{"id":1042,"date":"2021-09-02T12:00:39","date_gmt":"2021-09-02T15:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1042"},"modified":"2021-09-02T12:00:39","modified_gmt":"2021-09-02T15:00:39","slug":"sergio-laia-o-que-e-imperio-o-que-sao-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/sergio-laia-o-que-e-imperio-o-que-sao-imagens\/","title":{"rendered":"S\u00e9rgio Laia &#8211; O que \u00e9 \u201cImp\u00e9rio\u201d, o que s\u00e3o \u201cimagens\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\">Tomando como refer\u00eancia o t\u00edtulo do VII Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (ENAPOL) \u2013\u00a0<em>O imp\u00e9rio das imagens<\/em>\u00a0\u2013 pareceu-me importante elucidar o que concebemos como \u201cimp\u00e9rio\u201d e como \u201cimagens\u201d. Apresentarei, aqui, algumas notas de um trabalho ainda em curso, considerando que estamos nos preparando para esse evento. Assim, \u00e9 oportuno que este texto seja o desdobramento de uma atividade realizada no Centro Lacaniano de Investiga\u00e7\u00e3o da Ansiedade (CLIN-a), um dos Institutos do Campo Freudiano em S\u00e3o Paulo, porque esse seu ponto de partida me permitiu aproximar do tema abordado como eu fa\u00e7o geralmente em uma aula, ou seja, muito mais por uma apresenta\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias, argumentos e princ\u00edpios de elabora\u00e7\u00e3o que de um trabalho propriamente conclu\u00eddo. Assim, vou desenvolver algumas refer\u00eancias que venho estudando, hip\u00f3teses que tenho formulado, investigado e que gostaria de compartilhar com outros interessados nesse tema do \u201cimp\u00e9rio\u201d e das \u201cimagens\u201d, mas destaco que ainda me encontro, digamos assim, em um momento de constru\u00e7\u00e3o ou, como demarca uma express\u00e3o inglesa, trata-se de um\u00a0<em>work in progress<\/em>, de um \u201ctrabalho em andamento\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Nova ordem mundial da segrega\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu ponto de partida para elucidar o que seria o termo \u201cimp\u00e9rio\u201d \u00e9 uma passagem de Lacan que encontra no escrito intitulado \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da Crian\u00e7a\u201d[1], apresentado em 1967 em uma Jornada sobre psicose infantil organizada por Maud Mannoni que, \u00e0 \u00e9poca, ainda partilhava uma proximidade com Lacan. Destaco-lhes que esteve tamb\u00e9m presente, nesse evento, David Cooper, o c\u00e9lebre antipsiquiatra cuja pr\u00e1tica se concentrou na Inglaterra e Jean Oury, um dos principais sustent\u00e1culos da n\u00e3o menos contestadora experi\u00eancia de\u00a0<em>La Borde<\/em>\u00a0com a loucura. Lacan come\u00e7a com uma discuss\u00e3o sobre a loucura e a liberdade e, por isso, lembro-lhes que David Cooper e Jean Oury estavam naquela Jornada[2]. A data dessa alocu\u00e7\u00e3o e seu tema tamb\u00e9m nos permitem uma men\u00e7\u00e3o ao que ser\u00e1 maio de 1968, uma vez que Lacan a inicia com o tema da liberdade. Nesse contexto, ele diz que o progresso da ci\u00eancia implicava um questionamento das estruturas sociais e que isso era vivido como alguma coisa absolutamente nova e surpreendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sustentaria, portanto, que h\u00e1 algo da subjetividade da \u00e9poca do final da d\u00e9cada de 1960 que, al\u00e9m de se consolidar, vai se radicalizar, quando consideramos o que se passa em nos nossos dias. Afinal, \u00e9 interessante observar tamb\u00e9m que enquanto \u00e0quela \u00e9poca vivia-se a discuss\u00e3o, o \u201cquestionamento das estruturas sociais\u201d como uma demonstra\u00e7\u00e3o do que seria a liberdade, Lacan dizia, nessa mesma ocasi\u00e3o, que esse tipo de questionamento acabava por nos confrontar, \u201dt\u00e3o longe quanto nosso universo se estender\u201d[3] (ou seja: at\u00e9 hoje e ainda no futuro que temos pela frente) com a segrega\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, temos um paradoxo, e com ele Lacan apresenta certa disson\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao nosso ainda atual entusiasmo pela liberdade: questionamos as estruturas sociais como um modo de experimentar que somos livres, mas esse questionamento nos conduz tamb\u00e9m \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 propriamente compat\u00edvel com o que concebemos, experimentamos e aspiramos como liberdade. Por\u00e9m, essa articula\u00e7\u00e3o que Lacan faz entre o avan\u00e7o da ci\u00eancia, o \u201cquestionamento das estruturas sociais\u201d e a expans\u00e3o planet\u00e1ria da segrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica, de sua parte, nem da orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica por ele sustentada, um posicionamento conservador em defesa de uma ordem que j\u00e1 n\u00e3o existiria mais \u2013 trata-se de uma interpreta\u00e7\u00e3o quanto ao que, hoje at\u00e9 mais que em 1967, se apresenta como sintoma na cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ao explicitar essa refer\u00eancia \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o, que ser\u00e3o introduzidos os termos \u201cimp\u00e9rio\u201d e \u201cimperialismos\u201d[4]. Recordo-lhes que terminol\u00f3gica e politicamente \u201cimperialismo\u201d tinha uma presen\u00e7a muito maior que \u201cimp\u00e9rio\u201d, no final da d\u00e9cada de 1960 e ao longo de toda a d\u00e9cada seguinte. Hoje, como demonstrarei mais adiante, se tomarmos como par\u00e2metros o que se discute e se mobiliza como \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 justo o contr\u00e1rio, especialmente se levarmos em conta proposi\u00e7\u00f5es de dois autores contempor\u00e2neos com os quais vou tamb\u00e9m trabalhar aqui. Mas, atendo-me ainda apenas \u00e0 alocu\u00e7\u00e3o de Lacan, a cita\u00e7\u00e3o do termo \u201cimp\u00e9rio\u201d aparece efetivamente na seguinte passagem:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cos homens se engajam em um tempo que \u00e9 chamado de \u2018planet\u00e1rio\u2019, onde eles v\u00e3o ser informados de alguma coisa que surgiu de uma antiga ordem social, que eu simbolizaria pelo Imp\u00e9rio, tal como sua sombra se perfilou por muito tempo, em uma grande civiliza\u00e7\u00e3o\u201d[5].