{"id":1155,"date":"2021-08-18T21:30:22","date_gmt":"2021-08-19T00:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1155"},"modified":"2021-08-18T21:30:22","modified_gmt":"2021-08-19T00:30:22","slug":"jose-carlos-lapenda-figueiroa-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/jose-carlos-lapenda-figueiroa-2\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Carlos Lapenda Figueiroa"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto tem a finalidade de apresentar as reflex\u00f5es que elaboramos para a Conversa\u00e7\u00e3o sobre o tema Corpos Toxic\u00f4manos, constante do programa do VI Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (ENAPOL), para a manh\u00e3 do s\u00e1bado 23 de novembro de 2013. Ele se apropria do esfor\u00e7o daqueles que aceitaram o convite para participar deste trabalho como integrantes da equipe da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estaremos referindo-nos aos sujeitos que, no campo da neurose, apresentam seus corpos corro\u00eddos pela subst\u00e2ncia t\u00f3xica, como \u00abcart\u00e3o-postal\u00bb do real em sua face mais crua, testemunhos da extrema dificuldade ou mesmo impossibilidade do uso de refer\u00eancias simb\u00f3licas, levando-os frequentemente a um recha\u00e7o ao saber do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia cl\u00ednica indica que o efeito da droga \u00e9 sempre singular na medida em que funciona como uma vari\u00e1vel da economia pulsional pr\u00f3pria a cada\u00a0<i>falasser<\/i>. Assim, pode operar como reguladora de um gozo ante um\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0amea\u00e7ador, como forma de la\u00e7o ou, no extremo, como op\u00e7\u00e3o pelo\u00a0<i>Um<\/i>\u00a0em detrimento do\u00a0<i>Outro<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe, ent\u00e3o, o esclarecimento preliminar de que \u00e9 este \u00faltimo caso que estamos considerando e, ainda, que tomamos como marco inicial a constata\u00e7\u00e3o de Eric Laurent de que, na disposi\u00e7\u00e3o atual do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0da civiliza\u00e7\u00e3o, os corpos est\u00e3o fechados aos discursos e submetidos a uma exig\u00eancia imperiosa de gozo no contexto de crise das normas e da agita\u00e7\u00e3o do real que caracteriza a disposi\u00e7\u00e3o atual do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que poderia causar em um sujeito o fracasso nos processos de inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, produzindo corpos toxic\u00f4manos, quando n\u00e3o se trata necessariamente de uma estrutura psic\u00f3tica? Foi a pr\u00f3pria experi\u00eancia na cl\u00ednica da toxicomania que permitiu pensar a ruptura com o gozo f\u00e1lico, sem que houvesse\u00a0<i>forclus\u00e3o<\/i>\u00a0do\u00a0<i>Nome do Pai<\/i>. Entendemos, portanto, que a fal\u00eancia dos recursos simb\u00f3licos, nesse caso, pode ser pensada como efeito de uma\u00a0<i>forclus\u00e3o<\/i>\u00a0da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No desenvolvimento deste trabalho, estudamos a forma como esse conceito foi colocado por Lacan e como outros autores do campo freudiano v\u00eam referindo-se \u00e0 toxicomania. Al\u00e9m disso, acrescentamos refer\u00eancias complementares \u00e0 subst\u00e2ncia t\u00f3xica e ao corpo vivo, \u00e0 formula\u00e7\u00e3o lacaniana do pseudodiscurso capitalista e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o atual do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo\u00a0<i>forclus\u00e3o<\/i>\u00a0foi utilizado por Lacan para a psicose, precisando o uso freudiano de\u00a0<i>Verwerfung<\/i>\u00a0e apontando para a n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o do significante\u00a0<i>Nome do Pai<\/i>. A express\u00e3o, de conota\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, agregou-se ao dicion\u00e1rio psicanal\u00edtico por meio do franc\u00eas\u00a0<i>forclusion<\/i>. Em portugu\u00eas, o correspondente seria \u00abpreclus\u00e3o\u00bb, entendida como o impedimento de se usar determinada faculdade processual civil, por n\u00e3o existir disposi\u00e7\u00e3o legal para tal.