{"id":1188,"date":"2021-08-18T22:44:16","date_gmt":"2021-08-19T01:44:16","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1188"},"modified":"2021-08-18T22:44:16","modified_gmt":"2021-08-19T01:44:16","slug":"paula-pimenta-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/paula-pimenta-2\/","title":{"rendered":"Paula Pimenta"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu pequeno artigo instigador dos trabalhos para o VI ENAPOL, Patricio Alvarez (2013) sistematiza tr\u00eas teorias sobre o corpo que se seguem, em Lacan. Para cada uma faz-se corresponder uma leitura espec\u00edfica sobre a cl\u00ednica. Da primeira teoria, do corpo especular, depreende-se a cl\u00ednica estrutural, onde a norma f\u00e1lica organiza o corpo. Nela v\u00eaem-se privilegiados os registros do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a entrada em cena do real que agita a harmonia das normas simb\u00f3lico-imagin\u00e1rias, surge o conceito de objeto\u00a0<i>a<\/i>. Nessa segunda teoria, o corpo se constitui como topol\u00f3gico, com um furo central e sua borda. A superf\u00edcie do corpo se erige ao redor da borda, sendo a via pela qual sobrev\u00e9m a identifica\u00e7\u00e3o especular. Uma segunda opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u00e9 acrescida, a castra\u00e7\u00e3o, simbolizando o furo como falta, dando unidade ao corpo. Essa cl\u00ednica do objeto\u00a0<i>a<\/i>, ao dar lugar especial ao gozo, se reconfigura por sutilezas n\u00e3o contempladas naquela primeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade da teoriza\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o corpo atinge seu \u00e1pice com a terceira abordagem, que se det\u00e9m sobre o acontecimento de corpo. Nela se sobressai a conting\u00eancia do gozo do Um com suas marcas iniciais que constituem o\u00a0<i>falasser<\/i>\u00a0(<i>parl\u00eatre<\/i>). N\u00e3o se trata do corpo mortificado pelo significante, da primeira concep\u00e7\u00e3o, nem daquela que a seguiu em que havia gozo no significante, mas sim de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>, que faz ser a puls\u00e3o o eco no corpo de um dizer. A cl\u00ednica do acontecimento de corpo, entretanto, est\u00e1 para ser depreendida. E Patricio Alvarez nos convida a designar o que h\u00e1 de mais singular nesse corpo que fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitamos o convite da diretoria do VI ENAPOL para explorar mais de perto o acontecimento de corpo. Neste trabalho, tomamos o autismo como tema de nossa investiga\u00e7\u00e3o para pensarmos o acontecimento de corpo, uma vez que essa cl\u00ednica traz a c\u00e9u aberto as marcas do Um de gozo que conduz os usos que o autista faz de seu corpo. Para tanto, nos serviremos de algumas vinhetas cl\u00ednicas que foram apresentadas na Conversa\u00e7\u00e3o sobre o Autismo, em Salvador, Bahia, por ocasi\u00e3o do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, promovida pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), ao final do ano de 2012 e que foi publicada integralmente no livro \u00abO autismo hoje e seus mal-entendidos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os quatro casos de colegas brasileiros apresentados na Conversa\u00e7\u00e3o sobre o Autismo foram previamente debatidos pelos cinco cart\u00e9is da EBP que tinham o autismo como seu tema de investiga\u00e7\u00e3o. As perguntas elaboradas pelos cart\u00e9is foram encaminhadas \u00e0 Conversa\u00e7\u00e3o, como est\u00edmulo \u00e0s discuss\u00f5es cl\u00ednicas. A EBP teve a oportunidade de contar com a presen\u00e7a de \u00c9ric Laurent como debatedor nesse importante evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com idades que variavam entre 3 e 18 anos quando chegaram ao analista, os casos demonstram efeitos do tratamento para esses sujeitos, que se apresentavam de modos diversos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas inven\u00e7\u00f5es e montagens pulsionais singulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tentarmos avan\u00e7ar com a discuss\u00e3o sobre os usos do corpo nos autistas articulada ao acontecimento de corpo, estabeleceremos uma interlocu\u00e7\u00e3o entre os casos da Conversa\u00e7\u00e3o sobre o Autismo e duas proposi\u00e7\u00f5es de Laurent, extra\u00eddas de seu livro \u00abA batalha do autismo\u00bb: \u00abo acontecimento de corpo se diferencia finamente dos fen\u00f4menos de borda\u00bb (Laurent, 2012, p.69) e \u00abo objeto [aut\u00edstico] \u00e9 essa cadeia heterog\u00eanea, feita de coisas descont\u00ednuas (letras, peda\u00e7os de corpo, objetos recolhidos do mundo&#8230;), organizada como um circuito, munida de uma topologia de borda e articulada ao corpo\u00bb (Laurent, 2012, p.75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Acontecimento de corpo e fen\u00f4menos de borda<\/span><br \/>\nAmbos de especial import\u00e2ncia no autismo, o fen\u00f4meno de borda se refere \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de um limite que localiza o gozo, afastando-o do corpo. Essa \u00abneo-borda\u00bb, como a chama Laurent (2012, p.66), precede a institui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de um espa\u00e7o onde o autista poder\u00e1 exercer trocas de um tipo novo, articuladas a um Outro menos amea\u00e7ador. Esse espa\u00e7o, \u00abque n\u00e3o \u00e9 nem do sujeito, nem do Outro\u00bb (Laurent, 2012, p.69) \u2014 podemos dizer, \u00e9 um espa\u00e7o de jogo \u2014 se constitui pelo alargamento e pelo deslocamento da neo-borda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o de uma borda \u00e9 necess\u00e1ria, pois o autista se encontra imerso no real. Uma imagem do corpo, mesmo fr\u00e1gil, n\u00e3o se constituiu. Em termos topol\u00f3gicos, tem-se uma \u00abforclus\u00e3o do buraco\u00bb (Laurent, 2012, p.67). A figura do toro, que serve para representar a topologia corporal que cria o espa\u00e7o pulsional, apresenta dois buracos, sendo aquele central o que conecta o interior e o exterior, dando consist\u00eancia aos objetos. No autismo n\u00e3o h\u00e1 um dentro que se op\u00f5e a um fora. Tustin j\u00e1 obsevara isso, ao afirmar que o autista vive em um mundo bidimensional, evidenciado pelas qualidades de superf\u00edcie, textura e forma, n\u00e3o havendo, para ele, o conhecimento \u00abdos foras e dentros\u00bb (TUSTIN, 1981\/1984, p. 162). Desse modo, continua ela, quando a crian\u00e7a adentra um objeto, o que est\u00e1 ali colocada \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o operante de ser coberta, estando envolta e protegida, e n\u00e3o o \u00abestar dentro\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aguda observa\u00e7\u00e3o de Tustin vai ao encontro do que Laurent nomeou como objeto\u00a0<i>em-forma<\/i>, um dos modos de funcionamento do objeto aut\u00edstico. O objeto\u00a0<i>em-forma<\/i>\u00a0remete \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>, descrita por Lacan em seu Semin\u00e1rio 16, \u00abDe um Outro ao outro\u00bb, e se apresenta no p\u00f3lo dos autistas de alto funcionamento. Nesses casos, o objeto aut\u00edstico recebe uma forma e a restitui ao sujeito. O corpo do sujeito fica bordejado por essa forma do objeto pulsional, protegido da ang\u00fastia de intrus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 aqueles sujeitos em que o objeto pulsional n\u00e3o \u00e9 tomado no registro da forma e do corpo. Trata-se de sujeitos sem bordas e sem limites, em que o objeto de gozo,\u00a0<i>sem forma<\/i>, se imp\u00f5e ao corpo. O objeto\u00a0<i>sem forma<\/i>\u00a0remete a um acontecimento de corpo traum\u00e1tico fundamental, sentido como alteridade radical. O acontecimento de corpo refere-se, portanto, a uma extra\u00e7\u00e3o de gozo. Uma cess\u00e3o de algo da carga de gozo que afeta seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent coloca a quest\u00e3o, orientadora para a cl\u00ednica, de como passar dessa extra\u00e7\u00e3o