{"id":1192,"date":"2021-08-18T22:46:07","date_gmt":"2021-08-19T01:46:07","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1192"},"modified":"2021-08-18T22:46:07","modified_gmt":"2021-08-19T01:46:07","slug":"silvia-elena-tendlarz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/silvia-elena-tendlarz-2\/","title":{"rendered":"Silvia Elena Tendlarz"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">O uso do corpo no autismo na inf\u00e2ncia<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizer de um sujeito sem corpo? N\u00e3o h\u00e1 constitui\u00e7\u00e3o do corpo no autismo. Mas, entretanto, sem d\u00favida, podemos examinar seu uso. Eric Laurent afirma que a falta de corpo do sujeito autista \u00e9 j\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com o corpo, uma vez que tem uma rela\u00e7\u00e3o particular com seus orif\u00edcios e com o uso do espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos circunscrever a partir de suas formula\u00e7\u00f5es dois pontos essenciais dos quais extrairemos uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) O sujeito autista \u00e9 um \u00abser sem buraco\u00bb e sem corpo por causa da \u00abforclus\u00e3o do buraco\u00bb, com um retorno de gozo sobre a borda que constitui o encapsulamento autista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) O acontecimento de corpo essencial do autismo \u00e9 a itera\u00e7\u00e3o do Um que acarreta uma \u00absolid\u00e3o sem\u00e2ntica\u00bb, itera\u00e7\u00e3o da letra sem corpo, sem constitui\u00e7\u00e3o do Outro, sem o circuito pulsional e, finalmente, sem objeto e sem imagem especular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">1. Neo-borda<\/span><\/strong><br \/>\nO tratamento habitual do corpo do autista leva em conta a teoriza\u00e7\u00e3o da \u00abcarapa\u00e7a\u00bb que a crian\u00e7a cria como uma defesa frente ao mundo externo. Este termo \u00e9 usado tanto pelos p\u00f3s-freudianos americanos da\u00a0<i>Egopsychology<\/i>\u00a0como pelos kleinianos ingleses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 50-60, Margaret Mahler, em Nova York, prop\u00f5e a necessidade de atravessar a carapa\u00e7a autista. Durante a mesma \u00e9poca, Bruno Bettelheim, em Chicago, se interessa pela chamada \u00abfortaleza vazia\u00bb. Curiosamente, o psicanalista argentino Emilio Rodrigu\u00e9 nos anos 50, ao trabalhar com uma crian\u00e7a autista que equipara a Dick, indica que este termo j\u00e1 se encontra em Melanie Klein: diante da idealiza\u00e7\u00e3o excessiva, o corpo se torna \u00abapenas uma casca para ele\u00bb. Nos anos 70, os kleinianos e os p\u00f3s-kleinianos ingleses se ocupam do autismo. Meltzer com sua busca de uma topologia e um uso do espa\u00e7o pr\u00f3prio, bidimensional, resultado da identifica\u00e7\u00e3o adesiva. Francis Tustin postula o \u00abencapsulamento autista\u00bb como uma barreira protetora contra o mundo exterior, engendrando a ilus\u00e3o de ter uma envoltura exterior a seu corpo. Envolvem-se, ent\u00e3o, em sensa\u00e7\u00f5es corporais que incluem manipula\u00e7\u00f5es de objetos, balanceios ou movimentos estereotipados, e se tornam insens\u00edveis \u00e0 dor. Ela usa esse termo com David, uma crian\u00e7a psic\u00f3tica, que constr\u00f3i para si uma armadura com luvas e um capacete de papel\u00e3o \u00abpara poder se fazer um corpo e entrar nele, uma armadura que o protegeria do monstro do buraco\u00bb. Trata-se de uma casca dura, uma segunda pele, segundo a express\u00e3o de Bick.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A met\u00e1fora do encapsulamento autista \u00e9 retomada dentro da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, mas numa uma perspectiva diferente: n\u00e3o se trata, pois, nem do fortalecimento eg\u00f3ico, nem de uma defesa contra a aniquila\u00e7\u00e3o total, mas de um tratamento particular da falta e do buraco. Laurent o prop\u00f5e como uma \u00abneo-borda\u00bb, quase corporal, que n\u00e3o pode ser franqueada, mas que pode ser deslocada, que n\u00e3o corresponde \u00e0 superf\u00edcie do corpo nem a uma carapa\u00e7a dura, mas sim ao particular retorno do gozo sobre a borda. Esta neo-borda se modifica no decurso do tratamento anal\u00edtico e tem suas