{"id":1184,"date":"2021-08-18T22:43:03","date_gmt":"2021-08-19T01:43:03","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1184"},"modified":"2021-08-18T22:43:03","modified_gmt":"2021-08-19T01:43:03","slug":"elena-sper-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/elena-sper-2\/","title":{"rendered":"Elena Sper"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Usos do corpo no autismo e seu tratamento<\/span><br \/>\nA crian\u00e7a autista \u00e9 definida por estar presa em\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0sem uma poss\u00edvel elucubra\u00e7\u00e3o de linguagem. \u00c9 um sujeito que n\u00e3o foi introduzido na linguagem passando pelo balbucio, o que j\u00e1 testemunha uma capta\u00e7\u00e3o do sujeito em uma rela\u00e7\u00e3o com um Outro. No autismo, se houver um Outro \u00e9 um Outro de pura exterioridade dos significantes. O corpo \u00e9 vivido como exterior, alheio, desabitado de um sentimento de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um corpo perturbado pela prolifera\u00e7\u00e3o desregulada de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>, que habita um corpo sem que este tenha alcan\u00e7ado a extra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para sua regula\u00e7\u00e3o. Isso significa que, ao contr\u00e1rio do neur\u00f3tico, o autista faz uma positiva\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se fazemos a distin\u00e7\u00e3o entre tra\u00e7o e significante, poder\u00edamos pensar\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0como um enxame de tra\u00e7os que invadem o corpo da crian\u00e7a, e que seria necess\u00e1rio que o tra\u00e7o se apague para que se produza a hi\u00e2ncia na qual o sujeito se faria representar. Da\u00ed a dificuldade de que possa se inserir a voz do outro, uma vez que esta s\u00f3 tem lugar em um fundo de falta, isto \u00e9, permitir que a voz se perca para dar lugar \u00e0 palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na problem\u00e1tica do autismo, n\u00e3o haveria outra maneira de nos guiar na experi\u00eancia anal\u00edtica sen\u00e3o pelo gozo encarnado no corpo. O sujeito n\u00e3o \u00e9 uma ente reduzida \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de comportamentos, \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o entre a imagem, que d\u00e1\u00a0<i>consist\u00eancia<\/i>\u00a0ao corpo, o simb\u00f3lico, que \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o significante, a\u00a0<i>insist\u00eancia<\/i>, e o real que d\u00e1 a\u00a0<i>ex-sist\u00eancia<\/i>, o que permite que algo fique fora do corpo, para que o sujeito possa operar com os objetos. No caso do autismo h\u00e1 uma modalidade radical da forclus\u00e3o psic\u00f3tica. H\u00e1 aus\u00eancia de toda\u00a0<i>\u00abpr\u00f3tese imagin\u00e1ria\u00bb<\/i>\u00a0indicando uma maior precariedade na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a autista n\u00e3o tem um corpo, o gozo retorna sobre uma borda no corpo, Laurent a chama neo-borda, que ocupa o lugar do que est\u00e1 l\u00e1, quando n\u00e3o h\u00e1 os limites do corpo. Por isso vemos que os autistas fazem de seus corpos ferramentas defensivas para se protegerem do real. \u00abO corpo autista seria verdadeiro corpo sem \u00f3rg\u00e3os. O desmembramento do corpo atrav\u00e9s de seus \u00f3rg\u00e3os \u00e9 suportado pelo pre\u00e7o da reclus\u00e3o&#8230;\u00bb[1] e produz um for\u00e7amento para substituir a fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi poss\u00edvel pela regula\u00e7\u00e3o da linguagem, ou seja, seu corpo \u00e9 usado como arma\u00e7\u00e3o ou uma carapa\u00e7a, como indica Laurent, na qual possa se encapsular. \u00abO encapsulamento funciona como uma bolha de prote\u00e7\u00e3o fechada, na qual vive o sujeito; n\u00e3o tem um corpo, tem sua c\u00e1psula ou sua bolha muito s\u00f3lida atr\u00e1s da qual est\u00e1\u00bb[2].