{"id":1235,"date":"2021-08-18T23:58:19","date_gmt":"2021-08-19T02:58:19","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1235"},"modified":"2021-08-18T23:58:19","modified_gmt":"2021-08-19T02:58:19","slug":"luiz-fernando-carrijo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/luiz-fernando-carrijo-2\/","title":{"rendered":"Luiz Fernando Carrijo"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Integrantes do grupo de trabalho:\u00a0<\/b>Luiz Fernando Carrijo da Cunha \u2013 Coordenador<br \/>\nAndr\u00e9 Antunes<br \/>\nAlessandra Sartorello Pecego<br \/>\nCynthia Nunes de Freitas Farias<br \/>\nLilany Pacheco<br \/>\nMaria do Carmo Dias Batista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nO tema que nos ocupa nesta conversa\u00e7\u00e3o,\u00a0<b><i>O desejo medicalizado<\/i><\/b>, merece uma contextualiza\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do que prop\u00f5e o VI ENAPOL como diretriz para o debate.\u00a0<b><i>Falar com o corpo<\/i><\/b>pressup\u00f5e uma orienta\u00e7\u00e3o que estabelece as coordenadas pelas quais o corpo \u00e9 tomado na psican\u00e1lise. A dist\u00e2ncia entre este e o corpo biol\u00f3gico \u00e9 marcada de sa\u00edda, ou seja, os modos como a medicina e as ci\u00eancias biol\u00f3gicas o abordam n\u00e3o dizem respeito ao que est\u00e1 em causa quando, do sofrimento do ser falante, detectamos os efeitos da fala sobre quem fala. Logo, nossa perspectiva coloca em primeiro plano as rela\u00e7\u00f5es do homem com a linguagem. Um corpo, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 suposto falar, mas \u00e9 suposto gozar. Quanto a esse gozo, entretanto, nada poderia diferenci\u00e1-lo exceto a incid\u00eancia da l\u00edngua que faz do animal humano um homem. N\u00e3o h\u00e1 nada de natural no fen\u00f4meno que introduz as rela\u00e7\u00f5es do homem com o mundo atrav\u00e9s da linguagem. Assim sendo, e em curto-circuito, tomamos o corpo numa perspectiva onde ele \u00e9, por estrutura, desnaturado pela linguagem \u00e0 guisa de um acontecimento. Cito J.-A. Miller: [&#8230;]\u00a0<i>\u00c9 precisamente esta incid\u00eancia significante o que faz do gozo do sintoma um acontecimento, n\u00e3o apenas um fen\u00f4meno. O gozo do sintoma testemunha que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo depois do qual o gozo natural, entre aspas, que podemos imaginar como o gozo natural do corpo vivo, transtornou-se e se desviou. Este gozo n\u00e3o \u00e9 prim\u00e1rio, mas primeiro em rela\u00e7\u00e3o ao sentido que o sujeito lhe d\u00e1 e que lhe d\u00e1 por seu sintoma enquanto interpret\u00e1vel. [1]<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinhamos nessa introdu\u00e7\u00e3o o pano de fundo que dar\u00e1 contorno aos nossos desenvolvimentos relativos ao\u00a0<b><i>desejo medicalizado<\/i><\/b>. O pr\u00f3prio conceito de desejo ser\u00e1 aqui utilizado com base na incid\u00eancia do gozo ao qual ele faz contraponto considerando-o, contudo, como J.-A. Miller o conceitua de maneira esclarecedora e sint\u00e9tica:\u00a0<i>\u00abO sentido da libido \u00e9 o desejo\u00bb [2]<\/i>. Sentido que lhe \u00e9 dado pelos usos que um sujeito faz da l\u00edngua, j\u00e1 no campo do Outro. Ent\u00e3o, tom\u00e1-lo como\u00a0<b><i>desejo medicalizado<\/i><\/b>, imp\u00f5e considerar as consequ\u00eancias para um sujeito sobre seu corpo vivente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Freud e a verdade do sintoma<\/span><br \/>\nFreud fundamenta a no\u00e7\u00e3o de desejo (<i>Wunsh<\/i>) a partir de sua investiga\u00e7\u00e3o acerca dos sonhos onde preconiza que o desejo, sempre insatisfeito, realiza-se no sonho atrav\u00e9s de deforma\u00e7\u00f5es e deslocamentos operados pelo trabalho on\u00edrico. Tal explora\u00e7\u00e3o o leva a alinhar o desejo \u00e0 no\u00e7\u00e3o do recalque, onde o que permanece sob esse registro \u00e9 constitu\u00eddo pelo ent\u00e3o chamado \u00ab<i>n\u00f3 de desejos sexuais infantis e recalcados\u00bb<\/i>\u00a0que, nos sonhos, ganha express\u00e3o ligada \u00e0s ideias do sonhador. Um sonho, portanto, torna-se pass\u00edvel de ser decifrado liberando seu sentido, sua verdade. A perspectiva de Freud, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, era a de liberar o sentido recalcado que motivara o sonho. Desde este ponto de vista, Freud pode formular o sonho como\u00a0<i>\u00aba via r\u00e9gia para o inconsciente\u00bb,\u00a0<\/i>estando o inconsciente atrelado intrinsecamente ao recalque e ao desejo; da\u00ed sua insatisfa\u00e7\u00e3o sempre reiterada cuja estrutura se repete em todas as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, quer seja nos sonhos, lapsos, chistes e mesmo nos sintomas. A partir de sua abordagem dos sonhos, presumimos que a busca da verdade culmina com a interpreta\u00e7\u00e3o do desejo. Ent\u00e3o, se a estrutura do sonho se mostra a mesma do sintoma, Freud n\u00e3o faz mais do que vincular o sintoma a um sentido e a uma verdade, vindos \u00e0 luz pela interpreta\u00e7\u00e3o. Todavia, foi seguindo a via da verdade do sintoma que Freud pode se deparar com o que ele mesmo denominou \u00abrestos sintom\u00e1ticos\u00bb, revelando que o sintoma n\u00e3o \u00e9 todo convertido em verdade; h\u00e1 um resto n\u00e3o decifr\u00e1vel. Resto que pode ser colocado, de acordo com os desenvolvimentos de Freud, na conta do que se chamou \u00abresist\u00eancias\u00bb ou \u00abrea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa\u00bb. Em outros termos, a opera\u00e7\u00e3o freudiana sobre o inconsciente \u00e9 dependente da verdade e do sentido, cujo alcance levaria a uma expectativa de tratamento do sintoma: uma opera\u00e7\u00e3o sobre a verdade cuja trilha seria desenhada pelo desejo inconsciente, sempre ligado ao \u00abinfantil\u00bb e ao \u00absexual\u00bb. O \u00abadoecer\u00bb em Freud, esteve ligado ao que, do recalque, faz emerg\u00eancia na realidade subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">Lacan e os desenvolvimentos da verdade<\/span><br \/>\nNo assim chamado \u00abprimeiro tempo de seu ensino\u00bb, Lacan esquadrinha o conceito de inconsciente freudiano numa retomada que ele mesmo considerou como uma reconquista, reconquista de um Campo que julgava marcado pela amea\u00e7a de desaparecimento. Essa \u00abreconquista\u00bb[3] foi promovida em fun\u00e7\u00e3o da verdade freudiana investida de seu poder de corte: um antes e um depois. E uma profunda modifica\u00e7\u00e3o no estatuto do pensamento humano enunciado por Lacan no t\u00edtulo de um de seus textos dos\u00a0<i>Escritos<\/i>\u00a0\u2013\u00a0<i>A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud [4].<\/i>\u00a0Esse movimento de reconquista foi levado adiante sob o baluarte da primazia do simb\u00f3lico, onde Lacan constr\u00f3i todo um edif\u00edcio sobre as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com a fala, surgindo da\u00ed sua pr\u00f3pria leitura do inconsciente freudiano: um inconsciente fundado no efeito de linguagem, inaugurando um sujeito que s\u00f3 se faz representar de um significante a outro significante. O \u00abcampo do Outro\u00bb surge como o lugar da verdade e do desejo. Vemos despontar os aforismos \u00abO inconsciente \u00e9 o discurso do Outro\u00bb e \u00abO desejo do homem \u00e9 o desejo do Outro\u00bb que se alinham de maneira sint\u00e9tica no \u00abinconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem\u00bb. Desse modo, a \u00abfalta-a-ser\u00bb caracteriza o desejo traduzindo-o como insatisfeito em Freud. Sendo assim, o conceito de desejo \u00e9 explorado ao m\u00e1ximo por Lacan, agregando outros conceitos como \u00abo objeto causa de desejo\u00bb, as tr\u00eas modula\u00e7\u00f5es das puls\u00f5es, etc. Ademais, Lacan promove o desejo ao estatuto de \u00abtratamento\u00bb dado ao gozo, na medida em que o articula \u00e0 Lei vinculada ao Nome-do-Pai. O Nome-do-Pai vem, justamente, \u00absignificar\u00bb o \u00abdesejo da m\u00e3e\u00bb cujo efeito \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o do sujeito do desejo \u00e0 Lei paterna atrav\u00e9s da ascens\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Valendo-se da dial\u00e9tica hegeliana, mas sem se fixar a ela, Lacan considera a castra\u00e7\u00e3o, piv\u00f4 da constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, em uma opera\u00e7\u00e3o que enla\u00e7a, a partir do Campo do Outro, o desejo e a Lei: \u00ab<i>A castra\u00e7\u00e3o significa que \u00e9 preciso que o gozo seja recusado, para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo\u00bb[5].