{"id":1251,"date":"2021-08-19T00:03:07","date_gmt":"2021-08-19T03:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vi\/?p=1251"},"modified":"2021-08-19T00:03:07","modified_gmt":"2021-08-19T03:03:07","slug":"marina-recalde-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/marina-recalde-2\/","title":{"rendered":"Marina Recalde"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><div class=\"Parrafo\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Integrantes:\u00a0<\/b>Jorge Assef, Cecilia Rubinetti, Ruth Gorenberg, Nora Cappelletti, Paula Gil, Marcela Garc\u00eda Guida, Celeste Vi\u00f1al e Marina Recalde (relatora).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema proposto para esta conversa\u00e7\u00e3o em torno do qual nos reunimos para um trabalho intenso durante v\u00e1rios meses foi \u00abA histeria hoje\u00bb. Antecipamos que o tom das reuni\u00f5es (quantidades volumosas de bibliografia, argumenta\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, debates intermin\u00e1veis) fez com que tiv\u00e9ssemos a convic\u00e7\u00e3o antecipada da impossibilidade de concluir em uma palavra justa, em uma articula\u00e7\u00e3o acabada e final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apresentamos-lhes o eixo escolhido ap\u00f3s um extenso percurso de leituras e encontros, uma via mais prop\u00edcia \u00e0s perguntas que \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas, mas que n\u00e3o cede na tentativa de dar conta da proposta que este VI ENAPOL espera desta investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que dizer da histeria hoje? Esse hoje que nos indica que ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era ontem. Ser\u00e1 preciso repensar a histeria, orientados hoje pelo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">O sintoma e a histeria<\/span><br \/>\n\u00abA psican\u00e1lise apreendeu a jun\u00e7\u00e3o das palavras com os corpos por um vi\u00e9s preciso, o do sintoma\u00bb, nos diz Eric Laurent em um texto que apresenta o argumento para este Encontro [1]. Essa frase nos obrigou, portanto, a voltarmos \u00e0 origem, \u00e0 origem da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, come\u00e7amos por interrogar a premissa pela qual fomos convocados: a histeria hoje. Premissa que situa afirmativamente que h\u00e1 uma histeria, hoje. Ao pensar os casos atuais e apoiados nos pr\u00f3prios fundamentos da psican\u00e1lise, nos perguntamos o que faz com que hoje possamos afirmar: se trata de uma histeria. Ou seja, quais s\u00e3o os par\u00e2metros que nos orientam para indicar se \u00e9 ou n\u00e3o uma histeria. Assim, chegamos \u00e0 premissa que nos orientar\u00edamos pelo pai, o falo, o sintoma, a Outra mulher, o la\u00e7o com o Outro e o desejo. No\u00e7\u00f5es que parecem ter sido ultrapassadas, mas que sem d\u00favida ainda seguem, a nosso ver, orientando nossa pr\u00e1tica. Pensamos assim, porque o pai, o sintoma, o gozo e o desejo se fundam no imposs\u00edvel, isto \u00e9, n\u00e3o dependem das conting\u00eancias de uma \u00e9poca, embora indiscutivelmente produzam efeitos. Entendemos que o problema consiste em identificar qual \u00e9 o la\u00e7o atual com aquilo que \u00e9 fundamental. Desse modo, indagamos sobre o que h\u00e1 de neurose nos casos que hoje se apresentam. Em fun\u00e7\u00e3o disso, partimos de Freud, perguntando com Lacan: o que aconteceu com as hist\u00e9ricas do passado? Aquelas que permitiram o surgimento da psican\u00e1lise quando Freud se disp\u00f4s em escut\u00e1-las. O qu\u00ea substitui atualmente os sintomas hist\u00e9ricos de outros tempos? Para Freud, o eixo sobre o qual se sustenta a organiza\u00e7\u00e3o do sintoma hist\u00e9rico \u00e9 o amor ao pai, por\u00e9m se esse sintoma \u00e9 considerado como uma solu\u00e7\u00e3o