{"id":1143,"date":"2021-08-18T21:25:17","date_gmt":"2021-08-19T00:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1143"},"modified":"2021-08-18T21:25:17","modified_gmt":"2021-08-19T00:25:17","slug":"ondina-machado-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/ondina-machado-2\/","title":{"rendered":"Ondina Machado"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Relat\u00f3rio do Grupo de trabalho da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<br \/>\n<b>Grupo de trabalho composto por:<\/b>\u00a0Ondina Machado (coord.), Marcus Andr\u00e9 Vieira (\u00eaxtimo), \u00c2ngela Gentile, Fl\u00e1via Brasil, Gl\u00e1ucia Barbosa, Gustavo Fonseca, Heloisa Shimabukuro, Lenita Bentes, Leonardo Miranda, Maria L\u00facia Celestino, Mariana Mollica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">A viol\u00eancia urbana nos dias atuais<\/span><br \/>\nRecortamos a viol\u00eancia urbana e caracterizamos o momento atual como aquele em que o decl\u00ednio do simb\u00f3lico mostra suas consequ\u00eancias, no qual o recurso aos semblantes da exce\u00e7\u00e3o, da autoridade, do Pai e da complementariedade entre os sexos perderam pot\u00eancia em nome da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional sem media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">De que viol\u00eancia se trata:<\/span><br \/>\nO que nos interessa \u00e9 a viol\u00eancia \u00abmais longe do inconsciente\u00bb, portanto, que n\u00e3o seja a express\u00e3o do recalcado e, assim, n\u00e3o ceda \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partimos da refer\u00eancia de Lacan, no Semin\u00e1rio V, quando distingue viol\u00eancia e agressividade:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab(&#8230;) a viol\u00eancia \u00e9 de fato o que h\u00e1 de essencial na agress\u00e3o, pelo menos no plano humano. N\u00e3o \u00e9 a fala, \u00e9 at\u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. O que pode produzir-se numa rela\u00e7\u00e3o inter-humana s\u00e3o a viol\u00eancia ou a fala. Se a viol\u00eancia distingue-se em sua ess\u00eancia da fala, pode colocar-se a quest\u00e3o de saber em que medida a viol\u00eancia como tal \u2013 para distingui-la do uso que fazemos do termo agressividade \u2013 pode ser recalcada, uma vez que postulamos como princ\u00edpio que s\u00f3 pode ser recalcado, em princ\u00edpio, aquilo que revela ter ingressado na estrutura da fala, isto \u00e9, a uma articula\u00e7\u00e3o significante. Se o que \u00e9 da ordem da agressividade chega a ser simbolizado e captado no mecanismo daquilo que \u00e9 recalque, inconsci\u00eancia, daquilo que \u00e9 analis\u00e1vel, e at\u00e9, de maneira geral, daquilo que \u00e9 interpret\u00e1vel, \u00e9 por interm\u00e9dio do assassinato do semelhante que est\u00e1 latente na rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria.\u00bb[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi importante distinguir agressividade e viol\u00eancia, mesmo considerando que elas podem guardar certa rela\u00e7\u00e3o, para entender que esta \u00faltima est\u00e1 mais no registro do real, enquanto a agressividade estaria mais diretamente ligada \u00e0s rela\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. A viol\u00eancia como o real da agressividade, a aproxima da puls\u00e3o e a coloca distante do significante. Por\u00e9m, como nos alerta Laurent [2], n\u00e3o podemos reduzir essa quest\u00e3o a uma oposi\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia e fala, pois facilmente cair\u00edamos na falsa afirmativa de que onde h\u00e1 fala n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia. A articula\u00e7\u00e3o significante \u00e9 mais ampla e inclui a cultura, os dispositivos sociais, as coordenadas que localizam um sujeito em rela\u00e7\u00e3o aos seus significantes-mestres, enfim, toda uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas que se antep\u00f5em ao real, que fazem a media\u00e7\u00e3o entre ele e o sujeito. N\u00e3o basta