{"id":1215,"date":"2021-08-18T23:33:24","date_gmt":"2021-08-19T02:33:24","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1215"},"modified":"2021-08-18T23:33:24","modified_gmt":"2021-08-19T02:33:24","slug":"fernando-vitale-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/fernando-vitale-2\/","title":{"rendered":"Fernando Vitale"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Integrantes:<\/b>\u00a0Eduardo Benito, Graciela Chester, Viviana Fruchtnicht, Cecilia Gasbarro, Jose Lachevsky, Esteban Klainer, Jose Luis Tu\u00f1on e Fernando Vitale.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, tentarei comentar como temos nos situado a respeito da proposta de pesquisa da qual fomos convidados a participar, \u00abCorpo de mulher\u00bb, em refer\u00eancia ao tema geral que nos re\u00fane hoje neste VI ENAPOL: \u00abFalar com o corpo. A crise das normas e a agita\u00e7\u00e3o do real\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideramos que o que se trata de investigar sob este t\u00edtulo, pode encontrar sua perspectiva mais fecunda na medida em que consigamos enquadr\u00e1-lo na orienta\u00e7\u00e3o na qual Miller convocou ao trabalho \u00e0 comunidade anal\u00edtica da qual fazemos parte, tanto no nosso \u00faltimo congresso da AMP, realizado aqui em Buenos Aires, \u00abA ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI. N\u00e3o \u00e9 mais o que era. Consequ\u00eancias para a cura\u00bb, como no pr\u00f3ximo, que ter\u00e1 lugar em Paris, \u00abUm real para o s\u00e9culo XXI\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como colocado explicitamente por Miller no texto de apresenta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo congresso, do que se trata \u00e9 nada mais, nada menos que \u00abdeixar para tr\u00e1s o s\u00e9culo XX, deix\u00e1-lo atr\u00e1s para renovar a nossa pr\u00e1tica no mundo.\u00bb1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa, por acaso, apenas uma formula\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica? Acreditamos que n\u00e3o, em absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensamos que sob o enunciado \u00abFalar com o corpo\u00bb, o de que se trata \u00e9 da possibilidade de conversar entre todos com o intuito de poder explorar a possibilidade de abrir uma nova perspectiva no campo da psican\u00e1lise, seguindo para isso as coordenadas que Lacan nos deixou em seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa tarefa come\u00e7ou, ent\u00e3o, por trabalhar em conjunto, e muito detidamente as refer\u00eancias que Eric Laurent colocou no texto onde apresenta as linhas principais do que se trata colocar hoje em debate: \u00abFalar com o pr\u00f3prio corpo. Falar com o pr\u00f3prio sintoma\u00bb. Diz Laurent, \u00abO que se colocar\u00e1 para n\u00f3s como quest\u00e3o \u00e9 como \u00abfalam os corpos\u00bb para al\u00e9m do sintoma hist\u00e9rico que sup\u00f5e no horizonte o amor ao pai.\u00bb2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como prop\u00f4s Eric Laurent no ano passado, no col\u00f3quio sobre Sutilezas anal\u00edticas, como n\u00e3o somos fil\u00f3sofos, em psican\u00e1lise somente podemos tentar captar a quest\u00e3o em jogo quando conseguimos dar alguma transcri\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da mesma. Acreditamos que se n\u00e3o for assim, corremos o risco de ficar presos em um labirinto, que vai nos deixar extraviados entre a pura perplexidade e a repeti\u00e7\u00e3o vazia, impedindo-nos deste modo de alcan\u00e7ar algum recurso que nos permita avan\u00e7ar frente aos impasses, reais e crescentes, a que nossa pr\u00e1tica nos confronta cotidianamente. A via que elegemos foi, por isso, a discuss\u00e3o de casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse Miller, si se trata de repensar nossa pr\u00e1tica \u00e9 porque esta se desenvolve, e continuar\u00e1 se desenvolvendo cada vez mais com maior nitidez, sob coordenadas in\u00e9ditas. Essas coordenadas n\u00e3o s\u00e3o outras sen\u00e3o as da realidade efetiva onde essa pr\u00e1tica tem lugar, por efeito da reestrutura\u00e7\u00e3o, que a uma velocidade vertiginosa, imprimem nela as transforma\u00e7\u00f5es que se derivam das incid\u00eancias do discurso