{"id":1204,"date":"2021-08-18T23:26:47","date_gmt":"2021-08-19T02:26:47","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1204"},"modified":"2021-08-18T23:26:47","modified_gmt":"2021-08-19T02:26:47","slug":"ana-vigano-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/ana-vigano-2\/","title":{"rendered":"Ana Vigan\u00f3"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Tra\u00e7os de um percurso compartilhado<\/span><\/strong><br \/>\nTrabalho pr\u00f3prio; investiga\u00e7\u00e3o coletiva. Escrito para conversar. Conversa\u00e7\u00e3o; Precipitado assinado; conversa\u00e7\u00e3o. Dizer o mesmo e outro modo; dizer outra coisa com o mesmo. Finalmente, fazer passar algo de um esfor\u00e7o: o de dizer que aproxima a Escola com a posi\u00e7\u00e3o feminina, enquanto causa. Agrade\u00e7o a Escola por estar \u00e0 altura e aos que encarnaram, aqui e acol\u00e1 um modo de faz\u00ea-la existir, sob esta proposta in\u00e9dita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Pinceladas<\/span><\/strong><br \/>\n1.- H\u00e1 alguns meses a atriz Angelina Jolie sacudia os meios de comunica\u00e7\u00e3o ao declarar ao mundo a decis\u00e3o consumada de realizar uma dupla mastectomia preventiva ap\u00f3s detectar uma alta probabilidade de desenvolver c\u00e2ncer de mama como sua m\u00e3e e sua tia mortas.a not\u00edcia veio a p\u00fablico atrav\u00e9s de uma carta sua intitulada\u00a0<i>minha decis\u00e3o m\u00e9dica<\/i>. Jolie \u00e9 uma mulher que presume seu modo particular de agitar a opini\u00e3o p\u00fablica com os semblantes que sustentam e as decis\u00f5es que oferece aos olhos de uma audi\u00eancia \u00e1vida de consumir as varia\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de seu ser-mulher. Por isso n\u00e3o \u00e9 v\u00e3 sua interven\u00e7\u00e3o, na qual declarou:\u00a0<i>n\u00e3o sinto que tenha afetado em nada a minha feminilidade, esta decis\u00e3o. A vida tem muitos desafios; n\u00e3o devem nos assustar os que podemos assumir e controlar.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.- No filme de Eric Brocovich uma mulher que a cirurgia havia extirpado j\u00e1 seus seios e seu aparelho reprodutor &#8211; pelos efeitos de uma contamina\u00e7\u00e3o radioativa produzida com fins econ\u00f4micos e sob os ausp\u00edcios da corrup\u00e7\u00e3o &#8211; se perguntava:\u00a0<i>uma mulher sem seios e sem ov\u00e1rios continua sendo uma mulher?<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.- Recebi a N quem consulta por problemas com uma parceria constru\u00edda de modo tal que viviam nas ant\u00edpodas geogr\u00e1ficas do outro. Seu v\u00ednculo frequente era virtual e suas visitas pautadas mantiveram por quinze anos o encontro dos corpos, em certas condi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tinha filhos nem queria t\u00ea-los. Sem se propor a trabalh\u00e1-lo, N relatou as vicissitudes de uma c\u00e2ncer de mama em remiss\u00e3o, n\u00e3o obstante ao qual, foi recomendado uma dupla mastectomia preventiva e uma opera\u00e7\u00e3o posterior de \u00fatero e ov\u00e1rios para minimizar as possibilidades de recidiva. Fui se escutando em an\u00e1lise dizer \u00abir direto ao assunto\u00bb que se abriu uma dimens\u00e3o subjetiva e surgiu uma pergunta uma pergunta por seu corpo, que n\u00e3o o reconhecia feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan em O semin\u00e1rio, livro XX, atribui os caracteres secund\u00e1rios femininos da mulher \u00e0 m\u00e3e, porque \u00abnada distingue a mulher como sexuado a n\u00e3o ser justamente o sexo\u00bb[1]. O problema \u00e9 que ao homem, \u00bb