{"id":1147,"date":"2021-08-18T21:28:15","date_gmt":"2021-08-19T00:28:15","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1147"},"modified":"2021-08-18T21:28:15","modified_gmt":"2021-08-19T00:28:15","slug":"marcelo-marotta-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/marcelo-marotta-2\/","title":{"rendered":"Marcelo Marotta"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O terrorismo de estado, suas sequelas e a contra-experi\u00eancia<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Colaboraram:<\/b>\u00a0Mar\u00eda E. Banzato, Helen Kaplun, Gustavo Kroitor, Susana Masoero y Patricia Sawicke<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\n<i>Aos 28 anos Zoe volta do estrangeiro para encontrar-se com aquele ser\u00e1 seu companheiro. Precisa \u00abesclarecer algumas quest\u00f5es\u00bb e pede an\u00e1lise. Aos 12 anos, nos anos 90, seus pais imigraram em busca de melhores horizontes profissionais. Na Argentina f\u00e1bricas haviam fechado deixando um rastro de desempregados. Durante os ano 70 haviam atuado em pol\u00edtica, como um tio de Zoe fuzilado pela ditadura, ap\u00f3s ser sequestro, em um centro clandestino de deten\u00e7\u00e3o. Nunca entregaram seu corpo, n\u00e3o puderam vela-lo nem sepulta-lo.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A lembran\u00e7a do tio desaparecido era \u00aba nuvem negra\u00bb que cobria a vida familiar e atrapalhava a dif\u00edcil adapta\u00e7\u00e3o de Zoe ao novo pa\u00eds. Enviava cartas a seus conhecidos descrevendo sua dor, mas somente um, um professor, lhe respondeu orientando-a e consolando-a. Com ele se encontrou ao regressar aos 28 anos, hoje \u00e9 seu companheiro e pai de suas filhas.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Alguns dias atr\u00e1s plantaram uma \u00e1rvore em homenagem ao tio em um lugar pr\u00f3ximo de onde o sequestraram. Zoe continua em an\u00e1lise, pouco a pouco as quest\u00f5es v\u00e3o se esclarecendo.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma perspectiva poss\u00edvel para conversar sobre \u00abA viol\u00eancia na nova ordem simb\u00f3lica\u00bb, neste Encontro Americano, \u00e9 aborda-la a partir do tra\u00e7o que a vinheta cl\u00ednica evoca: a viol\u00eancia exercida pelo terrorismo de estado no \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo anterior, em grande parte da Am\u00e9rica Latina, e as sequelas dessa experi\u00eancia que ainda persistem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ditaduras que destru\u00edram os sistemas democr\u00e1ticos e se mantiveram utilizando esta viol\u00eancia atrav\u00e9s do terror, do sequestro, do desaparecimento, a experi\u00eancia dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, funcionaram como porta de entrada das pol\u00edticas que, em acordo com a economia de mercado, terminaram promovendo a justaposi\u00e7\u00e3o do discurso da ci\u00eancia e do capitalismo que caracteriza a nova ordem simb\u00f3lica que hoje rege a escala mundial. Assim como a participa\u00e7\u00e3o internacional influenciou, desde suas origens, no contexto bipolar da \u00abguerra fria\u00bb, alguns de seus tra\u00e7os continuam a manifestar-se na atual globaliza\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corresponde, ent\u00e3o, considerar a \u00abcontra-experi\u00eancia\u00bb, que se desenvolve durante o curso do s\u00e9culo XXI, que implica tanto a tentativa de lidar com essa viol\u00eancia como a presen\u00e7a de restos que ainda persistem no marco da nova ordem simb\u00f3lica que determina a subjetividade da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">A facticidade real<\/span><br \/>\nOs campos de concentra\u00e7\u00e3o, chamados na Argentina \u00abcentros clandestinos de deten\u00e7\u00e3o\u00bb (CCD), foram um dos lugares onde se sistematizou essa viol\u00eancia real, onde se torturavam os sequestrados e a eles davam sumi\u00e7o, inclusive desaparecendo com seus corpos aos quais era negado o sepultamento. Era l\u00e1, tamb\u00e9m, onde se exerciam abusos, viola\u00e7\u00f5es sexuais e a apropria\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as nascidas em cativeiro, enfim, lugares que culminaram sendo o triste paradigma dos crimes de lesa humanidade cometidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abordamos este modo de viol\u00eancia atentos ao que Lacan se refere em rela\u00e7\u00e3o aos campos de concentra\u00e7\u00e3o, ao considerar os tr\u00eas pontos de fuga projetados no horizonte onde se enodam psican\u00e1lise em