[3]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<i>forclus\u00e3o<\/i>\u00a0da castra\u00e7\u00e3o foi citada por Lacan como o que caracteriza o discurso capitalista em 6 de janeiro de 1972 na terceira das confer\u00eancias proferidas na capela do Hospital Sainte-Anne, \u00e0 mesma \u00e9poca do\u00a0<i>Semin\u00e1rio&#8230; ou pior<\/i>. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que distingue o discurso do capitalista \u00e9 a Verwerfung, a rejei\u00e7\u00e3o; a rejei\u00e7\u00e3o fora de todos os campos do simb\u00f3lico com aquilo que eu j\u00e1 disse que tem como consequ\u00eancia a rejei\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Da castra\u00e7\u00e3o. Toda ordem, todo discurso aparentado ao capitalismo deixa de lado o chamaremos, simplesmente, as coisas do amor, meus bons amigos. Voc\u00eas veem isso, hein, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.[4]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como dizer: o discurso capitalista\u00a0<i>forclui. Forclui<\/i>\u00a0a possibilidade do amor. Ou seja, considerando-se em Lacan o amor como dar aquilo que n\u00e3o se tem \u2013 dar a pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o \u2013, esse pseudodiscurso compromete os recursos da fantasia e do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal ideia fundamenta-se, ainda, pela indica\u00e7\u00e3o feita por Lacan da droga como forma de romper o matrim\u00f4nio do sujeito com seu pequeno pipi, ou seja, com o gozo f\u00e1lico.[5]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com base na experi\u00eancia cl\u00ednica, o que se afirma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 toxicomania?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent considera que a toxicomania n\u00e3o inaugura uma nova estrutura, tampouco se trata de um sintoma,[6] enquanto R\u00e9quiz entende a droga como um artif\u00edcio para evitar os efeitos da castra\u00e7\u00e3o: \u00abo toxic\u00f4mano com o seu ato, encobre os sintomas que revelam sua estrutura de acordo com as categorias freudianas de neurose, pervers\u00e3o e psicose.\u00bb[7]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como distinguir, por\u00e9m, o que se apresenta na psicose \u2013 ruptura do gozo f\u00e1lico como consequ\u00eancia da forclus\u00e3o do Nome do Pai \u2013 da forclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, em estruturas n\u00e3o psic\u00f3ticas, tal como se evidencia na toxicomania?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent, ap\u00f3s duas claras ilustra\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, arremata:[8]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Na psicose, no lugar de um tra\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o com o pai, irrompe um gozo no real que permite gozar sem se identificar. O gozo est\u00e1 limitado a um objeto espec\u00edfico: \u00abEles formam seguramente parte das manias de Esquirol, as monomanias \u2013 s\u00e3o del\u00edrios parciais \u2013, por\u00e9m seguramente n\u00e3o s\u00e3o toxic\u00f4manos. O gozo neles est\u00e1 perfeitamente limitado e, ainda, eles escapam \u00e0s leis do mercado. Porque eles querem algo preciso.\u00bb<\/p>\n<p>&#8211; Na toxicomania, aparece o ilimitado, impreciso do gozo; qualquer droga serve; a ruptura do gozo f\u00e1lico suprime as particularidades: \u00abAparentemente aquele que se entrega aos estupefacientes \u00e9 indiferente ao que toma. Toma o que h\u00e1. [&#8230;] a ruptura com o gozo f\u00e1lico suprime as particularidades.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Verifica-se, ainda, o rompimento com \u00abas particularidades do fantasma\u00bb ou com o que \u00abo fantasma sup\u00f5e como objeto do gozo\u00bb.[9] Trata-se do uso do gozo fora do fantasma, de um curto-circuito. Pode-se gozar sem o fantasma!