da ci\u00eancia e do discurso capitalista. Tais discursos v\u00eam escavando os fundamentos nos quais, durante mil\u00eanios, tem se desenvolvido o que Miller chama a estrutura tradicional da experi\u00eancia humana. Do que se trata ent\u00e3o, para n\u00f3s, \u00e9 de finalmente assumir que a Ordem Simb\u00f3lica cuja pedra angular tem sido o Nome-do-Pai, n\u00e3o \u00e9 mais o que era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ocorre \u00e9 que foi sob o postulado de que o simb\u00f3lico \u00e9 uma ordem, como Lacan cimentou a revolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica y transferencial que produziu na psican\u00e1lise, e mediante o qual renovou a no\u00e7\u00e3o de inconsciente que devemos a Freud. Foi comentando este ponto que Miller j\u00e1 colocava h\u00e1 alguns anos, que \u00abat\u00e9 agora e talvez por demasiado tempo\u00bb temos pensado que esse postulado era um dos componentes indispens\u00e1veis do que dava fundamento \u00e0 nossa pr\u00e1tica. 3 Acreditamos que a import\u00e2ncia do debate reside exatamente nisso, e \u00e9 por isso que se tratava, e se seguir\u00e1 tratando, de extrair suas consequ\u00eancias sobre a id\u00e9ia que fazemos da cura anal\u00edtica mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, como dissemos antes, sob o enunciado \u00abfalar com o corpo\u00bb se trata de explorar a possibilidade de abrir uma nova perspectiva no campo da psican\u00e1lise, \u00e9 justamente enquanto poderia converter-se na via que nos permitiria deslocar, dessa refer\u00eancia inicial, os fundamentos da nossa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos que ainda n\u00e3o temos podido avaliar em sua real envergadura a magnitude do que isso significa. N\u00e3o podemos esquecer que a no\u00e7\u00e3o de que os sintomas t\u00eam um sentido e que, por isso, s\u00e3o decifr\u00e1veis, deriva da\u00ed. N\u00e3o h\u00e1 sentido sen\u00e3o em referencia a uma ordem desde a qual resulte leg\u00edvel, e sem supor um sentido ao gozo n\u00e3o se entende como o retorno do recalcado possa ser interpret\u00e1vel. Dizia Miller: \u00abcapta-se assim o que \u00e9 uma psican\u00e1lise que se orienta pelo conflito, pois, o sintoma \u00e9 referido a um conflito simb\u00f3lico que se estende at\u00e9 os limites da civiliza\u00e7\u00e3o. A condi\u00e7\u00e3o do conflito \u00e9 sempre a referencia \u00e0 Ordem Simb\u00f3lica na qualidade de medida das discord\u00e2ncias.\u00bb4 Acaso acreditamos que j\u00e1 conseguimos nos desprender dessa perspectiva cada vez que situamos algo a t\u00edtulo de sintoma? Acreditamos que n\u00e3o, e que apesar da mudan\u00e7a da nossa terminologia, ela segue se infiltrando sub-repticiamente em cada uma das nossas conversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com v\u00e1rios colegas que participam nesta investiga\u00e7\u00e3o, temos trabalhado essa dificuldade h\u00e1 muitos anos. No curso que J.C. Indart ministra na EOL praticamos a discuss\u00e3o de casos com a denomina\u00e7\u00e3o de\u00a0<b>Cl\u00ednica do discurso universit\u00e1rio<\/b>. Com esse t\u00edtulo tratava-se de ponderar os alcances e os efeitos que, na cl\u00ednica que recebemos dia a dia, pod\u00edamos extrair da substitui\u00e7\u00e3o do regime paterno pelo discurso universit\u00e1rio, prognosticado por Lacan, como a nova forma que ia tomar o discurso do mestre atual. Por essa via, o que se tentava pensar era o fato de que est\u00e1vamos constatando, cada vez mais nitidamente, que o estatuto dos novos sintomas e as novas identifica\u00e7\u00f5es com os quais os pacientes muitas vezes chegam hoje \u00e0 consulta, j\u00e1 n\u00e3o resultam leg\u00edveis a partir de sua refer\u00eancia ao ordenamento ed\u00edpico tradicional e, por isso, colocam seriamente em quest\u00e3o o saber acumulado que, tanto a cl\u00ednica das neuroses como a das psicoses podiam nos oferecer como orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos, por exemplo, a vinheta a seguir com a finalidade de dar um suporte cl\u00ednico ao que estamos colocando:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R vai consultar-se aos 17 anos de idade a partir de um chamado da sua irm\u00e3, num s\u00e1bado \u00e0 noite, que diz que R tinha