enquanto provido de \u00f3rg\u00e3o ao que chamamos f\u00e1lico (&#8230;) o sexo corporal, o sexo da mulher (&#8230;) n\u00e3o lhe diz nada, a n\u00e3o ser por meio do gozo do corpo\u00bb[2]. Mas \u00e9 justamente pelo que \u00e9 pr\u00f3prio da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica em jogo, que neste meio e o gozo que ali se deduz &#8211; gozo f\u00e1lico &#8211; \u00e9 o obst\u00e1culo pelo qual o homem \u00abn\u00e3o chega (&#8230;) a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o que goza \u00e9 do gozo do \u00f3rg\u00e3o\u00bb[3]. N\u00e3o sabemos do corpo de uma mulher a n\u00e3o ser atrav\u00e9s do falo \u00e9 o que este representa, mas isto \u00e9 justamente o que ela n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o toda &#8211; f\u00e1lica &#8211; \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Controle dos corpos e horizonte D&#8217; A\/ mulher<\/span><\/strong><br \/>\nO significante da falta no Outro vale para todos os sexos, mas de maneiras diferentes. Para a mulher o S(A\/) designa o gozo feminino mais al\u00e9m do falo; para o homem, designa o gozo pulsional enquanto sexuado. N\u00e3o \u00e9 o mesmo pensar a ascens\u00e3o do objeto a ao z\u00eanite a partir destas duas perspectivas. Eric Laurent pontuou de maneira precisa com a cren\u00e7a no Pai pode mudar nossa cren\u00e7a na civiliza\u00e7\u00e3o na cren\u00e7a na A Mulher e quais seriam suas consequ\u00eancias a respeito do mandato de gozo que isso pode depreender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto que no caso singular a cren\u00e7a &#8211; crer nele\/crer nela &#8211; em uma mulher surge para um homem como uma certeza suportada na autoriza\u00e7\u00e3o do gozo que adv\u00e9m poss\u00edvel, a \u00e9poca propicia um retorno desta cren\u00e7a como universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inexist\u00eancia do Outro, modo de introduzir a exce\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para constituir o todo &#8211; tem por efeito uma generaliza\u00e7\u00e3o de certa forma do n\u00e3o todo, colocando no centro a quest\u00e3o do sem limites. Entanto que n\u00e3o h\u00e1 um que ordene, existe um, outro, outro, um enxame, um a mais \u00e9 sempre poss\u00edvel. Ent\u00e3o a \u00e9poca guarda certa afinidade com o feminino pela infinitude que sua l\u00f3gica implica. A ci\u00eancia aponta intermin\u00e1veis classifica\u00e7\u00f5es e multiplica suas interven\u00e7\u00f5es ao ritmo do mercado. A inclus\u00e3o toma a forma de uma adi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da din\u00e2mica do consumo que n\u00e3o garante a singularidade, borda mesma do indecid\u00edvel para cada um, que mais que somar, positivisa. O n\u00e3o todo responde a\u00ed com seu ordenamento horizontal e descentralizado. Mas entregue a si mesmo, o infinito da diversidade pode pecar de ser homogeneizante enquanto iguala as diferen\u00e7as, reduzindo-as em sua efic\u00e1cia: todos podem dizer o que queiram, mas a ningu\u00e9m importa o que dizem. \u00c9 que a feminiza\u00e7\u00e3o precisa que a horizontalidade ligada ao feminino preserve a no\u00e7\u00e3o de A\/ mulher no horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que encontramos em troca \u00e9 uma leitura f\u00e1lica e fetichista de A mulher, sob o predom\u00ednio de um gozo ilimitado afim ao feminino. Atr\u00e1s das bandeiras da tecnoci\u00eancia, o mercado e o direito ao gozo, o supereu feminino[4] faz sua arrogante manobra insensata de curto-circuitar o que \u2013 veremos &#8211; \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o