{"id":1223,"date":"2021-08-18T23:37:21","date_gmt":"2021-08-19T02:37:21","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1223"},"modified":"2021-08-18T23:37:21","modified_gmt":"2021-08-19T02:37:21","slug":"paula-borsoi-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/paula-borsoi-2\/","title":{"rendered":"Paula Borsoi"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Acontecimentos Escritos no Corpo<\/b>\u00a0[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O corpo<\/span><br \/>\nA pesquisa cl\u00ednica de Freud levou-o a dizer que a psican\u00e1lise n\u00e3o se interessa pela subst\u00e2ncia viva do corpo, mas sim pelas for\u00e7as que nela operam, as puls\u00f5es. Para Lacan,o<i>\u00a0\u00ab<\/i>corpo vivo\u00bb, n\u00e3o \u00e9 o corpo simbolizado nem o corpo imagem que duplica o organismo, mas o corpo afetado pelo gozo[2].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise n\u00e3o se op\u00f5e ao progresso cient\u00edfico mas verifica e muitas vezes testemunha que a ci\u00eancia oferece respostas ao mal estar contempor\u00e2neo que incide diretamente sobre a subjetividade. Na experi\u00eancia cl\u00ednica recolhe-se o efeito da ci\u00eancia sobre os corpos e temos o dever \u00e9tico de destacar o imposs\u00edvel que est\u00e1 em jogo, em tomar o corpo apenas como organismo biol\u00f3gico. Diferente do que sustenta a neuroci\u00eancia, onde as respostas para o comportamento humano podem ser encontradas no funcionamento cerebral, a psican\u00e1lise sustenta a afirma\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o pulsional do corpo. Os efeitos sintom\u00e1ticos no corpo do parasita da linguagem s\u00e3o definidos assim por Lacan: \u00abaquilo que eu chamo gozo, no sentido que o corpo se experimenta, \u00e9 sempre da ordem da tens\u00e3o, do for\u00e7amento, do gasto e at\u00e9 da proeza\u00bb[3]. H\u00e1 um corpo que fala e por isso mesmo goza por diferentes meios. Trata-se ent\u00e3o de tomar a palavra como um modo de satisfa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do corpo falante, porque o significante n\u00e3o tem s\u00f3 efeito de significa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m tem efeito de afetar um corpo, perturbar, marcar, produzindo efeitos de gozo. O corpo para a psican\u00e1lise \u00e9 o corpo como imagem e como puls\u00e3o, suporte de fixa\u00e7\u00f5es e investimentos e tamb\u00e9m um organismo atravessado pela linguagem. Aprendemos com Lacan que o que resta fora da imagem do corpo \u00e9 sua dimens\u00e3o de organismo e que o que ultrapassa a imagem que pretende unificar o corpo \u00e9 o que est\u00e1 desorganizado, desgovernado. O sujeito \u00e9 feito pelo significante e portanto de sua falta-a-ser, fazendo-o dividido entre seu ser e seu corpo, reduzindo ent\u00e3o o corpo ao estatuto do ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo, como pontua Miller[4], se forja no despeda\u00e7amento ou na fragmenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o na unifica\u00e7\u00e3o operada pelo est\u00e1dio do espelho. Ao discutir o falso dualismo entre mente e corpo, Lacan diz que \u00abo corte n\u00e3o deve ser feito entre o f\u00edsico e o ps\u00edquico mas sim entre o ps\u00edquico e o l\u00f3gico\u00bb[5]. Ele n\u00e3o toma o ps\u00edquico como o Inconsciente, mas sim a l\u00f3gica do inconsciente e seus efeitos, tanto da linguagem como da l\u00edngua. O inconsciente tem uma l\u00f3gica pr\u00f3pria e \u00e9 descrito por Lacan na assertiva \u00ab..o aparelho linguajeiro est\u00e1 como uma aranha em algum lugar do c\u00e9rebro. \u00c9 ele que tem as presas\u00bb[6].