tomado comprimidos, tinha se cortado e queria se internar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chega \u00e0 entrevista com a m\u00e3e e a irm\u00e3. Come\u00e7a dizendo que passa o tempo todo fazendo regime sem \u00eaxito, n\u00e3o aguenta isso, n\u00e3o pode pensar em outra coisa. Sua organiza\u00e7\u00e3o, sua ordem, sua motiva\u00e7\u00e3o e o sentido de sua vida lhes s\u00e3o dados pelas dietas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento da consulta, encontrava-se numa encruzilhada angustiante, pois a festa de formatura seria celebrada em breve e ela n\u00e3o queria ir. Resultava insuport\u00e1vel porque implicava comparar-se a 50 mulheres que s\u00f3 falavam de seus vestidos, e desfilar. Ela n\u00e3o tinha alcan\u00e7ado o seu objetivo e sentia-se culpada por isso. Isso se estende a todas as atividades que realiza. Quando n\u00e3o alcan\u00e7a esses objetivos, quer abandonar tudo: escola, ingl\u00eas, dan\u00e7a, que deste modo se transformam em exig\u00eancias absolutamente inalcan\u00e7\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vemos ali, essas n\u00e3o s\u00e3o identifica\u00e7\u00f5es que possamos ler sob as coordenadas ed\u00edpicas tradicionales em que nos formamos; antes podemos ler ali um exemplo claro do que Eric Laurent chamou a tirania infernal da press\u00e3o identificat\u00f3ria atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pens\u00e1vamos que muitas quest\u00f5es poderiam se ordenar melhor, lidas a partir dessa refer\u00eancia. Podemos dizer hoje que isso estava em estreita articula\u00e7\u00e3o com o subt\u00edtulo do nosso encontro: \u00abA crise das normas e a agita\u00e7\u00e3o do real.\u00bb Constatamos dia a dia, sobretudo nas pacientes mais jovens, que os corpos femininos se apresentam para n\u00f3s cada vez com mais clareza sob o estatuto de puras unidades de valor no mercado, e submetidos \u00e0 ordem de ferro da gest\u00e3o burocr\u00e1tica, produtora de normas enlouquecidas e imposs\u00edveis de cumprir. Acreditamos que detectar essa mudan\u00e7a de discurso \u00e9 fundamental na orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Isto desembocou num ciclo de noites que realizamos na Escola em 2008, sobre psicose ordin\u00e1ria, do qual se fez uma publica\u00e7\u00e3o. 5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 2010, demos continuidade \u00e0 nossa indaga\u00e7\u00e3o realizando outro ciclo de noites na nossa Escola, cujo t\u00edtulo foi: \u00abSintoma e frustra\u00e7\u00e3o: casos de mulheres\u00bb, onde discutimos com o m\u00e1ximo detalhe poss\u00edvel, v\u00e1rios casos que recebemos em consulta. Apresentei um resumo muito compacto do que conseguimos nas Jornadas sobre \u00abO amor e os tempos do gozo\u00bb que intitulei \u00abO gozo e os tempos da frustra\u00e7\u00e3o,\u00bb6 do qual citarei alguns fragmentos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que nos orientou foi a seguinte: \u00abO que est\u00e1 acontecendo no estado atual do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, para que como uma praga nos chegue \u00e0 consulta cada vez com mais frequ\u00eancia, demandas provenientes de mulheres que sofrem daquilo que, para a tranquilidade de consci\u00eancia do mestre contempor\u00e2neo, foi classificado com o nome de transtornos da alimenta\u00e7\u00e3o? \u00ab<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 que primeiro escutamos da boca destas mulheres?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que em determinadas conjunturas dram\u00e1ticas se produziram nelas certos acontecimentos de corpo, que em suas combina\u00e7\u00f5es mais variadas apresentam, todavia, algo em comum. Eles nos mostram um enigm\u00e1tico funcionamento do gozo pulsional que n\u00e3o deixa de nos interrogar. O que chega a ponto de conduzi-las a estados verdadeiramente incapacitantes \u00e9 algo a que, ao mesmo tempo, n\u00e3o podem deixar de recorrer enquanto solu\u00e7\u00e3o cifrada e repetida diante de situa\u00e7\u00f5es de extrema ang\u00fastia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A que impasse da sexua\u00e7\u00e3o podemos atribuir esse novo destino da puls\u00e3o, que p\u00f5e em quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 tudo aquilo que acredit\u00e1vamos saber da cl\u00ednica das neuroses, mas tamb\u00e9m da cl\u00ednica das psicoses?