{"id":1027,"date":"2021-09-02T11:46:08","date_gmt":"2021-09-02T14:46:08","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1027"},"modified":"2021-09-02T11:46:08","modified_gmt":"2021-09-02T14:46:08","slug":"maria-eugenia-cardona-o-corpo-e-o-selfie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/maria-eugenia-cardona-o-corpo-e-o-selfie\/","title":{"rendered":"Mar\u00eda Eugenia Cardona &#8211; O CORPO E O SELFIE"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mar\u00eda Eugenia Cardona<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1025 alignleft\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/imagem.png\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"265\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/imagem-200x143.png 200w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/imagem-300x214.png 300w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/imagem.png 371w\" sizes=\"(max-width: 371px) 100vw, 371px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia, o selfie \u2013 tirar uma foto de si mesmo \u2013 \u00e9 t\u00e3o habitual que, segundo as estat\u00edsticas do Instagram, foram postadas 58 fotos por segundo durante 2012. em 2013, o dicion\u00e1rio Oxford nomeia a palavra \u201cselfy\u201d ou \u201cselfie\u201d, como a palavra do ano. Em hist\u00f3rias recentes o selfie esteve em primeiro lugar, a partir de quando um macaco toma a c\u00e2mera de um fot\u00f3grafo e se auto-retrata. O simp\u00e1tico macaco roubou a c\u00e2mera e, seduzido pelo ru\u00eddo dos clics, come\u00e7ou a brincar com ela, a clicar no ar e a tirar fotos de si mesmo. Isto gerou uma batalha legal pelo\u00a0<em>copyright<\/em>, pois as leis sustentam que o dono dos direitos de autor \u00e9 quem tira a foto. \u00c9, ent\u00e3o, um fato ir\u00f4nico que levou o fot\u00f3grafo a elevar o macaco \u00e0 categoria de assistente de fotografia. Evento da conting\u00eancia que faz uma\u00a0<em>par\u00f3dia<\/em>\u00a0dessa paix\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno do selfie fala de qual mal-estar na Cultura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sendo uma foto n\u00e3o tem o car\u00e1ter simb\u00f3lico que as fotografias tiveram: um fato gr\u00e1fico de algo que tem a ver com um acontecimento \u00edntimo. O selfie est\u00e1 acima do \u00edntimo e da experi\u00eancia de lembran\u00e7a que a imagem fotogr\u00e1fica pode trazer. Poder\u00edamos dizer que passamos do auto-retrato ao selfie. \u00c9 uma maneira de registro gr\u00e1fico onde o importante \u00e9 expor a\u00a0<strong><em>outros<\/em><\/strong><em>\u00a0<strong>an\u00f4nimos<\/strong><\/em>\u00a0algo do \u00edntimo. \u00c9 uma imagem com a qual se monta uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o com o sorriso ou o gesto de\u00a0<em>\u201csou feliz\u201d.<\/em>\u00a0Registro no qual impera o gozo do olhar sobre si mesmo, sem palavras. Evidencia-se uma experi\u00eancia onde o sujeito, com sua melhor\u00a0<em>pose cosm\u00e9tica<\/em>\u00a0tenta\u00a0<strong><em>dar-se um corpo<\/em>\u00a0<\/strong>por meio do semblante. Sabemos que atr\u00e1s do semblante n\u00e3o h\u00e1 nada. N\u00e3o h\u00e1 ser, h\u00e1 ex-sist\u00eancia. A estrutura de fic\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre insuficiente para abarcar o real que escapa. H\u00e1 imagem n\u00e3o esconde o que n\u00e3o deixa de insistir, \u00e9 transit\u00f3ria e a ang\u00fastia aparece como resposta. H\u00e1 uma significa\u00e7\u00e3o vazia, o buraco no real da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe e que necessariamente conduz ao enigma do feminino. A imagem viria a ter o estatuto de um resto-desfeito sem hist\u00f3ria, tentando tramitar algo do real imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos, como diz Miller em o \u201cSer e o Um\u201d: \u201cTer um corpo coloca-se do lado da exist\u00eancia. \u00c9 um ter marcado somente a partir do vazio do sujeito.\u201d<sup>[1]<\/sup>\u00a0O parl\u00eatre tem um corpo e n\u00e3o \u00e9 um corpo. Desde a origem est\u00e1 marcado pelo mal encontro com lal\u00edngua, que deixa tra\u00e7os no corpo. \u00c9, portanto, um encontro imprevisto entre a palavra e o corpo que far\u00e1 dele um acontecimento singular. Lacan, em \u201cA Terceira\u201d, diz: \u201co homem conhece o mundo como conhece sua imagem, o que faz com que adore seu corpo. Se o adora \u00e9 porque acredita que o tem: a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o do parl\u00eatre com seu corpo \u00e9 de adora\u00e7\u00e3o.\u201d<sup>[2]<\/sup>\u00a0A ilus\u00e3o de completude que a imagem devolve \u00e9 o que faz do selfie uma pr\u00e1tica \u201cador\u00e1vel\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sefie cumpre a fun\u00e7\u00e3o aparente de \u201cocultar\u201d o que esburaca a imagem e de dar a ilus\u00e3o de completude que o ideal pede, onde promove-se a pr\u00f3pria imagem, na qual cada um \u201ccontrola\u201d como aparecer. Por\u00e9m, \u00e9 uma \u00e9poca na qual todos mostram tanto que j\u00e1 ningu\u00e9m olha e \u00e9 a\u00ed onde se faz presente um mal-estar que toca o corpo. como dizia uma adolescente: \u201csempre espero um\u00a0<em>like<\/em>, e quando n\u00e3o os vejo, me d\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o.\u201d E continua: \u201cvoltarei a colocar outro selfie para ver quem o olha.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da \u00e9poca dos olhares furtivos e indiscretos, passamos \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do despudor onde surge um espelho sem v\u00e9u que aponta para um ocaso da vergonha. O olhar \u00e9 convocado para fazer da imagem do corpo, que n\u00e3o se \u00e9, um espet\u00e1culo. \u201c\u00c9 um olhar castrado de seu poder de envergonhar\u2026\u201d<sup>[3]<\/sup>. O segredo do espet\u00e1culo, diz Miller, \u201c\u00e9 que tu \u00e9s quem o olha, porque gozas dele. \u00c9s tu como sujeito e n\u00e3o o Outro quem olha\u201d.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 hoje uma queda da vergonha, \u00e9 porque o \u00edntimo se tornou estrangeiro-estranho? O selfie seria uma manifesta\u00e7\u00e3o do \u201c\u00eaxtimo\u201d? Na medida em que a imagem como tamp\u00e3o \u201cpretende nos enganar sobre o verdadeiro sentido do\u00a0<em>\u00eaxtimo<\/em>: o de ser uma hi\u00e2ncia permanente, quer dizer, um buraco.\u201d<sup>\u00a0[5]<\/sup><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______________________________________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Miller, J.-A. \u201c<em>O Ser e o Um\u201d,\u00a0<\/em>D\u00e9cima Primeira li\u00e7\u00e3o do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 2011. In\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Lacan, J. \u201cA Terceira\u201d, In:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>\u00a0<em>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. E\u00f3lia, n\u00ba 62. p. 11-35.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Miller, J.-A. \u201c<em>Notas sobre la verg\u00fcenza<\/em>\u201d, In: Freudiana 39, 2004, Barcelona, Paid\u00f3s, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Idem. p. 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Najles, A. R.,\u00a0<em>Delicias de la intimidad. De la extimidad al sinthome,\u00a0<\/em>Grama, Buenos Aires, p.65.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1027"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1028,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1027\/revisions\/1028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}