprichosas, a puls\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 regulada pelo simb\u00f3lico. \u00ab<i>Sou o que sou!\u00bb\u00a0<\/i>Em\u00a0<i>Donc<\/i>, Miller lembra que se trata de uma escolha for\u00e7ada,\u00a0<i>opto por ser eu<\/i>, ser de gozo, ao se recha\u00e7ar o inconsciente. Ent\u00e3o, \u00ab<i>Eu quero, porque quero!\u00bb<\/i>\u00a0H\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o direta da puls\u00e3o, revelando um excesso de gozo. Adela Fryd identifica essas crian\u00e7as como \u00abcrian\u00e7as amo\u00bb.[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, constatamos, ao acompanhar Miller, que quando esse capricho se articula a uma vontade, a crian\u00e7a chega e diz \u00ab<i>Eu quero! Sou eu que quero!<\/i>\u00ab[9] Encontramos uma crian\u00e7a colocada em posi\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<i>a<\/i>, que tiraniza com este \u00ab<i>eu quero<\/i>\u00ab, um \u00ab<i>eu quero<\/i>\u00bb absoluto, que funciona como puls\u00e3o. No esquema sadiano, esse exerc\u00edcio da vontade produz no Outro a divis\u00e3o do sujeito, um sujeito barrado. A vontade que divide equivale \u00e0 vontade da puls\u00e3o, a puls\u00e3o como vontade de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por acaso, n\u00e3o poder\u00edamos colocar neste lugar a crian\u00e7a amo \u2013 no lugar do<i>\u00a0V<\/i>\u00a0da vontade \u2013 produzindo o desespero da m\u00e3e, do pai e do Outro social? Essa crian\u00e7a encontra-se em um paradoxo, submetida ao imperativo categ\u00f3rico dela pr\u00f3pria e, ao mesmo tempo, comandando o Outro. O princ\u00edpio dessa vontade \u00e9 o\u00a0<i>a<\/i>, por detr\u00e1s desse \u00ab<i>eu quero<\/i>\u00ab.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Algumas reflex\u00f5es sobre o eu<\/span><\/strong><br \/>\nLacan diz, no Semin\u00e1rio 17, que existe um significante, o S1 puro, que \u00e9 o Eu. Esse significante aporta um sentido absoluto e est\u00e1 localizado no lugar da verdade, no discurso universit\u00e1rio. \u00c9 importante destacar o car\u00e1ter absoluto desse S1, do Eu-mestre: \u00abO Eu id\u00eantico a si mesmo, \u00e9 precisamente da\u00ed que se constitui o S1 do puro imperativo\u00bb.[10] &#8216;<i>Sou o que sou\u00bb<\/i>\u00a0gera um sentido absoluto no lugar da verdade e sustenta o que Lacan chama de<i>\u00a0Eucracia<\/i>, a identidade a si pr\u00f3prio. Trata-se do S1 como Eu do mestre: \u00abaquele que, de algum modo, cont\u00e9m em si qualquer verdade que enuncia um saber\u00bb. Estamos no reino do eu ideal, com uma preponder\u00e2ncia da imagem sobre o simb\u00f3lico, onde o gozo da imagem, como um resto de libido que n\u00e3o cessa, desemboca em um gozo narcisista caprichoso e teimoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deparamo-nos com um Eu no qual se acredita. Miller afirma: \u00abacredita-se senhor do seu ser e se diz Eu\u00bb. [11] N\u00e3o apenas acredita, mas, tamb\u00e9m se identifica a ele. Trata-se de uma escolha for\u00e7ada e a crian\u00e7a opta pelo ser. Desencadeia-se uma loucura f\u00e1lica do eu, que gera no sujeito um narcisismo desmedido, que n\u00e3o aceita perdas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o crian\u00e7as arrogantes e empanturradas de narcisismo? \u00c9 o puro aprisionamento do eu ideal por um del\u00edrio imagin\u00e1rio. Em\u00a0<i>Donc<\/i>, Miller comenta que, na loucura, tratar-se-ia de uma cren\u00e7a em uma identidade de si sem passar pelo Outro; o que estaria em quest\u00e3o seria o imediatismo. Porventura, essas crian\u00e7as n\u00e3o teriam uma dificuldade de aliena\u00e7\u00e3o ao crer que a unicidade da identidade foi constru\u00edda sem passar pelo Outro? \u00c9 poss\u00edvel pensar que a separa\u00e7\u00e3o se opera no n\u00edvel do objeto e do corpo, evitando a resposta do significante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma vinheta cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma m\u00e3e bastante preocupada apresenta seu filho Jos\u00e9, de 7 anos. Acredita que ele pode se tornar um delinquente, diz que ele est\u00e1 sempre irritado, querendo ficar com a turma\u00a0<i>barra-pesada<\/i>\u00a0da escola, tem raiva, \u00e9 chor\u00e3o e n\u00e3o compreende algumas situa\u00e7\u00f5es. A m\u00e3e admite que n\u00e3o \u00e9 imparcial, que prefere