falar se n\u00e3o h\u00e1 uma b\u00fassola que sirva de orienta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o estabele\u00e7a pontos que evitem a deriva ao real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da humanidade est\u00e1 repleta de fatos violentos. Alguns mobilizaram na\u00e7\u00f5es, grupos religiosos e segmentos ideol\u00f3gicos. Contingentes de pessoas foram convocadas a defender posi\u00e7\u00f5es ou atacar quem os amea\u00e7ava. Alguns demarcaram momentos importantes de mudan\u00e7a geopol\u00edtica, econ\u00f4mica e social. No plano individual, tamb\u00e9m constatamos in\u00fameros crimes, alguns famosos, que horrorizaram o mundo. Em geral, estes atos violentos t\u00eam uma ordena\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mata-se para roubar, por vingan\u00e7a, para usurpar o poder; por sentir-se perseguido, humilhado, ou para se livrar de vozes atormentadoras. Mata-se para derrubar um regime pol\u00edtico, para dominar uma na\u00e7\u00e3o, para defender uma cren\u00e7a. Enfim, para matar n\u00e3o faltam motivos. De uma ou outra forma estes s\u00e3o crimes que t\u00eam um objetivo exterior ao pr\u00f3prio crime. Lacan os denomina de crimes do eu, Miller diz que s\u00e3o crimes de utilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa pesquisa, contudo, se dedicou aos crimes de gozo. Segundo Miller, s\u00e3o crimes in\u00fateis sob o ponto de vista da utilidade. Se h\u00e1 neles um objetivo, ele est\u00e1 no pr\u00f3prio crime, momento no qual h\u00e1 uma abertura ao gozo, a libera\u00e7\u00e3o de um tipo de satisfa\u00e7\u00e3o t\u00e3o radicalmente singular que n\u00e3o pode ser transmitida nem compartilhada: \u00abrebelde ao universal, definitivamente muda, nenhum suporte\u00a0<i>psi<\/i>\u00a0saberia faz\u00ea-la falar, nenhuma estat\u00edstica reduz sua originalidade\u00bb[3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscamos isolar os crimes nos quais comparecessem esses determinantes e tra\u00e7amos como hip\u00f3tese geral que neles haveria a concorr\u00eancia da puls\u00e3o no seu aspecto necess\u00e1rio, ac\u00e9falo e irruptivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta estrutura m\u00ednima permitiu extrair da multiplicidade dos crimes que vem a p\u00fablico, aqueles que satisfazem \u00e0s particularidades dos crimes de gozo por entendermos que s\u00e3o mais caracter\u00edsticos dos dias atuais, quando, porque os semblantes n\u00e3o funcionam para articular o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio, o que se percebe \u00e9 que tudo vira semblante na medida em que \u00e9 uma cultura que se orienta pelo objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Nosso paradigma:<\/span><br \/>\nCircunscrever o crime de gozo como paradigm\u00e1tico possibilitou-nos aplicar o conceito lacaniano de gozo a um fen\u00f4meno social, sem, entretanto, desconhecer que em cada caso concorreriam tra\u00e7os subjetivos que, estando ou n\u00e3o dispon\u00edveis para an\u00e1lise, devem ser considerados. Analisamos passagens ao ato que redundaram em crime e outras que tiveram consequ\u00eancias radicais, por\u00e9m n\u00e3o criminosas. Elegemos um deles como nosso paradigma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se do assassinato de um menino boliviano de 5 anos, morto com um tiro na cabe\u00e7a por um dos seis assaltantes que invadiu a casa onde morava com os pais e outros 11 conterr\u00e2neos. Esse crime ocorreu em S\u00e3o Paulo, cidade que recebe muitas pessoas vindas da Bol\u00edvia para trabalhar em pequenas confec\u00e7\u00f5es de roupas e assim juntar dinheiro para retornar a seu pa\u00eds. Por guardarem o dinheiro em casa n\u00e3o \u00e9 incomum serem assaltados, como atestam v\u00e1rias ocorr\u00eancias, por\u00e9m, neste caso, houve um ingrediente que chocou o pa\u00eds. Ap\u00f3s terem roubado o que puderam, quando j\u00e1 deixavam a casa, um dos assaltantes atirou no menino. Ele e outras crian\u00e7as estavam presentes no momento do