estrutural entre o Pai e A\/mulher, rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 da ordem da cren\u00e7a universal. O curto circuito leva a uma contradi\u00e7\u00e3o nuclear: para todos o mesmo gozo sem forma e sem medida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Corpos, direitos e gozos<\/span><\/strong><br \/>\nCoy, uma menina transexual de 6 anos \u00abganhou a batalha contra a discrimina\u00e7\u00e3o\u00bb [5]nos EEUU ao ser lhe permitido legalmente usar o banheiros de meninas na escola, entendendo que seu g\u00eanero \u00e9 feminino apesar de haver nascido com o sexo masculino. \u00c9 o masculino e o feminino uma quest\u00e3o de significantes sobre portas? De que falamos quando dizemos corpo de homem, corpo de mulher?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica que Lacan despeja com suas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra rigidamente abotoado com a anatomia. Mas \u00e9 preciso recordar que sendo esta uma afirma\u00e7\u00e3o l\u00f3gica com todo seu peso, pode ser utilizada pelas atuais exig\u00eancias de discurso que promovem a autodetermina\u00e7\u00e3o dos individuos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aposta da psican\u00e1lise implica que existe um campo das rela\u00e7\u00f5es que escapa \u00e0 dimens\u00e3o da demanda, do contrato, dos direitos. O recurso ao g\u00eanero elide a dimens\u00e3o real do corpo, \u00e9 uma dissec\u00e7\u00e3o da er\u00f3tica que favorece a desexualiza\u00e7\u00e3o do discurso. N\u00e3o se trata ent\u00e3o de biologia ou fisiologia, mas sim de certa\u00a0<i>ana-tomia<\/i>, tal como Lacan a entendeu referindo \u2013se \u00e0 famosa e pol\u00eamica declara\u00e7\u00e3o de Freud &#8211; a anatomia \u00e9 o destino. O corpo na psican\u00e1lise \u00e9 um corpo\u00a0<i>ana-tomizado<\/i>, recortado pelo significante e significado pelo Outro. Separa\u00e7\u00e3o que nos exilia do Outro, mas nos converte em exilados tamb\u00e9m de nossos pr\u00f3prios corpos j\u00e1 que o gozo narcisista unificante se funda no gozo un\u00e1rio extra\u00eddo da exce\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que estando por fora dessa totalidade, tem a fun\u00e7\u00e3o de orden\u00e1-la e limit\u00e1-la, fazendo-a assim mesmo uma norma. Mas existe Outro gozo que se apresenta como aberto, n\u00e3o localiz\u00e1vel, n\u00e3o discreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a sexual implica um limite irredut\u00edvel para ambos os sexos. O falo fura, castra tanto a homens como a mulheres ainda que tal castra\u00e7\u00e3o seja subjetivada de maneiras diversas. A reparti\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres \u00e9 uma reparti\u00e7\u00e3o do gozo e est\u00e1 dada em fun\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o e o lugar concomitante outorgado ao falo, fazendo obje\u00e7\u00e3o \u00e0 pretendida autodetermina\u00e7\u00e3o liberal. \u00c9 no eixo falo-castra\u00e7\u00e3o onde se constroem os corpos e o falo tem uma fun\u00e7\u00e3o essencialmente sexualizante: todo aquele que se proponha para ser amado, desejado ou com valor er\u00f3tico \u2013 seja idealizado ou rebaixado \u2013 incluindo a dimens\u00e3o da mascarada feminina, est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o gozo chamado f\u00e1lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A isto se op\u00f5e Outro gozo, feminino, que tem valor antag\u00f4nico com os semblantes, com a cifra f\u00e1lica, com sua localiza\u00e7\u00e3o. A\/ mulher n\u00e3o existe como n\u00e3o existe a rela\u00e7\u00e3o sexual: encontramos em seu lugar desencontros, cenas