violenta a um objeto menos cruel a ser extra\u00eddo do corpo. Cabe ao analista a fun\u00e7\u00e3o de um aux\u00edlio que leve essas crian\u00e7as a encontrarem um dispositivo que permita a dist\u00e2ncia desse objeto do corpo, podendo ser tomado de outra maneira, o que possibilita sua entrada em uma troca no la\u00e7o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Cl\u00ednica do circuito e usos do corpo<\/span><br \/>\nA constru\u00e7\u00e3o de uma borda pulsional se d\u00e1 por meio de objetos que podem servir a um aparelhamento do corpo, como mamadeira, penico, \u00f3culos, celular. (Perrin, 2009; Laurent, 2012). Laurent nos adverte que, tal como ocorre com a estrutura\u00e7\u00e3o da imagem especular, a introdu\u00e7\u00e3o de novos objetos se acompanha da extra\u00e7\u00e3o de outro. Ao ocorrer, essa extra\u00e7\u00e3o se produz por meio de um acontecimento de corpo, como uma extra\u00e7\u00e3o de gozo. Essa \u00abcl\u00ednica da cadeia e da extra\u00e7\u00e3o\u00bb (Laurent, 2012, p.71) remete \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<i>a<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um espa\u00e7o entre o sujeito e o Outro vai sendo institu\u00eddo por meio do que Laurent (2012, p.69) denomina \u00abcl\u00ednica do circuito\u00bb: uma constru\u00e7\u00e3o de uma cadeia singular que mescle significantes, objetos, atos e modos de fazer, de maneira a compor um circuito que fa\u00e7a fun\u00e7\u00e3o de borda e de circuito pulsional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui est\u00e3o, a nosso ver, os usos do corpo nos autistas. Primeiramente, a institui\u00e7\u00e3o de uma neo-borda \u00e9 necess\u00e1ria, para afastar o gozo do corpo do sujeito. Os objetos aut\u00edsticos e o duplo se prestam a essa fun\u00e7\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o dessa neo-borda n\u00e3o se d\u00e1 sem um tempo pr\u00e9vio de trabalho em an\u00e1lise, demarca Laurent. Posteriormente, o corpo assim balizado franqueia sua borda, criando um espa\u00e7o de jogo que permite as trocas com o mundo, reiterando a confec\u00e7\u00e3o de sua borda por meio de um circuito composto por restos \u2014 de significantes, de objetos, de corpo, enfim, letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O que nos ensina a cl\u00ednica com autistas sobre os usos do corpo<\/span><br \/>\nOs casos apresentados na Conversa\u00e7\u00e3o sobre o Autismo da EBP se mostram fecundos para nos ensinar sobre os usos do corpo nos autistas. Iniciaremos por uma vinheta do caso apresentado por Cristina Vidigal sobre o tratamento de A.C., crian\u00e7a autista de 3 anos e meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina, que ainda n\u00e3o controlava seus esf\u00edncteres e se apresentava muda e im\u00f3vel, certo dia, ao se antecipar ao hor\u00e1rio da sess\u00e3o, chama \u00abI-ti-na!\u00bb por detr\u00e1s da porta. A. C. tinha, na ocasi\u00e3o, 4 anos de idade. A analista interrompe o atendimento que realizava naquele momento, para abrir-lhe a porta e solicitar que aguardasse sua vez. Esse movimento serve para a analista acolher a fala de A. C. do lugar de seu destinat\u00e1rio, algo in\u00e9dito no tratamento da crian\u00e7a, at\u00e9 ent\u00e3o. Ao ver a porta fechada novamente \u00e0 sua frente, a menina se agacha rente \u00e0 porta e defeca. Ao chegar seu hor\u00e1rio de sess\u00e3o, a m\u00e3e acaba por entrar para trocar sua fralda no banheiro, o que n\u00e3o se d\u00e1 tranquilamente. Essa cena vai se repetir durante meses, como um ritual, como observa Cristina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao cabo desse per\u00edodo, Cristina faz uma interven\u00e7\u00e3o que consiste em dizer \u00e0 menina que ela n\u00e3o precisava lhe entregar nada de seu corpo para entrar no consult\u00f3rio e ter sua sess\u00e3o. Afirmou-lhe que, nos encontros seguintes, a crian\u00e7a iria chegar, cham\u00e1-la, esperar um pouco e, quando chegasse sua hora, Cristina abriria