no interior desta inventiva hist\u00e9rica, bem que ele poderia ser uma solu\u00e7\u00e3o como tantas outras. \u00c9 justamente isso que a nossa \u00e9poca p\u00f5e em causa e nos leva prontamente a uma de nossas indaga\u00e7\u00f5es mais recorrentes: como pensar a histeria n\u00e3o exclusivamente definida por sua rela\u00e7\u00e3o de amor ao pai e sim por uma vincula\u00e7\u00e3o especial com o significante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse [2] afirma que a histeria de hoje est\u00e1 mais pr\u00f3xima do poder do significante como tal, sem o pai, que servia para velar seu poder e o da letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, como pensar esse \u00absem pai\u00bb? N\u00e3o se trata nesse caso de pensar as duas vertentes do pai, aquele ligado ao traum\u00e1tico (Lacan nos apresenta em O Semin\u00e1rio XIX) que est\u00e1 na origem das neuroses, da jun\u00e7\u00e3o das palavras com os corpos, e aquele ligado ao amor, que desse modo se situa do lado do sentido, j\u00e1 como uma solu\u00e7\u00e3o que a histeria \u2013 ao menos a cl\u00e1ssica \u2013 encontra frente aquilo que n\u00e3o se pode nomear?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os semblantes mudaram: a utiliza\u00e7\u00e3o indiscriminada dos\u00a0<i>gadgets<\/i>\u00a0oferecidos pela tecnologia, os abusos na utiliza\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os na ci\u00eancia da beleza, das modifica\u00e7\u00f5es corporais, as apresenta\u00e7\u00f5es aparentemente inacess\u00edveis \u00e0 palavra como as anorexias, os cortes no corpo, ou as brutais recusas do amor, podem nos fazer desviar daquilo que, na histeria hoje, continua sendo a histeria que orienta para um mais al\u00e9m do pai ao castr\u00e1-lo. Claro que j\u00e1 n\u00e3o se trata tanto daquela famosa histeria de convers\u00e3o, e sim de \u00abuma histeria de conversa\u00e7\u00e3o\u00bb [3]. Essa \u00e9 a histeria que conv\u00e9m ao \u00faltimo ensino de Lacan, o sofrimento de um indiz\u00edvel que, justamente por isso, fala. E fala de como se faz um sintoma com um trauma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">A jun\u00e7\u00e3o das palavras e dos os corpos<\/span><br \/>\nAli onde se produz o surgimento traum\u00e1tico do gozo, al\u00edngua marca o corpo e faz com que seja o sintoma quem responda. Se, \u00e9 atrav\u00e9s do choque com a palavra que se produz o trauma, \u00e9 pela palavra, tamb\u00e9m, que se ter\u00e1 a possibilidade de fazer algo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que mais nos interessa \u00e9 o que o sujeito construiu com isso, n\u00e3o com a finalidade de que algo seja representado (ao estilo do recalcado), mas com a finalidade de que, o que resulta disso, seja mais satisfat\u00f3rio para o sujeito. Nas palavras de Jacques-Alain Miller, o sintoma \u00e9 o \u00abproduto de um encontro casual (contingente) do corpo com o significante. Esse encontro mortifica o corpo, mas, tamb\u00e9m, recorta uma parcela de carne cuja palpita\u00e7\u00e3o anima todo o universo mental. Comprovamos que esse encontro marca o corpo com um tra\u00e7o inesquec\u00edvel. \u00c9 o que chamamos acontecimento de corpo\u00bb[4]. Consideramos que a histeria faz um uso singular da fun\u00e7\u00e3o paterna nesse processo. O sujeito hist\u00e9rico faz um uso peculiar, por exemplo, na estrutura\u00e7\u00e3o \u00abde um corpo que se sustenta no pai como defesa frente ao real do gozo feminino\u00bb[5] que p\u00f5e em quest\u00e3o sua identidade e unidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa elabora\u00e7\u00e3o lhe permitir\u00e1 precisar a fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o que se localiza na histeria na \u00abarmadura do amor ao pai\u00bb, formulada por Lacan em seu\u00a0<i>semin\u00e1rio\u00a0<\/i>XXIV (in\u00e9dito). O termo franc\u00eas\u00a0<i>armature\u00a0<\/i>designa o cofragem que outorga uma especial estabilidade e consist\u00eancia ao sujeito hist\u00e9rico e seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se do redobramento, a partir do amor de sua rela\u00e7\u00e3o ao Nome-do-Pai, ao estabelecimento de seu la\u00e7o com o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que sustenta essa solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, dir\u00e1 Lacan, \u00e9 a \u00abreta infinita do amor ao pai\u00bb como um cabo \u2013 topologicamente apresentado \u2013 que constitui uma sustenta\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando o tema que nos interessa nesta ocasi\u00e3o, podemos pensar: em rela\u00e7\u00e3o a que \u00aba histeria hoje\u00bb pode n\u00e3o apresentar dita estabilidade? Estamos diante de casos cl\u00ednicos que embora \u2013 tal como diz\u00edamos antes \u2013 o trauma sexual esteja captado em palavras, manifestam rupturas em sua rela\u00e7\u00e3o com o amor ao pai?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Lacan [6] formula que a \u00faltima coisa que se perde em um final de an\u00e1lise, na histeria, \u00e9 o amor ao pai, e se isso \u00e9 l\u00f3gico e necess\u00e1rio para a configura\u00e7\u00e3o do corpo como tal, \u00e9 poss\u00edvel continuar chamando de histeria as representa\u00e7\u00f5es que prescindem deste amor, sem ter levado uma an\u00e1lise at\u00e9 sua finaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente s\u00e3o casos que n\u00e3o respondem \u00e0 histeria cl\u00e1ssica, mas podemos continuar colocando-as como histeria, se elas se situam fora do sentido? Continua sendo uma histeria quando se sustenta s\u00f3, n\u00e3o precisando do Nome-do-Pai? Quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel localizar nada do amor ao pai? Ou s\u00e3o apresenta\u00e7\u00f5es r\u00edgidas da histeria, tal como a situa Lacan, o que daria \u00e0 quest\u00e3o um vi\u00e9s fenom\u00eanico e n\u00e3o estrutural? V\u00ea-se claramente a tens\u00e3o entre a histeria cl\u00e1ssica e a histeria r\u00edgida, introduzida pela referencia que toma Eric Laurent de Jacques Lacan (extra\u00edda do Semin\u00e1rio 23), e que conduziria a pensar em uma histeria sem Nome do Pai. Que teria de histeria, a histeria r\u00edgida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a histeria \u00e9 uma defesa frente \u00e0 amea\u00e7a de irrup\u00e7\u00e3o de gozo, consideramos do mesmo modo uma histeria desencadeada pela falha de sua defesa, um enlouquecimento hist\u00e9rico e uma apresenta\u00e7\u00e3o na qual n\u00e3o podemos estabelecer essas coordenadas de in\u00edcio? Esse \u00abfora de servi\u00e7o do pai\u00bb teria o mesmo estatuto se se tratasse de uma fun\u00e7\u00e3o \u2013 que apesar disso conserva o valor de amo \u2013 que nunca operou como tal, ou seja, de um servi\u00e7o do qual n\u00e3o temos evidencia de que tenha sido dado alguma vez? N\u00e3o seria a mesma coisa falhar e estar ausente. Estas quest\u00f5es s\u00e3o pontos orientadores para se pensar os modos atuais de apresenta\u00e7\u00e3o em nossa cl\u00ednica cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A histeria continua denunciando a insufici\u00eancia do ter para dizer seu ser, mas, vanguardista com rela\u00e7\u00e3o a si mesma, se utiliza (por exemplo) dos discursos da tecnoci\u00eancia para modificar os modos tradicionais do pai como transmissor de uma lei humanizada pelas rela\u00e7\u00f5es instrumentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Titulo4\">\u00c9 poss\u00edvel pensar a histeria sem o Nome do Pai?