e enredos. O gozo feminino sim existe e tem consequ\u00eancias para ambos os sexos, porque a subjetividade est\u00e1 tramada em uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre o masculino e o feminino: entre o Todo e o UM por um lado e o n\u00e3o-todo por outro. \u00c9 o que entendemos quando damos pleno valor \u00e0 ambiguidade da exce\u00e7\u00e3o: se do lado masculino a exce\u00e7\u00e3o funda o Todo e a regra, do lado feminino &#8211; ao n\u00e3o fazer conjunto fechado- as mulheres tornam-se excepcionais, em uma constela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o faz s\u00e9rie. Mas ainda no lado feminino a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica persiste para elas, n\u00e3o-toda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminino se assenta em um lugar \u00eaxtimo uma vez que n\u00e3o se trata de uma refer\u00eancia ao dentro-fora do dom\u00ednio do significante, conserva uma orienta\u00e7\u00e3o que permite cernir ao gozo que sendo irrepresent\u00e1vel para todos, afeta mais as mulheres o que o real de seu corpo se lhes imp\u00f5e: \u00abAo escut\u00e1-las, o corpo feminino se volta um espa\u00e7o aberto nos dois extremos, da boca \u00e0 vagina e furando em toda sua longitude. As emo\u00e7\u00f5es como os l\u00edquidos o atravessam. L\u00e1grimas, sangue, leite materno, v\u00f4mito, diarreia, l\u00edquido amni\u00f3tico, urina, esperma o infiltram, o submergem, ou simplesmente fluem, fazendo-as mulheres gozantes, habitadas, invadidas ou abertas. Sua rachadura vira chaga ou bainha, durante o tempo ef\u00eamero do prazer arrebatador ou benfeitor.\u00bb [6]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Mulheres e m\u00e3es<\/span><\/strong><br \/>\nPara Lacan a m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 dissoci\u00e1vel da mulher nem se pode reduzir a ela. A m\u00e3e tem uma rela\u00e7\u00e3o ao falo e ao objeto a \u2013 no melhor dos casos- A mulher, como temos dito, tem uma rela\u00e7\u00e3o com o falo mas tamb\u00e9m tem seu mais al\u00e9m desde o que ela pede dizer-se &#8211; mulher, onde \u00abOutro gozo a arrasta a um mundo em que seu corpo est\u00e1 imbricado ao ser, fora da identifica\u00e7\u00e3o, e donde o sentimento de existir se confunde com a intensidade de seus estados. Elas se encontram a\u00ed femininas, com um corpo composto pelos objetos mais de gozar, no sentido do \u00faltimo ensino de Lacan, que por sua vez empurram a gozar e s\u00e3o um monumento comemorativo do imposs\u00edvel.\u00bb [7]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a realiza\u00e7\u00e3o do objeto a e a articula\u00e7\u00e3o de a e de \u2013 phi que s\u00e3o os planos nos quais podem situar-se uma crian\u00e7a, n\u00e3o podemos deixar de assinalar que o corpo da m\u00e3e goza de tal crian\u00e7a que preenche de diferentes maneiras. Lacan nos recorda que a sexualidade feminina nos concerne a todos enquanto filhos de uma mulher. Mas tamb\u00e9m assinala que a crian\u00e7a d\u00e1 \u00e0 m\u00e3e \u00abcomo imediatamente acess\u00edvel, aquilo que lhe falta ao sujeito masculino: o objeto mesmo de sua exist\u00eancia, aparecendo no real\u00bb [8]. Um filho \u00e9 uma marca no corpo de uma mulher, deixa pegadas em um lapso que n\u00e3o se reduz de nenhuma maneira a um tempo qualquer de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o homem a condi\u00e7\u00e3o de acessibilidade sexual, sua orienta\u00e7\u00e3o para abordar uma mulher gra\u00e7as ao bom of\u00edcio do fantasma, \u00e9 o objeto a que nela encontra. Lacan explicita que este objeto representa uma parte