{"id":1211,"date":"2021-08-18T23:32:20","date_gmt":"2021-08-19T02:32:20","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1211"},"modified":"2021-08-18T23:32:20","modified_gmt":"2021-08-19T02:32:20","slug":"fatima-sarmento-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/fatima-sarmento-2\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima Sarmento"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p><span class=\"Titulo4\">O imagin\u00e1rio-real do corpo de mulher<\/span><br \/>Em um primeiro momento, a express\u00e3o \u00abcorpo de mulher\u00bb pode causar certo estranhamento. \u00c9 um sintagma bastante provocativo, p\u00f5e-nos a trabalho, podendo ser abordado em diversos \u00e2ngulos. Na perspectiva gramatical, a locu\u00e7\u00e3o adjetiva \u00abde mulher\u00bb especifica o substantivo corpo. N\u00e3o se trata a\u00ed de um corpo qualquer.<\/p>\n<p>Outra perspectiva \u00e9 a que abre, no imagin\u00e1rio, certa dimens\u00e3o real do corpo, da qual encontramos marcas em distintos momentos do ensino de Lacan. Quando Lacan gira sua perspectiva te\u00f3rica e cl\u00ednica, afirma que tudo come\u00e7a pelo gozo, que o significante se \u00abforclui\u00bb como ser, apenas existe como gozo. Assim, ele afirma: \u00abo que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser\u00bb (Lacan, 1971-1972\/2012, p. 131). A partir da\u00ed, sentimo-nos convocados a repensar o corpo.<\/p>\n<p>O encontro entre o significante e o corpo anat\u00f4mico produz um corpo de gozo que precisamente \u00e9 o que permanece, o que existe. Nesse acontecimento, o significante se corporiza. H\u00e1 um corpo que goza. Assim pensando, toma valor a mat\u00e9ria que o corpo anat\u00f4mico oferece ao significante, e isso nos leva a voltar \u00e0 pol\u00eamica Freud-Lacan se a anatomia \u00e9 ou n\u00e3o o destino.<\/p>\n<p>Tomaremos um caminho que diz respeito ao corpo e ao gozo, partindo de Freud (1923 \/1976, p.40) que, na terceira d\u00e9cada da sua constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, j\u00e1 dizia: \u00abO ego \u00e9, primeiro e acima de tudo, um ego corporal [&#8230;]. Deriva das sensa\u00e7\u00f5es corporais, principalmente das que se originam da superf\u00edcie do corpo.\u00bb Assim, a vida entra no campo do mental pelo polo corporal.<\/p>\n<p>Enunciando que \u00aba anatomia \u00e9 o destino\u00bb, Freud (1912\/1976) considera que, da mesma forma que nascemos entre urina e fezes, o amor conserva um car\u00e1ter animal, que faz com que no ato sexual novamente encontremos aquilo que envolveu nossa vinda ao mundo. Podemos concordar, sem d\u00favida, com essa vers\u00e3o freudiana da frase de Napole\u00e3o: \u00abA geografia \u00e9 o destino.\u00bb<\/p>\n<p>Nesse momento Freud destaca que a puls\u00e3o se decomp\u00f5e no princ\u00edpio em uma grande s\u00e9rie de componentes, ou melhor, prov\u00e9m deles. Ainda ressalta que alguns desses componentes n\u00e3o podem ser acolhidos na sua forma final, devem ser suprimidos ou destinados a receber outro uso em uma fase anterior \u2013 isso corresponde ao que Miller (2008-2009\/2011) em\u00a0<i>Sutilezas anal\u00edticas<\/i>, denomina de opera\u00e7\u00e3o de muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltemos a Freud. Ele refor\u00e7a que especialmente os elementos pulsionais escopr\u00f3filos demonstram ser incompat\u00edveis com nossa cultura est\u00e9tica, provavelmente desde que, ao adotar a marcha ereta, afastamos da terra nosso \u00f3rg\u00e3o olfat\u00f3rio; o mesmo \u00e9 v\u00e1lido para boa parte dos impulsos s\u00e1dicos que pertencem \u00e0 vida amorosa. Ele ainda enfatiza que esses processos de desenvolvimento s\u00f3 dizem respeito aos extratos superiores da