a porta e A. C. teria sua sess\u00e3o. A voz da analista, nessa interven\u00e7\u00e3o, era firme e s\u00e9ria, bem diferente daquela que habitualmente dirigia \u00e0 crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O efeito dessa interven\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pido e surpreendente. J\u00e1 na semana seguinte, a m\u00e3e relata que a crian\u00e7a parou de fazer coc\u00f4 na fralda, tanto em casa, como na escola. Nesta \u00faltima, inclusive, j\u00e1 estava aprendendo a usar o banheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas sobre essa vinheta, Cristina Vidigal nota que a crian\u00e7a encontrou um modo de garantir a presen\u00e7a da analista se submetendo a um comando supereg\u00f3ico de entregar algo de seu corpo ap\u00f3s invocar o nome da analista. \u00abUm S1 e um objeto do seu corpo como que para garantir que eu iria abrir a porta e ela iria me ver\u00bb (Vidigal\u00a0<i>apud<\/i>\u00a0Machado &amp; Drummond, 2013, p.68-69). A interven\u00e7\u00e3o se deu sobre o comando supereg\u00f3ico, com o consequente apaziguamento no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse caso, podemos pensar que se tratava de um objeto\u00a0<i>sem forma<\/i>\u00a0extra\u00eddo do corpo como pura repeti\u00e7\u00e3o de um objeto que n\u00e3o lhe pertence. Diante da emerg\u00eancia de um fr\u00e1gil apelo, feito pelo sujeito \u00e0 analista, sua aus\u00eancia de efetividade redobra sobre o sujeito com a ferocidade de um gozo invasivo. Ao sujeito resta, ent\u00e3o, a vigorosa extra\u00e7\u00e3o corporal das fezes. Mais do que um objeto a ser doado \u00e0 analista, para que ela ressurja, pensamos se tratar de uma invas\u00e3o difusa de gozo em seu corpo sem borda, que leva A. C. ao recurso da extra\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<i>sem forma<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo assim, passamos \u00e0 inevit\u00e1vel quest\u00e3o sobre o que operou na interven\u00e7\u00e3o da analista sobre esse sujeito. Parece-me que encontramos um argumento de resposta nos coment\u00e1rios de Laurent (2012) sobre um caso atendido por Jean-Pierre Rouillon. Trata-se de um menino que passou a seguir um dos educadores da institui\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que arrancava delicadamente os p\u00ealos de seu pr\u00f3prio rosto. O educador em quest\u00e3o tinha seu sobrenome iniciado com \u00abour\u00bb, o inverso do sobrenome do analista da crian\u00e7a. Para demarcar o lugar duplicado do analista, no qual o educador foi posto, Rouillon observa que, nos momentos em que se dedicava a se colar no educador, a crian\u00e7a n\u00e3o se fazia presente nas sess\u00f5es marcadas com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma interven\u00e7\u00e3o foi feita pelo analista: \u00abVoc\u00ea vem me ver\u00bb. Opera-se uma separa\u00e7\u00e3o do corpo do educador que vinha sendo colocado como objeto aut\u00edstico, ou seja, como uma parte do pr\u00f3prio sujeito. A efetividade da interven\u00e7\u00e3o se deveu ao estabelecimento de uma ordem no mundo, ao se demarcar que s\u00f3 existe um \u00fanico \u00abrou\u00bb. O surpreendente apaziguamento e a cessa\u00e7\u00e3o da retirada dos pelos se deram por um deslocamento da perda. Perdeu-se uma coisa, o duplo, portanto n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio provocar a extra\u00e7\u00e3o corporal dos pelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomando o fragmento de A. C., podemos considerar que a enumera\u00e7\u00e3o dos atos futuros de A. C., feita pela analista \u2015 chegar, chamar, esperar e s\u00f3 ent\u00e3o entrar \u2015 funcionou como uma regula\u00e7\u00e3o para o sujeito. Da mesma forma como fez o professor de Birger Sellin, ao lhe dar por conclu\u00edda a explica\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia do conjunto vazio, pertencente a qualquer outro conjunto e com a propriedade de n\u00e3o alter\u00e1-los, lhe dizendo: \u00ab\u00c9 assim, porque \u00e9 assim\u00bb. Laurent (2012) observa que isso apazigua o sujeito porque n\u00e3o h\u00e1 buraco nas regras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao instituir uma sequ\u00eancia de regramento para A. C., a analista dilui a insuportabilidade do mundo para o sujeito, decorrente da \u00abforclus\u00e3o do buraco\u00bb. Essa forclus\u00e3o faz o simb\u00f3lico se tornar real para o autista e o leva a operar um buraco for\u00e7ado pela automutila\u00e7\u00e3o, como \u00e9 nosso entendimento do que se passou com A. C.