\u00a0<\/i>Lacan concebe o desejo a partir da dial\u00e9tica entre o Outro (A), lugar do significante, e o sujeito barrado (S\/) como seu efeito; a meton\u00edmia como figura de linguagem dar\u00e1 conta da presen\u00e7a do desejo na cadeia significante, por\u00e9m sem jamais ser apreendido em um objeto, ou seja, a falta-a-ser vem ser significada pelo desejo nos desenvolvimentos dial\u00e9ticos da cadeia de significantes e o que d\u00e1 suporte \u00e0 presen\u00e7a do desejo \u00e9 a \u00abfantasia\u00bb. A \u00abfantasia\u00bb que enla\u00e7a o sujeito do inconsciente com o objeto, \u00e9 montada para alojar a libido que escapa da opera\u00e7\u00e3o de significantiza\u00e7\u00e3o do desejo da m\u00e3e. Seria, portanto, um ponto n\u00e3o dialetiz\u00e1vel mas \u00abdepurado\u00bb pelos desenvolvimentos dial\u00e9ticos. Ao nosso ver, quando Lacan afirma que o desejo \u00e9 suportado pela fantasia, h\u00e1 quase uma superposi\u00e7\u00e3o do desejo com a libido, contudo, J.-A. Miller[6] afirma que o desejo \u00e9 o \u00absentido da libido\u00bb e isso vem colocar as coisas numa determinada ordem, ou seja, que a fantasia funciona para garantir a presen\u00e7a do desejo na medida em que, da libido, algo pode ser convertido em sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O desejo e a \u00abdoen\u00e7a nervosa\u00bb<\/span><br \/>\nFoi no contexto de sua \u00e9poca que Freud pode conceber a \u00abdoen\u00e7a nervosa\u00bb ligada etiologicamente \u00e0 moral sexual[7] \u00abcivilizada\u00bb. O desejo, originariamente recalcado e sob as exig\u00eancias morais da civiliza\u00e7\u00e3o, produzia seu retorno, sintomatizando o sujeito e \u00e9 a\u00ed que a \u00abverdade do sintoma\u00bb ganha toda a dimens\u00e3o na obra de Freud. O tratamento ent\u00e3o era proposto com base na emerg\u00eancia dessa verdade atrav\u00e9s da fala, liberando o corpo de seu sofrimento. Ou seja, com base nos significantes mestres de seu tempo, Freud pode propor uma modalidade de tratamento cujo fim se deteria num acordo do sujeito com as exig\u00eancias da civiliza\u00e7\u00e3o, embora, mais tarde ele mesmo se apercebeu que a conjun\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias pulsionais por um lado e as exig\u00eancias da civiliza\u00e7\u00e3o de outro, n\u00e3o poderia se dar atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o cujo resultado fosse zero. H\u00e1 resto, diz Freud, e esse resto n\u00e3o cabe no sintoma tomado na vertente de uma \u00absolu\u00e7\u00e3o de compromisso\u00bb. A isso, mais tarde, Lacan tentar\u00e1 dar forma a partir da emerg\u00eancia, em sua teoria, do \u00abobjeto\u00a0<i>a<\/i>\u00ab.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o do conceito de \u00abobjeto\u00a0<i>a<\/i>\u00bb foi, para Lacan, a tentativa de demonstrar logicamente a presen\u00e7a de um resto da opera\u00e7\u00e3o da fala sobre aquele que fala. Opera\u00e7\u00e3o sempre reiterada nos meandros da cadeia significante que, ao mesmo tempo que extra\u00edda do corpo, liga-se ao desejo como causa suportada na fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos florescer esta constru\u00e7\u00e3o com todas as min\u00facias no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 10<\/i>\u00a0\u2013\u00a0<i>A Ang\u00fastia[8]\u00a0<\/i>para, anos depois, Lacan evocar o objeto como\u00a0<i>mais-de-gozar<\/i>. Os\u00a0<i>Semin\u00e1rio 16, De um Outro ao outro[9]<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Semin\u00e1rio 17, O Avesso da Psican\u00e1lise[10]<\/i>, s\u00e3o