complexa estrutura. Os processos fundamentais que levam \u00e0 excita\u00e7\u00e3o amorosa n\u00e3o mudam. O excrement\u00edcio forma com o sexual uma tessitura \u00edntima e insepar\u00e1vel. A posi\u00e7\u00e3o dos genitais \u2013 entre urina e fezes \u2013 segue como fator decisivo e imut\u00e1vel. Os genitais n\u00e3o acompanharam o desenvolvimento para a beleza das formas do corpo humano; conservam ainda hoje um car\u00e1ter animal como foi durante todo o tempo. Nessa dire\u00e7\u00e3o, devemos admitir que as puls\u00f5es amorosas e a cultura n\u00e3o conseguem harmonia.<\/p>\n<p>Retomemos o ponto que diz respeito ao encontro do significante com o corpo \u2013 o corpo biol\u00f3gico deve oferecer ao significante uma mat\u00e9ria de gozo diferente em cada ser. Isso quer dizer que h\u00e1 um primeiro momento, de puro gozo do corpo, quando se forja um corpo \u2013 gozo para cada um. Esse gozo concebido por Lacan como gozo feminino, em um primeiro momento, est\u00e1 posto para todo\u00a0<i>falasser<\/i>, seja mulher, seja homem.<\/p>\n<p>Trata-se de um gozo fora do \u00c9dipo e, conforme Miller (2011) parte de um acontecimento de corpo. Assim, Miller afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que entendemos quando retomamos a express\u00e3o gozo feminino, sen\u00e3o ser que seu regime \u00e9 profundamente distinto do gozo do macho? Portanto, trata-se de um binarismo: a mulher ter\u00e1 o gozo feminino e o homem ter\u00e1 o gozo masculino. [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 assim, [&#8230;] Ele entreviu, pelo vi\u00e9s do gozo feminino[&#8230;] que, at\u00e9 ent\u00e3o na psican\u00e1lise, sempre se havia pensado o regime do gozo desde o lado viril. [&#8230;] o que abre seu \u00faltimo ensino \u00e9 o gozo feminino concebido como princ\u00edpio do regime do gozo. Por isso, o define gozo comotal.(Miller, 2011, aula de 12.3. 2011).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que significa, aqui, esse gozo como tal? O gozo como tal \u00e9 o gozo concebido como subtra\u00eddo de, fora da maquinaria do \u00c9dipo, reduzido ao acontecimento de corpo e se d\u00e1 como conjunto aberto e infinito.<\/p>\n<p>O corpo de mulher implica um encadeamento pr\u00f3prio de simb\u00f3lico, real e imagin\u00e1rio, que se realiza n\u00e3o apenas como especular, mas tamb\u00e9m na sua constitui\u00e7\u00e3o substancial. Vale a pena dizer que se efetua em v\u00e1rios momentos da vida.<\/p>\n<p>O encontro do real do corpo com os significantes de al\u00edngua tomam consist\u00eancia no corpo imagin\u00e1rio. No momento do estabelecimento da linguagem e da instala\u00e7\u00e3o do campo f\u00e1lico, as coisas se complicam e \u00e9 poss\u00edvel que a mat\u00e9ria do corpo imagin\u00e1rio tome peso.<\/p>\n<p>Produz-se uma drenagem do gozo feminino ao gozo f\u00e1lico, definindo as posi\u00e7\u00f5es: homem para aquele que faz a drenagem e a mulher como aquela que faz uma drenagem bem menor por se conservar no gozo feminino, o que vai design\u00e1-la como n\u00e3o toda.<\/p>\n<p>Introduz-se assim uma quest\u00e3o: o corpo anat\u00f4mico influencia nessa drenagem do gozo feminino para o gozo f\u00e1lico? Encontramos em Lacan alguns fundamentos que se aproximam de nossa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan (1972-1973\/1985, p. 99) faz refer\u00eancia a certa dimens\u00e3o real de uma mulher, afirmando: \u00abN\u00e3o h\u00e1 mulher sen\u00e3o exclu\u00edda pela natureza das coisas que \u00e9 a natureza das palavras.