assalto, todas choravam e gritavam. Os pais foram amea\u00e7ados para fazerem com que elas se calassem. Para os jornais, o menino foi morto porque seu choro incomodou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assassino foi identificado como um jovem de 20 anos, foragido de uma penitenci\u00e1ria onde cumpria pena por roubo. Os tr\u00eas assaltantes presos disseram n\u00e3o terem entendido porque o comparsa atirou no menino, inclusive que tentaram mat\u00e1-lo porque sua atitude complicou a situa\u00e7\u00e3o de todos. No final de agosto os tr\u00eas foram envenenados dentro do pres\u00eddio, provavelmente por uma fac\u00e7\u00e3o criminosa que n\u00e3o teria gostado da repercuss\u00e3o. Para alguns agentes penitenci\u00e1rios, o PCC matou os acusados por \u00abn\u00e3o tolerar viol\u00eancia contra crian\u00e7as\u00bb[4]. A esposa do suposto assassino, tamb\u00e9m muito jovem, declarou ter com ele um menino de 6 meses (na \u00e9poca) com quem ele \u00e9 muito carinhoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns detalhes nos levam a crer trata-se de crime de gozo: 1- o objetivo j\u00e1 havia sido alcan\u00e7ado quando o crime foi cometido, 2- nada o impedia de ir embora para se livrar do choro, 3- o crime de roubo tem pena m\u00e1xima de 10 anos, enquanto o latroc\u00ednio (roubo com morte) chega a 30 anos de deten\u00e7\u00e3o, 4- n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o era inten\u00e7\u00e3o matar como isso n\u00e3o fazia parte do\u00a0<i>modus operandi<\/i>\u00a0do grupo, 5- choro de crian\u00e7a n\u00e3o lhe era estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O insond\u00e1vel:<\/span><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel determinar porque o jovem atirou, talvez nem mesmo ele saiba. Ao inv\u00e9s de buscar sentidos, tentamos testar algumas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1- Relacionar o crime de gozo \u00e0 passagem ao ato, 2- verificar se nesse tipo de crime concorre a fantasia, 3- relacionar o crime de gozo e a passagem ao ato ao decl\u00ednio da ordem simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Gozo:<\/span><br \/>\nAs formula\u00e7\u00f5es de Lacan sobre o gozo situam sua inutilidade, seu car\u00e1ter excessivo e sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a vontade do sujeito. O gozo se imp\u00f5e ao sujeito como algo necess\u00e1rio, o que demonstra sua afinidade com a puls\u00e3o que visa unicamente a satisfa\u00e7\u00e3o independe do objeto. Ao mesmo tempo que qualquer objeto serve, n\u00e3o h\u00e1 um que a satisfa\u00e7a porque nenhum extingue sua for\u00e7a. \u00c9 isso que faz do gozo uma exig\u00eancia que despreza o bem estar do sujeito. \u00c9 nesse sentido, tamb\u00e9m, que o crime de gozo n\u00e3o visa a obten\u00e7\u00e3o de um bem, nem qualquer condi\u00e7\u00e3o externa ao pr\u00f3prio crime. A busca da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional ultrapassa o sujeito, n\u00e3o sofre recalque, portanto, n\u00e3o gera sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Ang\u00fastia:<\/span><br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro produz um resto, algo que n\u00e3o \u00e9 do sujeito, n\u00e3o \u00e9 do Outro, mas \u00e9 produzido por essa rela\u00e7\u00e3o[5]. Para Lacan, a ang\u00fastia evid\u00eancia a presen\u00e7a dessa alguma coisa que n\u00e3o deveria estar l\u00e1, mas est\u00e1 presente sob a forma de uma aus\u00eancia. N\u00e3o se trata propriamente de um objeto, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ter uma certa objetalidade. Quando isso que est\u00e1 no ponto cego do sujeito aparece, sob qualquer forma, produz-se a ang\u00fastia[6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constitui\u00e7\u00e3o do sujeito est\u00e1 diretamente ligada a suposi\u00e7\u00e3o de um Outro que entra no c\u00e1lculo de toda a\u00e7\u00e3o, decis\u00e3o ou elucubra\u00e7\u00e3o subjetiva. A ang\u00fastia \u00e9 um conceito que Lacan explora para mostrar