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo para a psican\u00e1lise fala \u00e0s vezes de modo silencioso, sem palavras, sendo esta uma linguagem que n\u00e3o serve \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o compartilhada. \u00c9 um corpo pulsional, habitado por um real incompreens\u00edvel. Certas manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas fazem um uso singular do corpo e produzem efeitos de gozo tal como agita\u00e7\u00e3o corporal intensa, produzida por uma ang\u00fastia deslocalizada, que pode levar o corpo a ser ferido na tentativa de dar forma, fazer um contorno. O que \u00e9 pr\u00f3prio ao corpo \u00e9 que ele goza, \u00abse goza\u00bb[7] e isso porque est\u00e1 vivo. Na psicose, quando o sujeito \u00e9 chamado a falar, aparecem sintomas de um corpo real que se manifestam sem palavras, sem sentido e esvaziados, sem que o aparato simb\u00f3lico esteja dispon\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ang\u00fastia, desde Freud, pode ser pensada como efeito de um acontecimento que perturba e deixa um tra\u00e7o duradouro e intenso que atinge o corpo deixando marcas. O corpo \u00e9 afetado por esses efeitos que n\u00e3o produzem sentido, mas indicam um real que excede. Para ler esses sintomas, a met\u00e1fora paterna e a organiza\u00e7\u00e3o f\u00e1lica n\u00e3o s\u00e3o suficientes como b\u00fassolas simb\u00f3licas que nos permitem abordar este real sem lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como fazer ter lugar o corpo falante, pulsional, quando o analista est\u00e1 entre outros discursos? Como operar uma tor\u00e7\u00e3o, evidenciando o irredut\u00edvel da singularidade, quando a ci\u00eancia retoma esse ponto irredut\u00edvel como desvio, como exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra? Esse real que falha pode ser nossa chance de apontar algo que n\u00e3o \u00e9 da ordem da conting\u00eancia, mas imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Dois objetos: medicamento \/ eletro-choque<\/span><br \/>\nCertos pacientes s\u00e3o tomados pela irrup\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, por uma opacidade do gozo no corpo, refletindo a desordem do real que se manifesta em experi\u00eancias radicais. A busca de al\u00edvio encontra em procedimentos m\u00e9dicos a\u00e7\u00f5es no corpo para tentar silenciar a puls\u00e3o. S\u00e3o esses epis\u00f3dios angustiantes, que acontecem no corpo, que d\u00e3o no\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do sujeito e do que lhe acontece. Muitas vezes o uso necess\u00e1rio de medicamentos tem efeito inverso ao esperado, ao inv\u00e9s de reduzir os sintomas eles proliferam. Quando se acrescenta um objeto a mais onde j\u00e1 est\u00e1 tudo repleto de gozo, o sujeito n\u00e3o experimenta um al\u00edvio e sim mais mal-estar. Tomamos aqui o uso de medicamentos como objetos-fora-do-corpo, que afetam o corpo e modificam o simb\u00f3lico. Esses objetos se integram ao organismo produzindo uma estranha satisfa\u00e7\u00e3o, como se o corpo pulsional pudesse ser domesticado, sossegado. Manter esse objeto vindo de fora \u00e9 manter esse dentro\/fora como condi\u00e7\u00e3o para n\u00e3o desaparecer o sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o rem\u00e9dio funciona como um objeto exterior, criando um intervalo entre o sujeito e o medicamento, isso pode ajudar a localizar a fun\u00e7\u00e3o do objeto. Se essa dimens\u00e3o fica elidida, a sutileza da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seus objetos deixa o sujeito \u00e0 deriva na sua condi\u00e7\u00e3o de objeto. Por outro lado, fazer um bom uso do medicamento, convidando o sujeito a uma posi\u00e7\u00e3o frente a seu uso, \u00e9 localizar o lugar e o la\u00e7o desse objeto para com o sujeito. N\u00e3o tomar o medicamento como acr\u00e9scimo permite descompletar algo, fazendo um furo para que o objeto circule como a inven\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para ter um corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em casos cl\u00ednicos em que o sujeito n\u00e3o tem corpo e procura faz\u00ea-lo cavando buracos de modo violento nele mesmo, verificamos que o uso de medicamentos tem um efeito reduzido. Diante deste limite frente a um corpo habitado pela l\u00edngua, mas sem fala, acompanhamos o caso de uma paciente em que foi feita a indica\u00e7\u00e3o de sess\u00f5es de eletro-choque, visando uma modifica\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica. Verificamos que esse procedimento invasivo, nesse sujeito, interrompeu por um per\u00edodo a constru\u00e7\u00e3o do corpo que estava em curso. Ao retomar o caso, a equipe de um CAPS[8], passou a recolher e acompanhar os sinais m\u00ednimos, as sutilezas e os recursos que o sujeito inventou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O