\u00bb Isso quer dizer que \u00e9 exatamente pelo fato de ser n\u00e3o toda que ela est\u00e1 exclu\u00edda da natureza das coisas. H\u00e1 um gozo mais al\u00e9m do falo do qual a mulher nada sabe; apenas o experimenta no corpo. Isso o leva a comentar, no cap\u00edtulo IX desse mesmo semin\u00e1rio, \u00abque haja algo que funda o ser, certamente que \u00e9 o corpo\u00bb (Lacan, 1972-1973\/1985, p. 150). No\u00a0<i>Semin\u00e1rio RSI<\/i>, Lacan (1974-1975) indica novamente o estatuto real das mulheres enquanto seres falantes n\u00e3o sem corpo.<\/p>\n<p>Finalmente, tomemos a leitura que prop\u00f5e Miller em\u00a0<i>El partenaire-sintoma<\/i>\u00a0sobre as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o como estruturas significantes do corpo. Aqui, ele introduz o Outro como corpo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Outro n\u00e3o \u00e9 um corpo mortificado, \u00e9 um corpo vivo, ao menos em certo n\u00edvel do que podemos chamar a atividade humana [&#8230;] O Outro \u00e9 representado por um corpo, por um corpo sexuado. \u00c9 importante agregar esse car\u00e1ter, porque n\u00e3o h\u00e1 corpo humano que n\u00e3o seja sexuado. (Miller, 2008, p. 406).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por outro lado, Miller distingue a estrutura do orgasmo masculino da estrutura do orgasmo feminino em rela\u00e7\u00e3o aos lados das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, lendo sua l\u00f3gica como uma l\u00f3gica corporal na qual a fun\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do lado esquerdo \u00e9 encarnada pelo \u00f3rg\u00e3o f\u00e1lico como \u00abfora do corpo\u00bb, no homem, enquanto a inexist\u00eancia da exce\u00e7\u00e3o do lado feminino \u00e9 encarnada pelo pr\u00f3prio corpo como \u00abfora do corpo\u00bb, para a mulher.<\/p>\n<p>Assim, Miller considera:<\/p>\n<blockquote>\n<p>o mais do orgasmo masculino como emerg\u00eancia do gozo f\u00e1lico, que se distingue por seu lugar &#8216;fora do corpo&#8217;. Nesta zona do &#8216;para todo x&#8217;, represento o corpo em sua harmonia, constituindo um conjunto. Portanto, uma pequena zona delicada, por\u00e9m muito interessante, que \u00e9 suplementar e que tem um lugar \u00e0 parte na economia ps\u00edquica. (Miller, 2008, p. 412).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Abaixo, a representa\u00e7\u00e3o do orgasmo masculino:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1207\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_01.jpg\" alt=\"\" width=\"356\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_01-200x187.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_01-300x280.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_01.jpg 356w\" sizes=\"(max-width: 356px) 100vw, 356px\" \/><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao gozo feminino, ele destaca:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Do mesmo modo podemos representar do outro lado o gozo feminino pelo n\u00e3o-todo. Tamb\u00e9m devo representar a aus\u00eancia deste ponto suplementar e encontraremos, efetivamente, a estrutura diferente e bem conhecida do orgasmo feminino, com sua modalidade em fases e potencialmente, sen\u00e3o ao infinito, menos escalonado. Aqui, n\u00e3o encontramos o ponto &#8216;fora do corpo&#8217; como no homem, porque o corpo mesmo se converte em &#8216;fora do corpo&#8217;. (Miller, 2008, p. 413)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Abaixo, a representa\u00e7\u00e3o do orgasmo feminino:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1208\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_02.jpg\" alt=\"\" width=\"376\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_02-200x178.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_02-300x266.