{"id":1040,"date":"2021-09-02T11:58:03","date_gmt":"2021-09-02T14:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1040"},"modified":"2021-09-02T11:58:03","modified_gmt":"2021-09-02T14:58:03","slug":"antonio-beneti-tatuagem-e-fuga-do-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/antonio-beneti-tatuagem-e-fuga-do-corpo\/","title":{"rendered":"Ant\u00f4nio Beneti &#8211; Tatuagem e fuga do corpo"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antonio Beneti<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escritos no corpo, mais precisamente na pele, sempre existiram na hist\u00f3ria da humanidade, convocando o olhar do Outro. Desta forma, as tatuagens estariam inscritas sob a forma de um n\u00f3: pele, corpo e olhar do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul Val\u00e9ry, diz que o mais profundo \u00e9 a pele; ele a considera como um len\u00e7o humano onde se desenha e pinta. As crian\u00e7as, por exemplo, brincam, desenham, pintam e escrevem sobre o corpo.\u00a0<em>Tatuam-se nesta atividade l\u00fadica<\/em>. Um prov\u00e9rbio chin\u00eas diz que \u201cum corpo sem tatuar \u00e9 um corpo est\u00fapido!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra tatuagem procede da antiga l\u00edngua do Taiti: ato de desenhar. A pr\u00e1tica da tatuagem recebeu, ao longo da hist\u00f3ria, em cada \u00e9poca e em cada cultura, diferentes tratamentos, leituras e interpreta\u00e7\u00f5es, numa \u201cpr\u00e1tica do sentido\u201d dado pelo Outro da Cultura da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos e os romanos, por exemplo, de onde vem nossa cultura ocidental, n\u00e3o a consideravam uma pr\u00e1tica respeit\u00e1vel e a usavam para marcar escravos, criminosos e gladiadores. Usavam-na para marcar aqueles que ca\u00edram em desgra\u00e7a ou desaprova\u00e7\u00e3o. Assim, at\u00e9 hoje, uma certa marca de \u201cmarginalidade\u201d acompanha quem se tatua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra latina para tatuagem era: stigma. Assim, \u201co tatuado era um estigmatizado\u201d. Talvez seja este o sentido universal mais popular, ainda vigente\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, a igreja a considerou um sinal de paganismo a ser erradicado, ou uma manifesta\u00e7\u00e3o dos poderes de Satan\u00e1s. Mas muitas refer\u00eancias nos textos antigos indicam que era comum o costume dos primeiros crist\u00e3os tatuarem uma cruz, o nome de Cristo, um peixe ou um cordeiro, como signo de identifica\u00e7\u00e3o e pertin\u00eancia religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00e1rabes, principalmente as mulheres, tatuavam \u201cdagg\u201d ou \u201cdaqq\u201d, elemento ornamental ou terap\u00eautico, cumprimento de um desejo com a inten\u00e7\u00e3o de preservar o amor de um homem ou facilitar a indu\u00e7\u00e3o da gravidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No antigo Testamento existe uma passagem onde se pro\u00edbe a tatuagem ou as escarifica\u00e7\u00f5es. Na verdade, o juda\u00edsmo n\u00e3o permite nenhum tipo de marca no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na Polin\u00e9sia, a pr\u00e1tica da tatuagem \u00e9 bem desenvolvida; \u00e9 signo de identidade pessoal nas ilhas do Pac\u00edfico. Na antiga Samoa, tatuar era um of\u00edcio herdado com posi\u00e7\u00e3o privilegiada. A tatuagem no rapaz marcava uma transi\u00e7\u00e3o para o adulto e era prova de virilidade e coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, assim, a encontramos presente em v\u00e1rios povos do ocidente e oriente, em v\u00e1rias culturas, milenarmente, com v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es e in\u00fameras significa\u00e7\u00f5es sociais: sinal de