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, essa alus\u00e3o ao \u201cImp\u00e9rio\u201d est\u00e1 associada \u00e0 Roma na Antiguidade e, nesse \u201ctempo\u201d j\u00e1 qualific\u00e1vel, em 1967, como \u201cplanet\u00e1rio\u201d, assistir\u00edamos \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de uma \u201cordem social\u201d ainda norteada por uma tal concep\u00e7\u00e3o imperial, bem como \u00e0 sua substitui\u00e7\u00e3o por algo bem diferente, e que n\u00e3o teria de modo algum, segundo Lacan, o mesmo sentido: no lugar do \u201cImp\u00e9rio\u201d, aparecem \u201cos imperialismos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os \u201cimperialismos\u201d, segundo Lacan, o que importa \u00e9 a seguinte quest\u00e3o: \u201ccomo fazer para que as massas humanas fadadas ao mesmo espa\u00e7o, n\u00e3o somente geogr\u00e1fico, mas ocasionalmente familiar, permane\u00e7am separadas?\u201d[6]. Portanto, os \u201cimperialismos\u201d visariam promover a separa\u00e7\u00e3o das massas humanas tanto no \u00e2mbito geogr\u00e1fico quanto no \u00e2mbito familiar e me parece poss\u00edvel dizer que essa separa\u00e7\u00e3o, ou seja, essa segrega\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que, em suas diferen\u00e7as e multiplicidades, os define. Mas, e o \u201cImp\u00e9rio\u201d? Embora n\u00e3o tenhamos exatamente uma defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 esse termo para Lacan, parece-me poss\u00edvel sustentar que, por relacion\u00e1-lo ao Imp\u00e9rio Romano, a quest\u00e3o \u00e9 bem diferente. Afinal, esse Imp\u00e9rio, na Antiguidade, p\u00f4de se estender preservando, nos diferentes povos que dominou, a refer\u00eancia a esse Um que era Roma: a unifica\u00e7\u00e3o das massas humanas, mesmo com a manuten\u00e7\u00e3o de suas diferentes l\u00ednguas, seus variados costumes, suas diversas formas de vida, se realizava em torno de Roma. Em outras palavras: se Roma se destacou como uma refer\u00eancia para \u201cImp\u00e9rio\u201d, \u00e9 porque p\u00f4de manter um equil\u00edbrio entre a diversidade dos povos dominados e a unidade sustentada pelo que era considerado \u201cromano\u201d. Por exemplo, quando visitamos ainda hoje as ru\u00ednas do Imp\u00e9rio Romano, podemos constatar como os deuses locais, espec\u00edficos de cada povo dominado, eram integrados ao pante\u00e3o romano e, no culto ao imperador romano, essa multiplicidade era orquestrada. Ora, o que selava a c\u00e9lebre ordem imperial romana n\u00e3o era justamente esse respeito por alguma diferen\u00e7a entre os povos dominados por Roma? N\u00e3o estaria nesse acolhimento de diferentes deuses em um mesmo pante\u00e3o a manuten\u00e7\u00e3o de um amor por Roma?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse acolhimento do m\u00faltiplo no Um \u00e9, em um belo romance em que Pablo Montoya reconstr\u00f3i o ex\u00edlio de Ov\u00eddio \u2013\u00a0<em>Lejos de Roma<\/em>\u00a0(<em>Longe de Roma<\/em>), tamb\u00e9m o que esse c\u00e9lebre poeta da antiguidade romana vai apresentar a uma quest\u00e3o que lhe coloca Emilia, nascida em \u00c9feso e com um pai cuja proveni\u00eancia da Capad\u00f3cia n\u00e3o o impediu de se romanizar \u201cgra\u00e7as a seu ir-e-vir como comerciante pelo Imp\u00e9rio\u201d[7]. A quest\u00e3o de Emilia, que n\u00e3o deixa de reverberar o que ela recebe como heran\u00e7a paterna, se coloca assim: \u201cO que \u00e9 ser romano?\u201d[8]. A resposta de Ov\u00eddio, mesmo como um proscrito, um segregado de Roma, \u00e9 exemplar para uma elucida\u00e7\u00e3o sobre o modo como o Um do Imp\u00e9rio romano se armava com o m\u00faltiplo de suas pr\u00f3prias conquistas e de sua pr\u00f3pria extens\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cRoma \u00e9 P\u00e9rsia\u2026, \u00e9 Egito, \u00e9 Lusit\u00e2nia, \u00e9 Maurit\u00e2nia, e ser romano \u00e9 ser de todas as partes, pelo menos daquelas onde a humanidade e a civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o a express\u00e3o de um abra\u00e7o mais ou menos afortunado. Roma \u00e9 teu nome e os tra\u00e7os de teu corpo. Roma \u00e9 teres nascido em uma das prov\u00edncias da \u00c1sia e poder falar em latim comigo\u2026 Ser romano\u2026 \u00e9 sobretudo saber que o latim \u00e9 a morada em que se pensa, se sente e se sonha. Da\u00ed, nossas pretens\u00f5es de sermos t\u00e3o cultos como os gregos, ou t\u00e3o misteriosos como os eg\u00edpcios, ou t\u00e3o hospitaleiros como os persas\u201d[9].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 que em Roma a segrega\u00e7\u00e3o estivesse ausente (o pr\u00f3prio ex\u00edlio de Ov\u00eddio pelo Imperador Augusto nos mostra justo o contr\u00e1rio), mas, segundo Lacan, ela se radicaliza, muitos s\u00e9culos depois, com os chamados \u201cimperialismos\u201d, uma vez que nestes \u00faltimos o Um se fragmenta e a domina\u00e7\u00e3o se faz com a imposi\u00e7\u00e3o de um \u201cpadr\u00e3o\u201d que descaracteriza as diferen\u00e7as entre os povos dominados: no \u201cimperialismo\u00a0<em>yankee<\/em>\u201d, por exemplo, todos se guiariam pelo\u00a0<em>american way of life<\/em>\u00a0\u2013 a variedades das l\u00ednguas, as diversidades religiosas, entre outras diferen\u00e7as, podiam at\u00e9 ser mantidas localmente, em cada pa\u00eds dominado, mas n\u00e3o no pante\u00e3o do dominador e era deste \u00faltimo que emanava um modo de vida a ser experimentado por todos. Assim, um pa\u00eds dominado pelo \u201cimperialismo\u00a0<em>yankee<\/em>\u201d passava adotar a cultura por ele propagada, mas o dominador \u2013 ao contr\u00e1rio do que o Ov\u00eddio recriado por Montoya responde \u00e0 Emilia \u2013 jamais se dir\u00e1, como rela\u00e7\u00e3o a algumas de suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas, que cont\u00e9m ou admira um tra\u00e7o sequer do pa\u00eds dominado.