extens\u00e3o e em inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na\u00a0<i>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967<\/i>\u00a0trata da \u00abterceira facticidade, real, sumamente real, t\u00e3o real\u00bb que se expressa no \u00abtermo campo de concentra\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Lacan estes campos foram precursores dos processos de segrega\u00e7\u00e3o que surgiram a partir dos\u00a0<i>mercados comuns<\/i>\u00a0ou da universaliza\u00e7\u00e3o do sujeito introduzida pela ci\u00eancia gerida por esses mercados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa segrega\u00e7\u00e3o, inclusive o achatamento da singularidade do sujeito pelas m\u00e3os daquela universaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o formas de viol\u00eancia que na Am\u00e9rica Latina se desenvolveram a partir dessa outra viol\u00eancia ainda mais impactante, a do terrorismo de estado e seus CCD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Do centro \u00e0 periferia e retorno. Origens e continuidade<\/span><br \/>\nNos anos 70, implantou-se na Am\u00e9rica Latina uma s\u00e9rie de revolu\u00e7\u00f5es e movimentos nacionais que foram reprimidos de acordo com a chamada Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional fomentada pelos Estados Unidos. Com ela se legitimaram os golpes militares e a viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos humanos. Na Escola das Am\u00e9ricas, no Panam\u00e1, treinavam-se ex\u00e9rcitos latino-americanos, instruindo-os sobre t\u00e9cnicas para realizar interrogat\u00f3rios mediante torturas, infiltra\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia, sequestros, desaparecimento de opositores, combate militar e guerra psicol\u00f3gica. Tamb\u00e9m funcionou uma doutrina de origem francesa, criada a partir da li\u00e7\u00e3o aprendida pelas derrotas nas guerras de independ\u00eancia da Indochina e da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Cone Sul americano, o\u00a0<i>Plano Condor<\/i>\u00a0foi a express\u00e3o mais clara de uma interven\u00e7\u00e3o internacional que consistia em uma rede na qual se entrela\u00e7aram organiza\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e opera\u00e7\u00f5es: chilenas, uruguaias, argentinas, junto aos servi\u00e7os paraguaios e brasileiros, vinculados com a Propaganda Due italiana (P2), a Organiza\u00e7\u00e3o da Armada Secreta francesa (OAS), grupos fascistas espanh\u00f3is e grupos de cubanos anticastristas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como verificamos que os pa\u00edses da periferia adotaram modelos aprendidos dos pa\u00edses centrais, tamb\u00e9m podemos constatar o movimento inverso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os campos de concentra\u00e7\u00e3o sul-americanos diferiam dos nazis ao configurar um modelo misto para o tratamento dos corpos: por um lado se concentravam os prisioneiros para sua posterior elimina\u00e7\u00e3o, mas, por outro, se utilizava o isolamento f\u00edsico e sensorial para a tortura, vendando-lhes os olhos e deixando-os em um universo de sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao combinar elementos de concentra\u00e7\u00e3o e isolamento, apresentavam-se como modelo intermedi\u00e1rio entre o campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi e os atuais centros de confinamento ilegal como Guant\u00e1namo. Em certo sentido \u00aba periferia foi um lugar de pren\u00fancio ou prova dos novos modelos econ\u00f4micos (neoliberais), pol\u00edticos (subordina\u00e7\u00e3o do estado) e repressivos (Estado de exce\u00e7\u00e3o, desaparecimento for\u00e7ado e campos de concentra\u00e7\u00e3o-isolamento) que depois se estenderam at\u00e9 o centro\u00bb.[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia na nova ordem simb\u00f3lica \u00e9 funcional em redes de poder corporativo e transnacional que, segundo P. Calveiro, se desdobra atrav\u00e9s da guerra antiterrorista, que permite expandir a nova ordem global ao invadir territ\u00f3rios e apropriar-se de seus recursos e a guerra contra o crime, que conduz ao confinamento crescente de jovens e pobres em raz\u00e3o da suposta seguran\u00e7a interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Terrorismo de Estado e subjetividade<\/span><br \/>\n<i>\u00abNosso objetivo era disciplinar uma sociedade anarquizada; (&#8230;) ir a uma economia de mercado, liberal (&#8230;) Quer\u00edamos tamb\u00e9m disciplinar o sindicalismo e o capitalismo prebendario[2]\u00bb.