beleza, devo\u00e7\u00e3o religiosa, marca de transi\u00e7\u00e3o do jovem ao adulto, distintivo do clan ou tribo, meio de identifica\u00e7\u00e3o pessoal ou forma de demonstrar valor ou virilidade, est\u00edmulo de atra\u00e7\u00e3o sexual, talism\u00e3 para afastar maus esp\u00edritos, parte necess\u00e1ria dos ritos funerais, diferencia\u00e7\u00e3o entre a mulher casada e a solteira, prova de amor, forma de marcar e identificar escravos, marginais e convictos (segrega\u00e7\u00e3o). Tamb\u00e9m podia ter fins curativos e preventivos. Os temas representados eram er\u00f3ticos, guerreiros, religiosos, alusivos a mitos ou lendas, plantas, animais ou cenas da vida cotidiana.\u00a0<strong>Mas sempre uma marca inscrita no corpo, um inscrito sobre a pele, endere\u00e7ado ao olhar do Outro<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Severo Sarduy (1996), em seu trabalho \u201cEscritos sobre o corpo\u201d, em que trata da liga\u00e7\u00e3o entre literatura e tatuagem, a tatuagem \u00e9 um escrito sobre o corpo. Ele confere \u00e0 tatuagem uma dimens\u00e3o equiparada \u00e0 literatura e sustenta que esta deve ser moldada pela opera\u00e7\u00e3o do desenho d\u00e9rmico, que implica circunscri\u00e7\u00e3o, pun\u00e7\u00e3o, dor e colorimento. Privilegia o campo esc\u00f3pico, o olhar, o espa\u00e7o e o tato. Para Sarduy, a literatura \u00e9 a arte do pict\u00f3rico. A autobiografia de Sarduy pode ser reconstru\u00edda a partir das inscri\u00e7\u00f5es em seu corpo em forma de cicatrizes e suturas por acidentes e enfermidades, que constituem uma verdadeira arqueologia da pele. Em \u201cEl Cristo de la rue Jacob\u201d, escrito autobiogr\u00e1fico, o corpo humano, para aceder ao sentido, tem que se transformar em texto m\u00f3vel, na marca de uma inscri\u00e7\u00e3o e um deciframento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a pele funciona como espelho e superf\u00edcie refletora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em \u201cUm testigo fugaz y disfrazado\u201d, ele diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSirva mi cuerpo cifrado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De emblema o de silogismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">La piel es um blazon vivo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se descifra em negativo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se lacera a si misma\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A adolesc\u00eancia parece ser o per\u00edodo em que h\u00e1 o maior \u201ctrabalho da tatuagem\u201d, funcionando como coadjuvante de uma ampla gama de conflitos pr\u00f3prios da idade. Ao coloc\u00e1-los na superf\u00edcie do corpo, servindo-se do imagin\u00e1rio, tais conflitos ficam percept\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tatuagem, hoje, \u00e9 um<em>\u00a0fen\u00f4meno social que se intensifica, se prolifera,<\/em>\u00a0<em>mas \u00e9 cada vez mais singular. S\u00e3o tatuagens esquisitas, incompreens\u00edveis, ininterpret\u00e1veis, nesse mundo onde o imagin\u00e1rio tem um papel prevalente em rela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atores e atrizes de toda ordem e de todos os campos (cinema, teatro, televis\u00e3o, porn\u00f4, etc) se apresentam com seus corpos tatuados, provocando o olhar centrado na tatuagem. Parece que vivemos uma \u00e9poca da \u201ctatuagem generalizada\u201d, de um \u201ctodos tatuados\u201d: adolescentes e jovens \u201cpraieiros\u201d, \u201cacad\u00eamicos\u201d, \u201cbaladeiros\u201d, m\u00e9dicos, ju\u00edzes, etc. \u00c9 algo que chama a aten\u00e7\u00e3o e invade o campo esc\u00f3pico e o da cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando surge, hoje, algu\u00e9m