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Um contraponto atual<\/em><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considero importante, hoje, ao abordar o termo \u201cImp\u00e9rio\u201d, levar em conta o livro hom\u00f4nimo publicado, em 2000, por Hardt e Negri[10]. Ele pode ser lido, a meu ver, como um contraponto ao que pude encontrar em Lacan porque seus autores sustentam que estar\u00edamos vivendo o fim dos \u201cimperialismos\u201d e um retorno ao \u201cImp\u00e9rio\u201d, enquanto que a posi\u00e7\u00e3o de Lacan, em 1967 (mas que, conforme procurarei demonstrar, me parece ainda atual), era justo o inverso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hardt e Negri, j\u00e1 no Pref\u00e1cio do livro, afirmam que o processo de globaliza\u00e7\u00e3o de trocas econ\u00f4micas e culturais envolve um \u201cmercado global\u201d e \u201ccircuitos globais de produ\u00e7\u00e3o\u201d, criando \u201cuma ordem global, uma nova l\u00f3gica e estrutura de comando\u201d, \u201cuma nova supremacia\u201d das quais \u201co imp\u00e9rio \u00e9 a subst\u00e2ncia\u201d[11]. Verificamos, assim, uma diminui\u00e7\u00e3o gradual da soberania dos Estados-na\u00e7\u00e3o porque, embora eles sejam ainda eficientes, cada vez mais \u201cos fatores prim\u00e1rios de produ\u00e7\u00e3o e troca \u2013 dinheiro, tecnologia, pessoas e bens \u2013\u201d se sobrep\u00f5em \u00e0s fronteiras nacionais, diminuindo o poder do Estado-na\u00e7\u00e3o de lhes regular os fluxos e exercer uma \u201cautoridade sobre a economia\u201d[12]. A crescente valoriza\u00e7\u00e3o do mais amplo G20 (grupo das 19 maiores economias mundiais e da Uni\u00e3o Europeia) frente ao seleto G7 (grupo formado pelas consideradas sete na\u00e7\u00f5es mais ricas do mundo \u00ad\u00ad\u2013 Alemanha, Canad\u00e1, Estados Unidos, Fran\u00e7a, Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, It\u00e1lia e Jap\u00e3o), a proemin\u00eancia dos chamados BRICs (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul) no cen\u00e1rio mundial, bem como a for\u00e7a da internet na difus\u00e3o de not\u00edcias, costumes, atitudes ou os modos como o que acontece na Bolsa de um pa\u00eds asi\u00e1tico e o aquecimento do planeta afetam a economia mundial a ponto de redes transnacionais serem criadas para se buscar solu\u00e7\u00f5es mostram-nos como isso que, reunindo dois termos utilizados por Hardt e Negri, chamarei de\u00a0<em>subst\u00e2ncia-Imp\u00e9rio<\/em>\u00a0se imiscui por todo o planeta sem se deixar localizar especificamente em um \u00fanico Estado-na\u00e7\u00e3o ou pa\u00eds, sem emanar de um mesmo ponto ou de um centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse assolamento dos Estados-na\u00e7\u00e3o pela\u00a0<em>subst\u00e2ncia-Imp\u00e9rio<\/em>\u00a0\u2013 que os mobiliza, ultrapassa e ao mesmo tempo \u00e9 por eles preservada e propulsada \u2013 permite a Hardt e Negri atribu\u00edrem ao termo \u201cImp\u00e9rio\u201d um valor determinante para se apreender o que est\u00e1 em jogo hoje no mundo. Essa valoriza\u00e7\u00e3o os fazem descartar o termo \u201cimperialismo\u201d porque este \u00faltimo se consolida, nos dois \u00faltimos s\u00e9culos, com a extens\u00e3o dos Estados-na\u00e7\u00e3o. Assim, entre os s\u00e9culos XVI a XVIII, o mapa-m\u00fandi era colorido de acordo com a coloniza\u00e7\u00e3o promovida por cada pa\u00eds-imperialista \u2013 a domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica era indicada em vermelho; a francesa, em azul; a portuguesa, em verde e, assim, a cada \u201cimperialismo\u201d, correspondia uma cor b\u00e1sica. Com a extens\u00e3o dos Estados-na\u00e7\u00e3o ao longo do s\u00e9culo XIX e em boa parte do s\u00e9culo XX, os \u201cimperialismos\u201d passam a se impor para al\u00e9m de suas fronteiras. Assim, o que na d\u00e9cada de 1960 e 1970 era chamado de \u201cimperialismo\u00a0<em>yankee<\/em>\u201d n\u00e3o se circunscrevia apenas aos pa\u00edses nos quais os Estados Unidos da Am\u00e9rica exerciam um dom\u00ednio pol\u00edtico, militar, econ\u00f4mico e cultural: ele se difundia atrav\u00e9s de filmes, costumes, ideais, pol\u00edticas e a todo e qualquer outro produto\u00a0<em>made in America<\/em>\u00a0consumido para al\u00e9m das fronteiras norte-americanas. Nesse mesmo vi\u00e9s, especialmente a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, a domina\u00e7\u00e3o colonialista, ainda tribut\u00e1ria dos chamados Estados-na\u00e7\u00e3o, desaparece progressivamente do mapa-m\u00fandi, evidenciando assim, para Hardt e Negri, sen\u00e3o o fim, certamente a decad\u00eancia e a fragiliza\u00e7\u00e3o dos \u201cimperialismos\u201d em nossa atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prefer\u00eancia de Hardt e Negri pelo termo \u201cImp\u00e9rio\u201d se vale de seu conceito e, por isso, mesmo que sua propaga\u00e7\u00e3o hoje implique semelhan\u00e7as entre a ordem mundial atual e os Imp\u00e9rios Romano, Chin\u00eas e Americano, interessa-lhes muito mais destacar e trabalhar com o \u201cconceito\u201d de imp\u00e9rio: aus\u00eancia de fronteiras espaciais e temporais; exerc\u00edcio de um poder ilimitado no espa\u00e7o e no tempo, funcionando em todos os estratos da vida social; governo de todo o mundo dito \u201ccivilizado\u201d, de modo a administrar n\u00e3o apenas \u201cum territ\u00f3rio com sua popula\u00e7\u00e3o\u201d, mas tamb\u00e9m \u201co pr\u00f3prio mundo que ele [o imp\u00e9rio] cria\u201d; al\u00e9m da regula\u00e7\u00e3o das \u201cintera\u00e7\u00f5es humanas\u201d, \u00e9 decisivo \u201creger diretamente a natureza humana\u201d; mesmo que a pr\u00e1tica do \u201cImp\u00e9rio\u201d se fa\u00e7a continuamente com o derramamento de sangue, o \u201cimp\u00e9rio\u201d, como conceito, \u201c\u00e9 sempre dedicado \u00e0 paz \u2013 uma paz perp\u00e9tua e universal, fora da Hist\u00f3ria\u201d[13].