<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ruptura com aquilo que o fantasma sup\u00f5e objeto do gozo enquanto que inclui a castra\u00e7\u00e3o. [&#8230;] N\u00e3o \u00e9 um perverso porque a pervers\u00e3o sup\u00f5e o uso do fantasma [&#8230;] Enquanto que a toxicomania \u00e9 um uso fora do fantasma. [&#8230;] \u00c9 um curto-circuito. A ruptura com o &#8216;pequeno pipi&#8217;, como disse Lacan, tem como consequ\u00eancia que se possa gozar sem o fantasma.[10]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A toxicomania pode ser tratada como o surgimento de um gozo uno, no sentido de que n\u00e3o \u00e9 sexual: \u00abO gozo sexual n\u00e3o \u00e9 uno, est\u00e1 profundamente fraturado, n\u00e3o \u00e9 apreens\u00edvel mais que pela fragmenta\u00e7\u00e3o do corpo.\u00bb[11]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R\u00e9quiz, distinguindo a toxicomania de outras formas de aproxima\u00e7\u00e3o das drogas, destaca o gozo autoer\u00f3tico, a anula\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Outro<\/i>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A droga entra no circuito de repeti\u00e7\u00e3o tal como qualquer objeto da puls\u00e3o evidenciando tratar-se de um objeto pulsional, contudo, agarrado ao imediatismo. Entre um uso e outro, desenvolve-se a vida do adito decidido e a din\u00e2mica de sua repeti\u00e7\u00e3o. Uma repeti\u00e7\u00e3o que n\u00e3o introduz fic\u00e7\u00f5es nem fantasias como as que geram o imagin\u00e1rio fantasm\u00e1tico. Este ponto abre a pergunta sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o objeto droga e a fantasia.[12]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, as drogas, na toxicomania, dispensam a implica\u00e7\u00e3o subjetiva pelas consequ\u00eancias da adi\u00e7\u00e3o e fecham a via \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o pela palavra. O toxic\u00f4mano adere a um gozo repetitivo que \u00abn\u00e3o o deixa pensar nem fazer mais nada\u00bb. Que o desconecta do mundo \u00abe o encerra numa sorte de enquistamento com um objeto que organiza sua vida\u00bb.[13]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos, ainda, que a toxicomania pode ser uma manifesta\u00e7\u00e3o de neurose fora de discurso \u2013 correspondendo ao que Fabi\u00e1n Schejtman diz, referindo-se \u00e0 anorexia: \u00abA anorexia seria uma das manifesta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis das histerias fora de discurso produto da incid\u00eancia do &#8216;discurso&#8217; capitalista enquanto falso discurso.\u00bb[14]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou, que podemos consider\u00e1-la entre as inven\u00e7\u00f5es de\u00a0<i>corporiza\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0voltadas \u00e0 tentativa de burlar o discurso em que o significante afeta o corpo inscrevendo-se como letra de gozo \u2013 o\u00a0<i>Um<\/i>\u00a0que se repetir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembramos que Miller identifica em Lacan dois tipos de rela\u00e7\u00e3o entre significante e corpo. A\u00a0<i>significantiza\u00e7\u00e3o<\/i>, quando uma parte do corpo se eleva \u00e0 categoria de significante e transforma os objetos em s\u00edmbolos. Em segundo lugar, a\u00a0<i>corporiza\u00e7\u00e3o<\/i>, que prov\u00e9m do discurso e inscreve o corpo no v\u00ednculo com o\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social, sob forma de mutila\u00e7\u00f5es tradicionais ou ritual\u00edsticas, t\u00edpicas de determinadas culturas: \u00aba corporiza\u00e7\u00e3o codificada, normalizada, a corporiza\u00e7\u00e3o que avulta de um discurso e inscreve o corpo individual no v\u00ednculo social, sob formas t\u00edpicas.