a filha menor e que ela rejeita Jos\u00e9, do mesmo modo como ele a rejeita, estando, assim, m\u00e3e e filho nivelados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai \u00e9 passivo e permissivo, tenta proteger debilmente o filho face ao excesso materno, mas, paradoxalmente, essa \u00abcandura\u00bb s\u00f3 faz por aumentar a ferocidade da m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma m\u00e3e que acha que seu filho pode matar, que pode tornar-se um criminoso. Por fim, ela associa que sua pr\u00f3pria m\u00e3e era muito violenta, jogava-lhe contra a parede e pensou muitas vezes que ela queria lhe matar. Assim, construiu-se uma fantasia na qual se encontram a av\u00f3, a m\u00e3e e Jos\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro dia, Jos\u00e9 est\u00e1 encolhido na sala de espera, chora e diz que a m\u00e3e n\u00e3o o escuta. Imediatamente, a crian\u00e7a chorosa encolhida se transforma em um menino caprichoso, que quer que seja feita sua vontade e a imp\u00f5e atrav\u00e9s de birras, gritos e uma grande agita\u00e7\u00e3o. Ele se move bastante, sai e entra correndo no consult\u00f3rio, mexe em tudo. Diz que gosta de lutas, golpes e que assiste filmes de morte. Procura provocar o Outro. Diante do semelhante, situa-se com uma tens\u00e3o agressiva permanente e bate, insulta, provoca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidencia-se uma ferocidade no comportamento desse menino: faz o que quer e tem uma agita\u00e7\u00e3o que incomoda o Outro. A escola, o Outro social, tenta tranquilizar essa crian\u00e7a sem-limites, procurando introduzir a norma pela for\u00e7a: castigos diversos e o recurso m\u00e9dico da Ritalina\u00ae. Nada funciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se considerar que Jos\u00e9 consegue uma estrat\u00e9gia de separa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do corpo: agita\u00e7\u00e3o e gritos, provocando o olhar e a perturba\u00e7\u00e3o do Outro. Mas, paradoxalmente, tal manobra faz com que a crian\u00e7a caia como um dejeto. Trata-se de uma crian\u00e7a que, frente ao Desejo do Outro, responde a partir do olhar e do grito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dispositivo anal\u00edtico oferece uma escuta e a crian\u00e7a vai falando aos poucos. Em v\u00e1rias oportunidades, Jos\u00e9 diz \u00ab<i>ningu\u00e9m me olha<\/i>\u00ab, mas, no consult\u00f3rio, esconde-se do olhar da m\u00e3e, revelando-se uma crian\u00e7a vista pelo Outro. No dispositivo, a analista subtrai o olhar, o que produz o efeito de Jos\u00e9 deixar de se apresentar como um menino que convoca o olhar do Outro, mostrando-se uma crian\u00e7a tirana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 quebra os brinquedos. As interven\u00e7\u00f5es v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de se interrogar a crian\u00e7a se tem outra maneira de brincar e tamb\u00e9m quem \u00e9 o outro para Jos\u00e9. Fala da escola, diz que, quando come\u00e7a a brincar, os amigos o deixam s\u00f3. Eles abusam de Jos\u00e9. E ele tamb\u00e9m abusa deles. E conclui: eles, de fato, n\u00e3o s\u00e3o bons amigos. Em seguida, admite que ele pr\u00f3prio perturba e n\u00e3o aceita os amigos, principalmente aqueles que cheiram mal. Continua pondo quest\u00f5es referentes aos seus companheiros: n\u00e3o gosta de ser rejeitado. Sabe que para resolver isso tem que deixar de ser violento. Sabe muito bem disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 chega a dizer que a m\u00e3e e ele n\u00e3o escutam um ao outro. Diz que os dois s\u00e3o abusivos, grit\u00f5es e caprichosos. Tanto a m\u00e3e como Jos\u00e9 se apresentam dois mestres em espelho, uma verdadeira loucura, na qual, aparentemente, o Eu se construiu sem passar pelo Outro. No dispositivo, a analista se oferece como um Outro que possibilita que Jos\u00e9 saia do lugar de objeto dejeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco a pouco, Jos\u00e9 tenta se perguntar sobre este comportamento agressivo. Conclui que tem que fazer algo com isso. Jos\u00e9 tenta se responsabilizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o ano da an\u00e1lise, comenta que gosta de falar, deita no div\u00e3 e fala. Ele se tornou outro. Sob transfer\u00eancia, sabe que h\u00e1 pelo menos um Outro que lhe escuta. Alguma coisa