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, o que prefigura a dissemina\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>subst\u00e2ncia-Imp\u00e9rio<\/em>\u00a0na nossa atualidade ou, nos termos de Hardt e Negri, o que \u201cfaz avan\u00e7ar a transi\u00e7\u00e3o para um sistema propriamente global\u201d no qual se veicula tal subst\u00e2ncia \u00e9 a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)[14]. Essa prefigura\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de implicar um contrassenso na medida em que, do ponto de vista de sua miss\u00e3o e de seus prop\u00f3sitos oficiais, a ONU n\u00e3o teria qualquer pretens\u00e3o imperial, tampouco seria imperialista, mas, se ela for apreendida, como almejam Hardt e Negri, sob a \u00f3tica das caracter\u00edsticas do \u201cconceito\u201d de \u201cImp\u00e9rio\u201d, ser\u00e1 mais f\u00e1cil discernir o que os levam a situ\u00e1-la como uma prefigura\u00e7\u00e3o do que hoje \u00e9 o \u201cImp\u00e9rio\u201d. Afinal, a ONU resulta de uma crise da ordem internacional, tal como se p\u00f4de constatar, por exemplo, com o fracasso da Liga das Na\u00e7\u00f5es frente ao advento da Segunda Guerra Mundial. Ela visa promover, ent\u00e3o, uma \u201cordem global\u201d, \u201c<em>supranacional<\/em>\u201d, uma valida\u00e7\u00e3o \u201cdo direito acima do Estado-na\u00e7\u00e3o\u201d, permitindo ao \u201cconceito jur\u00eddico de Imp\u00e9rio\u2026 ganhar forma\u201d[15]. Ainda assim, para Hardt e Negri, mesmo sendo uma transi\u00e7\u00e3o para essa nova ordem mundial que \u00e9 o Imp\u00e9rio, a ONU n\u00e3o consegue efetivamente acompanhar \u201co ritmo acelerado, a viol\u00eancia e a necessidade\u201d com que esse \u201cnovo paradigma imperial funciona\u201d[16]: o \u201cImp\u00e9rio\u201d radicaliza e pode mesmo contrariar a ONU que o prefiguraria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A concep\u00e7\u00e3o atual do \u201cImp\u00e9rio\u201d, segundo Hardt e Negri, comporta um \u201cnovo paradigma\u201d porque coloca em cena \u201cuma nova no\u00e7\u00e3o de direito\u2026, um novo registro de autoridade e um projeto original de produ\u00e7\u00e3o de normas e de instrumentos legais de coer\u00e7\u00e3o que fazem valer contratos e resolvem conflitos\u201d[17], uma \u201cgarantia de justi\u00e7a para todos\u201d[18], \u201cum permanente estado de emerg\u00eancia e exce\u00e7\u00e3o, justificado pelo\u00a0<em>apelo a valores essenciais de justi\u00e7a<\/em>\u201d de modo que mesmo \u201co direito de pol\u00edcia\u201d torna-se \u201clegitimado por valores universais\u201d[19]. Mas a for\u00e7a atual do \u201cImp\u00e9rio\u201d n\u00e3o est\u00e1 dissociada da sua pr\u00f3pria corrup\u00e7\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 mais propriamente uma \u201cascens\u00e3o\u201d e depois um \u201cdecl\u00ednio\u201d ou uma \u201cqueda\u201d \u2013 \u201co Imp\u00e9rio nasce e se revela como crise\u201d[20], e crise, portanto, que se trata de concomitantemente administrar e fazer proliferar, manejar e manter, combater e insuflar, conforme se processam suas a\u00e7\u00f5es nesse novo mundo globalizado. O \u201cImp\u00e9rio\u201d descrito por Hardt e Negri em 2000 se vale, ent\u00e3o, insistentemente do que Miller e Laurent localizaram, cerca de dois anos antes, em 1998-1999, como a prolifera\u00e7\u00e3o dos \u201ccomit\u00eas de \u00e9tica\u201d em um mundo do \u201cOutro que n\u00e3o existe\u201d[21].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por que \u2013 mesmo considerando o esfor\u00e7o pol\u00edtico-intelectual de Hardt e Negri \u2013 me parece mais instigante manter e atualizar a proposi\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a substitui\u00e7\u00e3o do \u201cImp\u00e9rio\u201d pelos \u201cimperialismos\u201d? A meu ver, se Hardt e Negri criticam a insufici\u00eancia do termo \u201cimperialismo\u201d para dar conta do que hoje se imp\u00f5e como \u201cImp\u00e9rio\u201d, \u00e9 porque eles se baseiam na fragiliza\u00e7\u00e3o atual de muitos \u201cEstados-na\u00e7\u00e3o\u201d que hist\u00f3rica, pol\u00edtica e economicamente dominavam e devastavam, sem d\u00favida, o mundo com seus respectivos \u201cimperialismos\u201d. Em outros termos, a globaliza\u00e7\u00e3o enfraquece de modo bastante consider\u00e1vel o poder imperialista de um Estado-na\u00e7\u00e3o porque, sobretudo nas tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que um pa\u00eds, por exemplo, faz ou deixa de fazer em outro pa\u00eds pode afetar n\u00e3o apenas essas duas na\u00e7\u00f5es, mas todo o planeta. Por\u00e9m, as concep\u00e7\u00f5es lacanianas de \u201cimp\u00e9rio\u201d e de \u201cimperialismo\u201d, embora evoquem e mesmo joguem com as acep\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sociais desses termos, se valem ou nos convidam a tom\u00e1-los muito mais em uma dimens\u00e3o que eu qualificaria de \u201cpulsional\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa dimens\u00e3o pulsional que, a meu ver, faz Lacan localizar como orienta\u00e7\u00e3o dos \u201cimperialismos\u201d manter separadas as massas humanas destinadas, segundo ele mesmo ressalta, a um mesmo espa\u00e7o n\u00e3o apenas geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m familiar. Como corol\u00e1rio, considero poss\u00edvel estimar que, em uma ordem social pautada pelo que