\u00bb[15]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Miller, essa fun\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>corporiza\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0pode ser estendida \u00aba todas as normas do comportamento social, da compostura, do tom\u00bb[16] e assume, na \u00e9poca atual, o car\u00e1ter de inven\u00e7\u00f5es de corporiza\u00e7\u00e3o que intentam burlar o discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideramos a droga como uma subst\u00e2ncia bioquimicamente determinada que pode ter efeitos terap\u00eauticos ou de toxidade, de rem\u00e9dio ou veneno. Ou seja, uma subst\u00e2ncia com estrutura qu\u00edmica definida que, ao interagir com o corpo biol\u00f3gico, promove modifica\u00e7\u00f5es tais que podem tanto beneficiar o organismo quanto prejudic\u00e1-lo, intoxicando-o ou at\u00e9 exterminando-o, dependendo do tipo da droga ou da quantidade ingerida. Mas, esclarece-nos Esteban Klainer, a ideia de que o tipo de subst\u00e2ncia seja o que define o efeito no corpo vem da velha concep\u00e7\u00e3o da dualidade corpo-alma, com a ideia da correla\u00e7\u00e3o direta entre o corpo e a alma. Concep\u00e7\u00e3o que se manteve intacta desde Arist\u00f3teles e que Freud subverteu com o descobrimento do inconsciente.[17]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Avan\u00e7ando pelo ensino lacaniano, conclui-se que o afeto n\u00e3o \u00e9 do corpo, mas, corresponde a um efeito do significante, incid\u00eancia da linguagem sobre o corpo, o que induz gozo e aparece no psiquismo como pensamento. Nunca como resultado de uma subst\u00e2ncia sobre o corpo. Em resumo, ele nos diz que, segundo Lacan: \u00abpara o ser humano n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre a alma e o corpo, entre imagin\u00e1rio e real, se n\u00e3o \u00e9 pela introdu\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o simb\u00f3lica.\u00bb[18]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Miller observa, Lacan, opondo-se \u00e0 teoria de que seja a fun\u00e7\u00e3o o que cria o \u00f3rg\u00e3o, sempre real\u00e7ou a disfun\u00e7\u00e3o existente entre corpo e fun\u00e7\u00e3o, o que normalmente se inscreve a partir das normas do Outro social. Assim, diz Miller:<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] nesses dias, em que o Outro n\u00e3o existe, as normas deixam o corpo de lado, desvelando a insist\u00eancia da quest\u00e3o: &#8216;o que fazer do seu corpo?&#8217; Piercyng, body art, ditadura da higiene ou do esporte, eis o que, hoje em dia, apresentam-nos como os novos usos do corpo humano.[19]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto em que desenvolvemos o trabalho, o das toxicomanias consideradas como manifesta\u00e7\u00f5es de neurose fora de discurso, tal uso assume a fun\u00e7\u00e3o de inven\u00e7\u00f5es de\u00a0<i>corporiza\u00e7\u00e3o<\/i>, como nos referimos anteriormente. Est\u00e3o entre as formas de corporiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neas, em que, os corpos abandonados pelas normas, passam a sediar inven\u00e7\u00f5es que buscam responder \u00e0 quest\u00e3o sobre o que fazer do corpo pr\u00f3prio.[20]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, de que corpo falamos propriamente? O \u00abult\u00edssimo\u00bb ensino de Lacan nos faz pensar no corpo real, o afetado pelo significante que se inscreve como letra de gozo \u2013 o corpo da repeti\u00e7\u00e3o insensata do\u00a0<i>Um<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patricio Alvarez refaz as teorias do corpo em Lacan. Na primeira, o corpo pensado em oposi\u00e7\u00e3o entre o especular e o simb\u00f3lico, e organizado pela norma f\u00e1lica. Na segunda, o corpo topol\u00f3gico, possibilitando \u00e0 cl\u00ednica dar conta do que escapa ao ordenamento do Nome do Pai, inclusive \u00abas adi\u00e7\u00f5es como acesso a um gozo que degrada o desejo\u00bb.[21] Na terceira, a do acontecimento do corpo, no \u00abult\u00edssimo\u00bb ensino de Lacan. Trata-se do corpo vivo marcado pelo que Lacan definiu com um acontecimento contingente e consentido de um dizer. Como diz Alvarez: \u00abDeve haver consentimento para esse dizer, que faz furo no corpo com o fora de sentido da\u00a0<i>lalingua<\/i>, que faz ressoar a puls\u00e3o como eco no corpo de um dizer, e que o parasita com a linguagem.