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a isso me foi muito ilustrativo o texto \u00abA Batalha do Autismo\u00bb[3]. Ao me referir especificamente ao quarto cap\u00edtulo, devo dizer que o desenvolvimento que faz sobre o corpo dos sujeitos autistas e dos objetos \u00e9 muito original, porque nos apresenta as duas dimens\u00f5es da fun\u00e7\u00e3o dos objetos na rela\u00e7\u00e3o com o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira faz a fun\u00e7\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o, ou seja, de colocar limite ao corpo, de cont\u00ea-lo desse sentimento de inconsist\u00eancia, esse \u00e9 o caso de Temple Grandin com sua\u00a0<i>cattle chute<\/i>, com o objetivo de dar forma a um corpo informe, ela cria esse aparelho que faz a fun\u00e7\u00e3o de coloca-lo em forma, ao contr\u00e1rio de outros casos em que o pr\u00f3prio organismo se faz armadura defensiva, se constitui em uma carapa\u00e7a que pareceria oferecer alguma defesa para o retorno de gozo no corpo. Ela se constitui em uma esp\u00e9cie de neo-borda que faz um limite em que se torna imposs\u00edvel algum contato com o sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra via que seria oposta ao\u00a0<i>hug machine de Temple<\/i>, seria a via da extra\u00e7\u00e3o do objeto no real do corpo. Muitos autistas apresentam a modalidade de extrair as fezes de seus corpos, introduzindo inclusive a m\u00e3o em seu \u00e2nus, ou seja, extrair esse objeto sem forma que se imp\u00f5e ao corpo a qualquer custo. Parece-me que, nesse caso, h\u00e1 uma maior precariedade que em Temple, pois, apesar de n\u00e3o haver registro imagin\u00e1rio no autismo, ela conseguiu capturar algo da forma e do corpo, ao ponto que se v\u00ea impelida a criar este aparelho que a contenha. No segundo caso, acho que o corpo mesmo \u00e9 invasivo \u00e0 crian\u00e7a autista, a ponto de despeda\u00e7\u00e1-lo, se \u00e9 poss\u00edvel para extrair os objetos introduzidos em seu corpo que o fazem a qualquer custo e de qualquer modo. H\u00e1 outros meios que me parecem menos intrusivos ao corpo como aquele de Barron que se serve das esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio para acalmar sua ang\u00fastia. Embora esteja no puro registro da itera\u00e7\u00e3o da letra de gozo, \u00e9 menos invasivo, na minha opini\u00e3o, do que nos outros casos, nos quais o sujeito autista investe contra si, ataca seu pr\u00f3prio corpo, tentando fazer o buraco que n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerar a diferen\u00e7a que haveria entre acontecimento de corpo e fen\u00f4menos de borda \u00e9 indispens\u00e1vel, porque isso faria a diferen\u00e7a no modo de tratamento adotado, se diferenciando totalmente dos outros modos de interven\u00e7\u00f5es como as de ordem comportamentais, ou de aprendizagem. Diferenciar a cl\u00ednica original da cl\u00ednica do circuito, como a chama Laurent, nos leva a ter outra perspectiva sobre a dire\u00e7\u00e3o do tratamento, se tratar\u00e1 aqui de deslocar o objeto autista para conseguir abrir um novo espa\u00e7o que n\u00e3o \u00e9 nem do sujeito, nem do Outro, espa\u00e7o que permitiria um pouco mais de alteridade \u00e0 crian\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com os objetos e com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosine e Robert Lefort ressaltam a import\u00e2ncia dos objetos no tratamento, uma vez que, se h\u00e1 car\u00eancia do imagin\u00e1rio nestes casos de autismo o uso dos objetos permitiria sustentar um trabalho mais concreto na rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Isso significa introduzir novos objetos para que seja poss\u00edvel a extra\u00e7\u00e3o do objeto aut\u00edstico e que venha a ocupar este lugar outro objeto, \u00e9 de algum modo um acontecimento de corpo e permitiria que o sujeito chegue a ceder algo desse gozo que o perturba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os objetos s\u00e3o elementos essenciais para o tratamento do autismo, s\u00e3o instrumentos para se proteger da ang\u00fastia, animam seu corpo, buscando uma satisfa\u00e7\u00e3o e, finalmente, estabelecer um v\u00ednculo com o outro. Qualquer