consequ\u00eancias na rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com seu corpo e com o uso do espa\u00e7o. Al\u00e9m do mais, ela n\u00e3o est\u00e1 completamente fechada, porque pode incluir o objeto aut\u00edstico, como observou Tustin, objetos de troca, e pode incluir tamb\u00e9m pessoas: pais, irm\u00e3os e at\u00e9 mesmo o analista na transfer\u00eancia. Tanto Maleval quanto Laurent afirmam que o duplo real, no qual a crian\u00e7a se apoia para a constitui\u00e7\u00e3o de seu mundo, faz parte desta borda. Maleval ainda inclui as ilhas de compet\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As modalidades de encapsulamento variam: v\u00e3o da profunda rejei\u00e7\u00e3o do Outro &#8211; seus cuidados e alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o experimentados como intrusivos \u2013 at\u00e9 a inclus\u00e3o de pessoas e objetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maleval prop\u00f5e uma reorganiza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica do autismo a partir das diferentes formas de borda: os autismos\u00a0<i>sem borda<\/i>, os autismos\u00a0<i>com borda<\/i>, e o encapsulamento como um extremo, formando uma s\u00e9rie. N\u00e3o se procura estabelecer novos sistemas de classifica\u00e7\u00e3o, mas o estudo da diversidade nos permite aprender a cada dia algo mais sobre o funcionamento do autismo. Os diferentes fen\u00f4menos transform\u00e1veis operam na realidade dentro de uma mesma crian\u00e7a e permitem apreender diferentes rela\u00e7\u00f5es com a borda e com o encapsulamento atrav\u00e9s da an\u00e1lise. \u00abO que me interessa nessa perspectiva, diz Laurent, \u00e9 poder incluir uma variedade de fen\u00f4menos transform\u00e1veis em uma mesma fam\u00edlia de problemas, como dizia Wittgenstein, que t\u00eam algo em comum.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">2. O trabalho sobre os buracos e o apoio sobre o duplo real<\/span><\/strong><br \/>\nEric Laurent explica, durante uma entrevista, que a forclus\u00e3o do buraco faz com que o sujeito autista procure produzi-lo \u00abcavando buracos ou utilizando os buracos que se apresentam, e procurando bordej\u00e1-los com certa instrumenta\u00e7\u00e3o para lhes dar a dignidade de um buraco.\u00bb As crian\u00e7as v\u00e3o da fascina\u00e7\u00e3o ao terror diante do buraco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao discutir o caso Robert dos Lefort, Jacques-Alain Miller retoma duas sequ\u00eancias: a tentativa de cortar o p\u00eanis e o grito \u00abo lobo, o lobo\u00bb diante do buraco do vaso sanit\u00e1rio, palavra \u00abnodal\u00bb que utiliza em diferentes situa\u00e7\u00f5es. Robert \u00e9 um menino \u00abimerso no real\u00bb onde n\u00e3o falta nada. N\u00e3o h\u00e1 buraco e ele n\u00e3o pode extrair nada para colocar nesse buraco que n\u00e3o h\u00e1. No registro do real n\u00e3o falta nada, \u00e9 por isso, diz Miller, que Robert procura construir um buraco atrav\u00e9s da automutila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eric Laurent chama a \u00abfalta de buraco\u00bb apresentada por Miller de \u00abforclus\u00e3o do buraco\u00bb, que impele \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de um buraco atrav\u00e9s de um for\u00e7amento para encontrar uma sa\u00edda frente ao excesso de gozo que invade seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso explica as crises de ang\u00fastia de algumas crian\u00e7as quando t\u00eam que se separar das fezes e para isso recorrem a rituais estereotipados. A presen\u00e7a do buraco do vaso sanit\u00e1rio leva Robert a gritar. Outra menina, Laurie, temia ser engolida pelo vaso sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, Laurent indica que os orif\u00edcios corporais que n\u00e3o est\u00e3o constitu\u00eddos como buracos nem como bordas pulsionais t\u00eam diferentes tratamentos de acordo com que se trate de sua rela\u00e7\u00e3o com os objetos oral e anal, ou com a voz e com o olhar. Nos mesmos autores p\u00f3s-freudianos e kleinianos se encontram exemplos em seus casos de tratamento dos orif\u00edcios que n\u00e3o chegaram a se constituir como buracos e que retomaremos a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Em rela\u00e7\u00e3o ao objeto anal