Lacan, evocando Roma Antiga, chama de \u201cImp\u00e9rio\u201d, n\u00e3o havia esse esfor\u00e7o para separar as massas geogr\u00e1fica e familiarmente. Portanto, mesmo com todo o banho de sangue que perpassou a instaura\u00e7\u00e3o, a manuten\u00e7\u00e3o e a queda do Imp\u00e9rio Romano, este n\u00e3o deixava de se pautar no que eu chamaria de\u00a0<em>amor ao pai<\/em>, ou seja, em um investimento pulsional no que Roma simbolizava e irradiava. Da\u00ed, por exemplo, essa tend\u00eancia imperial romana de incluir, em um \u00fanico pante\u00e3o, mas mantendo suas diversidades, os deuses de outros povos cujos territ\u00f3rios foram anexados a tal Imp\u00e9rio. Ora, com a ascens\u00e3o dos \u201cimperialismos\u201d e a destrui\u00e7\u00e3o de uma ordem social que ainda se valia desse\u00a0<em>amor ao pai<\/em>\u00a0bastante destacado desde o Imp\u00e9rio romano, intensifica-se o interesse de que as massas humanas sejam separadas n\u00e3o apenas geograficamente, mas ainda no espa\u00e7o familiar. Considero que esse tipo de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das modalidades do que Lacan chamou de \u201csegrega\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, desse processo que, como vimos, se recrudesce com \u201cquestionamento de todas as estruturas sociais pelo progresso da ci\u00eancia\u201d[22].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, a segrega\u00e7\u00e3o j\u00e1 existia em um mundo enredado no\u00a0<em>amor ao pai<\/em>, mas ela tendia a se realizar bem alhures, nesse mundo Outro onde os romanos, por exemplo, situavam os \u201cb\u00e1rbaros\u201d ou, nos limites do Imp\u00e9rio Romano, na presen\u00e7a cotidiana dos \u201cescravos\u201d ou dos \u201cexilados\u201d que tamb\u00e9m n\u00e3o deixavam de ser, no mundo dito \u201ccivilizado\u201d, a presen\u00e7a da \u201cbarb\u00e1rie\u201d. Por\u00e9m, com o decl\u00ednio do\u00a0<em>amor ao pai<\/em>\u00a0como um regulador da ordem social, com o progresso da ci\u00eancia e com o questionamento das estruturas sociais, a segrega\u00e7\u00e3o se intensifica, se expande, se pluraliza, passando a se instalar na pr\u00f3pria intimidade das fam\u00edlias: o estranho se imiscui no espa\u00e7o familiar, mas n\u00e3o \u00e9 apenas, como nos tempos de Freud, privil\u00e9gio do que se apresenta pontualmente no espa\u00e7o noturno dos sonhos ou nos contos soturnos de um Hoffmann \u2013 o estranho \u00e9 interpolado ao familiar em escala planet\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o, portanto, que Lacan, em um pronunciamento voltado para as psicoses da inf\u00e2ncia, vai articular questionamento das estruturas sociais, avan\u00e7o da ci\u00eancia, liberdade, segrega\u00e7\u00e3o e loucura: a liberdade do psic\u00f3tico perante o\u00a0<em>amor ao pai<\/em>\u00a0o torna um alvo privilegiado dos processos segregativos \u2013 o la\u00e7o social lhe \u00e9 uma impostura e, assim, um psic\u00f3tico tanto pode se isolar do que a trama social enreda, n\u00e3o encontrando, como se diz, um \u201clugar no mundo\u201d, quanto se identificar t\u00e3o tenazmente a uma fun\u00e7\u00e3o social que faz dela \u201co\u201d mundo sem o qual sua vida desaba e, seja nessa posi\u00e7\u00e3o de isolamento, seja nessa identifica\u00e7\u00e3o[23], um psic\u00f3tico pode ainda ser apresentado como aquele do qual muitas vezes se prefere tomar a maior dist\u00e2ncia, inclusive no \u00e2mbito da sua pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u201cimperialismos\u201d substituiriam o \u201cImp\u00e9rio\u201d, na perspectiva lacaniana, n\u00e3o apenas porque alguns Estados-na\u00e7\u00e3o se consolidariam como refer\u00eancias hist\u00f3ricas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Essa substitui\u00e7\u00e3o se faz porque o mundo deixa de ser ordenado pelo\u00a0<em>amor ao pai<\/em>, favorecendo com que, no circuito mesmo da intimidade familiar, seja alojada toda uma s\u00e9rie de estranhezas que, para a ordena\u00e7\u00e3o da vida social, devem ser segregadas. Se, em 1967, a refer\u00eancia de Lacan para ressaltar a trama inquietante entre liberdade, avan\u00e7o do ci\u00eancia e segrega\u00e7\u00e3o era ainda a loucura, estimo que hoje, por exemplo, no progressivo aumento de crian\u00e7as medicadas com Ritalina e diagnosticadas com Transtorno de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade (TDAH), temos uma amostra de como se radicalizou, inclusive com o apoio e a busca dos pr\u00f3prios familiares, esse interesse de se manter as massas separadas no espa\u00e7o mesmo das fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o do \u201cImp\u00e9rio\u201d pelos \u201cimperialismos\u201d, destacada por Lacan, ser\u00e1 que ela exigir\u00edamos excluir a refer\u00eancia ao \u201cImp\u00e9rio\u201d ou que tom\u00e1ssemos este \u00faltimo unicamente como correlato do\u00a0<em>amor ao pai<\/em>? Sustento que podemos, com Lacan e o que nos ensina a experi\u00eancia anal\u00edtica, manter o termo \u201cImp\u00e9rio\u201d, assim como atualiz\u00e1-lo, para al\u00e9m dessa refer\u00eancia ao pai, juntamente com o que esse psicanalista vislumbrou, j\u00e1 em 1967, a prop\u00f3sito do termo \u201cimperialismo\u201d. Vimos que Hardt e Negri consideram o \u201cImp\u00e9rio\u201d como a \u201csubst\u00e2ncia\u201d do que hoje se apresenta como uma ordem concomitantemente globalizada, m\u00faltipla e dispersiva. Esse termo \u201csubst\u00e2ncia\u201d me parece ent\u00e3o usado por eles em uma acep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica: \u00e9 o que define, o que \u00e9 invariante, sempre presente. Assim, para eles, mesmo o que se apresenta como o mais local reverbera, seja como manuten\u00e7\u00e3o da ordem, seja como seu questionamento ou sua destitui\u00e7\u00e3o, o global e esse global comporta tamb\u00e9m, por sua vez, v\u00e1rios pontos de fuga, v\u00e1rios furos, n\u00e3o \u00e9 propriamente compacto. Entretanto, eu me sirvo aqui da concep\u00e7\u00e3o do \u201cImp\u00e9rio\u201d como subst\u00e2ncia para articul\u00e1-la a essa subst\u00e2ncia que Lacan designou como como gozo, como um modo de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional[24].