<\/span><br \/>\nLacan introduz o Nome do Pai como um significante no Discurso de Roma, segue desenvolvendo o conceito e acentuando seu car\u00e1ter simb\u00f3lico. Mas, se o Nome do Pai e o falo ficam ligados, ainda \u00abresulta impens\u00e1vel o objeto a\u00bb na medida em que tudo \u00e9 reabsorv\u00edvel pelo significante[7]. Finalmente, Lacan chega a formular a met\u00e1fora paterna, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade entre o Pai e o falo. De todo modo, pensamos que algo escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o NP\/DM. DM\/x, mesmo que n\u00e3o se formule nesses termos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio 18, a partir da cl\u00ednica da histeria, se produz uma ruptura e Lacan come\u00e7a a diferenciar falo e Nome do Pai: \u00abMas, enfim, n\u00e3o foi apenas por esse \u00e2ngulo que contemplei a met\u00e1fora paterna. Se escrevi em algum lugar que o Nome-do-Pai \u00e9 o falo foi porque, na \u00e9poca, eu n\u00e3o podia articul\u00e1-lo melhor. \u00c9, certamente, o falo, sem d\u00favida, mas \u00e9, tamb\u00e9m, o Nome-do-Pai. Se o que se nomeia do Pai, o Nome-do-Pai, \u00e9 um nome que tem efic\u00e1cia, \u00e9 precisamente porque algu\u00e9m se levanta para responder\u00bb[8]. Sabemos que o Nome do Pai assegura sua consist\u00eancia nomeando o imposs\u00edvel. Na histeria, o Nome do Pai \u00e9 convocado a responder, a falar sobre esse mudo (que Lacan situa no Semin\u00e1rio XVIII no n\u00edvel da irrup\u00e7\u00e3o do gozo f\u00e1lico): \u00abO que constitui o privil\u00e9gio do falo \u00e9 que se pode cham\u00e1-lo loucamente, e ele continuar\u00e1 a n\u00e3o dizer nada. S\u00f3 que isso d\u00e1 sentido ao que chamei, na \u00e9poca, de met\u00e1fora paterna, e \u00e9 a ela que a hist\u00e9rica conduz\u00bb[9]. O Nome-do- Pai \u00e9, ent\u00e3o, o que \u00e9 convocado a falar do gozo f\u00e1lico, a falar disso que n\u00e3o fala. \u00abMas, digamos que, quando \u00e9 a hist\u00e9rica quem o chama, o que se trata \u00e9 de que algu\u00e9m fale\u00bb [10]. A hist\u00e9rica requer o Nome do Pai, como o nome que faz falar o referente mudo. O gozo f\u00e1lico \u00e9 o que ordena e interroga uma hist\u00e9rica, e \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a esse gozo que se ordenam todos seus sintomas. A esta altura, o v\u00ednculo imposs\u00edvel para a hist\u00e9rica \u00e9 com o gozo f\u00e1lico. Imposs\u00edvel que haja uma articula\u00e7\u00e3o direta com essa coisa muda, indiz\u00edvel, que \u00e9 o gozo f\u00e1lico como tal. Precisa da intermedia\u00e7\u00e3o de algo: que se fale disso, que o mencione, que haja equ\u00edvoco, alus\u00f5es. O sintoma hist\u00e9rico surge da confronta\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o com o gozo f\u00e1lico. O sintoma, ent\u00e3o, fala, ela fala desse mudo com seu sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 h\u00e1 psican\u00e1lise de um corpo vivo, de um corpo que fala, e isso para Lacan \u00e9 um mist\u00e9rio. E que isso se fa\u00e7a, como na histeria, por exemplo, atrav\u00e9s do corpo, sup\u00f5e-se que pertence especificamente \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica. Esse real da cl\u00ednica, de cada an\u00e1lise que se apresenta de um modo singular. Esse indiz\u00edvel que rodeia nas voltas dos ditos e demonstra sua impossibilidade l\u00f3gica, sua inexist\u00eancia radical e, a partir da\u00ed, ilumina o que h\u00e1. H\u00e1 Um, h\u00e1 gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para chegar a isso ter\u00e1 que passar pelos sinuosos desfiladeiros do significante. Provar que h\u00e1 um la\u00e7o com o Outro que permita com que o sujeito saia do gozo aut\u00edstico que o isola e produzir a possibilidade de que esses S1 convoquem \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de um S2 que fa\u00e7a cadeia de sentido. Para logo perd\u00ea-lo, para logo prescindir do sentido, n\u00e3o sem haver passado por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abPor isso devemos conceber o sintoma n\u00e3o a partir da cren\u00e7a no Nome- do-Pai, e sim a partir da efetividade da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica. Essa pr\u00e1tica obt\u00e9m, mediante seu manejo da verdade, algo que toca o real. Algo ressoa no corpo, a partir do simb\u00f3lico e faz com que o sintoma responda\u00bb[11].