sens\u00edveis ao alcance do discurso capitalista onde a \u00ab<i>moral sexual civilizada<\/i>\u00bb coloca o progresso da ci\u00eancia e seu produto em fun\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos que, nesse momento de seu ensino, Lacan estaria extremamente sens\u00edvel \u00e0 emerg\u00eancia dessa \u00ab<i>nova moral\u00bb<\/i>, respondendo com a assimila\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0\u00e0 categoria do\u00a0<i>mais-de-gozar<\/i>\u00a0e com a constru\u00e7\u00e3o da estrutura dos quatro discursos. Dessa forma deu \u00e0 psican\u00e1lise uma inscri\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, preservando o lugar do sujeito, pois, com o capital e a ci\u00eancia, observa-se uma certa coalesc\u00eancia do sujeito com o objeto. Sendo assim, o sujeito do desejo, pela via do capital, v\u00ea-se sempre seduzido pelos objetos oferecidos no mercado, gerando uma demanda falaciosa em rela\u00e7\u00e3o ao gozo. O produto disso \u00e9 a \u00abdefla\u00e7\u00e3o do desejo\u00bb deixando evanescer sua fun\u00e7\u00e3o de causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queremos enfatizar, sobretudo, a interdepend\u00eancia das constru\u00e7\u00f5es e transmuta\u00e7\u00f5es dos conceitos da psican\u00e1lise advindos de Freud e retomados por Lacan, com o que a civiliza\u00e7\u00e3o e a cultura promulgam em um outro \u2013 ou outros \u2013 modo de estar no mundo e que chamamos, aqui e com Freud, de \u00abmoral sexual civilizada\u00bb. Cada \u00e9poca sup\u00f5e uma moral e, no que diz respeito ao desejo e sua rela\u00e7\u00e3o com o sujeito, podemos observar a preval\u00eancia, hoje, de outra coisa que n\u00e3o a articula\u00e7\u00e3o do desejo com a Lei, ponto fundamental que levou Lacan a forjar o conceito de Nome-do-Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 guisa de orienta\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m de uma escans\u00e3o, digamos que o desejo passa de uma dimens\u00e3o ligada fundamentalmente \u00e0 falta-a-ser, a uma outra onde se demonstra a inefici\u00eancia da met\u00e1fora paterna em legislar sobre o gozo. Nesse outro extremo vemos introduzir-se e prosperar uma cultura comandada pelo mercado de capitais, bem como o desvelamento do ponto de coalesc\u00eancia do sujeito com o objeto, como produto do discurso capitalista e da prodigiosa ind\u00fastria tecno-cientificista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste ponto preciso que o termo\u00a0<b><i>desejo medicalizado<\/i><\/b>\u00a0deve ser localizado e explorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O desejo na moral contempor\u00e2nea<\/span><br \/>\nDestaquemos o axioma \u00abO desejo (do homem) \u00e9 o desejo do Outro\u00bb. \u00c9 da dial\u00e9tica do Senhor e do Escravo, de Hegel atrav\u00e9s de Koj\u00e8ve, que Lacan extrai este axioma. Por\u00e9m, como esclarece no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 17[11]<\/i>, mesmo que o Senhor prive o Escravo do reconhecimento de seu desejo, n\u00e3o o impede de obter satisfa\u00e7\u00e3o, pois o saber (e o poder) que lhe d\u00e1 o trabalho o engajam cada vez mais na procura do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O aumento do tempo de trabalho e a acumula\u00e7\u00e3o do capital promovem, como sabemos e a hist\u00f3ria demonstra, um excesso de gozo, o\u00a0<i>mais-de-gozar<\/i>, correlato \u00e0\u00a0<i>mais-valia<\/i>, o res\u00edduo da for\u00e7a de trabalho de Marx, aplicado \u00e0 psican\u00e1lise por Lacan. Embora o sintoma se defina, em Marx e em Lacan, por sua rela\u00e7\u00e3o com a verdade, estamos em um tempo onde a verdade se desloca peremptoriamente, a despeito das fic\u00e7\u00f5es testemunhadas pela cultura que a fixavam como eixo do estar do homem no mundo, a ponto de Lacan operar o deslizamento da verdade para o real. O Outro n\u00e3o apenas se pulveriza, mas deixa de existir. A verdade deu lugar ao real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse deslizamento faz produzir a