tatuado, olha-se a tatuagem. \u00c9 como se o resto se apagasse. Trata-se de um detalhe que adquire maior visibilidade que o todo corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A tatuagem no ensino de Lacan<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentemos pensar a tatuagem ontem, no s\u00e9culo passado e hoje, no s\u00e9culo XXI, no contempor\u00e2neo, a partir de algumas pontua\u00e7\u00f5es de Lacan e Miller com rela\u00e7\u00e3o ao tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evoco de in\u00edcio o texto \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d\u00b9, de 1948 (p 108 Zahar Ed.):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTem uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do homem com o seu pr\u00f3prio corpo que se manifesta igualmente na generalidade de uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas sociais \u2013 desde os\u00a0<em>ritos da tatuagem,<\/em>\u00a0da incis\u00e3o, da circuncis\u00e3o nas sociedades primitivas at\u00e9 no que poderia chamar-se o arbitr\u00e1rio procustiano da moda enquanto desmente nas sociedades avan\u00e7adas esse respeito das formas naturais do corpo humano cuja id\u00e9ia \u00e9 tardia na cultura\u201d. H\u00e1 um sujeito do inconsciente na tatuagem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia\u00b2, de 1963, p 277\/303, Lacan refere-se a \u201cmancha e pinta\u201d e, mais precisamente na p. 278, fala das\u00a0<em>\u201cvirtudes da tatuagem\u201d.<\/em>\u00a0No Semin\u00e1rio 11, em \u201colhar do cego e ponto zero do olhar\u201d, Lacan n\u00e3o fala diretamente da tatuagem, mas refere-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da mancha em uma ocasi\u00e3o em que ele trabalha a quest\u00e3o do objeto olhar. Ou seja,\u00a0<strong>a tatuagem mostra e esconde, tal qual a mancha (<\/strong>p 75<strong>).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra refer\u00eancia \u00e9 o texto \u201cProposta sobre a mutila\u00e7\u00e3o\u201d, de Jacques-Alain Miller (Correio da EBP, n\u00famero 25, 1997, pg.33 \u2013\u00a0<em>\u201cCar\u00edcia sobre a pele<\/em>\u201d) ,que coloco no final do texto como \u201ccloture\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recorreremos tamb\u00e9m a uma li\u00e7\u00e3o do Silet\u00b3 em que Miller trabalha a quest\u00e3o do olhar, ao semin\u00e1rio \u201cDivinos detalhes\u201d, rec\u00e9m estabelecido e publicado pela Paidos, e \u00e0 Revista \u201cLazos\u201d n. 6, da EOL\/Rosario<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrei outra refer\u00eancia sobre o tema em um livro de S\u00edlvia Reisfeld(4), uma psicanalista que faz uma leitura diferente da que um lacaniano faria dos fatos cl\u00ednicos e da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de certas quest\u00f5es, j\u00e1 que se trata de um trabalho cujo eixo pode ser considerado fenomenol\u00f3gico. Embora trate da subjetividade, n\u00e3o aborda quest\u00f5es fundamentais para n\u00f3s como a do gozo e a do objeto olhar, temas que s\u00f3 emergem no texto a partir de uma releitura com base nas refer\u00eancias que temos, tarefa que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, trata-se de um texto muito interessante, onde ela relaciona o tema com as tribos, a adolesc\u00eancia, as toxicomanias, com ilustra\u00e7\u00f5es de casos cl\u00ednicos. Cita, tamb\u00e9m, dois filmes importantes sobre o assunto: \u201cPillow book\u201d e \u201cIrezume, a mulher tatuada\u201d. Neste \u00faltimo, uma mulher tatua seu corpo a partir da fala do amante que aponta seu desejo de que ela tivesse uma tatuagem. A\u00a0<em>tatuagem<\/em>\u00a0torna-se, neste caso, um\u00a0<em>fetiche,<\/em>\u00a0que faz com que ela seja desejada pelo