coisa que esteja a seu alcance, brinquedos, objetos cotidianos, seu pr\u00f3prio corpo, o de seus colegas, s\u00e3o objetos suplementares eletivamente erotizados, que funcionam \u00e0 maneira de um \u00f3rg\u00e3o que se adapte a seu corpo e possa produzir sua montagem. Cito Laurent [4]:\u00a0<i>\u00abDesta forma, vemos como esses objetos suplementares aos quais se ligam conseguem uma certa estabiliza\u00e7\u00e3o, e lhes permite apaziguar seu corpo, funcionando como um verdadeiro instrumento para moderar o retorno de gozo e construir-lhe uma borda, um contorno a esse corpo\u00bb<\/i>. Acredito que esta seja a maneira mais aproximada na qual a dimens\u00e3o subjetiva \u00e9 respeitada e se considera como o n\u00facleo central do trabalho psicanal\u00edtico respeitar e trabalhar com as particularidades do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento topol\u00f3gica que encontramos neste texto nos ilustra de uma forma mais clara como o corpo autista n\u00e3o atinge os limites necess\u00e1rios para se sustentar. Se no toro existem dois tipos de orif\u00edcios, o do interior e o outro que liga o exterior com o interior, e no autismo h\u00e1 forclus\u00e3o do buraco n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel constituir nenhum espa\u00e7o topol\u00f3gico no qual o corpo atinja a conten\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a dificuldade de se sustentar e fazer limite ao corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a esta aus\u00eancia de corpo e de conten\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante ter clareza sobre a fun\u00e7\u00e3o que faz o duplo do autista, uma vez que a experi\u00eancia do furo sem borda \u00e9 acompanhada daquela do duplo no espelho e a borda separada do corpo. Por isso, pode-se dizer que o duplo funciona como uma borda separada do corpo do sujeito autista, a fun\u00e7\u00e3o desse duplo seria a de suprir a aus\u00eancia de borda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inexist\u00eancia do corpo est\u00e1 relacionada com a inexist\u00eancia da borda do furo, uma vez que um corpo somente existe se um objeto pode se separar dele. O que sup\u00f5e a exist\u00eancia do olhar do outro, que outorga um corpo e lhe d\u00e1 uma consist\u00eancia. Quando isso n\u00e3o se produz, \u00abquando os olhares n\u00e3o se cruzam\u00bb, a experi\u00eancia do espelho se reduz \u00e0 do duplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o de um duplo se acompanha da constru\u00e7\u00e3o de uma borda capaz de localizar o gozo que se repete sem fim no\u00a0<i>\u00abUm de gozo\u00bb<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, no objeto olhar e no objeto voz \u00e9 necess\u00e1ria a extra\u00e7\u00e3o, que o tra\u00e7o se perca para que a vis\u00e3o se torne olhar.\u00a0<i>\u00abH\u00e1 aqui um fracasso na montagem do circuito pulsional, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem, h\u00e1 um defeito na presen\u00e7a original do Outro que impediria a armadura da rela\u00e7\u00e3o especular\u00bb.<\/i>\u00a0[5] O n\u00e3o-olhar entre a m\u00e3e e a crian\u00e7a produziria o fracasso da primeira montagem da estrutura do aparelho ps\u00edquico, o corpo da crian\u00e7a fica perturbado de um modo espec\u00edfico, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o olham a m\u00e3e, mas tamb\u00e9m diante de um est\u00edmulo caem em verdadeiros cataclismos. Neste caso, a crian\u00e7a, como recurso defensivo, desvia o olhar para evitar gozo intrusivo do olhar do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o ao objeto voz, Maleval nos indica que a posi\u00e7\u00e3o do autista \u00e9\u00a0<i>\u00abn\u00e3o querer ceder o objeto voz\u00bb<\/i>\u00a0[6], rejeita ceder o objeto de seu gozo vocal, maneira de resistir \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o de seu ser na linguagem. Seria n\u00e3o falar, n\u00e3o passar pelas condi\u00e7\u00f5es da linguagem, j\u00e1 que ao aceit\u00e1-las estaria obrigado a responder, obedecer, a passar pelo Outro, desse modo conservar uma total liberdade,\u00a0<i>mas uma liberdade dolorosa<\/i>\u00a0como indicam aqueles autistas que se deram conta de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent nos indica que a marca de gozo n\u00e3o poderia ser extra\u00edda da palavra, ao ponto que o sujeito vive a emiss\u00e3o da palavra como uma verdadeira mutila\u00e7\u00e3o.