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se falamos de um sujeito hist\u00e9rico, esse sintoma poder\u00e1 adquirir os mais diversos estilos permitidos pela condi\u00e7\u00e3o humana. A \u00e9poca ir\u00e1 vesti-los com seus modos, inclusive com a marca da urg\u00eancia da passagem ao ato. O acesso ao z\u00eanit do objeto\u00a0<i>a\u00a0<\/i>e sua profus\u00e3o intermediada de artigos vari\u00e1veis de uso e interc\u00e2mbio, continuar\u00e1 nos convocando a dar conta, na cl\u00ednica, do valor que pode tomar para um sujeito esses sofisticados modos de gozo que utilizam os produtos e slogans que oferece o mercado atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto nos leva a pensar que hoje nos deparamos com casos que, para abord\u00e1-los, necessitamos do \u00faltimo ensino de Lacan. Seja para propiciar uma trama simb\u00f3lica para que o sujeito possa realizar uma nova ancoragem, seja para possibilitar a armadura de um corpo, al\u00ed onde o sujeito se apresenta l\u00e1bil, ou de maneira err\u00e1tica, entre outras possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja arriscado prop\u00f4-lo, mas, poder\u00edamos pensar que isto implica abrir um programa de investiga\u00e7\u00e3o que nos permita pensar esses casos, chamando-os de \u00abneuroses ordin\u00e1rias\u00bb? Ou seja, aqueles casos que, \u00e0 maneira das chamadas \u00abpsicoses ordin\u00e1rias\u00bb (da\u00ed o nome), resultam dif\u00edceis de situar como neuroses e exigem, tamb\u00e9m, que estejamos atentos a esses pequenos, \u00ednfimos detalhes, perdidos e confundidos nas apresenta\u00e7\u00f5es pouco cl\u00e1ssicas que hoje nos interpelam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abNa histeria encontramos a experi\u00eancia de externalidade do corpo, o corpo fala \u00e0 sua maneira (&#8230;). A dificuldade reside no fato de que todos esses meios artificiais que pareciam anormais anos atr\u00e1s, hoje s\u00e3o banalizados. Hoje os\u00a0<i>piercings\u00a0<\/i>est\u00e3o na moda. As tatuagens tamb\u00e9m. A moda est\u00e1 claramente inspirada na psicose ordin\u00e1ria. Uma tatuagem pode ser um Nome-do-Pai na rela\u00e7\u00e3o que o sujeito tem com o seu corpo. Como comparamos com a histeria? N\u00e3o podemos falar de outro modo sen\u00e3o em termos de tonalidade \u2013 n\u00e3o tem o mesmo tom \u2013 e em termos de excesso \u2013 isso excede as possibilidades da histeria. A histeria \u00e9 restrigida pelos limites da neurose, \u00e9 limitada pelo (- \u2c77)\u00a0<i>menos-phi.\u00a0<\/i>Apesar da revolta e do desespero, a histeria \u00e9 sempre submetida \u00e0 restri\u00e7\u00e3o &#8230;.[12]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se for uma histeria, esses estilos, n\u00e3o poder\u00e3o, sem d\u00favida, ocultar suficientemente a conserva\u00e7\u00e3o de algumas caracter\u00edsticas peculiares: uma determinada rela\u00e7\u00e3o com o pai, uma singular rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, \u00e0s vezes sob o modo da devasta\u00e7\u00e3o, o v\u00ednculo com o corpo \u2013 sob a limita\u00e7\u00e3o do gozo f\u00e1lico \u2013, a busca em solucionar o problema do desejo feminino atrav\u00e9s de Outra ou A Outra, uma rela\u00e7\u00e3o especial ao desejo do Outro e como lidar com sua demanda, uma sempre complexa posi\u00e7\u00e3o a respeito do Amo, suas encarna\u00e7\u00f5es e enfrentamentos. Tal como situa Jacques-Alain Miller, para provar que se