que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o dual, pois em tudo relativo ao sujeito concorre essa alteridade. Como suposto, o Outro faz parte da estrutura, por\u00e9m um acontecimento fortuito pode dar consist\u00eancia ao resto produzido na rela\u00e7\u00e3o. Nesse momento, aquilo que era atribu\u00eddo ao Outro se presentifica no campo do sujeito e o que apenas fazia parte de um c\u00e1lculo vem convoca-lo a responder de outro lugar. Dependendo dos recursos simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios dispon\u00edveis, a resposta pode ser a cria\u00e7\u00e3o de uma nova realidade para este novo sujeito ou, se vendo sem sa\u00edda e tentando dar uma solu\u00e7\u00e3o para a ang\u00fastia, passar ao ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Passagem ao ato:<\/span><br \/>\nDerivado da psiquiatria cl\u00e1ssica e al\u00e7ado, por Lacan, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de conceito, a passagem ao ato vale para todos os crimes, sejam eles de utilidade (simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios) ou crimes de gozo (real)[7]. Por\u00e9m, para investigar a viol\u00eancia, tendo em vista a distin\u00e7\u00e3o entre ela e a agressividade, como proposto no in\u00edcio deste relat\u00f3rio, recortamos a passagem ao ato nos de crime de gozo por entender que se trata do conceito mais adequado a este crime do que aos demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra tese a ser defendida \u00e9 que na passagem ao ato h\u00e1 o ultrapassamento da fantasia. Pode-se observar que os termos que comp\u00f5em o matema da fantasia se fundem quando h\u00e1 passagem ao ato, n\u00e3o havendo distin\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto[8].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio 10, Lacan caracteriza a passagem ao ato como uma sa\u00edda de cena do sujeito. H\u00e1 o mundo, no qual o \u00abreal se comprime\u00bb[9] e h\u00e1 a cena do Outro, onde o sujeito se constitui na sua rela\u00e7\u00e3o fundamental com a linguagem. Quando sai de cena, o sujeito \u00e9 ejetado da cena do Outro, indo cair no mundo do real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura b\u00e1sica do ato demonstra que sua temporalidade se assemelha a da urg\u00eancia. Nada permite sua previs\u00e3o, tampouco h\u00e1 planejamento, mas h\u00e1 uma certeza que pulou o tempo de compreender. O ato \u00e9 da ordem do necess\u00e1rio, n\u00e3o pode ser de outra maneira, isto \u00e9, mesmo que o acontecimento seja contingente, a resposta do sujeito, dada as condi\u00e7\u00f5es ou a falta delas, n\u00e3o poderia ser outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, a significa\u00e7\u00e3o do ato somente seria poss\u00edvel num tempo antes ou num tempo depois, ficando o ato em si sem significa\u00e7\u00e3o. Assim, podemos relacionar a viol\u00eancia \u00e0 puls\u00e3o como ac\u00e9fala, sem objeto e cuja satisfa\u00e7\u00e3o sempre \u00e9 encontrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira passagem ao ato produz uma mudan\u00e7a radical na posi\u00e7\u00e3o do sujeito. Ele n\u00e3o \u00e9 o mesmo, n\u00e3o h\u00e1 volta ao ponto de origem, mesmo que as coordenadas que o determinaram seja deduzidas, seus efeitos n\u00e3o s\u00e3o modificados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a radicalidade do ato, sua temporalidade e suas consequ\u00eancias, podemos afirmar que, no momento da passagem, n\u00e3o h\u00e1 a concorr\u00eancia de um sujeito nem a suposi\u00e7\u00e3o de um Outro, porque ambos dependem da articula\u00e7\u00e3o significante. O que h\u00e1 \u00e9 a \u00abcerteza assustadora\u00bb[10] da ang\u00fastia que a conecta com o real do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tenha sido o choro ou qualquer outro fator precipitante, sabe-se que matar o menino em nada contribuiu para a consecu\u00e7\u00e3o do roubo. Pelo contr\u00e1rio, uma ocorr\u00eancia que n\u00e3o passaria de um mais um registro policial, tomou propor\u00e7\u00f5es