\u00bb[22]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda, que se trata de um corpo que fala: \u00ab\u00e9 um corpo falado por certas conting\u00eancias de um dizer, que produziram acontecimento, e \u00e9 um corpo que, com seu dizer, faz acontecimento.\u00bb[23]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso capitalista foi formulado por Lacan como muta\u00e7\u00e3o do discurso do mestre, escrevendo o que seriam os efeitos dos novos significantes que ordenam o\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social contempor\u00e2neo e incidem sobre os modos de gozo do\u00a0<i>falasser<\/i>. O que se destaca nessa muta\u00e7\u00e3o \u00e9 a invers\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o entre o significante mestre e o sujeito dividido, seguida do desaparecimento da barreira \u00abno andar inferior\u00bb da f\u00f3rmula, entre o pequeno\u00a0<i>a<\/i>, perda de gozo, e o sujeito barrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratando-se de uma muta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o seguindo as normas de permuta\u00e7\u00e3o dos elementos que comp\u00f5em os discursos, tal como Lacan os produziu, o discurso capitalista \u00e9 um pseudodiscurso. Vejamos o que acontece: o sujeito barrado (S\/) assume a posi\u00e7\u00e3o de agente do discurso e, sem a barreira da castra\u00e7\u00e3o, passa a agente de uma verdade sua, particular: \u00abpassa a inventar a cada vez a verdade que lhe conv\u00e9m aos fins da produ\u00e7\u00e3o deste objeto que saciaria sua falta em gozar.\u00bb[24] E o objeto pequeno\u00a0<i>a<\/i>, produto desse pseudodiscurso, no caso o objeto droga, vai preencher a falta do sujeito. Temos assim caracterizada a forclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, com o recha\u00e7o do inconsciente e das coisas do amor, com a morte do sujeito de desejo e com o corpo deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando na formula\u00e7\u00e3o de Miller de que \u00abNo desastre do simb\u00f3lico, flutua o imagin\u00e1rio do corpo\u00bb,[25] o sujeito de desejo, sujeito do inconsciente desaparece, naufraga com as refer\u00eancias simb\u00f3licas. O corpo \u00e9 intoxicado n\u00e3o apenas pela subst\u00e2ncia droga, mas, sobretudo, de significantes do desejo mort\u00edfero do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0n\u00e3o barrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, se o significante mestre n\u00e3o estiver mais como agente do discurso, o sujeito liberta-se do mandato do inconsciente e perde-se a condi\u00e7\u00e3o de deslizamento ao discurso anal\u00edtico: \u00abj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ali nada que interpretar, trata-se de um &#8216;discurso&#8217; que n\u00e3o tem reverso.\u00bb[26]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o atual do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social, considera\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria ao tema, julgamos que j\u00e1 esteja exaustivamente desenvolvida em todo o pensamento contempor\u00e2neo, dispensando novos desdobramentos. Acrescentamos, contudo, as men\u00e7\u00f5es a seguir, \u00e0s quais atribu\u00edmos valor relevante para o esclarecimento de nossa reflex\u00e3o sobre discurso capitalista e forclus\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Jean-Claude Maleval, o aparecimento dos sintomas modernos \u00e9 favorecido pelas configura\u00e7\u00f5es atuais do\u00a0<i>Outro<\/i>\u00a0social:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Nome do Pai sustenta do exterior a consist\u00eancia do campo do Outro. No seio deste, os ideais do eu contribuem para a conten\u00e7\u00e3o do gozo. A subida ao Zenith do objeto &#8216;a&#8217;, nos tempos do Outro que n\u00e3o existe, induz uma muta\u00e7\u00e3o dos ideais: ela promove uma ideologia consumista, ela preconiza um modelo de gozo celibat\u00e1rio, gera uma desagrega\u00e7\u00e3o da lei social.