[3]<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas declara\u00e7\u00f5es do ditador argentino Videla confirmam que o terrorismo de estado pretendia \u00abdisciplinar\u00bb, transmitindo que, assim como intervinham sobre o corpo do prisioneiro arrebatando-lhe sua humanidade, podiam intervir sobre o conjunto da sociedade influenciando em sua subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como, em seu momento, a Primeira Guerra Mundial na Europa \u00abmatou de forma duradoura, por exemplo, o desejo de ter filhos\u00bb[4], a viol\u00eancia do terrorismo de estado na Am\u00e9rica Latina matou, durante o per\u00edodo da primazia das pol\u00edticas neoliberais, o desejo de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, salvo nos primeiros anos da recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo atual o par ci\u00eancia\/capitalismo se articula a uma inseguran\u00e7a amplamente difundida pela imprensa e a um terrorismo efetivo ou constru\u00eddo que, como fen\u00f4menos da \u00e9poca, se correspondem com uma subjetividade que refugia seu interesse em um individualismo consumidor e p\u00e1lido. Um individualismo que, na Argentina, diante da repress\u00e3o terrorista e indiscriminada do estado, se eximia ao suspeitar que os perseguidos \u00abteriam feito alguma coisa\u00bb, continuando a formar seus jovens com a ideologia do \u00abn\u00e3o se meta\u00bb e acabou brandindo o impotente slogan \u00abque v\u00e3o todos embora\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecemos assim cortes e articula\u00e7\u00f5es entre o mundo bipolar e a atual reorganiza\u00e7\u00e3o global que suplantou as barreiras geogr\u00e1ficas, pol\u00edticas e inclusive subjetivas, permitindo a circula\u00e7\u00e3o \u00abde todo tipo de produtos e servi\u00e7os: armas, drogas, mas tamb\u00e9m pessoas, crian\u00e7as, \u00f3rg\u00e3os, s\u00e9men, a vida mesma, nada escapa a condi\u00e7\u00e3o de mercadoria que se vende-servi\u00e7o que se presta\u00bb.[5]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste novo cen\u00e1rio tamb\u00e9m se trafica o terror e a viol\u00eancia, de modo indireto ou com a a\u00e7\u00e3o direta de opera\u00e7\u00f5es militares, como na Iugosl\u00e1via, Afeganist\u00e3o ou Iraque, nos distintos campos de concentra\u00e7\u00e3o ou pelas torturas que se deixaram ver em Abu-Ghraib, seguramente para expandir um terror que influa sobre a subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">A contra-experi\u00eancia e os restos<\/span><br \/>\n<i>\u00abA partir deste julgamento e da condena\u00e7\u00e3o que promulga, nos cabe a responsabilidade de fundar uma paz baseada n\u00e3o no esquecimento mas na mem\u00f3ria; n\u00e3o na viol\u00eancia mas na justi\u00e7a (&#8230;). Quero utilizar uma frase que n\u00e3o me pertence, porque pertence j\u00e1 a todo o povo argentino. Senhores ju\u00edzes: Nunca mais\u00bb. [6]<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esta frase do promotor Strassera come\u00e7ou na Argentina uma \u00abcontra-experi\u00eancia\u00bb cujos marcos mais importantes s\u00e3o as investiga\u00e7\u00f5es que conclu\u00edram em um informe publicado no livro \u00abNunca mais\u00bb, os julgamentos dos integrantes das tr\u00eas primeiras Juntas Militares e as atuais pol\u00edticas de\u00a0<i>mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a<\/i>, que adota distintos matizes nos diferentes pa\u00edses latino-americanos que padeceram dessas ditaduras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta tramita\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 implica nos julgamentos contra os repressores e seus c\u00famplices civis e eclesi\u00e1sticos, como tamb\u00e9m o reconhecimento dos corpos achados, a recupera\u00e7\u00e3o dos filhos dos desaparecidos e a busca incessante de distintas organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se constituiu, assim, uma montagem simb\u00f3lica e imagin\u00e1ria que trata um real atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de dispositivos judiciais, sociais ou pol\u00edticos. Tratamento que, por estrutura, apresenta falhas por onde se filtram sequelas daquela viol\u00eancia que hoje se atualiza manifestando-se em amea\u00e7as ou tentativas concretas de golpe em alguns pa\u00edses latino-americanos. Tamb\u00e9m a persist\u00eancia da pr\u00e1tica do sequestro ou desaparecimento exercida por quem atua na clandestinidade buscando vingan\u00e7a ou intimida\u00e7\u00e3o das testemunhas no julgamento. Na negativa dos