\u00a0<i>\u00abFalar \u00e9 se esvaziar.\u00bb<\/i>\u00a0[7] \u00c9 por isso que a dissocia\u00e7\u00e3o entre a voz e a linguagem est\u00e1 no princ\u00edpio do autismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos dizer que a verbosidade dos autistas a que se refere Maleval faz a fun\u00e7\u00e3o de apagar e conter gozo invasivo da voz, tanto da sua como da do Outro que o horroriza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloco-me uma pergunta em rela\u00e7\u00e3o ao Outro do autista, sabemos que certos encontros com o Outro incidem no vivente libidinizando certas zonas, e deixando-as de fora. E. Solano [8] prop\u00f5e que o autismo da crian\u00e7a antecedeu um autismo do outro, que impediu que o grito fosse significado, ou seja, passe a ser apelo. Diz:\u00a0<i>\u00abAp\u00f3s deixar o grito sem resposta, n\u00e3o se instaura um sujeito que pede e se perdeu a possibilidade de ler o grito como signo de um pedido, n\u00e3o h\u00e1 o S2 que enlace o S1. E permanece o S1 petrificado\u00bb<\/i>. Se sustentamos a partir da psican\u00e1lise que h\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva de n\u00e3o responder ao Outro, uma escolha de n\u00e3o querer passar pelo outro, de ceder ou n\u00e3o seu gozo, me perguntaria tamb\u00e9m por qu\u00ea? O que ocorre com esse Outro? Qual papel joga esse Outro na resposta da crian\u00e7a? Acredito que tenha um papel fundamental desde sempre, ser\u00e1 quem p\u00f5e o olhar sobre a crian\u00e7a, o que fala \u00e0 crian\u00e7a, quem lhe dar\u00e1 os elementos necess\u00e1rios para prend\u00ea-lo ao mundo, \u00e0 vida, o que deve se apresentar furado para que a crian\u00e7a possa alojar a\u00ed sua voz, seu olhar, um Outro que se implique na rela\u00e7\u00e3o, e quando falo de implicar-se me refiro a um Outro encarnado e presente, e \u00e9 isso justamente o que n\u00e3o existe, nos encontramos com um Outro atual totalmente transtornado pela ci\u00eancia e a tecnologia, guiados de forma mecanizada por indica\u00e7\u00f5es e instru\u00e7\u00f5es que seguem cegamente com uma rigidez inquestion\u00e1vel, onde n\u00e3o h\u00e1 lugar \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o, esse Outro da modernidade, como indica L. Cazenave em seu artigo \u00abO sintoma autista como modelo da civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb onde as palavras e os corpos se separam na disposi\u00e7\u00e3o atual da civiliza\u00e7\u00e3o. Cito: [9]\u00a0<i>\u00abDe fato, o sujeito autista em sua rejei\u00e7\u00e3o da enuncia\u00e7\u00e3o impede que o gozo embarque na palavra, impede que a l\u00edngua se corporize e d\u00ea lugar a um corpo de sujeito.\u00bb<\/i>\u00a0Inquieta-me muito ver que os sujeitos da modernidade t\u00eam uma dificuldade de um saber-fazer a\u00ed com a crian\u00e7a, aus\u00eancia de um saber-fazer de maneira, se posso chamar, conatural, algo que poderia se deixar levar mais pela ordem da natureza. Mant\u00eam-se em uma rigidez inquestion\u00e1vel, sem medir a rela\u00e7\u00e3o, sem considerar a particularidade, reproduzem um discurso m\u00e9dico-cient\u00edfico que d\u00e1 lugar \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o da linguagem e do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto de Manuel Zlotnik [10] \u00abO real pode se desgovernar\u00bb, esclarece essa dificuldade em poder alcan\u00e7ar uma certa harmonia no encontro com seu corpo e com o outro. Ele nos indica:\u00a0<i>\u00abAntes a ci\u00eancia se limitava a estudar a natureza estabelecendo suas leis, mas n\u00e3o intervindo nelas. Mais tarde, come\u00e7ou a intervir e isso levou a que tenha outro real \u00e0 parte do que conhec\u00edamos como natureza, um real que \u00e9 produto da ci\u00eancia real e que nada tem a ver com a natureza.