homem: parceiro-sintoma contempor\u00e2neo do lado masculino. \u201cDivino detalhe\u201d constru\u00eddo pela mulher para \u201cfetichizar\u201d, causar o desejo do homem que ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio \u201cO osso de uma an\u00e1lise\u201d (5), (1998), Jacques-Alain Miller diz que, ao lado do parceiro-sintoma contempor\u00e2neo, a devasta\u00e7\u00e3o, temos o\u00a0<em>fetiche<\/em>, um pequeno detalhe, como parceiro-sintoma do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa maneira, para abordar a tatuagem, este fen\u00f4meno de massa contempor\u00e2neo e o la\u00e7o social, \u00e9 necess\u00e1rio pensar uma cl\u00ednica que considere o falasser, a singularidade subjetiva, mais-al\u00e9m do universal fenom\u00eanico contempor\u00e2neo, pois a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 uma cl\u00ednica do singular, do detalhe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, al\u00e9m de uma fun\u00e7\u00e3o que cumpre a tatuagem, temos que escutar a posi\u00e7\u00e3o de cada um com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua tatuagem, em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo e seu endere\u00e7amento ao olhar do outro. Isto me permite formular uma frase:\u00a0<em>h\u00e1 um sujeito inconsciente na tatuagem (primeiro ensino), h\u00e1 um falasser (segundo ensino) na tatuagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria poss\u00edvel escutar no relato de dois fragmentos cl\u00ednicos (que n\u00e3o relatarei aqui) que a tatuagem cumpre fun\u00e7\u00f5es diferentes em cada um, possibilitando\u00a0<em>interrogar o que cada sujeito que se tatua quer com a tatuagem.<\/em>\u00a0Os dois casos cl\u00ednicos sugerem que\u00a0<strong>a tatuagem pode funcionar como uma \u201cautocura\u201d, no contexto de inven\u00e7\u00f5es singulares subjetivas<\/strong>, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, para certos sujeitos.\u00a0<em>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o singular do sujeito da tatuagem com o corpo, quando ela talvez v\u00e1 mais al\u00e9m de um detalhe.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de S\u00edlvia traz uma s\u00e9rie de itens ligados ao tema: tatuagem e toxicomania, adolesc\u00eancia, erotismo, letra, escrita no corpo, moldura corporal, a pele, o grupo de tatuagens, o olhar, entre outros. N\u00e3o vou me deter neles, apenas menciono que podemos extrair dali o tema da\u00a0<strong>rela\u00e7\u00e3o da tatuagem com o la\u00e7o social<\/strong>\u00a0(tema que trabalhamos em outro texto publicado em Op\u00e7\u00e3o lacaniana on line).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio \u201cA Ang\u00fastia\u201d, a partir da p\u00e1gina 235, e o cap\u00edtulo \u201cA esquize do olho e do olhar\u201d, que se encontra \u00e0 p\u00e1gina 75 da edi\u00e7\u00e3o brasileira do semin\u00e1rio 11, Lacan diz que se o que est\u00e1 por tr\u00e1s da mancha \u00e9 o olho, o que est\u00e1 por tr\u00e1s da mancha \u00e9 o olhar. Lacan distingue a fun\u00e7\u00e3o do olho e do olhar:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cDito de outro modo, n\u00e3o deveremos, quanto a isto, distinguir a fun\u00e7\u00e3o do olho e a do olhar? Este exemplo distintivo, escolhido por mim \u2013 por sua localidade, por seu fact\u00edcio, por seu car\u00e1ter excepcional \u2013 \u00e9 para n\u00f3s apenas uma pequena manifesta\u00e7\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o a ser isolada \u2013 a fun\u00e7\u00e3o, digamos o termo, da\u00a0<em>mancha<\/em>. Este exemplo \u00e9 precioso para nos marcar a preexist\u00eancia, ao visto, de um dado a ver, (\u2026) Se a fun\u00e7\u00e3o da mancha \u00e9 reconhecida em sua autonomia e