perdida de seu pr\u00f3prio corpo: \u00abEles tiraram essa costela, n\u00e3o se sabe qual. Mas \u00e9 claro que o mito da costela se trata \u00e9 precisamente do objeto perdido. A mulher, para o homem, \u00e9 um objeto feito com isso\u00bb[9]. O $ \u00e9 essencialmente macho neste sentido. E tal \u00e9 sua pervers\u00e3o polimorfa mesmo que a cl\u00ednica a mostre \u2013 uma vez fixada- bastante monomorfa: o sujeito n\u00e3o aborda como tal ao outro a n\u00e3o ser a uma parte perdida de seu corpo e isto \u00e9 v\u00e1lido para homens e mulheres em posi\u00e7\u00e3o de sujeitos. Sem d\u00favidas a maternidade opera ent\u00e3o deste lugar, posto que p\u00f5e em seu m\u00e1ximo relevo que este objeto que \u00e9 a crian\u00e7a, se experimenta como una parte desprendida de seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posi\u00e7\u00e3o maternal de uma mulher que pode prescindir do fato de haver tido filhos ou n\u00e3o, afeta inexoravelmente seu corpo: \u00ab\u2026 a mulher n\u00e3o ser\u00e1 tomada sen\u00e3o\u00a0<i>quo ad matrem<\/i>. A mulher n\u00e3o entra em fun\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o sexual a n\u00e3o ser como m\u00e3e. [10]\u00bb N\u00e3o se trata s\u00f3 de que um homem possa materniz\u00e1-la em seu fantasma. Al\u00ed onde ela se at\u00e9m \u00e0 dimens\u00e3o f\u00e1lica e a sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto a, ela \u00e9 maternal. Por isso o destino freudiano \u00e9 reformulado por Lacan pois a rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico excede ao fato de ser m\u00e3e de uma crian\u00e7a, mas o estofo de sua posi\u00e7\u00e3o desejante \u00e9 maternal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A oposi\u00e7\u00e3o se coloca entre uma mulher como sujeito desejante \u2013 em sua declina\u00e7\u00e3o maternal &#8211; e A\/ mulher como Outro absoluto. Enquanto ama como m\u00e3e, n\u00e3o \u00e9 Outra. Mas a condi\u00e7\u00e3o propriamente feminina se localiza mais al\u00e9m, em uma dimens\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 fantasm\u00e1tica: n\u00e3o \u00e9 tanto a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para amar o que al\u00ed conta, sen\u00e3o serem amadas. \u00abSe a posi\u00e7\u00e3o do sexo difere frente ao objeto, \u00e9 com toda a dist\u00e2ncia que separa a forma fetichista da forma erotoman\u00edaca do amor. [11]\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">Gozo f\u00e1lico, gozo feminino<\/span><\/strong><br \/>\nOs corpos t\u00eam furos. A quest\u00e3o na subjetividade de tais corpos \u2013 a que interessa \u00e0 psican\u00e1lise \u2013 \u00e9 sim o que estes furos fazem passar est\u00e1 regulado pela l\u00f3gica da falta. Poder\u00edamos supor que corpo de mulher \u00e9 aquela na qual o duplo joga especialmente sua partida: a dimens\u00e3o f\u00e1lica \u2013 simb\u00f3lica &#8211; que se ordena em torno da transmiss\u00e3o de uma falta e a dimens\u00e3o real do furo, no qual este tenha aberto. O provam as intensidades incomensur\u00e1veis do que pode sentir-se como gozo feminino, que n\u00e3o se regula pelo insaci\u00e1vel &#8211; afim \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o- ou a extralimita\u00e7\u00e3o &#8211; que precisa de um limite, feito para transgredir-se &#8211; mas pelo sem limites. \u00c9 a cara sempre desnuda de seu corpo, como virgem da elabora\u00e7\u00e3o significante, cuja verdade de estrutura desliza no n\u00e3o tenho que me colocar. \u00c9 tamb\u00e9m a refer\u00eancia polif\u00f4nica que faz com que em certa medida nunca esteja s\u00f3 como o homem que pode