objeto-fora-do-corpo<\/span><br \/>\nQuando o objeto est\u00e1 deslocalizado de modo radical e os buracos do corpo n\u00e3o produzem uma extra\u00e7\u00e3o, o sujeito fica sem forma corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan apresenta o objeto a como um objeto que se desprende do corpo, um peda\u00e7o do corpo que ele descreve assim: \u00abse o que mais existe de mim mesmo est\u00e1 do lado de fora, n\u00e3o tanto porque eu tenha projetado, mas por ter sido cortado de mim, os caminhos que eu seguir para sua recupera\u00e7\u00e3o oferecer\u00e3o uma variedade inteiramente diferente\u00bb[9]. Esta parte cortada do sujeito passa ter uma ex-ist\u00eancia[10], sendo assim uma parte que vive fora. \u00c9 uma exist\u00eancia paradoxal, uma exist\u00eancia do que n\u00e3o h\u00e1. Pela a\u00e7\u00e3o da palavra d\u00e1-se uma rela\u00e7\u00e3o fundamental com o corpo pr\u00f3prio, a partir da fun\u00e7\u00e3o de corte que instituiu o objeto como resto separado, perdido do corpo, e \u00e9 com esses objetos que o sujeito faz um corpo. O objeto pulsional, denominado objeto a por Lacan \u00e9 sempre um objeto fora do corpo, porque ele \u00e9 separado, por isso n\u00e3o tem consist\u00eancia a n\u00e3o ser imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 no buraco aberto pela extra\u00e7\u00e3o do objeto, uma cavidade e uma borda, aonde toda a economia de gozo do sujeito vai circular. Esta opera\u00e7\u00e3o de extra\u00e7\u00e3o fixa o gozo e tamb\u00e9m o circunscreve e delimita. Quando esta opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 obstaculizada, h\u00e1 um excesso de excita\u00e7\u00e3o sem localiza\u00e7\u00e3o. A tentativa desesperada do sujeito \u00e9 manter com esse objeto uma rela\u00e7\u00e3o de re-localiza\u00e7\u00e3o incessante para poder se situar[11]. \u00c9 imposs\u00edvel uma perda porque, se isso ocorrer, \u00e9 o sujeito mesmo que pode desaparecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paciente teve a indica\u00e7\u00e3o de eletro-choque visando uma terap\u00eautica que elimine o efeito de uma depress\u00e3o, refrat\u00e1ria aos medicamentos. As manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas nesse momento se referem a uma extrema agressividade com os outros e principalmente com ela mesma, tais como rachaduras na cabe\u00e7a de tanto bater na parede, arrancar peda\u00e7os de carne do corpo com os dentes, atacar as pessoas violentamente. Em outro momento recusava a alimenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se levantava da cama. Fazer falar esses epis\u00f3dios que se repetem de modo incessante \u00e9 tomar atos sem sentido como sintomas e n\u00e3o como dist\u00farbios, entendendo essas desordens como um modo de funcionamento ps\u00edquico e essa foi a dire\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Neste caso, o sintoma n\u00e3o \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente e por isso mesmo se op\u00f5e ao uso da decifra\u00e7\u00e3o. Abordar o gozo autista do sujeito, levando em conta as formas de escritura no corpo do sujeito psic\u00f3tico, foi a orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Novos gozos &#8211; A cl\u00ednica<\/span><br \/>\nCom a queda do simb\u00f3lico, a cl\u00ednica anal\u00edtica verifica hoje que em muitos sujeitos essa inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o opera, produzindo um excesso de gozo e como efeito a n\u00e3o constitui\u00e7\u00e3o do corpo como superf\u00edcie da inscri\u00e7\u00e3o significante. Essas mudan\u00e7as alteram os modos de organiza\u00e7\u00e3o pulsional, que incidindo sobre os corpos, pluralizam as formas de se fazer um corpo. No semin\u00e1rio sobre o Sinthoma, Lacan pensa o inconsciente a partir do gozo, produzindo assim uma virada cl\u00ednica, n\u00e3o sendo mais o objeto a pensado como um elemento de gozo a partir do inconsciente. O real em jogo, neste momento, rompe com a rela\u00e7\u00e3o causa\/efeito, deixando este la\u00e7o opaco, incluindo um furo no saber. Quando Lacan encontrou com a escrita de Joyce, ele concluiu que o gozo conserva uma opacidade, um sem sentido no sinthoma. Neste ponto ele \u00e9 levado a afirmar que o sinthoma n\u00e3o pode ser interpretado mais