acusados em dar informa\u00e7\u00e3o sobre o paradeiro dos corpos. Na tentativa de setores da justi\u00e7a de postergar levar a julgamento, no prosseguimento da aplica\u00e7\u00e3o de torturas e maus-tratos nos c\u00e1rceres, nas cumplicidades entre algum integrante policial ou algum promotor com setores delituosos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Os corpos desaparecidos<\/span><br \/>\n<i>\u00abEnquanto estiver como tal, \u00e9 uma inc\u00f3gnita o desaparecido, (&#8230;) n\u00e3o tem entidade, n\u00e3o est\u00e1 nem morto nem vivo, est\u00e1 desaparecido. Frente a isso n\u00e3o podemos fazer nada\u00bb,<\/i>\u00a0afirmou Videla em 1979, esbo\u00e7ando um sadismo: pelo crime no n\u00edvel da vida do desaparecido e pelo resto que tamb\u00e9m n\u00e3o subsistir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada esta situa\u00e7\u00e3o e ante o sil\u00eancio dos genocidas em revelar o paradeiro dos detidos, as m\u00e3es desses jovens se organizaram e constitu\u00edram as \u00abM\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio\u00bb para exigir, em um primeiro momento, a apari\u00e7\u00e3o com vida, e depois, a restitui\u00e7\u00e3o dos corpos para dar-lhes uma inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com o sepultamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u00abDizer onde est\u00e3o os restos? Mas, o que podemos dizer? O mar, o rio da Prata, o Riachuelo?\u00bb,\u00a0<\/i>dizia Videla, acrescentando que n\u00e3o os davam por mortos porque\u00a0<i>\u00abem seguida v\u00eam as perguntas que n\u00e3o se pode responder: quem matou, onde, como\u00bb. [7]<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo propunha um sil\u00eancio c\u00famplice para proteger os assassinos, por\u00e9m tamb\u00e9m deixava \u00e0 mostra a obscura inten\u00e7\u00e3o de que o corpo morto n\u00e3o conservara o valor que lhe outorga a esp\u00e9cie humana ao inscrever seu nome em uma sepultura, \u00abprimeiro s\u00edmbolo no qual reconhecemos a humanidade em seus vest\u00edgios\u00bb, como coloca Lacan em \u00abFun\u00e7\u00e3o e campo da palavra&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao negar-lhes a possibilidade de uma sepultura, o terrorismo de estado pretendeu apagar a condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a categoria humana aos desaparecidos, j\u00e1 que se trata de \u00abuma marca deixada na hist\u00f3ria na qual se reconhece a emerg\u00eancia do humano como tal\u00bb.[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sepultura como sinal \u00abque mostra na morte a media\u00e7\u00e3o \u00faltima do sentido\u00bb[9], ou como o que vir\u00e1 a envolver, a vestir o corpo morto, eternizando-o e demonstrando que n\u00e3o \u00e9 pura e simplesmente carni\u00e7a[10].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Mora nasceu em um CCD onde sua m\u00e3e presa foi torturada. \u00abN\u00e3o ter falado\u00bb era algo valorizado. Entre elas tampouco falavam muito, menos ainda do pai desaparecido que n\u00e3o conhecia. Ela, dispersa e distante, comentava sobre as dificuldades para vincular-se com seus companheiros de estudos. Um dia conhece um cantor de rua. Habitualmente ia ouvi-lo nos corredores do metr\u00f4, passeavam pela cidade e, algumas noites, pulavam o muro do cemit\u00e9rio para fazer amor sobre uma tumba. Era uma coisa estranha, mas excitante.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como elaborar o luto pelo pai desconhecido a quem se negou sepultamento? Como reivindicar, ao modo de Ant\u00edgona, que o humano tem direito a inscrever seu nome na sepultura, ali onde se encarna a vida significante mais al\u00e9m da morte biol\u00f3gica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, tamb\u00e9m foi infringido um tormento aos familiares dos desaparecidos, que por n\u00e3o contarem com o corpo, n\u00e3o podiam fazer os funerais nem homenagear seu morto, que n\u00e3o morreu apenas uma vez, j\u00e1 que morre todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, esta n\u00e3o foi a \u00fanica expropria\u00e7\u00e3o produzida pelo terrorismo de estado. Podemos constata-lo ao comparar o animal, cujo corpo se identifica ao ser, com o homem, que\u00a0<i>tem<\/i>\u00a0um corpo, o que se encarna muito bem na f\u00f3rmula do\u00a0<i>habeas corpus.