trata de uma neurose, se \u00abdeve encontrar algumas provas da exist\u00eancia de menos phi (-\u2c77), da rela\u00e7\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o, com a impot\u00eancia e com a impossibilidade; tem que haver \u2013 para utilizar os termos freudianos da segunda t\u00f3pica \u2013 uma diferencia\u00e7\u00e3o taxativa entre o Eu e o Isso, entre os significantes e as puls\u00f5es; um supereu claramente delineado. Se n\u00e3o h\u00e1 tudo isso e outros signos, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma neurose, \u00e9 outra coisa\u00bb[13].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1rduo, mas proveitoso trabalho que iniciamos nesta oportunidade nos permitiu reencontrar-nos com o que h\u00e1 de mais vivo no debate dos temas cruciais da psican\u00e1lise, oferecendo-nos a possibilidade de concordar e discordar, de nos enganar e nos colocar, de p\u00f4r em marcha \u2013 cada vez \u2013 uma conversa\u00e7\u00e3o potente, entusiasmada. Assim, agradecemos a esta convoca\u00e7\u00e3o por ter-nos propiciado isso. Um verdadeiro trabalho de Escola que se soma \u00e0 de nossas Escolas da Am\u00e9rica e que hoje podemos compartilhar neste espa\u00e7o t\u00e3o valioso.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"CITAS\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Laurent, E., \u00abHablar con el propio s\u00edntoma, hablar con el propio cuerpo\u00bb, en\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php-2013\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php-2013<\/a><\/li>\n<li>Brousse, M.-H., \u00abConferencia en Granada\u00bb, en\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jCG_8iaSRb8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jCG_8iaSRb8<\/a><\/li>\n<li>Aramburu, J., \u00abHisteria de conversaci\u00f3n\u00bb, en\u00a0<i>Revista Consecuencias\u00a0<\/i>n\u00fam.4<\/li>\n<li>Miller, J.-A., \u00abHablar con el cuerpo\u00bb Conclusi\u00f3n de Pipol V, en\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php-2013\">http:\/\/www.enapol.com\/es\/template.php-2013<\/a><\/li>\n<li>Schejtman, F., Godoy, C., \u00abLa histeria en el \u00faltimo per\u00edodo de la ense\u00f1anza de Lacan\u00bb, Anuario de Investigaciones-Secretar\u00eda de Investigaciones-Facultad de Psicolog\u00eda-UBA Volumen XV-P\u00e1g. 121 a 125- 2008<\/li>\n<li>Lacan, J., El Seminario, Libro XIX, \u00abO peor\u2026\u00bb, Paidos, Buenos Aires, 2012<\/li>\n<li>Miller, J.-A.,\u00a0<i>13 clases sobre El hombre de los lobos<\/i>, Editorial UNSAM, Buenos Aires, Argentina, 2011, p.25<\/li>\n<li>Lacan, J., El Seminario, Libro XVIII, \u00abDe un discurso que no fuese del semblante\u00bb, Paidos, Buenos Aires, 2009, P.159<\/li>\n<li>Ib\u00edd.<\/li>\n<li>Ib\u00edd.<\/li>\n<li>Laurent, E., \u00abHablar con el propio s\u00edntoma, hablar con el propio cuerpo\u00bb, op.cit.<\/li>\n<li>Miller, J.-A., \u00abEfecto retorno sobre la psicosis ordinaria\u00bb, en\u00a0<i>Revista El Caldero de la Escuela,<\/i>\u00a0Nueva serie, N\u00famero 14, diciembre 2010<\/li>\n<li>Ib\u00edd.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Bibliograf\u00eda consultada<\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques Lacan, Seminarios 1 al 24<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques Lacan, \u00abConsideraciones sobre la histeria\u00bb, en\u00a0<i>Quarto<\/i>\u00a0, revista de la Ecole de la Cause Freudienne, n\u00ba 2, septiembre 1981, versi\u00f3n en castellano:\u00a0<a href=\"http:\/\/networkedblogs.com\/IwgBW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/networkedblogs.com\/IwgBW<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller, \u00abHablar con el cuerpo. Conclusi\u00f3n de Pipol V\u00bb (<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/\">www.enapol.com<\/a>)<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller, \u00abEfecto