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse vi\u00e9s, se Hardt e Negri insistem que n\u00e3o vivemos mais o tempo dos \u201cimperialismos\u201d, mas o do \u201cImp\u00e9rio\u201d, eu sustentaria, como psicanalista de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, que nessa nova ordem imperial, sobretudo pela escalada planet\u00e1ria da segrega\u00e7\u00e3o, os imperialismos pululam, mas n\u00e3o propriamente como dom\u00ednios privilegiados de alguns Estados-na\u00e7\u00e3o: eles pululam como pluraliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 da\u00a0<em>subst\u00e2ncia-Imp\u00e9rio<\/em>, mas ainda dessa outra subst\u00e2ncia que \u00e9 o gozo. Para essa sustenta\u00e7\u00e3o, me valho do modo como Lacan nos ensinou a escutar no significante por excel\u00eancia imperial, ou seja, no significante-mestre, no significante-ordenador, no S<sub>1<\/sub>\u00a0(em franc\u00eas\u00a0<em>es un<\/em>) a homofonia\u00a0<em>essaim<\/em>\u00a0(\u201cenxame\u201d)[25]. Em outras palavras: no mundo atual, o \u201cImp\u00e9rio\u201d se propaga como um enxame de \u201cimperialismos\u201d porque a desterritoriza\u00e7\u00e3o do poder, o decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna, a vacila\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica fazem com que o imperativo do supereu (\u201cGoza!\u201d) se apodere indiscriminada e pulverizadamente de todos os corpos, validando a segrega\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, em uma propor\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, disseminando-a inclusive na intimidade das fam\u00edlias. Por fim, articulando essa elabora\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo mesmo do VII ENAPOL, eu diria que a prolifera\u00e7\u00e3o global das imagens, os diferentes modos como as investimos e clamamos por sua presen\u00e7a em nossas vidas s\u00e3o decisivos para essa nova configura\u00e7\u00e3o do \u201cImp\u00e9rio\u201d e, assim, o\u00a0<em>Imp\u00e9rio das imagens<\/em>\u00a0pode ser tematizado tamb\u00e9m como\u00a0<em>Imp\u00e9rio de Imperialismos<\/em>\u00a0ou, ainda (sem que com isso eu pretenda uma equival\u00eancia entre \u201cimagem\u201d e S<sub>1<\/sub>), como\u00a0<em>Imp\u00e9rio do S<sub>1<\/sub>-Enxame<\/em>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Jap\u00e3o<\/em><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Oriente implica \u201cum sistema simb\u00f3lico inaudito, inteiramente desprendido do nosso\u201d e no qual se pode visar \u00e0 \u201cpossibilidade de uma diferen\u00e7a, de uma muta\u00e7\u00e3o, de uma revolu\u00e7\u00e3o na propriedade dos sistemas simb\u00f3licos\u201d, dando lugar n\u00e3o a \u201coutros s\u00edmbolos\u201d, mas \u00e0 \u201cpr\u00f3pria fissura do simb\u00f3lico\u201d \u2013 essa cita\u00e7\u00e3o parece ser de Lacan, al\u00e9m de evocar o que trabalhamos, no Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) de 2012[26], como \u201ca ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI\u201d n\u00e3o ser mais o que era; contudo, trata-se de uma passagem proveniente de um livro de Roland Barthes, dedicado ao Jap\u00e3o \u2013\u00a0<em>O imp\u00e9rio dos signos<\/em>[27]. Mencionado explicitamente por Lacan em \u201cLituraterra\u201d[28], o considero tamb\u00e9m uma refer\u00eancia importante para responder o que \u00e9 \u201cImp\u00e9rio\u201d, o que s\u00e3o \u201cimagens\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o que o Jap\u00e3o, segundo o pr\u00f3prio Barthes, o fez escrever[29], destaco, para os prop\u00f3sitos deste texto, o que ele redige sobre o embrulho de presente para os japoneses: n\u00e3o se trata mais do \u201cacess\u00f3rio passageiro do objeto transportado\u201d, mas \u201cdo objeto mesmo; o envolt\u00f3rio (<em>enveloppe<\/em>), em si, \u00e9 consagrado como coisa preciosa, ainda que gratuita\u201d, de modo que \u201c\u00e9 a caixa que se torna o objeto do presente, n\u00e3o o que ela cont\u00e9m\u201d[30]. Da\u00ed, a proximidade encontrada por Barthes entre o pacote japon\u00eas e sua defini\u00e7\u00e3o de signo: \u201ccomo envolt\u00f3rio, tela, m\u00e1scara\u201d, a caixa \u201c<em>vale pelo<\/em>\u00a0que esconde, protege e entretanto designa\u201d \u2013 ela \u201crealiza a troca, faz tomar uma coisa por outra (<em>donne le change<\/em>)\u201d e, assim, \u201cachar o objeto que est\u00e1 no pacote ou o significado que est\u00e1 no signo\u201d \u00e9 \u201cdescartar\u201d (<em>jeter<\/em>), respectivamente, o objeto e o significado[31]. Nesse contexto, \u201co que os japoneses transportam, com uma energia formid\u00e1vel, s\u00e3o em suma signos vazios\u201d[32]. N\u00e3o \u00e9 portanto sem raz\u00e3o que, na \u00faltima parte de seu livro, \u00e0 pergunta se o Jap\u00e3o seria o \u201cImp\u00e9rio dos signos\u201d, \u00e9 a essa coalesc\u00eancia signo-vazio que Barthes retorna para responder: \u201cSim, caso se entenda que esses signos s\u00e3o vazios e que o ritual \u00e9 sem Deus\u201d[33].