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A respeito disso, encontramos uma refer\u00eancia de J.A.Miller na apresenta\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 4 de Jacques Lacan.7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste semin\u00e1rio, Lacan situa como uma das poss\u00edveis vicissitudes da satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, a de ficar confinada a se converter em uma tentativa limite de compensar e tentar aplacar o que pode ter de insuport\u00e1vel a decep\u00e7\u00e3o experimentada no que denomina o jogo simb\u00f3lico dos signos do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel encontrar ali um instrumento de leitura para nos orientar em nossa cl\u00ednica atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como somente o exame de nossas rotinas pode nos permitir uma aproxima\u00e7\u00e3o ao que escapa, nos dedicamos a examinar em detalhe o lugar que a no\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o de amor tomava na indaga\u00e7\u00e3o que Lacan faz ali, do \u00c9dipo feminino. Sabemos que as refer\u00eancias que podemos extrair disto est\u00e3o enquadradas \u00e0 margem num momento em que \u00e9 claro que as indaga\u00e7\u00f5es de Lacan, em seu retorno ao que de mais seguro Freud havia deixado a esse respeito, o conduziam a fazer derivar a emerg\u00eancia mesma dos sintomas de uma falha na passagem pela estrutura\u00e7\u00e3o ed\u00edpica. Nada mais revelador a esse respeito que a an\u00e1lise do pequeno Hans. \u00c9 por isso que Lacan falava de uma dial\u00e9tica da frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos, entretanto, que s\u00e3o outras as perspectivas que podem se abrir a n\u00f3s se os situamos como\u00a0<b>sintomas da frustra\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0enquanto tal. Sabemos que, isso que Freud localizava como uma particular sensibilidade feminina \u00e0 decep\u00e7\u00e3o amorosa, foi reformulado por Lacan como inerente \u00e0s caracter\u00edsticas pr\u00f3prias de um modo de gozo que n\u00e3o pode sen\u00e3o passar por alguma forma poss\u00edvel do amor no la\u00e7o com o parceiro. Desde este \u00e2ngulo, e seguindo Eric Laurent, poder\u00edamos considerar que o que estas mulheres falam com seus corpos, sob a forma desta nova epidemia contempor\u00e2nea constitui, como tal, a nomea\u00e7\u00e3o de um sintoma que nos obriga a n\u00e3o esquecer o particular da posi\u00e7\u00e3o feminina como irredut\u00edvel \u00e0 tirania identificat\u00f3ria que as burocracias que administram nosso mundo veiculam ferozmente.8<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra das quest\u00f5es que recortamos foi o estatuto problem\u00e1tico do que chamamos a identifica\u00e7\u00e3o ao falo na cl\u00ednica feminina atual; isto \u00e9, aquilo que aprendemos como o que o porto seguro da entrada da menina no \u00c9dipo lhe permitia, pela intermedia\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o ao pai, subjetivar. O que muitas mulheres falam com seus corpos e com seus sintomas, \u00e9 que isso que chamamos o manejo da mascarada enquanto v\u00e9u da falta que p\u00f5e em marcha os jogos er\u00f3ticos em rela\u00e7\u00e3o ao parceiro, fica subsumido, em muitos casos, a uma submiss\u00e3o infernal \u00e0 tirania de rotinas e puras instru\u00e7\u00f5es de saber, desarticuladas da identifica\u00e7\u00e3o ao falo propriamente dita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a este ponto, foi interessante nos determos em algo que Lacan estabelece no \u00faltimo cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio 18.9 \u00c9 ali que considera obter a articula\u00e7\u00e3o que lhe permite esclarecer o que faz com que o falo e o Nome do Pai se apresentem como indistingu\u00edveis, em nossas argumenta\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-cl\u00ednicas. Dita articula\u00e7\u00e3o, nos diz, obteve deixando-se guiar pela cl\u00ednica da histeria. Sem a hist\u00e9rica, nunca teria podido deparar-se com a escritura do que denominar\u00e1 gozo f\u00e1lico como fun\u00e7\u00e3o, e diz que Freud nos conduz