retorno de la psicosis ordinaria\u00bb, en\u00a0<i>Revista El Caldero de la Escuela, nueva serie, n\u00famero 14, Buenos Aires, Argentina<\/i><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller,\u00a0<i>Sutilezas anal\u00edticas<\/i>, Paidos, Buenos Aires, Argentina,<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller,<i>\u00a013 clases sobre el Hombre de los lobos,\u00a0<\/i>Editorial UNSAM, Buenos Aires, Argentina, 2011<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller, Conferencia de cierre del \u00faltimo Congreso, publicada en Revista Lacaniana 13, Grama, Buenos Aires, Argentina, 2012<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Eric Laurent, \u00abHablar con el propio s\u00edntoma, hablar con el propio cuerpo\u00bb (<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/\">www.enapol.com<\/a>)<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Nieves Soria Dafunchio, \u00abLas nuevas nominaciones y sus efectos en los cuerpos\u00bb (<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/\">www.enapol.com<\/a>)<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Mauricio Tarrab, texto presentado en el cierre del Symposium en Miami, junio 2013<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Javier Aramburu \u00abLa histeria hoy\u00bb, publicado en<i>\u00a0El deseo del analista<\/i>, Editorial Tres Haches, Buenos Aires, Argentina, 2000<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Javier Aramburu, \u00abHisteria de conversaci\u00f3n\u00bb, en\u00a0<i>Revista Consecuencias\u00a0<\/i>n\u00fam.4<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Oscar Zack, \u00abHay otra histeria\u00bb, publicado en<i>\u00a0Efectos de la experiencia anal\u00edtica<\/i>, Editorial Grama, Buenos Aires, Argentina, 2005<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Marie H\u00e9l\u00e8ne Brousse, \u00abConsideraciones sobre la histeria\u00bb (Entrevista) CEIP lacaniano. Disponible en\u00a0<a href=\"http:\/\/www.enapol.com\/www.centrolacaniano.cl\/blog\/entrevista-a-m-h-brousse-consideraciones-sobre-la-histeria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/www.centrolacaniano.cl\/blog\/entrevista-a-m-h-brousse-consideraciones-sobre-la-histeria\/<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Marie H\u00e9l\u00e8ne Brousse, \u00abConferencia en Granada\u00bb, en\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jCG_8iaSRb8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jCG_8iaSRb8<\/a><\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Claudio Godoy, clase dictada en Maestr\u00eda en Cl\u00ednica Psicoanal\u00edtica a\u00f1o 2012 (in\u00e9dita),<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Schejtman, F., Godoy, C., \u00abLa histeria en el \u00faltimo per\u00edodo de la ense\u00f1anza de Lacan\u00bb, Anuario de Investigaciones-Secretar\u00eda de Investigaciones-Facultad de Psicolog\u00eda-UBA Volumen XV-P\u00e1g. 121 a 125- 2008<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Patricio Alvarez, clase dictada en Maestria en Cl\u00ednica Psicoanal\u00edtica a\u00f1o 2012 (in\u00e9dita)<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Jorge Assef,\u00a0<i>La subjetividad hipermoderna<\/i>, Buenos Aires, Argentina, 2013<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Textos de todos los integrantes del grupo, escritos a prop\u00f3sito de este tema, casos cl\u00ednicos extra\u00eddos de nuestros consultorios.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[216],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1251"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1252,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1251\/revisions\/1252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}