aferrar-se \u00e0 solid\u00e3o do UM, porque embora esteja s\u00f3 &#8211; e possa inclusive sofrer por isso -, n\u00e3o \u00e9 uma, n\u00e3o &#8211; toda \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interven\u00e7\u00e3o de uma colega como avan\u00e7o da investiga\u00e7\u00e3o nos foi de grande utilidade na conversa\u00e7\u00e3o ao propor sua elucida\u00e7\u00e3o do gozo femenino em uma s\u00e9rie de proposi\u00e7\u00f5es negativas: n\u00e3o \u00e9 simboliz\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1lico, n\u00e3o \u00e9 isto, n\u00e3o \u00e9 aquilo\u2026 Termina com uma sutil aprecia\u00e7\u00e3o: \u00abretiremos o n\u00e3o, fica o corpo\u00bb, e uma pergunta: \u00abCorpo de um ser falante, seja de sexo corporal de homem, seja de sexo corporal de mulher, \u00e9 igual?\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ensaio como aproxima\u00e7\u00e3o que enquanto para o homem a rela\u00e7\u00e3o ao S(A\/) conduz ao assexuado do gozo, a condi\u00e7\u00e3o feminina faz valer a\u00ed o gozo suplementar. Como $ uma mulher participa tamb\u00e9m do encontro com o assexuado do gozo. Como mulher &#8211; consentindo com sua condi\u00e7\u00e3o- \u00e9 que tem a elei\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de fazer existir de maneira singular esse ser que n\u00e3o tem armadura significante, imbricando seu corpo virgem, (n\u00e3o) feito de puras hi\u00e2ncias, pass\u00edvel de receber uma marca como escritura que permita implantar a partir da\u00ed alguma superf\u00edcie. Uma mulher deve suportar ser falicizada, mas para que se realize sua posi\u00e7\u00e3o feminina faz falta que n\u00e3o se coagule nesta identifica\u00e7\u00e3o. Seu corpo-em-gozo em quanto se op\u00f5e ao gozo discreto, descont\u00ednuo torna as mulheres afins ao discurso (ou ao dizer) feminino, cujo suporte se encontra nesse gozo envolto em sua pr\u00f3pria contiguidade, enquanto seu sexo corporal n\u00e3o op\u00f5e nenhuma queda, e sim, furos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span class=\"Titulo4\">O amor, o dizer, a escritura<\/span><\/strong><br \/>\nSe o pai n\u00e3o responde na hora do chamado o enigma feminino sup\u00f5e um sil\u00eancio radical, o fazer-se falar \u00e9 um modo de fazer-se amar, forma erotoman\u00edaca do amor que Freud j\u00e1 considerava essencialmente feminina e pela qual as palavras de amor e a demanda de amor tomam protagonismo na er\u00f3tica das mulheres. Chegar a ser amada, ser algu\u00e9m que o Outro elege, implica que o homem desponha seu narcisismo e seu culto ao UM para dar lugar ao \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O feminino se dirige a um parceiro Outro cujo desejo n\u00e3o esteja limitado pelo falo. O amor que uma mulher a partir de sua feminilidade espera \u00e9 aquele que sustenha um desejo mais al\u00e9m da pris\u00e3o do gozo f\u00e1lico. Assim desperta ao desejo se um desejo com valor de ato a convoca; seu gozo se orienta pelo dizer verdadeiro, aquele que tem valor de ato. Aqui \u00e9 onde Lacan distingue o ato de amor de fazer o amor. Como Outro absoluto o feminino imp\u00f5e sua condi\u00e7\u00e3o de amor, mais al\u00e9m do prazer-disprazer: am\u00e1-la no lugar preciso onde n\u00e3o encarna o falo. Um amor assim, que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um dizer que se suporta em S(A\/): \u00abfazer o amor, como seu nome o indica, \u00e9 poesia\u00bb [12]. No ato de amor o sujeito n\u00e3o necessita sair dos limites de seu fantasma e o homem pode vincular-se com a parte falicizada da mulher. Fazer o amor, em troca, implica uma passagem pela