como antes. O significante remete a um outro significante, ao passo que a letra remete a ela pr\u00f3pria, sendo por isso mais prop\u00edcia para dar conta do gozo. A classifica\u00e7\u00e3o de sintomas para a psican\u00e1lise vai depender de um certo rearranjo de RSI, uma amarra\u00e7\u00e3o singular, sendo essa nossa b\u00fassola. O convite \u00e0 fala coloca em jogo o saber contido nesse parasita que atravessa os corpos. Esse convite n\u00e3o implica no uso da fala de modo tradicional, mas o sil\u00eancio, a atua\u00e7\u00e3o, o desprezo e outras manifesta\u00e7\u00f5es. A dimens\u00e3o do significante separado do significado \u00e9 a letra e a escrita se encontra neste n\u00edvel[12]. A incid\u00eancia do gozo sobre o corpo \u00e9 uma escrita que n\u00e3o tem a ver com a palavra, pois est\u00e1 desligada do sentido, feita de tra\u00e7os, marcas, peda\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hip\u00f3tese de que a paciente n\u00e3o tinha corpo surgiu pelo modo violento com que usava seu corpo, numa tentativa desesperada de localizar um buraco, um furo. Este tipo de manifesta\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica comporta um imposs\u00edvel de dizer, aonde n\u00e3o cabe um di\u00e1logo, porque o que se apresenta \u00e9 o objeto, que nesse caso n\u00e3o descompleta, n\u00e3o se separa. A interven\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da psican\u00e1lise \u00e9 construir dispositivos que possam tratar o gozo e estabelecer algo que possa se circunscrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco a pouco a paciente passou a utilizar recursos tais como um len\u00e7ol enrolado no corpo para ser levada ao banho, a cadeira de rodas para andar e um peda\u00e7o frouxo de gaze para amarrar os pulsos e n\u00e3o se morder. Objetos ofertados pelo Outro, com delicadeza, que lentamente foram tomados por ela e lidos pela equipe como sintomas, fragmentos de objeto-fora-do-corpo que a ajudaram a esbo\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o de um corpo. No primeiro tempo do trabalho ela utilizava as pr\u00f3prias fezes para fazer uma separa\u00e7\u00e3o entre o corpo dela e o do outro. Fazia uma barreira de fezes na porta do quarto para indicar um limite. Trabalhar a partir desses elementos essenciais da hist\u00f3ria do sujeito, que est\u00e3o desarticulados, sem sentido, nos orientou. Ela foi institucionalizada aos 5 anos e vive at\u00e9 hoje em um hospital psiqui\u00e1trico. \u00c9 falada pelo Outro como sendo muito agressiva, um monstro. A hip\u00f3tese nesse caso foi que a constru\u00e7\u00e3o do corpo se aproxima da constru\u00e7\u00e3o de um sinthoma, como uma resposta singular a uma impossibilidade. A via da repeti\u00e7\u00e3o incessante, usando o corpo de maneira a destru\u00ed-lo, colocou a viol\u00eancia da puls\u00e3o de morte que agia num outro registro, possibilitando assim um apaziguamento. Quando h\u00e1 circunscri\u00e7\u00e3o do gozo, um apaziguamento, mas n\u00e3o podemos localizar a extra\u00e7\u00e3o do objeto, como podemos ent\u00e3o nomear esta opera\u00e7\u00e3o? Um rearranjo do gozo, sem efeitos de significa\u00e7\u00e3o? Um consentimento do sujeito em ceder algo desse gozo insuport\u00e1vel ?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o de singularidade em sua radicalidade engendra novos gozos, porque \u00e9 in\u00e9dito e surgiu de uma inven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estava l\u00e1. Essa inven\u00e7\u00e3o exige um trabalho sobre o gozo e os depoimentos dos AE d\u00e3o testemunho deste percurso e renovam a teoria. Esse percurso tamb\u00e9m \u00e9 verificado nos sujeitos de corpos errantes que s\u00e3o estruturados com outra gram\u00e1tica. Devemos ent\u00e3o tratar a enuncia\u00e7\u00e3o que se produz, proporcionando um dispositivo e uma escuta favor\u00e1veis ao que se apresenta. \u00c9 nova tamb\u00e9m a possibilidade de remanejamentos cl\u00ednicos que podemos fazer, no sentido de atualizar nossa cl\u00ednica, para estar \u00e0 altura de responder como analistas aos novos desafios, fazendo uma nova leitura com as b\u00fassolas que Lacan nos deixou. Novos usos do corpo e seus objetos de gozo e o efeito sobre como o corpo se apresenta