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_02.jpg 376w\" sizes=\"(max-width: 376px) 100vw, 376px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">Tecnoci\u00eancias e corpo anat\u00f4mico<\/p>\n<p>Freud (1924\/1976) apresenta uma segunda vers\u00e3o da frase \u00abA anatomia \u00e9 o destino\u00bb. A primeira, j\u00e1 referida, dizia respeito ao corpo pulsional. Dessa vez Freud vai articular esse enunciado com as consequ\u00eancias ps\u00edquicas da distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos. Ao fazer uma vincula\u00e7\u00e3o entre o falo, o \u00c9dipo e a castra\u00e7\u00e3o, d\u00e1-se conta de que fez uma an\u00e1lise mais criteriosa sobre o desenvolvimento do \u00c9dipo nos meninos e se pergunta: como se realiza o desenvolvimento correspondente nas meninas?<\/p>\n<p>Reconhece que, embora o sexo feminino desenvolva um complexo de \u00c9dipo, um superego e um per\u00edodo de lat\u00eancia, as coisas n\u00e3o se d\u00e3o da mesma maneira com os meninos. Ele considera tamb\u00e9m que a exig\u00eancia feminista de direitos iguais para os sexos n\u00e3o acrescenta muita coisa, pois a distin\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica est\u00e1 fadada a encontrar impress\u00e3o em diferen\u00e7as de desenvolvimento ps\u00edquico. Enfatiza que o clit\u00f3ris na menina inicialmente comporta-se como um p\u00eanis, mas diante de uma compara\u00e7\u00e3o com o companheiro do outro sexo, a menina sente-se inferiorizada e injusti\u00e7ada. Da\u00ed adv\u00e9m a possibilidade de consolar-se pela expectativa de que possa adquirir um ap\u00eandice t\u00e3o grande quanto o do menino, e disso resulta o complexo de masculinidade da mulher.<\/p>\n<p>Freud ainda esclarece:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma crian\u00e7a do sexo feminino, contudo, n\u00e3o entende sua falta de p\u00eanis como sendo um car\u00e1ter sexual; explica-a presumindo que, em alguma \u00e9poca anterior, possu\u00edra um \u00f3rg\u00e3o igualmente grande e depois perdera-o por castra\u00e7\u00e3o. Ela parece n\u00e3o estender essa infer\u00eancia de si pr\u00f3pria para outras mulheres adultas, e sim, inteiramente segundo as linhas da fase f\u00e1lica, encar\u00e1-las como possuindo grandes e completos \u00f3rg\u00e3os genitais- isto \u00e9, masculinos. D\u00e1-se assim, a diferen\u00e7a essencial de que a menina aceita a castra\u00e7\u00e3o como fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorr\u00eancia. (Freud, 1924\/1976, p. 223)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que a \u00e9poca atual introduz como novidade \u00e9 que as tecnoci\u00eancias conseguem modificar o corpo anat\u00f4mico por meio de uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es complexas, permitindo a alguns seres falantes (como os transexuais), pensar que a anatomia n\u00e3o seja o destino. Essa possibilidade abre tamb\u00e9m uma nova concep\u00e7\u00e3o da pessoa no sentido jur\u00eddico do termo, que envolve o corpo. As leis v\u00e3o transformando-se de tal forma que se abre um espa\u00e7o de separa\u00e7\u00e3o entre o que se constitui como identidade civil (que inclui a refer\u00eancia ao g\u00eanero) e o corpo anat\u00f4mico. Aqui se incluem n\u00e3o s\u00f3 os transexuais, como tamb\u00e9m certos travestis que mudam seu sexo civil. Acreditamos que a frase freudiana se mant\u00e9m no sentido de que, mesmo nesses casos, os sujeitos devem realizar toda uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-legais para fazer coincidir seu destino com a anatomia desejada, e n\u00e3o com a que lhes \u00e9 dada pela natureza.