ali desde seus primeiros \u00abEstudos sobre a histeria\u00bb. Vai dizer, ent\u00e3o, que o gozo f\u00e1lico \u00e9 aquilo que a linguagem denota sem que nunca nada responda por isso. Desse gozo opaco n\u00e3o sair\u00e1 nunca nenhuma palavra, e foi por isso que, no in\u00edcio, a histeria o tinha conduzido at\u00e9 a met\u00e1fora paterna e seu enodamento \u00e0 lei; quer dizer, ao chamado para que algo responda no lugar disso que, em si, nunca vai dizer absolutamente nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso nos permite distinguir o que chamamos as identifica\u00e7\u00f5es ao falo \u2013 aquelas que, pela media\u00e7\u00e3o de seu amor ao pai, uma mulher pode enodar-se como respostas a isso que nunca lhe dir\u00e1 nada \u2013 das que s\u00e3o as vicissitudes da confronta\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica com o gozo f\u00e1lico como tal, e os acontecimentos de corpo que resultam disso. Podemos afirmar, ent\u00e3o, que o que hoje vemos mais claramente, \u00e9 a coloca\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto dessa confronta\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica e as novas inven\u00e7\u00f5es que cada corpo de mulher vai encontrando frente a isso, mais al\u00e9m do tradicional ordenamento ed\u00edpico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloc\u00e1vamos antes que sob o t\u00edtulo: \u00abFalar com o corpo\u00bb, trata-se \u00e9 de explorar a possibilidade de abrir uma nova perspectiva no campo da psican\u00e1lise, seguindo as coordenadas que J. Lacan nos deixou em seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse Eric Laurent, \u00e9 a \u00e9poca em que Lacan se prop\u00f5e a introduzir algo que v\u00e1 mais al\u00e9m do inconsciente freudiano, e nisso, a reformula\u00e7\u00e3o que coloca sobre a histeria \u00e9 crucial. A seu entender, Lacan vai realizar uma s\u00e9rie de releituras dos \u00abEstudos sobre a histeria\u00bb, momento fundante da psican\u00e1lise tal como o conhecemos at\u00e9 hoje, por\u00e9m ao avesso. Esta s\u00e9rie transcorre entre o cap\u00edtulo 7 do Semin\u00e1rio 23, onde Lacan comenta o Retrato de Dora, de Helene Cixous, e a confer\u00eancia de Bruxelas intitulada \u00abConsidera\u00e7\u00f5es sobre a histeria\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que de essencial podemos extrair do coment\u00e1rio que Lacan faz do Retrato de Dora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan diz que ali encontra algo completamente surpreendente e, ao mesmo tempo, instrutivo para os analistas. 10 Lacan v\u00ea na obra de Cixous algu\u00e9m que apresenta a Dora de Freud, t\u00e3o conhecida de todos n\u00f3s e afetada pelos mesmos sintomas que encontramos t\u00e3o finamente descritos no hist\u00f3rico freudiano, por\u00e9m sob um estatuto completamente diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que reside, pois, tal diferen\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que a histeria, tal como Freud nos deu a conhecer, inaugurando assim a coloca\u00e7\u00e3o em marcha da pr\u00e1tica anal\u00edtica como tal, sempre a percebemos, diz Lacan, como intrinsecamente incompleta. Diz que se isso j\u00e1 vinha de antes, desde Freud, para n\u00f3s a histeria \u00e9 sempre dois: a hist\u00e9rica mais seu interpretante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto significa que nunca temos pensado o sintoma hist\u00e9rico s\u00f3, como tal, mas sempre em sua articula\u00e7\u00e3o com o int\u00e9rprete, ao qual, por seu interm\u00e9dio, chama para que o complete, em sua fun\u00e7\u00e3o de responder por ele, com os saberes e os sentidos que puderam decifr\u00e1-lo. Esse int\u00e9rprete n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o nome do pai da hist\u00e9rica, segundo Lacan. Al\u00e9m do mais, fomos formados na ideia de supor que a fun\u00e7\u00e3o mesma do sintoma \u00e9 a de articular esse chamado e, por isso, a de ser em si mesmo suporte da fun\u00e7\u00e3o do nome do pai. Isso que, para Lacan, a hist\u00e9rica ditou a Freud, e que at\u00e9 hoje tem sustentado os fundamentos de nossa pr\u00e1tica, \u00e9 o que, para Eric Laurent, em nossa \u00e9poca dever\u00edamos nos animar a colocar em quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, eis o que assombra e instrui Lacan, \u00e9 que a Dora de Cixous nos apresenta um estatuto do sintoma hist\u00e9rico sem seu parceiro, em disjun\u00e7\u00e3o completa do interpretante e do aparato de sentido com o qual sempre o temos visto aparelhado. Para Lacan, ent\u00e3o, Cixous nos apresenta o sintoma hist\u00e9rico, por\u00e9m reduzido ao que ele chama seu &#8216;estado material&#8217;,\u00a0<b>o sintoma hist\u00e9rico sem o nome-do-pai.