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia dos anos de terror tamb\u00e9m se manifestava na negativa dos ju\u00edzes c\u00famplices de outorgar os\u00a0<i>habeas corpus<\/i>\u00a0que eram solicitados pelos pais dos detentos\/desaparecidos, roubando-lhes o atributo humano de ter um corpo para s\u00f3 s\u00ea-lo, como \u00e9 o caso do animal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m com a expropria\u00e7\u00e3o, por parte dos repressores, do gozo do corpo, tratando os prisioneiros como se fossem coisas. Assim dizia Videla: \u00ab<i>Solu\u00e7\u00e3o final nunca se usou. Disposi\u00e7\u00e3o final foi uma frase mais utilizada; s\u00e3o duas palavras muito militares e significam retirar de servi\u00e7o uma coisa por ser ela in\u00fatil. Quando, por exemplo, se fala de uma roupa que j\u00e1 n\u00e3o se usa ou n\u00e3o serve porque est\u00e1 gasta, passa \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o final. J\u00e1 n\u00e3o tem vida \u00fatil\u00bb[11].<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Os corpos que falam<\/span><br \/>\nA contra-experi\u00eancia efetuada a partir das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas consiste tamb\u00e9m na busca dos corpos desaparecidos. Alguns foram encontrados em fossas que tinham permanecido ocultas, outros, \u00e0s margens do rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses corpos, como puros restos, s\u00e3o investigados pela Equipe Argentina de Antropologia Forense que, muitas vezes, em combina\u00e7\u00e3o com o Banco de Dados Gen\u00e9ticos, tenta encontrar as identidades que permitam refazer os v\u00ednculos familiares perdidos, em especial, com os\u00a0<i>filhos de desaparecidos<\/i>\u00a0nascidos em cativeiro e entregues \u00e0 fam\u00edlias substitutas, quando n\u00e3o foram tomados pelos pr\u00f3prios repressores de seus verdadeiros pais. Aqui a ci\u00eancia adquire outro valor ao n\u00e3o estar a servi\u00e7o do mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, uma s\u00e9rie de restitui\u00e7\u00f5es foram conseguidas pela via judicial atrav\u00e9s da verdade hist\u00f3rica, contribuindo para essa busca as \u00abAv\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio\u00bb que cumpriram um papel fundamental para alcan\u00e7ar esse objetivo.<\/p>\n<p><span class=\"Titulo4\">Corpos violados<\/span><br \/>\nA partir dos testemunhos do \u00abNunca mais\u00bb, que est\u00e3o publicados em v\u00e1rias p\u00e1ginas das redes virtuais, e daqueles feitos nos julgamentos que se realizam, nos informamos das viola\u00e7\u00f5es sofridas por homens, mulheres e crian\u00e7as durante seu cativeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso das mulheres que os repressores consideravam subversivas, seguramente, representavam uma feminilidade oposta a tudo \u00abaquilo que a tradi\u00e7\u00e3o patriarcal esperava delas, por isso se propuseram a dilacerar e ocupar seus corpos com as viola\u00e7\u00f5es e os abusos constantes\u00bb.[12]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, a partir de 2010 come\u00e7aram a emitir senten\u00e7as que estabelecem a viola\u00e7\u00e3o como delito de lesa humanidade t\u00e3o imprescrit\u00edvel quanto a tortura. Interessa que estes delitos sexuais n\u00e3o fiquem reduzidos \u00e0 figura da tortura porque impediria de se refletir sobre a especificidade da agress\u00e3o sofrida pela v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m estes avan\u00e7os ficam obscurecidos pela presen\u00e7a, ainda hoje, de agentes daquela viol\u00eancia que provocam uma crise das normas no mesmo lugar onde devem implementar-se. Podemos constat\u00e1-lo em um processo recente no qual a testemunha denunciou viola\u00e7\u00f5es sofridas em uma delegacia. Depois do julgamento o tribunal concedeu ao condenado o benef\u00edcio de sa\u00eddas transit\u00f3rias por n\u00e3o haver ainda senten\u00e7a definitiva, ap\u00f3s o que a v\u00edtima foi assassinada em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o chegaram a se esclarecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abEstas surpreendentes e preocupantes decis\u00f5es de (setores) da justi\u00e7a n\u00e3o fazem mais que provocar incerteza e temor nas testemunhas destes crimes de lesa humanidade\u00bb.