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse vazio dos signos e a inexist\u00eancia de Deus nos rituais parecem-me evocar, por um lado, os fluxos muitas vezes sem sentido, a desterritorializa\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia de um centro articulador de tudo e de todos na concep\u00e7\u00e3o que Hardt e Negri t\u00eam sobre o \u201cImp\u00e9rio\u201d na nossa atualidade globalizada. Por outro lado, esse vazio e essa inexist\u00eancia tamb\u00e9m nos mostram como o \u201cImp\u00e9rio\u201d, hoje, diferente do que acontecia na antiguidade romana, pode se tramar mais al\u00e9m da refer\u00eancia a um\u00a0<em>amor ao pai<\/em>\u00a0e, ainda, na argumenta\u00e7\u00e3o aqui proposta, como\u00a0<em>Imp\u00e9rio de imperialismos<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Imp\u00e9rio do S<sub>1<\/sub>-Enxame<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vai, ent\u00e3o, caracterizar esse \u201cImp\u00e9rio\u201d onde proliferam os imperialismos e onde o S<sub>1<\/sub>, o significante-mestre, ordenador, imperativo \u2013 propagando-se como um enxame \u2013 nos faz experimentar incessantemente mais a desregula\u00e7\u00e3o que a ordem? Sabemos que o mais comum \u00e9 constatarmos uma proemin\u00eancia do Ocidente sobre o Oriente, uma esp\u00e9cie de ocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo. Entretanto, considero pertinente dizer que assistimos tamb\u00e9m a um movimento contr\u00e1rio porque esse \u201critual sem Deus\u201d e a prolifera\u00e7\u00e3o de um \u201cesvaziamento dos signos\u201d \u2013 t\u00e3o pr\u00f3prios, segundo Barthes, ao Jap\u00e3o \u2013 ganham um alcance mundial em nossos dias e, nesse vi\u00e9s, me parece poss\u00edvel afirmar que o mundo se \u201corientalizou\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para elucidar o que estimo ser essa esp\u00e9cie de \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d do mundo, me valho ainda de Lacan. Em \u201cLituraterra\u201d, ele sustenta que Barthes escreveu sobre o Jap\u00e3o como \u201cImp\u00e9rio dos signos\u201d, mas \u201cquerendo dizer: Imp\u00e9rio dos semblantes\u201d[34]. Antes de supor a Barthes esse novo t\u00edtulo, Lacan faz men\u00e7\u00e3o \u00e0 divis\u00e3o do sujeito pela linguagem, ressalvando que \u201cum de seus registros pode satisfazer-se com a refer\u00eancia \u00e0 escrita, e o outro, \u00e0 fala\u201d[35]. A utiliza\u00e7\u00e3o lacaniana do termo \u201cregistro\u201d me leva a sustentar que o \u201cregistro\u201d pelo qual a divis\u00e3o subjetiva se satisfaz com a refer\u00eancia \u00e0 escrita \u00e9 aquele das imagens (ou seja, o Imagin\u00e1rio); o registro atrav\u00e9s do qual a satisfa\u00e7\u00e3o, nessa mesma divis\u00e3o, se processa na refer\u00eancia \u00e0 fala \u00e9 o do Simb\u00f3lico; por fim, a men\u00e7\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ter a ver com o gozo, implicando, assim, o registro do Real. Mas por que \u201csemblantes\u201d, em uma acep\u00e7\u00e3o lacaniana, seria mais pertinente que \u201csignos\u201d para explicitar o que o Jap\u00e3o fez Barthes escrever? Se Lacan, em \u201cLituraterra\u201d (1971), antecipa sua men\u00e7\u00e3o ao semblante com a proposi\u00e7\u00e3o de que, dividido pela linguagem, o sujeito se satisfaz tanto com a escrita quanto com a fala e, nessa proposi\u00e7\u00e3o, temos o que concerne aos registros do Real (satisfa\u00e7\u00e3o, gozo), do Imagin\u00e1rio (escrita) e do Simb\u00f3lico (fala), no Semin\u00e1rio 20 (1972-1973), semblante \u00e9 justamente o que se encontra na base perpendicularmente situada com rela\u00e7\u00e3o ao Imagin\u00e1rio e que comp\u00f5e o vetor que vai do Imagin\u00e1rio ao Real[36]:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, \u201csemblantes\u201d efetivamente \u00e9 melhor que \u201csignos\u201d para designar o que impera no Jap\u00e3o e na \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d atual de nosso mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proximidade que aqui proponho entre escrita e imagem n\u00e3o deixa de ir na contram\u00e3o da tend\u00eancia maior, mesmo nos meios lacanianos, mas sobretudo na cr\u00edtica liter\u00e1ria que se proclama influenciada por Lacan, de aproximar a escrita do registro do Real. Para favorecer essa minha proposi\u00e7\u00e3o, o Jap\u00e3o \u00e9 particularmente oportuno ao dar lugar a uma cultura na qual a caligrafia \u00e9 praticada na literalidade implicada nesse termo: escrita-bela \u2013 no Jap\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 pelo uso dos ideogramas, a letra escrita do modo mais cotidiano se apresenta radicalmente como uma imagem, como o que deve ser belo de se ver, como o que aparece n\u00e3o s\u00f3 para dar corpo ao que se quer comunicar, mas tamb\u00e9m para satisfazer o olhar. Nesse vi\u00e9s, e desdobrando um pouco mais minha hip\u00f3tese com rela\u00e7\u00e3o a uma \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d do mundo, me pergunto se a for\u00e7a com que as imagens tomam nossos dias hoje, o modo como imperam e satisfazem a divis\u00e3o subjetiva n\u00e3o se deve, exatamente, ao fato de que cada vez mais elas se apresentam como formas cifradas, ou seja, escritas e que satisfazem os corpos ao nome\u00e1-los, ao se alojarem neles como acontece, por exemplo, com o termo \u201canorexia\u201d, o uso disseminado da \u201ctatuagem\u201d, a prolifera\u00e7\u00e3o das mensagens de\u00a0<em>WhatsApp<\/em>, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, a prop\u00f3sito do que o Jap\u00e3o provocou em Barthes, destaca ainda o \u00a0\u201csentimento inebriado de que em todas as suas maneiras o sujeito japon\u00eas n\u00e3o faz envolt\u00f3rio de nada\u201d[37]. Laurent relaciona esse sentimento provocado pelo Jap\u00e3o em Barthes com uma esp\u00e9cie de fetichiza\u00e7\u00e3o generalizada existente nesse pa\u00eds onde tudo parece desvelado, sem envolt\u00f3rio, sem v\u00e9u e Miller, na mesma ocasi\u00e3o, o articula \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o como \u201cum mundo sem real\u2026 apenas\u2026 feito de semblantes\u201d[38]. O que situei sobre o modo como Barthes apreende o uso do embrulho de presente pelos japoneses tamb\u00e9m pode elucidar essa refer\u00eancia de Lacan: se o pacote concomitantemente efetiva uma troca e faz tomar uma coisa por