enormes. Transformou o ladr\u00e3o em assassino, fez dele alvo de uma persegui\u00e7\u00e3o policial que ainda mobiliza a pol\u00edcia paulista devido \u00e0 cobran\u00e7a da sociedade, \u00e0 necessidade do governo de S\u00e3o Paulo de prestar contas ao pa\u00eds e ao empenho da embaixada da Bol\u00edvia em ter o caso solucionado e justificar sua presen\u00e7a no pa\u00eds. Como se n\u00e3o bastasse, decretou sua senten\u00e7a de morte ao contrariar a fac\u00e7\u00e3o criminosa que domina a regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de utilidade n\u00e3o desconsidera os fatores subjetivos, pelo contr\u00e1rio, sup\u00f5e o encontro com um objeto insuport\u00e1vel que invadiu o campo do sujeito e o fez precipitar-se como dejeto de si mesmo. N\u00e3o se trata de justificar para desresponsabilizar, mas incluir o horror do ato no ser do sujeito, no repert\u00f3rio de respostas poss\u00edveis ao desejo suposto ao Outro. Buscar a significa\u00e7\u00e3o subjetiva de um crime n\u00e3o transforma o crime, mas talvez, possibilite que se conhe\u00e7a mais de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Psican\u00e1lise e crime:<\/span><br \/>\nEm 1950[11], Lacan defende que o crime tem uma causa simb\u00f3lica e por isso afirma que \u00aba psican\u00e1lise ao irrealizar o crime, n\u00e3o desumaniza o criminoso\u00bb[12]. Ao dar-lhe uma causa subjetiva humaniza o criminoso, em contraposi\u00e7\u00e3o a uma tend\u00eancia da \u00e9poca que identificava no criminoso tra\u00e7os de animalidade ou primitivismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta causa fica mais evidente nos crimes de utilidade; nos crimes de gozo a conting\u00eancia simb\u00f3lica fica apagada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 busca imediata da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Estes s\u00e3o os que mais intrigam a sociedade. Busca-se sempre uma utilidade no crime, quando isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tenta-se desumanizar o criminoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan considerou tamb\u00e9m que o crime tem um \u00abm\u00f3vel social fundamental\u00bb[13]. Ao tratar dos crimes do supereu e ligar essa inst\u00e2ncia \u00ab\u00e0s condi\u00e7\u00f5es sociais do edipianismo\u00bb diz que \u00abas tens\u00f5es criminosas inclu\u00eddas na situa\u00e7\u00e3o familiar s\u00f3 se tornam patog\u00eanicas nas sociedades onde essa pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o se desintegra\u00bb [14]. A tese da desintegra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia estava presente no texto \u00abOs complexos familiares\u00bb, no qual reconhecia que a cultura estava se dirigindo \u00e0 desordem simb\u00f3lica e que suas consequ\u00eancias repercutiam na forma\u00e7\u00e3o do supereu. De inst\u00e2ncia transmissora de valores, portanto reguladora do gozo, torna-se incitadora ao gozo, o que nos faz considerar que nos crimes de gozo o supereu se apresenta na vertente imperativa. Nos crimes de puni\u00e7\u00e3o evidencia-se uma articula\u00e7\u00e3o com a fantasia, enquanto nos crimes de gozo esta seria ultrapassada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No plano subjetivo, o ato criminoso denuncia a inefic\u00e1cia do recalque em passar o gozo para o inconsciente. No plano da cultura, o decl\u00ednio do simb\u00f3lico tem como consequ\u00eancia a perda de pot\u00eancia dos semblantes como tratamento ao real do gozo, ficando este dependente das solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a cada sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Consequ\u00eancias sociais:<\/span><br \/>\nUm exemplo recente mostra como a falta de tratamento do gozo leva o sujeito ao pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos antecedentes \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de rua, em junho \u00faltimo no Brasil, \u00e9 exemplar. Um jovem universit\u00e1rio deu sinal para que o \u00f4nibus parasse em determinado