b\u00e1scula, do ponto de vista cl\u00ednico, do sintoma como decifr\u00e1vel para o sintoma comportando o real. Sendo assim, cabe-nos operar uma estratifica\u00e7\u00e3o conceitual onde o desejo encontra um outro estatuto. Evidentemente ele n\u00e3o deixa de existir, mas sua operatividade est\u00e1 deslocada. Seria tentador um desenvolvimento que levasse em conta apenas a \u00abnostalgia\u00bb da Lei. N\u00e3o! N\u00e3o nos cabe buscar aparatos cl\u00ednicos que n\u00e3o respondam ao mal-estar contempor\u00e2neo, nem tampouco tentar avalizar nossa pr\u00e1tica com ferramentas que se mostrem impotentes diante do sintoma como se apresenta no mundo atual. A medicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato com o qual o psicanalista deve lidar. Do mesmo modo como Lacan orientou a n\u00e3o se recuar diante das psicoses, pensamos que a medicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que imp\u00f5e um desafio ao psicanalista onde a estrat\u00e9gia de recondu\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra ocupa o primeiro plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinhamos acima o efeito do discurso capitalista aliado \u00e0 ind\u00fastria tecno- cientificista sobre o sujeito contempor\u00e2neo. Ou seja, h\u00e1 uma tend\u00eancia de coalesc\u00eancia desse sujeito com o objeto, dispensando nesse movimento os usos da palavra, tornando-o vulner\u00e1vel \u00e0 todo tipo de oferta, que vai dos bens de consumo aos medicamentos produzidos com a promessa de felicidade. Tal como formula Lacan em \u00abRadiofoni<i>a\u00bb[12]<\/i>, e desenvolve J.-A. Miller em Uma fantasia[13], o objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0ganha o z\u00eanite e o homem passa a ser guiado por essa oferta. Entendemos a ascens\u00e3o do objeto\u00a0<i>a<\/i>\u00a0ao posto de agenciamento, como sendo o corol\u00e1rio estrutural da queda do Outro, representado pelo significante mestre suposto regulador do gozo. Nessa medida, a multiplicidade da oferta matiza a demanda fazendo parecer ao sujeito que ele teria um acesso direto ao gozo. Mas, como nos lembra J.-A. Miller, esse matiz do objeto \u00e9 essencialmente ansiog\u00eanico o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, faria multiplicar os objetos cada vez mais. \u00c9 o que apreendemos hoje quando, mais e mais, o desejo \u00e9 medicalizado respondendo a um dos aspectos do mercado. Nesse sentido, testemunhamos uma fal\u00e1cia de cujo \u00faltimo termo vem se ocupar o psicanalista. E por qual vi\u00e9s?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O excesso vem marcar o falasser<\/span><br \/>\nDe fato, o desejo est\u00e1 aplastado, bambo, covarde. Para dar qui\u00e7\u00e1 algum contorno \u00e0 inexist\u00eancia do Outro, o homem contempor\u00e2neo se identifica, agarra-se a significantes que s\u00e3o sintomas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembremos, ent\u00e3o, do que citamos anteriormente de J.-A. Miller em rela\u00e7\u00e3o ao desejo, onde diz:\u00a0<i>o sentido da libido \u00e9 o desejo[14],\u00a0<\/i>onde podemos conceber que o desejo se constitui como uma resposta \u00e0 libido, na medida em que a busca do sentido se d\u00e1 pelo vi\u00e9s da palavra e que a libido,\u00a0<i>a priori,\u00a0<\/i>carece de sentido, convocando o sujeito ao lugar da fala. A medicaliza\u00e7\u00e3o do desejo vem, ent\u00e3o, interferir de maneira irremedi\u00e1vel nessa l\u00f3gica. Se o sujeito cujo desejo est\u00e1 submetido \u00e0 oferta desmesurada da ind\u00fastria farmac\u00eautica se cala, ele n\u00e3o \u00e9 menos angustiado e, precisamente quando pode se aperceber de que o desejo lhe servira como defesa e que, tanto quanto outros modos de defesa, a medicaliza\u00e7\u00e3o pode impor um limite ao desejo, uma vez que n\u00e3o trata o imposs\u00edvel em jogo no falasser. Cabe, sim, ao analista configurar o real do sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Se fizermos do homem n\u00e3o mais algo que veicule um futuro ideal e o determinarmos da particularidade de seu Inconsciente e da maneira como ele goza disso, o sintoma permanece no mesmo lugar em que o deixou Marx, mas toma outro sentido, n\u00e3o ser\u00e1 um sintoma social, ser\u00e1 um sintoma particular. Sem d\u00favida esses sintomas particulares t\u00eam tipos,<\/i>\u00a0diz Lacan em RSI[15].