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s esse apaziguamento, que leva A. C. a n\u00e3o ter que extrair de forma automutilat\u00f3ria o objeto, ela pode ceder algo desse excesso de gozo, regulando seu esf\u00edncter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa cess\u00e3o de gozo \u00e9 vista numa outra crian\u00e7a, atendida por Suzana Barroso. O espa\u00e7o de troca se faz mais poss\u00edvel para esse menino de 3 anos que leva os objetos do consult\u00f3rio a cada sess\u00e3o, instituindo, no mesmo movimento, a cola no objeto aut\u00edstico-duplo e a extra\u00e7\u00e3o de um objeto do analista. A virada no tratamento se d\u00e1 pelo manejo do analista de lhe instituir uma perda que lhe possa ser relativamente suport\u00e1vel. Jo\u00e3o pode levar os objetos para casa, mas n\u00e3o todos. A cess\u00e3o dos objetos interditados n\u00e3o se d\u00e1 sem dificuldades, pela qual a crian\u00e7a cede algo de seu corpo, as l\u00e1grimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo pr\u00e9vio necess\u00e1rio para que algo seja enganchado, formando uma neo-borda, \u00e9 demonstrado no caso desse sujeito. Ap\u00f3s quase um ano nesse primeiro tempo de ensaios de extra\u00e7\u00e3o de gozo, o paciente de Suzana institui um espa\u00e7o de troca que se amplia, por meio do signo das \u00abpegadas\u00bb do coelho da P\u00e1scoa, que conta com um objeto fora do campo de vis\u00e3o do sujeito. Dali surge outra borda, que vai diferenciar ainda mais os registros do Simb\u00f3lico, Imagin\u00e1rio e Real, pela inscri\u00e7\u00e3o de uma condensa\u00e7\u00e3o significante \u00abpaim\u00e3e\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como o caso de Suzana, aquele atendido por Vicente Gaglianone demonstra a constru\u00e7\u00e3o promovida pela cl\u00ednica do circuito. A menina autista, de 13 anos, se utiliza do duplo como uma neo-borda. Sejam suas hom\u00f4nimas das revistas de celebridade, seja o analista. Laurent observa que as atividades exaustivamente repetidas a que o analista \u00e9 convocado pela adolescente \u2014 ler, cantar ou mesmo se cansar por seus imperativos \u2014 s\u00e3o uma montagem que instauram um circuito que se estabelece e evolui. O que se promove a partir desse tempo pr\u00e9vio s\u00e3o interc\u00e2mbios mais significativos, por meio da voz e do olhar. Em outras palavras, vai-se instituindo uma borda pulsional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A instaura\u00e7\u00e3o de um circuito pulsional n\u00e3o se apresentou muito facilitado no jovem de 18 anos que \u00e9 levado a tratamento pela primeira vez com essa idade. Ele traz suas dificuldades iniciais diante da presen\u00e7a do Outro, por sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 voz e ao olhar. A analista, Ana Beatriz Freire, vai se fazendo incluir por um manejo sutil desses objetos. O uso de um gravador lhe \u00e9 oferecido como dispositivo de aparelhamento do corpo e R. se serve dele para receber a voz do outro, modulada por meio do canto. O circuito se constr\u00f3i pela colabora\u00e7\u00e3o do pai, que decide seguir com o filho pelo circuito das artes, depois de t\u00ea-lo visto se interessar por essa que \u00e9 a sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o. Os efeitos sobre o sujeito s\u00e3o evidentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Considera\u00e7\u00f5es<\/span><br \/>\nOs usos do corpo nos autistas s\u00e3o t\u00e3o variados quanto a incid\u00eancia da inst\u00e2ncia da letra para esses sujeitos. Os diversos registros da letra compreendem tanto a escrita, a cifra, a fixa\u00e7\u00e3o da palavra, quanto a imagem descont\u00ednua e a m\u00fasica (Laurent, 2012, p.105).