ou oral, a borda n\u00e3o est\u00e1 constitu\u00edda, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com o Outro, e por isso se produz a extra\u00e7\u00e3o ou reincorpora\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias corporais; trata-se de objetos sem forma nas palavras de Laurent. Timmy extra\u00eda suas fezes e as voltava a colocar nas cal\u00e7as. Laurie tinha sempre a boca entreaberta: nessa garota anor\u00e9xica o v\u00f4mito lhe escorria pelo rosto, pelo cabelo e o vestido sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o de sua parte, como se n\u00e3o existisse um interior e um exterior. Por outro lado, deixava cair suas fezes e em seguida as pegava para deix\u00e1-las cair em um \u00abneo-<i>Fort Da<\/i>\u00ab. Tamb\u00e9m lambuzava seu corpo com suas fezes. Bettelheim observa que em Laurie \u00abn\u00e3o havia um corpo integrado, mas unicamente um agregado de partes separadas\u00bb pelo particular abandono e in\u00e9rcia de seus membros corporais. Sami-Ali indica em Martin a rejei\u00e7\u00e3o dos alimentos s\u00f3lidos, a boca se limitava a ser um \u00f3rg\u00e3o receptivo \u00abcomo se n\u00e3o existisse\u00bb. N\u00e3o tinha boca para comer nem para falar. Uma menina tirava constantemente a saliva com a m\u00e3o e a esparramava com um movimento circular em torno do nariz e das bochechas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Em rela\u00e7\u00e3o ao objeto voz e olhar, obtura-se a borda tapando-a diante do Outro especialmente intrusivo, Outro real. Um menino tampava os olhos e os ouvidos alternadamente quando tinha que falar. Outro menino sentava-se atr\u00e1s do analista para falar, debaixo da mesa, em um canto, em uma topologia, fora do campo de vis\u00e3o. Um menino arrancava o piso quando algu\u00e9m se aproximava e cobria seu rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcia ao falar olhava o vazio, e tapava os ouvidos e o nariz com os dedos diante das pessoas. Realizava um movimento particular diante do queixo com os dedos, \u00abdedilhava\u00bb, mas nunca fazia este movimento em frente \u00e0 boca pelo temor que lhe produziam os orif\u00edcios corporais. Para aliment\u00e1-la, na institui\u00e7\u00e3o de Bettelheim lhe propunham tapar os ouvidos a fim de libertar-lhe alguns dedos. Desse modo come\u00e7a a comer inclinando-se sobre o prato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O apoio sobre o duplo real, a falta de constitui\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, encarnado pelo analista, permite \u00e0 crian\u00e7a um trabalho sobre os buracos e a borda. Enquanto o analista falava, Timmy tentava lhe tapar a boca com a m\u00e3o ou com seu cotovelo. Punha sua orelha perto da boca do terapeuta ou tamb\u00e9m colava sua boca \u00e0 do terapeuta dando conta do uso do espa\u00e7o colado no outro. Tamb\u00e9m se aproximava dos \u00f3culos do analista e olhava seus olhos atrav\u00e9s deles, ao mesmo tempo que os lambia. Para Meltzer, estes comportamentos de Timmy ilustram o mundo bidimensional do autista: trata-se, sem d\u00favida, de um uso particular da topologia espacial. Martin primeiro se sentava atr\u00e1s de Sami-Ali para logo se precipitar sobre ele apertando sua cabe\u00e7a contra seu peito e o cheirando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surpreendentemente, em muitos dos casos examinados, pode-se constatar que o trabalho sobre a alimenta\u00e7\u00e3o segue conjuntamente com a emiss\u00e3o de sons. Crian\u00e7as anor\u00e9xicas e mudas, sem o buraco da boca para comer nem para separar-se da emiss\u00e3o do objeto voz que implica falar (Maleval), ao mesmo tempo que come\u00e7am a comer iniciam a emiss\u00e3o de sons. Martin come\u00e7a a comer alimentos s\u00f3lidos ao mesmo tempo que pronuncia suas primeiras palavras: no trabalho de constitui\u00e7\u00e3o do buraco entram alimentos, saem sons. De outro lado, ao coelho a que falta uma orelha procura introduzir uma por\u00e7\u00e3o de l\u00e3 e um peda\u00e7o de papel; por\u00e9m mais que uma introje\u00e7\u00e3o oral auditiva a que alude Sami-Ali, encontramos o esfor\u00e7o para tapar o buraco ao mesmo tempo que come\u00e7a a ceder o objeto voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurie, internada por