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o discurso da ci\u00eancia m\u00e9dica e o da psican\u00e1lise \u00e9 analisada por Calmon e Moreira (2012), que partem da interroga\u00e7\u00e3o: como no transexualismo se efetuaria a apreens\u00e3o do corpo? Tomando a quest\u00e3o do corpo de mulher no transexual masculino, esses autores mencionam, recorrendo \u00e0 literatura, o caso relatado pelo autor franc\u00eas H. Frignet (2002), que \u00e9 considerado o ato que marcou o \u00abnascimento\u00bb do transexualismo. Trata-se da interven\u00e7\u00e3o end\u00f3crino-cir\u00fargica praticada em 1952 em George Jorgensen, 28 anos de idade, ex-soldado do ex\u00e9rcito norte-americano. Essa cirurgia tornou-se um acontecimento no campo cient\u00edfico e social. Esse ato inaugural fez brotar uma desmedida demanda pelas cirurgias transgenitais.<\/p>\n<p>Lacan (1971\/2009) afirma a condi\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica dos transexuais, e isso permite pensar que a certeza que eles t\u00eam de pertencer ao sexo feminino e a necessidade imperiosa de efetuar a castra\u00e7\u00e3o relaciona-se com o empuxo \u00e0 mulher, como empuxo ao gozo feminino. Assim, a castra\u00e7\u00e3o se realiza no real do sexo pela extirpa\u00e7\u00e3o do p\u00eanis e, ao mesmo tempo, cumpre a fun\u00e7\u00e3o de supl\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais adiante, Lacan (1971-1972) enuncia que o transexual deve \u00abpagar o pre\u00e7o\u00bb por n\u00e3o fazer a separa\u00e7\u00e3o entre real e simb\u00f3lico. Nessa confus\u00e3o de tomar um pelo outro \u00e9 que ele tenta extrair o significante, eliminando o real, extirpando o \u00f3rg\u00e3o. Lacan atenta que \u00e9 como significante que ele n\u00e3o o quer mais, e n\u00e3o como \u00f3rg\u00e3o. A loucura do transexual \u00e9 querer livrar-se desse erro \u2013 ele n\u00e3o v\u00ea que o significante \u00e9 o gozo e o falo \u00e9 apenas significado. Ele padece do erro de querer for\u00e7ar pela cirurgia o discurso sexual.<\/p>\n<p>A demanda do transexual de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica \u00e9 um pedido de que o discurso da ci\u00eancia lhe d\u00ea um corpo de mulher. Millot (1984, p. 37) demonstra isso conforme representado na figura abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1209\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_03.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_03-200x139.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_03-300x208.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_03-400x278.jpg 400w, https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2021\/08\/Fatima-Sarmento_03.jpg 550w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/p>\n<div class=\"Parrafo\">\n<p>O fracasso da expectativa provocada pela demanda de fazer A Mulher toda, e n\u00e3o apenas uma neovagina, evidencia que esse corpo da anatomia homem n\u00e3o obt\u00e9m \u00eaxito na tentativa de alcan\u00e7ar o gozo feminino.<\/p>\n<p>O sintoma transexual teria, conforme Millot, uma fun\u00e7\u00e3o estrutural an\u00e1loga \u00e0 que Lacan atribui \u00e0 escritura para Joyce. Isso permite compreender por meio de que suplemento se evita a psicose. Geller (2011) considera que os sujeitos psic\u00f3ticos, que n\u00e3o constroem um del\u00edrio de transforma\u00e7\u00e3o de mulher como Schereber, n\u00e3o conseguem uma inven\u00e7\u00e3o para interpretar o gozo do \u00f3rg\u00e3o, p\u00eanis, tentando suprimi-lo mediante a cirurgia.<\/p>\n<p>Em outra dire\u00e7\u00e3o, cuja transforma\u00e7\u00e3o em corpo de mulher n\u00e3o aconteceu em fun\u00e7\u00e3o de uma demanda transexual, o caso Bruce (Colapinto, 2001) marca o af\u00e3 da ci\u00eancia diante do imperioso desejo de determinar a condi\u00e7\u00e3o sexual humana. Bruce nasceu como um garoto. Uma cirurgia para circuncis\u00e3o deixou uma s\u00e9ria les\u00e3o no seu p\u00eanis. Seus pais, tendo tomado conhecimento dos estudos do psic\u00f3logo John Money, sobre o g\u00eanero, decidiram procur\u00e1-lo e este os aconselhou a submeter o garoto a uma cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, que transformaria o p\u00eanis lesionado em uma vagina, e a crian\u00e7a deveria ser educada como uma menina.