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depress\u00e3o \u00e9 um desses significantes que representam sintomas. Compuls\u00e3o alimentar, TOC, alcoolismo, drogadi\u00e7\u00e3o, ansiedade, anorexia, s\u00e3o outros. Assim se goza hoje. Acrescentemos os medicamentos \u00e0 s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0<b><i>desejo medicalizado<\/i><\/b>\u00a0talvez possa revelar, frente ao sintoma contempor\u00e2neo e seus medicamentos, o encontro do desejo bambo com o gozo excessivo.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. (01\/08\/2011). Ler um sintoma. Conclus\u00e3o do Congresso da NLS, Londres, 2 e 3 de abril de 2011.\u00a0<a href=\"http:\/\/ampblog2006.blogspot.com.br\/search?q=ler+um+sintoma\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/ampblog2006.blogspot.com.br\/search?q=ler+um+sintoma<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. (2011). Falar com o corpo &#8211; Conclus\u00e3o do PIPOL V. Argumento do VI ENAPOL.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Conclusion-de-PIPOL-V_Jacques-Alain-Miller.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Conclusion-de-PIPOL-V_Jacques-Alain-Miller.html<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. (2003\/1971) Ato de funda\u00e7\u00e3o. In\u00a0<i>Outros Escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 235.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. (1998\/1957) A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud. In\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 496.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. (1998\/1960) Subvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano. In\u00a0<i>Escritos<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 841.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. (2011).\u00a0<i>Op. cit.<\/i><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. (1976\/1908). Moral sexual civilizada e doen\u00e7a nervosa moderna. In\u00a0<i>Obras psicol\u00f3gicas completas<\/i>. Ed. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, volume IX, p. 187 a 208.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J (2005\/1962-63).\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, Livro 10, A ang\u00fastia<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J (1992\/1968-69).\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, Livro 16, De um Outro ao outro<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J (2008\/1969-70).\u00a0<i>O Semin\u00e1rio, Livro 17, O avesso da psican\u00e1lise<\/i>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. (1992\/1969-70). Idem, ibidem.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. (2003\/1970). Radiofonia. Op. cit.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. (Fevereiro, 2005). Uma fantasia.\u00a0<i>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/i>, 42: 7-18.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. (2011) . Falar com o corpo &#8211; Conclus\u00e3o do PIPOL V. Argumento do VI ENAPOL.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Conclusion-de-PIPOL-V_Jacques-Alain-Miller.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.enapol.com\/pt\/template.php?file=Argumento\/Conclusion-de-PIPOL-V_Jacques-Alain-Miller.html<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. O Semin\u00e1rio \u2013 livro 21.\u00a0<i>RSI.<\/i>\u00a0Aula de 18 de fevereiro de 1975. In\u00e9dito.<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[210],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1235"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1236,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1235\/revisions\/1236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}