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 o que, em nosso entender, Lacan coloca em sua confer\u00eancia de Bruxelas: \u00abem uma esp\u00e9cie que tem palavras \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, existe a maior rela\u00e7\u00e3o entre o uso das palavras e a sexualidade que reina na esp\u00e9cie. A sexualidade est\u00e1 inteiramente capturada nessas palavras\u2026 das quais n\u00e3o compreendemos nada\u2026.Tudo isso \u00e9 a histeria mesma\u00bb.11<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar com o corpo \u00e9, ent\u00e3o, voltar ao acontecimento fundante, mas para retom\u00e1-lo de outra perspectiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que n\u00e3o considerar que existem hoje novas \u00abbocas de ouro\u00bb, que falam e falam sem saber o que dizem, \u00e0 espera de uma reinven\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do analista, uma posi\u00e7\u00e3o que fosse realmente, tamb\u00e9m, sem o Nome-do-Pai?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguimos nesta quest\u00e3o, e neste segundo quadrimestre iniciamos uma serie de noites na EOL para discutir casos nesta perspectiva.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Referencias bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A., \u00abLo real en el siglo XXI\u00bb, en Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis, A\u00f1o VIII, N\u00famero 13, Grama ediciones, Bs. As., 2012, p\u00e1g. 87<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E., \u00abHablar con el propio s\u00edntoma, hablar con el propio cuerpo\u00bb. En\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php?file=Argumento\/Hablar-con-el-propio-sintoma_Eric-Laurent.html\">http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php?file=Argumento\/Hablar-con-el-propio-sintoma_Eric-Laurent.html<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A., El lugar y el lazo, Paid\u00f3s, Bs. As., 2013, p\u00e1g. 282<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A, op. cit., p\u00e1g 302<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Indart, J.C., Benito, E., Gasbarro, C., Vitale, F., Entre Neurosis y Psicosis: Fen\u00f3menos mixtos en la cl\u00ednica psicoanal\u00edtica actual, Grama ediciones, Bs. As., 2009<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Vitale, F., \u00abEl goce en los tiempos de la frustraci\u00f3n\u00bb, en El amor y los tiempos del goce, EOL-Grama, Bs. As., 2011, p\u00e1gs. 121-126<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J-A., \u00abIntroducci\u00f3n a la l\u00f3gica de la cura del peque\u00f1o Hans, seg\u00fan Lacan\u00bb, en L\u00f3gica de la cura, Ed. EOL, Bs. As., 1993, p\u00e1gs. 9-37<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent, E., \u00abEl sujeto de la ciencia y la distinci\u00f3n femenina, en La cl\u00ednica de lo singular frente a las epidemias de las clasificaciones, Grama ediciones, Bs. As., 2013, p\u00e1gs. 19-33<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J., El Seminario, Libro 18, De un discurso que no fuera del semblante, Paid\u00f3s, Bs. As. 2009, p\u00e1gs. 157-160<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J., El Seminario, Libro XXIII, El sinthome, Paid\u00f3s, Bs., As., 2006, p\u00e1gs. 103-104<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J., Consideraciones sobre la histeria, Universidad de Granada, 2013<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[202],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1215"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1215"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1216,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1215\/revisions\/1216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}