identificada \u00e0 do olhar, podemos procurar sua inclina\u00e7\u00e3o, seu fio, seu tra\u00e7o, por todos os est\u00e1gios da constitui\u00e7\u00e3o do mundo no campo esc\u00f3pico. Percebemos ent\u00e3o que a fun\u00e7\u00e3o da mancha e do olhar \u00e9 ali ao mesmo tempo o que comanda mais secretamente e o que escapa sempre \u00e0 apreens\u00e3o dessa forma de vis\u00e3o que se satisfaz consigo mesma imaginando-se como consci\u00eancia. \u00b9\u00b3<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio 11, Lacan faz equivaler a fun\u00e7\u00e3o da mancha, trabalhada por ele no semin\u00e1rio 10, \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do olhar. \u201cEsse exemplo \u00e9 precioso para nos marcar a preexist\u00eancia ao visto de um dado ver.\u201d Desta maneira, quando olhamos para a tatuagem, se n\u00e3o vemos o resto, \u00e9 a mancha que recai, e nos concentramos ali sem conseguir tirar o olho dela, pois somos capturados por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan (14) acaba por abordar o olhar enquanto\u00a0<em>objeto a,\u00a0<\/em>no caminho da mancha e do sinal, observando que a mancha tem o estatuto de\u00a0<em>tiqu\u00ea,\u00a0<\/em>estatuto de\u00a0<em>objeto pequeno a,\u00a0<\/em>que quebra o\u00a0<em>automaton<\/em>\u00a0do significante. A partir dessas refer\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, no semin\u00e1rio 10 e 11,\u00a0<em>Lacan articula a tatuagem com a quest\u00e3o do objeto olhar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, no texto \u201cAgr\u00e9ssivit\u00e9 em psychanalyse\u201d(15), momento em que temos um Lacan kleiniano,\u00a0<em>associa a tatuagem com o corpo despeda\u00e7ado e \u00e0 pr\u00e1tica social.\u00a0<\/em>Trata-se de uma abordagem da tatuagem inscrita no contexto dos la\u00e7os sociais, ou seja, na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro. Lacan, neste momento, menciona\u00a0<em>os ritos da tatuagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indago como a tatuagem poderia ser abordada a partir da quest\u00e3o do corpo despeda\u00e7ado. Se a leitura do est\u00e1gio do espelho evidencia que n\u00e3o h\u00e1 resto, que falta a dimens\u00e3o do real, exclu\u00edda da perspectiva narc\u00edsica e imagin\u00e1ria, seria interessante investigar se, em determinados momentos, a tatuagem surgiria como uma tentativa do sujeito de recomposi\u00e7\u00e3o de uma imagem em determinadas situa\u00e7\u00f5es, como nas psicoses em que temos o sujeito nessa t\u00f3pica especular ou na histeria em que sujeitos podem tamb\u00e9m lan\u00e7ar m\u00e3o da tatuagem para recompor algo da imagem endere\u00e7ada ao olhar do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a tatuagem, na amarra\u00e7\u00e3o borromeana, com o fim de reparar o defeito do n\u00f3, ou seja, recuperar as propriedades borromeanas do n\u00f3, pode n\u00e3o apontar para a estabiliza\u00e7\u00e3o definitiva, mas apresentar-se como algo que produz um certo apaziguamento moment\u00e2neo que permite ao sujeito avan\u00e7ar. Podemos observar, na cl\u00ednica, muitos casos em que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, casos em que o sujeito faz uma tatuagem, depois outra, e outra, vai se tatuando sem alcan\u00e7ar uma estabiliza\u00e7\u00e3o, mas logrando atingir um apaziguamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto, lembro o que disse Jacques-Alain Miller, em 1997, depois, portanto, da abordagem do \u00faltimo ensino de Lacan, observa\u00e7\u00e3o que me parece bastante pertinente com a rela\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o da tatuagem com o la\u00e7o social. No texto \u201cProposta sobre a mutila\u00e7\u00e3o\u201d, ele fala\u00a0<em>da escrita sobre o corpo, n\u00e3o como mutila\u00e7\u00e3o, mas como uma car\u00edcia sobre a pele com fun\u00e7\u00e3o socializante:<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201ca mutila\u00e7\u00e3o ritual responde a uma exig\u00eancia definida, codificada conforme a lei de um sistema biol\u00f3gico, social, religioso, em todo caso de um sistema constitucional assim como a incid\u00eancia da realidade social, de seus s\u00edmbolos, seus semblantes, sobre a realidade do corpo vivo, tanto sobre a mat\u00e9ria quanto sobre a mat\u00e9ria!