[27]<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eric Laurent chama a aten\u00e7\u00e3o, ainda, para o que faz da toxicomania uma novidade na cl\u00ednica contempor\u00e2nea: a incorpora\u00e7\u00e3o total do t\u00f3xico e do toxic\u00f4mano \u00e0 l\u00f3gica do mercado. A escala fenomenal em que uma subst\u00e2ncia t\u00f3xica torna-se uma mercadoria, regida \u00e0 revelia dos controles do Estado, no puro jogo do mercado capitalista, torna a toxicomania, hoje, radicalmente diferente daquela que se colocou para Freud.[28] E o toxic\u00f4mano incorpora um gozo infinito, ao consumir um objeto impreciso que ultrapassa qualquer subst\u00e2ncia estupefaciente em particular, equivalente ao objeto pequeno\u00a0<i>a<\/i>\u00a0definido por Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vimos que o efeito da droga \u00e9 uma vari\u00e1vel do regime pulsional pr\u00f3prio a cada\u00a0<i>falasser<\/i>\u00a0e que, sob o dom\u00ednio do pseudodiscurso capitalista, funciona para a rejei\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o ato toxic\u00f4mano torna inoperantes os meios da fantasia e do inconsciente, n\u00e3o se considerando, por isso, a toxicomania como nenhuma nova estrutura, tampouco um sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos que as toxicomanias podem ser tratadas como manifesta\u00e7\u00f5es de neurose fora de discurso e inclu\u00eddas entre os modos contempor\u00e2neos de inven\u00e7\u00f5es de\u00a0<i>corporiza\u00e7\u00e3o<\/i>. A droga, assim, opera como artif\u00edcio de tamponar a ang\u00fastia e, tamb\u00e9m, para fazer uso do corpo a ponto de reduzir o sujeito a um corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Localizamos, portanto, refer\u00eancias que julgamos suficientes n\u00e3o apenas para conferir a ideia de que o comprometimento dos processos de simboliza\u00e7\u00e3o, testemunhados na cl\u00ednica da toxicomania, quando n\u00e3o se verifica uma estrutura psic\u00f3tica, decorrem da\u00a0<i>forclus\u00e3o<\/i>\u00a0da castra\u00e7\u00e3o. Mas, tamb\u00e9m, para alimentar o debate e as interlocu\u00e7\u00f5es que devem continuar at\u00e9 \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do VI ENAPOL.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Respons\u00e1vel pelo Grupo de Trabalho da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP). Integrantes: Cassandra Dias,\u00a0<a href=\"mailto:cassandradias@uol.com.br\">cassandradias@uol.com.br<\/a>; Genildo Cordeiro,\u00a0<a href=\"mailto:genildocordeiro@gmail.com\">genildocordeiro@gmail.com<\/a>; Gisella Sette Lopes,\u00a0<a href=\"mailto:gmsl@terra.com.br\">gmsl@terra.com.br<\/a>; Suzane Zanotti,\u00a0<a href=\"mailto:susanevz@yahoo.fr\">susanevz@yahoo.fr<\/a>; Zaeth Nascimento,\u00a0<a href=\"mailto:zaethanascimento@gmail.com\">zaethanascimento@gmail.com<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, E.\u00a0<i>Falar com seu sintoma, falar com seu corpo<\/i>. Argumento do VI ENAPOL. Tradu\u00e7\u00e3o Elisa Monteiro. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Hablar-con-el-propio-sintoma_Eric-Laurent.html&gt;. Acesso em: 12 ago. 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">HOUAISS, A.; VILLAR, M. S.; FRANCO, F. M. M.\u00a0<i>Dicion\u00e1rio eletr\u00f4nico Houaiss da l\u00edngua portuguesa<\/i>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM, vers\u00e3o 3.0.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>O saber do psicanalista<\/i>. Recife: Centro de Estudos Freudianos-CEF, Documento de circula\u00e7\u00e3o interna, 1997. p. 49.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Discours pendant la s\u00e9ance de cl\u00f4ture, Journ\u00e9es des cartels del&#8217;\u00c9cole Freudienne de Paris,\u00a0<i>Lettres de l&#8217;\u00c9cole Freudienne<\/i>, n.18, p. 263-270, 1976. p. 268.