ponto, o motorista n\u00e3o atendeu e iniciou-se uma luta f\u00edsica. O ve\u00edculo perdeu a dire\u00e7\u00e3o, caiu de cima de um viaduto causando a morte de 7 pessoas e deixando v\u00e1rias feridas. Este n\u00e3o foi um fato isolado, ele aconteceu em meio a uma flagrante insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com os servi\u00e7os p\u00fablicos evidenciada por constantes conflitos entre motoristas e passageiros, m\u00e9dicos e pacientes, professores e alunos. Fruto da desordem social, este acontecimento tr\u00e1gico mostra o que tens\u00f5es sociais sem tratamento podem gerar. Por outro lado, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua apontam que, diante da mesma desordem, outro tipo de recurso pode surgir de iniciativas in\u00e9ditas. A convoca\u00e7\u00e3o por redes sociais, a exemplo do que vem ocorrendo em v\u00e1rias partes do mundo, para que a popula\u00e7\u00e3o apresentasse publicamente suas reivindica\u00e7\u00f5es foi aceita por mais de 1 milh\u00e3o de pessoas, inicialmente jovens, que apostaram no poder das massas em promover mudan\u00e7as. Inscreveram suas insatisfa\u00e7\u00f5es pessoais num dispositivo pol\u00edtico que atordoou governos, imprensa e intelectuais. Mais uma vez, por\u00e9m, as consequ\u00eancias do decl\u00ednio do simb\u00f3lico se apresentaram sob a farda do supereu. A a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, que oscilou entre a trucul\u00eancia e a passividade, serviu para desautorizar o ato pol\u00edtico e abrir espa\u00e7o para passagens ao ato de grupos radicais.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/i>. RJ: JZE, 1999, p. 471.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, E. \u00abAs manifesta\u00e7\u00f5es da puls\u00e3o de morte. In: Machado, O.; Derezensky, E.\u00a0<i>A viol\u00eancia: sintoma social da \u00e9poca<\/i>. BH: Scriptum\/EBP, 2013, p. 40-41.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.A. \u00abPr\u00e9face\u00bb. In: Biagi-Cha\u00ef, F.\u00a0<i>Le cas Landru<\/i>. Paris: Imago, 2007, p. 7-17.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Not\u00edcias recolhidas em\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www1.folha.uol.com.br<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.g1.globo.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.g1.globo.com<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/i>. RJ:JZE, 2005, p.128.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i>, p. 133.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Aqui juntamos duas classifica\u00e7\u00f5es, ambas feitas por Miller: crimes de utilidade e crimes de gozo est\u00e3o no pref\u00e1cio do livro de Francesca Biagi-Cha\u00ef,\u00a0<i>Le cas Landru<\/i>\u00a0e crimes do imagin\u00e1rio, do simb\u00f3lico e do real em\u00a0<i>Pe\u00e7as avulsas<\/i>, aula IX de 02\/02\/2005.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN,\u00a0<i>Ibid<\/i>., p. 129.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i>, p.130.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, O semin\u00e1rio, livro 10,\u00a0<i>op.cit.<\/i>, p. 88.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. \u00abIntrodu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e0s fun\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise em criminologia\u00bb. In:\u00a0<i>Escritos.<\/i>\u00a0RJ:JZE, 1998, p. 127-151.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i>., p. 137.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i>., p.139.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i>., p. 137.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[184],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1143"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1143"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1143\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1144,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1143\/revisions\/1144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}