[13]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia que se d\u00e1 ao assunto, tentando construir novos paradigmas, fica demostrada nas instru\u00e7\u00f5es emanadas da Procuradoria e dirigidas aos fiscais[14] para que atuem de acordo com as diretrizes de um documento sobre o julgamento dos abusos sexuais no \u00e2mbito do terrorismo de Estado, oportunamente elaborado pela Unidade Fiscal [15], buscando o efeito adequado na execu\u00e7\u00e3o dos julgamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Conclus\u00f5es<\/span><br \/>\nConstatamos que a \u00abcontra-experi\u00eancia\u00bb funciona fundamentalmente por um circuito de dispositivos sociais, pol\u00edticos e\/ou jur\u00eddicos que tentam um tratamento da viol\u00eancia que consegue filtrar seus resultados pelas falhas dessa montagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo da psican\u00e1lise encaramos a quest\u00e3o de outra maneira, com certa subtra\u00e7\u00e3o com respeito \u00e0 sociedade, mas n\u00e3o sem ela. A respeito J.-A. Miller se pergunta: \u00abQual sentido dar a posi\u00e7\u00e3o de extimidade do analista?\u00bb [16].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora se localize fora do significante mestre e das exig\u00eancias da justi\u00e7a distributiva, esta posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel em qualquer regime social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esta raz\u00e3o devemos saber que ao lado do ato anal\u00edtico se pode localizar uma a\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica ou, melhor ainda, uma \u00aba\u00e7\u00e3o lacaniana\u00bb[17], que outorgue a este ato anal\u00edtico as consequ\u00eancias que pode ter na sociedade. Consequ\u00eancias que s\u00e3o correlatas as que Lacan desejava de seu ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclu\u00edmos, ent\u00e3o, com Miller: \u00ab\u00c9 este, sem d\u00favida, o campo que agora se abre para n\u00f3s\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ondina Machado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Calveiro, Pilar.\u00a0<i>Violencias de Estado, Siglo XXI.\u00a0<\/i>p 44<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">N.T.\u00a0<i>Prebendario<\/i>\u00a0\u00e9 uma express\u00e3o n\u00e3o dicionarizada, por\u00e9m muito usada pelos argentinos para denominar os empres\u00e1rios que lucram com os benef\u00edcios, ou prebendas, concedidas pelo Estado.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Reato, Ceferino.\u00a0<i>Disposici\u00f3n final<\/i>. Sudamericana, 2012, p. 155<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, Eric. Entrevista en\u00a0<i>La violencia s\u00edntoma social de la \u00e9poca<\/i>. Belo Horizonte: Scriptum\/EBP, 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Calveiro, p. 54<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Strassera, J.C.\u00a0<i>Alegato final<\/i>&#8230;\u00a0<a href=\"http:\/\/biblioteca.educ.ar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/biblioteca.educ.ar<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.eldia.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.eldia.com<\/a>.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A.\u00a0<i>La naturaleza de los semblantes<\/i>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 221.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, idem<i>,\u00a0<\/i>p. 224<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J. \u00abRadiofonia\u00bb.\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. RJ: JZE, 2003, p. 432.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Reato, C., p. 51<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">G\u00f3mez, M.R, \u00ab<i>Delitos sexuales: una pr\u00e1ctica sistem\u00e1tica de la dictadura<\/i>\u00ab. Rev. Espacios, a\u00f1o 4, n. 4.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">N.T. Na Argentina, o fiscal tem as mesmas fun\u00e7\u00f5es do promotor de justi\u00e7a ou promotor p\u00fablico no Brasil.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">N.T.. Unidad Fiscal de Coordinaci\u00f3n y Seguimiento de las Causas por violaciones a los Derechos Humanos cometidas durante el terrorismo de estado. \u00d3rg\u00e3o diretamente ligado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico da Argentina.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A. Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, aula de 05\/03\/2003. Publicada em MILLER, Jacques-Alain. \u00abEl psicoan\u00e1lisis y la sociedad\u00bb. Revista Mediodicho, n. 27, noviembre 2004, EOL-C\u00f3rdoba.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, idem.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[184],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1147"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1147"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1148,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1147\/revisions\/1148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}