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, E.\u00a0<i>Tres observaciones sobre la toxicoman\u00eda<\/i>: TYA, toxicoman\u00edas y alcoholismo. Conferencia pronunciada en el marco del Campo Freudiano. Bruselas, dic. 1988. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.wapol.org\/pt\/las_escuelas\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=4&amp;intEdicion=1&amp;intArticulo=168&amp;intIdiomaArticulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.wapol.org\/pt\/las_escuelas\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=4&amp;intEdicion=1&amp;intArticulo=168&amp;intIdiomaArticulo<\/a>. Acesso em: 12 ago. 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">R\u00c9QUIZ, G. Toxicomania. In:\u00a0<i>Scilicet dos Nomes do Pai<\/i>: texto preparat\u00f3rio para o V\u00a0<i>Congresso<\/i>da<i>AMP, Roma 2006.<\/i>\u00a0Rio de Janeiro: EBP, 2005. p. 170.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, 1988, p. 2, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid., p.3.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">R\u00c9QUIZ, 2005, p. 170.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">SCHEJTMAN, F. Padrecimiento y discurso. In: EIDELBERG, Alejandra et al.\u00a0<i>Porciones de nada<\/i>: la anorexia y la<b>\u00a0<\/b>\u00e9poca. Buenos Aires: Del Bucle, 2009. p. 161, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo.\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n. 41, p. 7-67. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, dez. 2004. p. 66.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">KLAINER, E. Efectos de las sustancias en el cuerpo. In: SALAMONE, L. D.; MILLER, J.\u00a0<i>Pharmakon 11<\/i>: el lazo social intoxicado. Buenos Aires: Grama, 2009. p. 175-178. p.176, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid., p. 176.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<i>Elementos de biologia lacaniana<\/i>. Belo Horizonte, MG: EBP, 2001. p. 74.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, 2004, p. 66.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">ALVAREZ, P.\u00a0<i>Falar com qual corpo?<\/i>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o Ilka Franco Ferrari. 2013. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Hablar-con-cual-cuerpo_Patricio-Alvarez.html\">http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Hablar-con-cual-cuerpo_Patricio-Alvarez.html<\/a>. Acesso em: 12 ago. 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">SORIA DAFUNCHIO, N. Hacia una cl\u00ednica nodal de los modos neur\u00f3ticos de anorexia. In: EIDELBERG, Alejandra et al.\u00a0<i>Porciones de nada<\/i>: la anorexia y la<b>\u00a0<\/b>\u00e9poca. Buenos Aires: Del Bucle, 2009. p. 186, tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<i>O inconsciente real<\/i>: curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana 2006-2007. Aula 13 de 16 maio 2007. In\u00e9dito. p. 1.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">SCHEJTMAN, 2009, p. 178.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MALEVAL, J.-C. Foraclus\u00e3o. In:\u00a0<i>Scilicet dos Nomes do Pai<\/i>: texto preparat\u00f3rio para o V\u00a0<i>Congresso<\/i>da<i>AMP, Roma 2006.\u00a0<\/i>Rio de Janeiro: EBP, 2005. p. 60-61.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LAURENT, 1988, p.1.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[186],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1155"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1155"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1155\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1156,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1155\/revisions\/1156"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1155"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1155"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1155"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}