desnutri\u00e7\u00e3o por causa de sua anorexia antes de entrar na institui\u00e7\u00e3o de Bettelheim, colada \u00e0 sua educadora come\u00e7a a tomar umas uva-passas e a introduzi-las na boca, ao mesmo tempo que dava uma risada depois de muitos anos de sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos nos perguntar de que modo repercute o trabalho sobre o orif\u00edcio oral na rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o objeto voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em M\u00e1rcia surge esta mesma quest\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre as palavras que pronuncia e seu trabalho sobre a elimina\u00e7\u00e3o das fezes, na medida que o trabalho sobre o orif\u00edcio anal a leva a come\u00e7ar a falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem todas as crian\u00e7as autistas mostram este trabalho sobre os orif\u00edcios do corpo, como tamb\u00e9m n\u00e3o sofrem de tantas dificuldades em sua rela\u00e7\u00e3o com o buraco. Mas talvez, e \u00e9 mais importante ainda, o trabalho com as crian\u00e7as permite encontrar outras modalidades de tratamento do vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">3. Itera\u00e7\u00e3o e uso do espa\u00e7o<\/span><\/strong><br \/>\n<i>Lal\u00edngua<\/i>, apresentada como um conjunto dos equ\u00edvocos poss\u00edveis, \u00e9 um meio de gozo. A inclus\u00e3o do sujeito na linguagem coloca uma ordem na estrutura. Mas no autismo o Um do gozo n\u00e3o se apaga, assim o balbucio reduz o Um da letra a uma repeti\u00e7\u00e3o vocalizada ou silenciosa, mas que n\u00e3o ordena os equ\u00edvocos reais que produzem, assim, a experi\u00eancia alucinat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas alucina\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a autista a totalidade de equ\u00edvocos de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0opera de forma autom\u00e1tica: \u00e9 \u00aba imposs\u00edvel separa\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo da l\u00edngua como real insuport\u00e1vel.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martin tapava os ouvidos com os polegares diante da experi\u00eancia alucinat\u00f3ria, e Lacan indica, neste caso, que desta forma a crian\u00e7a se protege do verbo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As alucina\u00e7\u00f5es em crian\u00e7as autistas tamb\u00e9m foram descritas em Raul e em M\u00e1rcia. Alex tapava os ouvidos se balan\u00e7ando, movendo a cabe\u00e7a enquanto olhava para o teto em estado de transe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A itera\u00e7\u00e3o se encontra no uso da linguagem t\u00e3o exaustivamente estudada por Maleval, na fixidez dos movimentos e na exig\u00eancia dos mesmos, nos comportamentos estereotipados, e na elabora\u00e7\u00e3o de trajetos, circuitos e s\u00e9ries durante a an\u00e1lise, na medida em que \u00aba s\u00e9rie, diz Laurent, \u00e9 uma itera\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira do n\u00famero\u00bb. Assim, os trajetos e as s\u00e9ries de Alex funcionam \u00e0 maneira do Um a mais: \u00abos circuitos descrevem uma geometria que poder\u00edamos dizer topologizada, uma topologia sobre as s\u00e9ries\u00bb, diz Laurent ao comentar o caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta itera\u00e7\u00e3o alivia o autista, uma vez que lhe permite viver em um mundo fixo, ordenado e seguro diante da presen\u00e7a do Outro. A constru\u00e7\u00e3o de trajetos fixos no curso do tratamento permite a explora\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do uso do espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eric Laurent aponta uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas do Um de gozo: o gosto pelo mesmo,\u00a0<i>sameness<\/i>, isolado por Kanner, repeti\u00e7\u00e3o estereotipada de palavras e comportamentos; as \u00abfrases espont\u00e2neas\u00bb que surgem em um contexto de intensa ang\u00fastia para mergulhar novamente no sil\u00eancio; e a posi\u00e7\u00e3o diante do \u00abru\u00eddo\u00bb de\u00a0<i>lal\u00edngua<\/i>\u00a0e seu esfor\u00e7o para reduzi-los ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martin demonstra uma \u00abfrase espont\u00e2nea\u00bb, por ocasi\u00e3o de