<\/p>\n<p>Nessa experi\u00eancia, notamos que a \u00eanfase no determinismo sexual est\u00e1 posta na cultura e na evid\u00eancia de que o garoto \u00e9 tomado na posi\u00e7\u00e3o de um objeto de pr\u00e1ticas cient\u00edficas. Foi exatamente o impedimento da emerg\u00eancia desse lugar de desejante que ocasionou o desastre da experi\u00eancia, pois Bruce recusa o papel do g\u00eanero feminino que lhe fora dado pelo Outro da ci\u00eancia e tamb\u00e9m se distancia da respectiva escolha de objeto sexual que lhe fora imposta pela cultura.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a n\u00e3o se sentia como uma menina, o que era manifestado em atos de rasgar vestidos e recusar-se a brincar com bonecas. Aos 14 anos, seus pais decidiram contar a verdade ao garoto. Essa decis\u00e3o levou Bruce a mover uma busca para resgatar seu lugar de homem, submetendo-se a uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es no corpo, al\u00e9m de retificar seu nome civil. Entretanto, essa tentativa de resgatar o \u00f3rg\u00e3o anat\u00f4mico n\u00e3o foi t\u00e3o bem-sucedida conforme o relato do caso evidencia. David, como passou a se chamar por escolha pr\u00f3pria, chegou a casar-se com uma mulher; mas esta, ap\u00f3s quatorze anos de conviv\u00eancia, cansada do \u00abcar\u00e1ter melanc\u00f3lico\u00bb do marido, prop\u00f4s a separa\u00e7\u00e3o. Poucos dias depois, David matou-se com um tiro.<\/p>\n<p>Diante da resposta caprichosa da ci\u00eancia em construir um corpo de mulher, perguntamos: a ci\u00eancia estaria operando no sujeito a servi\u00e7o do del\u00edrio? Ansermet (2011) considera que a ci\u00eancia, ao tentar operar sobre o real pelo simb\u00f3lico, permite intervir de maneira in\u00e9dita na realidade, que pode se encontrar revirada: com as biotecnologias contempor\u00e2neas, pode-se ir at\u00e9 o ponto de fazer a realidade delirar. Ou, pelo menos, tudo se passa como se houvesse os meios de fazer a fantasia penetrar na realidade.<\/p>\n<p>Assim, para esse autor, pode-se hoje, intervir nas refer\u00eancias simb\u00f3licas at\u00e9 desarranj\u00e1-las. As diferen\u00e7as do sexo, por exemplo, podem ser perturbadas atrav\u00e9s do oferecimento da possibilidade de procria\u00e7\u00e3o e de gesta\u00e7\u00e3o em um transexual mulher que se torna homem. Se for efetivamente poss\u00edvel modelar assim a realidade, a fantasia avan\u00e7a sobre a realidade, penetra em toda parte, at\u00e9 adentrar, conforme Miller (2000), o real. Se o gozo, como diz Ansermet, \u00e9 o resto, \u00e9 o produto da opera\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, pode da\u00ed advir um apelo \u00e0 psican\u00e1lise. Trata-se de estar pronto para acolher, para receber a mis\u00e9ria do gozo produzido pelos efeitos da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o a que chegamos \u00e9 que as pr\u00e1ticas tecnol\u00f3gicas de mudan\u00e7a de sexo, ao fazer a realidade delirar, revelam a falha estrutural do Simb\u00f3lico para tratar todo o Real, permitindo a produ\u00e7\u00e3o de alucina\u00e7\u00f5es cada vez mais aberrantes, que tem como consequ\u00eancia a conforma\u00e7\u00e3o do corpo ao ideal Imagin\u00e1rio. Acompanhando essa l\u00f3gica, Miller (2010) prop\u00f5e a reflex\u00e3o sobre a ideia de que o homem deseja tornar-se um produto de s\u00edntese; se assim for, \u00abamanh\u00e3 a engenharia biol\u00f3gica, o g\u00eanio gen\u00e9tico, far\u00e1 desse sonho, realidade e pesadelo\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<ul>\n<li>Ansermet, F. Ci\u00eancia. In:\u00a0<i>Scilicet<\/i>. A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte, MG: EBP\/Scriptum, 2011.