afetado por essa mudan\u00e7a, e como pode ser lido hoje, \u00e9 a novidade que podemos extrair deste ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escrita de Joyce \u00e9 um exemplo onde, mesmo sem extra\u00e7\u00e3o, o corpo foi feito a partir de uma topologia singular. A escrita, a obra de um artista, \u00e9 um modo de fazer algo com um artif\u00edcio que, estando fora do corpo, n\u00e3o foi extra\u00eddo e sim acoplado. O objeto fora do corpo \u00e9 aquele que se integra pouco a pouco a partir de certos desdobramentos, como uma montagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inven\u00e7\u00e3o de um sinthoma, n\u00e3o t\u00e3o grandioso como o que fez Joyce, pode ser o caminho da forma\u00e7\u00e3o de um corpo para esta paciente. Escrever um sinthoma, como Lacan aponta no Semin\u00e1rio 23, n\u00e3o seria justamente amarrar o que vem de um lugar diferente daquele do significante? Este trabalho vem da letra, do que ressoa das palavras e corta os efeitos de sentido e escapa da decifra\u00e7\u00e3o do Inconsciente. Podemos ent\u00e3o pensar a escrita do sinthoma como um objeto fora do corpo, como uma tentativa de escrever o simb\u00f3lico sem a extra\u00e7\u00e3o de objeto? O que operou como n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o, mas ainda assim permitiu uma estabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um novo modo de gozo. Essa dire\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u00e9 uma aposta para tratamento do gozo em sujeitos que n\u00e3o inventaram uma obra, mas encontraram uma possibilidade. Para essas pequenas inven\u00e7\u00f5es, usando peda\u00e7os de objeto, podemos nomear de sinthoma ?<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">Este trabalho \u00e9 produto de um cartel formado por: Ana Beatriz Zimmerman, Adriana LaPen\u00e3,Bruna Gauran\u00e1,Maria A. Tavares,Natasha Berdishvesky.Paula Legey,e tendo como mais-um Paula Borsoi<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller,JA, \u00abBiologia Lacaniana\u00bb in Revista Op\u00e7\u00e3o lacaniana 41, Edi\u00e7\u00f5es Eolia, S\u00e3o Paulo , 2004, p.18<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan,J ,\u00bbO lugar da Psican\u00e1lise na Medicina\u00bbin Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 32, Edi\u00e7\u00f5es Eolia, S\u00e3o Paulo, 2001, p.12<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller,J A, \u00abBiologia Lacaniana\u00bbin Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 41, Edi\u00e7\u00f5es Eolia, S\u00e3o Paulo ,2004<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan J , \u00abMeu Ensino\u00bb, Jorge Zahar Editor, Rio de janeiro, 2006, p 41<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Idem ,p 42<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J \u00abO Semin\u00e1rio 20, Mais Ainda, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro ,1980, p 11<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicosocial ,servi\u00e7o p\u00fablico municipal para tratamento em sa\u00fade mental, onde ocupo a fun\u00e7\u00e3o de supervisora cl\u00ednica-institucional.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Lacan, J &#8211; O semin\u00e1rio Livro 10 ,\u00bbA Ang\u00fastia \u00abJorge Zahar Editor, Rio de janeiro, 2005,p 246<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller,JA , \u00abA Ex-ist\u00eancia \u00abin Revista Internacional de Psican\u00e1lise Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 33, Edi\u00e7\u00f5es Eolia , S\u00e3o Paulo, 2002,p10<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Laurent,E \u00abReflex\u00f5es sobre o Autismo\u00bb in A Sociedade do Sintoma, ContraCapa Editora, Rio de janeiro, 2007<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Miller, J A \u00abPe\u00e7as Avulsas\u00bb aula de 1\/12\/2004 in Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 45, Edi\u00e7\u00f5es Eolia,S\u00e3o Paulo, 2006, p14<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[208],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1223"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1224,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223\/revisions\/1224"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}