castra\u00e7\u00e3o, por algo que diz n\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se todo corpo \u00e9 marcado pelos significantes que vem do Outro semeando acontecimentos de corpo em sua inscri\u00e7\u00e3o de gozo, o corpo feminino \u00e9 tamb\u00e9m particularmente penetr\u00e1vel pela palavra que se sustenta em um dizer. Um dizer que d\u00e1 o que n\u00e3o tem, dizer amoroso por estrutura n\u00e3o por nenhuma significa\u00e7\u00e3o amorosa, que fixa \u2013 escreve- algo desse ser curiosamente flutuante como o chama Lacan. A inscri\u00e7\u00e3o do limite ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 for\u00e7osamente ausente do gozo feminino, mas \u00e9 contingente. O que imprime um particular extravio -n\u00e3o sem ang\u00fastia- ao modo feminino de relacionar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amante castrado, o pai morto, o pesadelo ideal s\u00e3o figuras que participam de algum modo desse desejo sem regula\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, desse chamado que solicita adora\u00e7\u00e3o enquanto figuram uma presen\u00e7a Outra que concerne ao ser. Deus mesmo posto por Lacan no lugar do dizer\u2013dior- onde a verdade balbucia e um dizer se faz verdadeiro. Se trata de um dizer que n\u00e3o, um justo meio dizer e o justo n\u00e3o dito, que descompleta &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 igual que dizer que n\u00e3o- Se revela neste lugar de S(A\/) outra fun\u00e7\u00e3o do Pai j\u00e1 n\u00e3o como Nome do Pai, mas como Pai do Nome e a nomina\u00e7\u00e3o torna-se um descobrimento, uma inven\u00e7\u00e3o que se funda no acontecimento de palavra. Algo do feminino pode ser nomeado como sintoma; mas requer que seja nomeado tamb\u00e9m sintomaticamente.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>Aun<\/i>. Paid\u00f3s. Bs.As: 1998 p. 15<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ibid<\/i><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">O supereu como o que empurra a resolver o enigma da feminilidade com a vara do falo, \u00e9 uma vers\u00e3o do gozo do Outro.\u00bbOs ditos da Esfinge s\u00f3 tem poderes mortais se algu\u00e9m ignora que tem que fazer-lhes frente enquanto ser sexuado\u00bb LAURENT, E.\u00a0<i>Posiciones femeninas del ser<\/i>. Tres Haches. Bs.As: 1999 p117<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Una ni\u00f1a transexual gana batalla contra la discriminaci\u00f3n en Estados Unidos.<\/i>\u00a0La Naci\u00f3n On line, 27-06-13<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, D<i>. El a-todo femenino<\/i>. El orden simb\u00f3lico\u2026 Op cit p226<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\"><i>Ib<\/i>\u00a0p. 227<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>Dos notas sobre el ni\u00f1o<\/i>. Otros escritos. Grama. Bs.As: 2012 p.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J<i>. La angustia<\/i>. Paid\u00f3s. Bs.As: 2006 p206<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>Aun<\/i>\u00a0Op cit. p47<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<i>Ideas directivas para un congreso sobre la sexualidad femenina<\/i>. Escritos 2. Siglo XXI. Bs.As: 2008<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Aun Op cit p.88<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[202],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1204"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1204"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1205,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1204\/revisions\/1205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}