uma queda em que bateu o nariz e sangrou; quando a m\u00e3e tenta colocar-lhe um algod\u00e3o com \u00e1lcool, ele sai de seu mutismo, e volta dizendo: \u00abMam\u00e3e, mam\u00e3e\u00bb, sem voltar a repeti-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temple Grandin narra o epis\u00f3dio da batida de um carro: ao ca\u00edrem os vidros do carro sobre ela, ela come\u00e7a a repetir: \u00abgelo\u00bb, o que demonstra a emerg\u00eancia de uma frase espont\u00e2nea. Ela narra o mutismo de sua inf\u00e2ncia, sua voz neutra, inexpressiva, sem inflex\u00f5es nem ritmos. Por outro lado tinha comportamentos fixos: sua obsess\u00e3o pelos objetos que giravam, olhava durante horas como escorria a areia de seus dedos, o movimento de uma moeda ou de uma tampa, sem ver nem ouvir nada. Mas quando estava no mundo era extremamente sens\u00edvel ao ru\u00eddo e ao est\u00edmulo dos outros. N\u00e3o tolerava a mudan\u00e7a de rotinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento do espa\u00e7o da crian\u00e7a autista \u00e9 uma topologia sem orienta\u00e7\u00e3o ou medida e \u00e9 por isso que os objetos est\u00e3o muito perto ou longe. Ao caminhar uma menina se chocava com os objetos, ao contr\u00e1rio, as outras crian\u00e7as demonstram uma habilidade especial no deslocamento atrav\u00e9s do espa\u00e7o em alta velocidade e sem trope\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os trajetos que inventam contribuem para a constru\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o da neo-borda. O acompanhamento do operador ou de seu analista em uma institui\u00e7\u00e3o permite que se inclua nestes trajetos um duplo real que contribui para essa amplia\u00e7\u00e3o do uso do espa\u00e7o; no entanto, em muitos casos, permanece fixo um ponto de interesse estereotipado relatado como cenas imposs\u00edveis de perturbar ou como o interesse obstinado por um objeto determinado. Em um grau de maior elabora\u00e7\u00e3o algumas crian\u00e7as mostram um saber enciclop\u00e9dico sobre temas espec\u00edficos que contam repetidamente, como por exemplo, sobre as rotas de metr\u00f4s e trens de toda a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crian\u00e7as apresentam comportamentos estereotipado motores, a narrativa cont\u00ednua de filmes, de m\u00fasica ou hist\u00f3rias em ingl\u00eas, a escrita ininterrupta, de circuitos ou s\u00e9ries sempre iguais. Em alguns casos, realizam desenhos de trajetos que metonimicamente se sucedem uns aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de tratamento solidifica a fixa\u00e7\u00e3o e impede a constitui\u00e7\u00e3o de uma neo-borda, embora isso varie de acordo com a singularidade de cada crian\u00e7a, mas sem d\u00favida a estimula\u00e7\u00e3o e o tratamento contribuem para a amplia\u00e7\u00e3o de seu mundo. Al\u00e9m disso, o tipo da neo-borda tende a variar no curso da cura fornecendo uma variedade de estados para uma mesma crian\u00e7a dentro do mesmo estilo de funcionamento inalterado. Ou seja, o trabalho n\u00e3o s\u00f3 varia de crian\u00e7a para crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m em cada crian\u00e7a sua rela\u00e7\u00e3o com o encapsulamento pode variar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, sem buraco n\u00e3o h\u00e1 borda que o delimite. A borda \u00e9 uma zona fronteiri\u00e7a que pode ser franqueada, \u00e9 o lugar dos contatos e das poss\u00edveis trocas. Esta concep\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, pois permite que seja poss\u00edvel um tratamento com as crian\u00e7as autistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de se apoiar no duplo real que \u00e9 a educadora, literalmente colada a seu corpo, Laurie constr\u00f3i fronteiras e buracos. Inicia pelo trabalho sobre o orif\u00edcio da boca ingerindo comida e pronunciando sons; em seguida, cola-se ao corpo de sua educadora e expande o menu de comidas e sons guturais; em um terceiro tempo, trabalha sobre o orif\u00edcio anal e sobre as fezes no \u00abneo-<i>Fort Da<\/i>\u00bb de peg\u00e1-las e deix\u00e1-las cair; aparece depois a imita\u00e7\u00e3o dos movimentos de seu duplo real. Este trabalho sobre o buraco lhe permite produzir uma nova neo-borda que vai se ampliando