(verificar cita\u00e7\u00e3o).Eu n\u00e3o vou lembrar os dados etnol\u00f3gicos que se encontram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos. Isto diz respeito \u00e0\u00a0<em>fun\u00e7\u00e3o socializante, simbolizante, da marca escrita sobre o corpo e a pele que \u00e9 a tatuagem \u2013<\/em>\u00a0que \u00e9, de algum modo, uma simples, n\u00e3o mutila\u00e7\u00e3o, mas\u00a0<em>car\u00edcia sobre a pele<\/em>, uma pintura \u2013 com marcas inscritas no corpo, na carne, nas escarifica\u00e7\u00f5es, as cicatrizes rituais\u201d(16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar essa pontua\u00e7\u00e3o sobre a tatuagem, assinalemos sua rela\u00e7\u00e3o com o tema do Enapol, com o imagin\u00e1rio, o corpo, citando uma passagem do Semin\u00e1rio 23 de Lacan (no Cap. IV, \u201cJoyce e o enigma da raposa\u201d, pg. 64, Ed. Bras, Jorge Zahar Editor, R.J., 2007, quando fala do \u201camor pr\u00f3prio\u201d ) :<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00a0\u201cO amor pr\u00f3prio \u00e9 o princ\u00edpio da imagina\u00e7\u00e3o. O falasser adora o seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. \u2026 O corpo decerto n\u00e3o se evapora e, nesse sentido, ele \u00e9 consistente\u2026\u00e9 precisamente o que \u00e9 antip\u00e1tico para a mentalidade, porque ela cr\u00ea nisso, ter um corpo para adorar. \u00c9 a raiz do imagin\u00e1rio. \u2026\u00e9 o sexual que mente l\u00e1 dentro\u2026 Na falta da abstra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria acima citada, aquela que se reduz \u00e0 consist\u00eancia, o concreto, o \u00fanico que conhec\u00edamos \u00e9 sempre a adora\u00e7\u00e3o sexual, dito de outro modo, o desprezo, pois o que adoram \u00e9 suposto n\u00e3o ter nenhuma mentalidade,\u00a0<em>confer<\/em>\u00a0o caso de Deus. Isso n\u00e3o \u00e9 verdadeiro para o corpo considerado como tal \u2014 quero dizer adorado, posto que a adora\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com o seu corpo \u2014 sen\u00e3o quando ele adora assim um outro, um outro corpo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00ednhamos a \u201cfuga do sentido\u201d e aqui Lacan marca a \u201cfuga do corpo\u201d, da\u00ed teremos sempre um falasser atormentado em sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Hoje vemos \u201ccorpos tatuados \u201cnesse contempor\u00e2neo onde o imagin\u00e1rio joga esse papel preponderante, diferentemente das pequenas \u201ctatuagens no corpo\u201d (I\/S), como no s\u00e9culo passado onde geralmente simbolizavam algo, onde tinha um sujeito da\/na tatuagem, endere\u00e7ada ao olhar do Outro. Hoje, o falasser tenta segurar a fuga do corpo (I\/R) com as tatuagens generalizadas, compr\u00e1veis como gadgets no \u201cmercado tatoo\u201d capitalista. E, ele foge\u2026 sempre. E, as tatuagens existir\u00e3o sempre, na hist\u00f3ria da Humanidade\u2026 n\u00e3o cessando de deixar de serem inscritas na pele do falasser\u2026<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1040"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1041,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions\/1041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}