do gozo se freia pela palavra e pela via do humor, pela \u00abdesdramatiza\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 que n\u00e3o \u00e9 sem responsabilidade \u2013 e pela possibilidade de relativizar os acontecimentos. O gozo do olhar foi barrado, em algum momento Jos\u00e9 deixa de se exibir e de abusar sexualmente dos meninos e sai do lugar de \u00abpe\u00e7a rara\u00bb para o Outro. Tamb\u00e9m teve, atrav\u00e9s do humor, uma diminui\u00e7\u00e3o do gozo na voz &#8211; gritos e insultos permanentes \u2013 permitindo outro uso da palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Para concluir<\/span><\/strong><br \/>\nComo pensar a cl\u00ednica com essas crian\u00e7as? E. Laurent coloca que o psicanalista deve proteger a crian\u00e7a destes del\u00edrios da fam\u00edlia e do Estado e \u00aba permitir orientar-se, encontrar seu caminho, discernir como ela \u2013 que foi efeito do &#8216;aborto&#8217; do desejo dos pais, dos impasses da produ\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a como objeto na civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 pode e deve dotar-se de meios, por sua vez, para tra\u00e7ar a \u00abplanta do pr\u00e9dio\u00bb, condi\u00e7\u00e3o para que encontre a sa\u00edda que lhe permita construir uma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel, habit\u00e1vel para ela e seus futuros filhos\u00bb.[12]\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: F\u00e1bio Paes Barreto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A. \u00abOs seis paradigmas do gozo\u00bb,\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.26\/27<\/i>, S\u00e3o Paulo, E\u00f3lia, 2000, p.101.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A. \u00abBiologia lacaniana e acontecimentos de corpo\u00bb,\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.41<\/i>, S\u00e3o Paulo, E\u00f3lia, 2004, p.53.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. \u00abConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u00bb,\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.23<\/i>, S\u00e3o Paulo, E\u00f3lia, 1998, p.10.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Schnurmann, A.\u00bbObservation of a Phobia\u00bb,\u00a0<i>The Psychoanaliytic Study of the Child\u00bb,<\/i>\u00a0New York, 1949, p.253, p.270.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. \u00abA Dial\u00e9tica da frustra\u00e7\u00e3o\u00bb,\u00a0<i>O Semin\u00e1rio livro 4: A rela\u00e7\u00e3o de objeto.<\/i>\u00a0Rio de Janeiro, Zahar, 1995, p.73.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A. \u00abUma fantasia\u00bb,\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n.42<\/i>, S\u00e3o Paulo, E\u00f3lia, 2004, p.13.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A.,\u00a0<i>\u00abLo real en el Siglo XXI\u00bb,<\/i>\u00a0El Orden Simb\u00f3lico en el Siglo XXI, No es m\u00e1s lo que era, \u00bfQu\u00e9 consecuencias para la cura?, Grama, Buenos Aires, 2012, p.426.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Fryd, A., \u00abAmos del amo\u00bb,\u00a0<i>Psicoan\u00e1lisis con ni\u00f1os y adolescentes 2,<\/i>\u00a0Grama, Buenos Aires, 2009, p. 127.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A., \u00abCapricho y Voluntad\u00bb,\u00a0<i>Los usos del lapso,\u00a0<\/i>Paid\u00f3s, Buenos Aires., 2004, p.168.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. \u00abVerdade, irm\u00e3 de gozo\u00bb,\u00a0<i>O Semin\u00e1rio livro 17: O avesso da psican\u00e1lise.<\/i>\u00a0Rio de Janeiro, Zahar, 1992, p.59.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller J-A., \u00ab<i>La inconsistencia del inconsciente\u00bb,<\/i>\u00a0Donc, La l\u00f3gica de la cura, Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2011, p.425<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Laurent, \u00abEl ni\u00f1o, \u00bfresto?\u00bb,<i>\u00a0Psicoan\u00e1lisis con ni\u00f1os y adolescentes 3<\/i>, grama, Bs. As., 2011, p.26.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[178],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1127"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1127"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1128,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1127\/revisions\/1128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}