paulatinamente. Corta, ent\u00e3o, longas tiras de uma folha de papel, retirando-lhes previamente o centro, e constr\u00f3i fronteiras entre ela e o mundo. A seguir, ela sustenta este trabalho sobre o centro vazio ao colorir pap\u00e9is e deixar buracos brancos em seu centro. Finalmente, com casca de \u00e1rvore foi capaz de construir uma linha cont\u00ednua de 20 metros composta por 50 ondula\u00e7\u00f5es sinus\u00f3ides quase perfeitas sobre uma parede que separava o p\u00e1tio do recreio da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ilustra\u00e7\u00e3o do deslocamento da neo-borda encontramos o v\u00eddeo\u00a0<i>\u00abMon petit fr\u00e8re de la lune\u00bb<\/i>, desenho animado no qual uma menina fala sobre seu irm\u00e3o autista enquanto, a todo momento, o desenha em uma bolha que o deixa fora da rela\u00e7\u00e3o com os outros. A crian\u00e7a \u00e9 objeto de segrega\u00e7\u00e3o e de temor pelos seus comportamentos diferentes. Em certo momento, a menina relata como criaram uma linguagem comum de pequenos sons e um jogo que consiste em se colocar um chap\u00e9u e que o irm\u00e3ozinho a persiga. V\u00ea-se ent\u00e3o as duas crian\u00e7as na mesma bolha e se ouvem suas risadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 disso que se trata na proposi\u00e7\u00e3o da amplia\u00e7\u00e3o da neo-borda e da inclus\u00e3o do analista no encapsulamento autista da crian\u00e7a no que \u00e9 chamado \u00abautismo a dois\u00bb. Trata-se de escutar esses sujeitos \u00abbastante verbosos\u00bb, como indica Lacan, de \u00abestabelecer um espa\u00e7o comum\u00bb \u2013 de acordo com a express\u00e3o de Laurent \u2013 de acolher seus modos de ser, e de encontrar a maneira de estabelecer o \u00abla\u00e7o sutil\u00bb com o qual podemos contribuir para o deslocamento de seu \u00abencapsulamento\u00bb dentro da sua rela\u00e7\u00e3o com os objetos e as pessoas, fora do press\u00e1gio de um destino funesto, mas, mais ainda, de certa abertura ao mundo dentro das possibilidades que encontre em seu funcionamento singular.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Paula Pimenta<br \/>\nRevis\u00e3o: Cristina Drummond<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J., \u00abAlocuci\u00f3n sobre las psicosis del ni\u00f1o\u00bb (1967),\u00a0<i>Otros Escritos<\/i>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2010.<br \/>\n&#8211; \u00abConferencia en Ginebra sobre el s\u00edntoma\u00bb (1975),\u00a0<i>Intervenciones y textos<\/i>\u00a02, Manantial, Buenos Aires, 1991.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E.,\u00a0<i>La batalla del autismo. De la cl\u00ednica a la pol\u00edtica<\/i>, Grama, Buenos Aires, 2013.<br \/>\n&#8211; \u00abEntrevista\u00bb en\u00a0<i>\u00bfQu\u00e9 es el autismo?<\/i>, op. cit.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Maleval, J.-C.,\u00a0<i>El autista y la voz<\/i>, Gredos, Barcelona, 2012.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J.-A., \u00abLa matrice du traitement de l&#8217;enfant au loup\u00bb (1988),\u00a0<i>La Cause freudienne<\/i>\u00a066 (2007).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Tendlarz, S. y Alvarez, P.,\u00a0<i>\u00bfQu\u00e9 es el autismo? Infancia y Psicoan\u00e1lisis<\/i>, Colecci\u00f3n Diva, Buenos Aires, 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Tendlarz, S., Larrahondo, M. y Mas M., \u00abInforme de la investigaci\u00f3n \u00abPuntuaciones sobre el tratamiento y el diagn\u00f3stico de ni\u00f1os autistas y psic\u00f3ticos en la Argentina\u00bb\u00bb, en\u00a0<i>\u00bfQu\u00e9 es el autismo?<\/i>, op. cit.<br \/>\n-Casos: Laurie e Marcia de Bruno Bettelheim, Temple Grandin por ela mesma, Robert dos Lefort, Timmy de Donald Meltzer, Ra\u00fal de Emilio Rodrigu\u00e9, Mart\u00edn de Sami Ali, David de Francis Tustin, Alex de Silvia Tendlarz, e os casos estudados na investiga\u00e7\u00e3o do Departamento de Autismo y Psicosis en la Infancia que n\u00e3o t\u00eam nome.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[194],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1192"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1193,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1192\/revisions\/1193"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}