<\/li>\n<li>Colapinto, J.\u00a0<i>Sexo trocado<\/i>. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.<\/li>\n<li>Calmon, A. S. C.; Moreira J\u00fanior, W. C. A ci\u00eancia a servi\u00e7o do del\u00edrio. In: Santos, T. C.; Santiago, J.; Martello, A. (Org.).\u00a0<i>De que real se trata na cl\u00ednica psicanal\u00edtica?<\/i>\u00a0Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2012.<\/li>\n<li>Freud, S.\u00a0<i>A dissolu\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo<\/i>. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 215-224. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v. 19) (Texto originalmente publicado em 1924).<br \/>______.\u00a0<i>O ego e o id<\/i>. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 32-41. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud , v. 19). (Texto originalmente publicado em 1923).<br \/><i>______. Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor.\u00a0<\/i>Rio de Janeiro: Imago, 1976 p.163-173 (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v. 11) (Texto originalmente publicado em 1912).<\/li>\n<li>Frignet, P.\u00a0<i>O transexualismo<\/i>. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2002.<\/li>\n<li>Geller, S. Transexualismo. In:\u00a0<i>Scilicet<\/i>: A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte, MG: EBP\/Scriptum, 2011.<\/li>\n<li>Lacan, J.\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 18<\/i>: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante (1971). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2009.<br \/>______.\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 19<\/i>: &#8230;ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2012.<br \/>______.\u00a0<i>O semin\u00e1rio, livro 20<\/i>: mais, ainda (1972-1973). Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.<br \/>______.\u00a0<i>Semin\u00e1rio RSI\u00a0<\/i>(1974-1975). Aula de 11 mar. 1975. In\u00e9dito.<\/li>\n<li>Miller, J.-A.\u00a0<i>El banquete de los analistas<\/i>\u00a01990. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2000.<br \/>______.\u00a0<i>Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>. Aula 5 de 12 mar. 2011.<br \/>______. Muta\u00e7\u00f5es de gozo. Aula de 11 mar. 2009. In: ______.\u00a0<i>Sutilezas anal\u00edticas\u00a0<\/i>2008-2009. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011. cap. 11.<br \/>______.\u00a0<i>El partenaire-sintoma<\/i>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008.<br \/>______. Seu olho \u00e9 capturado enquanto sua cabe\u00e7a \u00e9 posta para dormir. Trad. M. C. Maia.\u00a0<i>Le Point<\/i>, n. 1.953, 25 fev. 2010. Entrevista.<\/li>\n<li>Millot, C.\u00a0<i>Exsexo<\/i>: ensayo sobre el transexualismo. Buenos Aires: Cat\u00e1logos SRL, 1984.<\/li>\n<\/ul>\n<p><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li>Trabalho coletivo, elaborado por Analicea Calmon, Bernardino Horne, Celia Salles, F\u00e1tima Sarmento (relatora), Graciela Bessa, Lucy de Castro, Maria Josefina Fuentes, Nieves Soria DaFunchio.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[202],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1211"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1211"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1211\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1212,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1211\/revisions\/1212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}