\u00bb<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se apresenta na atualidade s\u00e3o duas formas de um Outro, um que poderia se apresentar como morto, ausente totalmente e, portanto, inerte a toda possibilidade de transmitir vida e, por outro lado, temos um Outro transbordado em sua puls\u00f5es, saturado em pr\u00f3prio gozo, sem dar lugar \u00e0 hi\u00e2ncia que permitiria acomodar o outro. Uma crian\u00e7a frente a essas duas situa\u00e7\u00f5es poderia, no primeiro caso, n\u00e3o chegar a perceber a resposta do outro, onde seu grito pode se converter em demanda, e no segundo caso, poderia se apresentar uma rejei\u00e7\u00e3o como defesa ao excesso de gozo que vem do outro perturbador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra isso, o analista interrogado em sua pr\u00e1tica n\u00e3o tem outro caminho sen\u00e3o se orientar pelo gozo, e se pergunta de que maneira essas crian\u00e7as se ajustam a elas, com que recursos contam para se sustentar nessa peculiar rela\u00e7\u00e3o com o outro e com seu corpo, e que particularidade se poderia localizar nessa crian\u00e7a autista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M. Manzotti nos indica como alojar o corpo do autista em um dispositivo suporte. \u00abUm dispositivo que habilite a crian\u00e7a por uma via distinta do for\u00e7amento, do adestramento, da maternagem, ou da institucionaliza\u00e7\u00e3o, ofertar a essas crian\u00e7as um trabalho de implica\u00e7\u00e3o subjetiva, pela via do consentimento e da toler\u00e2ncia ao encontro com o outro. Um dispositivo que suporte a inespecificidade desse sujeito.\u00bb[11]\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Paula Pimenta<br \/>\nRevis\u00e3o: T\u00e2nia Abreu<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Laurent \u00abEl sentimiento delirante de la vida\u00bb 1. Ed., Buenos Aires, Colecci\u00f3n Diva 2011, p 232.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Ibid p. 207<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Laurent \u00abLa Batalla del Autismo, de la Cl\u00ednica a la Pol\u00edtica\u00bb Ediciones Grama, Buenos Aires cap. 4 \u00abLos sujetos autistas, sus objetos y su cuerpo\u00bb. p. 79<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Laurent, Reflexiones sobre el autismo. \u00abHay un fin de an\u00e1lisis para los ni\u00f1os\u00bb Colecci\u00f3n Diva Buenos Aires. p 88<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">L. Iuale. \u00abDetr\u00e1s del espejo, perturbaciones y usos del cuerpo en el autismo\u00bb 1ra. Edici\u00f3n Letra Viva. Buenos Aires 2011. P 83.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">J.C. Maleval. \u00abM\u00e1s bien verbosos los autistas\u00bb en Psicoan\u00e1lisis Aplicado, cl\u00ednica del autismo y psicosis. Una publicaci\u00f3n de la Fundaci\u00f3n Avenir. Colecci\u00f3n Invenciones. Junio 2008 pag. 17<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Laurent \u00abEl sentimiento delirante de la vida\u00bb 1ra Edici\u00f3n, Buenos Aires, Colecci\u00f3n Diva 2011, p 206.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">E. Solano \u00abLos ni\u00f1os del Uno solo\u00bb Anal\u00edticon psicoan\u00e1lisis con ni\u00f1os 1987 pag 47.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">L. Cazenave. \u00abEl s\u00edntoma autista como modelo de la civilizaci\u00f3n\u00bb<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Manuel Zlotnik \u00abLo real puede desbocarse\u00bb<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">M. Manzotti. y otros \u00abCl\u00ednica del Autismo infantil. El Dispositivo soporte\u00bb. Serie Praxia, Ediciones Grama, Buenos Aires P 65<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[194],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1184"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1185,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1184\/revisions\/1185"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}