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos os casos que trouxemos vemos o privil\u00e9gio dado a algum desses registros por cada um dos sujeitos. No entanto, Laurent nos sugere que ampliemos, no tratamento e nas interven\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas, o leque desses registros da letra para os autistas. Promover uma \u00abdesespecializa\u00e7\u00e3o\u00bb, dir\u00e1 ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica dessa orienta\u00e7\u00e3o repousa no retorno \u00e0 origem, ao trauma da l\u00edngua sobre o corpo, ao momento anterior a toda diferencia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, \u00e0 \u00abinst\u00e2ncia da letra tronco\u00bb (Laurent, 2012, p. 108), momento\u00a0<i>princeps<\/i>\u00a0do acontecimento de corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A variabilidade do uso dos registros da letra far\u00e1 com que o autista se enrique\u00e7a de dispositivos que o ajudar\u00e3o a instaurar suas bordas, fazendo com isso um corpo que permita um espa\u00e7o de trocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos que esse \u00e9 o uso do corpo nos autistas: um recurso forjado para as trocas com o mundo, n\u00e3o sem dificuldades e com um intenso trabalho do sujeito.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>ABREU, T. (2013). Acontecimento de corpo e transfer\u00eancia na cl\u00ednica com autistas. Agente, Revista de Psican\u00e1lise, 8. Dispon\u00edvel em: http:\/\/institutopsicanalisebahia.com.br\/agente\/08\/tania_abreu.html. Acesso em: 6 ago. 2013.<\/li>\n<li>ALVAREZ, P. (2013). Hablar con cual cuerpo? (Trad. I. Ferrari). Site oficial do VI ENAPOL, mar\u00e7o de 2013. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Hablar-con-cual-cuerpo_Patricio-Alvarez.html. Acesso em: 19 mai. 2013.<\/li>\n<li>LAURENT, \u00c9. (2012). La bataille de l&#8217;autisme. De la clinique \u00e0 la politique. Paris: Navarin \/ Le Champ freudien.<\/li>\n<li>MACHADO, O. &amp; DRUMMOND, C. (2013). O autismo hoje e seus mal-entendidos: Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica de Salvador. Belo Horizonte: Scriptum \/ EBP.<\/li>\n<li>PERRIN, M. (2009). Construction d&#8217;une dynamique autistique. De l&#8217;autogire \u00e0 la machine \u00e0 laver. In MALEVAL, J.-C. (dir.). L&#8217;autiste, son double et ses objets. Rennes, FR: Presses Universitaires de Rennes, p. 69-100.<\/li>\n<li>TUSTIN, F. (1981\/1984). Estados aut\u00edsticos em crian\u00e7as. Trad. J. M. Xisto. Rio de Janeiro: Imago.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Este texto \u00e9 de autoria \u00fanica, conforme a proposta original da comiss\u00e3o diretiva do VI ENAPOL. Mas ele se inspirou nos pontos de discuss\u00e3o levantados pelas coordena\u00e7\u00f5es do tema \u00abUsos do corpo nos autistas\u00bb das escolas da NEL e da EOL, bem como pelas pessoas ligadas \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o de trabalho da EBP. Meus agradecimentos a estes que puderam contribuir, seja por seu interesse, seja por seus apontamentos: Ana Beatriz Freire, Anamaria Vasconcellos, Ang\u00e9lica Bastos, Cristina Drummond, Cristina Vidigal, Helo\u00edsa Telles, Maria Ros\u00e1rio Collier Barros, Nohem\u00ed Brown, Paula Borsoi, Suzana Barroso e T\u00e2nia Abreu.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[194],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1188"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1188"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1188\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1189,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1188\/revisions\/1189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}