outra (pois \u00e9 t\u00e3o precioso quanto seu conte\u00fado), esse envolt\u00f3rio, no Jap\u00e3o, nada esconde e, ao mesmo tempo, como um fetiche e muitas das \u201cimagens\u201d que imperam hoje, n\u00e3o deixa de enganar. Em outros termos, o presente, diferente do que acontece em geral no mundo ocidental, n\u00e3o \u00e9 o que vem com o embrulho a ser descartado, jogado fora, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio embrulho e, por conseguinte, parece-me poss\u00edvel dizer que n\u00e3o haveria, para os japoneses, \u201cembrulho de presente\u201d ou \u201cembrulho para presente\u201d e, dentro dele, o \u201cpresente\u201d, mas, sim, \u201cembrulho-presente\u201d, \u201cpresente-embrulho\u201d ou, ressaltando ainda mais a fun\u00e7\u00e3o do engano pr\u00f3pria do fetiche, uma \u201cembrulhada\u201d. Logo, os japoneses n\u00e3o envolveriam nada porque o pr\u00f3prio envolt\u00f3rio j\u00e1 se apresenta, digamos assim, como a coisa e, por esse vi\u00e9s, poderemos constatar tamb\u00e9m como, no Jap\u00e3o, os objetos\u00a0<em>a<\/em>, ou seja, os semblantes, provavelmente antes mesmo da consagra\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia no mundo, j\u00e1 se espalhavam e proliferavam no z\u00eanite social[39] dessa parte do Oriente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, por mais atraentes que sejam, imperem nas \u201cimagens\u201d contempor\u00e2neas, incitem e at\u00e9 proporcionem algum gozo, os semblantes n\u00e3o s\u00e3o propriamente uma solu\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Nesse contexto, a refer\u00eancia ao Jap\u00e3o continua sendo preciosa porque, embora Lacan, valendo-se do livro de Barthes, localize esse pa\u00eds como \u201co Imp\u00e9rio dos semblantes\u201d, \u00e9 tamb\u00e9m nele que se pratica intensamente o que, nos termos de \u201cLituraterra\u201d, \u00e9 bem diferente do semblante: o \u201cvazio escavado pela escrita\u201d e que se apresenta como um \u201cgod\u00ea sempre prestes a dar acolhida ao gozo ou, pelo menos, a invoc\u00e1-lo com seu artif\u00edcio\u201d[40]. Aqui, a refer\u00eancia \u00e0 escrita, diferente do que antes apresentei, n\u00e3o a toma como \u201cimagem\u201d, pois o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 o que aparece como escrito, mas o que a escrita pode escavar: o vazio. Nesse novo contexto, a diferen\u00e7a entre gozo e semblante tamb\u00e9m poder\u00e1 ser melhor tematizada: mesmo que este \u00faltimo, como um artif\u00edcio, tanto quanto as imagens, sobretudo hoje, possa invocar o gozo, eles \u2013 semblantes e imagens \u2013 n\u00e3o s\u00e3o gozo. Por isso, no\u00a0<em>Imp\u00e9rio das imagens<\/em>, estas \u00faltimas, por maior que seja sua pregn\u00e2ncia com o que faz gozar, s\u00e3o incessantemente tomadas por uma instabilidade, um fluxo intenso, uma urg\u00eancia jamais respondida de modo satisfat\u00f3rio \u2013 elas clamam pelo gozo, tentam, tal qual acontece com o fetiche, localizar o gozo que, embora possa lhes fazer de ve\u00edculo, elas n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa diferen\u00e7a entre gozo e semblante, cara \u00e0 psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, n\u00e3o deve ser restringida a uma oposi\u00e7\u00e3o ou uma polaridade. Afinal, a experi\u00eancia anal\u00edtica mostra-nos como certo uso do semblante pode evocar, tocar o gozo e, em \u201cLituraterra\u201d, Lacan localiza qual \u00e9 esse uso: \u201cao se romper um semblante\u201d, o gozo \u00e9 evocado, tal qual \u201cno real\u201d (registro bastante afeito ao gozo) temos o \u201cravinamento das \u00e1guas\u201d[41], ou seja, quando as nuvens se rompem, desfazem-se as imagens que elas s\u00e3o t\u00e3o propensas a nos evocar, a chuva cai, deixando o real da terra marcado pela eros\u00e3o das \u00e1guas. Assim, enquanto o \u201cImp\u00e9rio\u201d hoje \u00e9 aquele dos \u201cimperialismos\u201d, das \u201cimagens\u201d, do \u201cS<sub>1<\/sub>-enxame\u201d e dos \u201csemblantes\u201d, a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana n\u00e3o considera \u201cimperialismo\u201d exclusivamente o dom\u00ednio de um Estado-na\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de suas fronteiras, tampouco faz proliferar as imagens ou se entusiasma com a desterritorializa\u00e7\u00e3o dos significantes-mestres sob a forma de enxames ou com o desmascaramento dos semblantes: trata-se de se valer ou, em outras circunst\u00e2ncias, promover o rompimento de certos semblantes, singulares a cada caso ou situa\u00e7\u00e3o, para se aceder ao vazio que acolhe o gozo e favorecer o fluxo dessa satisfa\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o seu imperativo) nos corpos vivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra passagem de \u201cLituraterra\u201d que me interessa para tematizar o que proponho aqui como \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d do mundo \u00e9 aquela sobre o modo como o sujeito japon\u00eas se identifica: ele se apoia \u201cem um c\u00e9u constelado, e n\u00e3o somente no tra\u00e7o un\u00e1rio\u201d[42]. Nessa passagem, diferente daquela sobre a refer\u00eancia \u00e0 escrita, \u00e9 a fala que, pelo menos inicialmente, aparece como uma refer\u00eancia privilegiada por Lacan \u2013 a fala como outro registro, diferente da escrita, no qual o sujeito dividido se satisfaz. Trata-se da fala porque, nessa men\u00e7\u00e3o de Lacan ao apoio japon\u00eas no c\u00e9u constelado, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o uso variado das \u201crela\u00e7\u00f5es de polidez\u201d[43] no Jap\u00e3o. Essa concisa men\u00e7\u00e3o \u00e0 polidez japonesa me parece poder ser melhor elucidada pela seguinte distin\u00e7\u00e3o sustentada por Tae Suzuki, professor da Universidade de Bras\u00edlia e que tem realizado, desde 1970, investiga\u00e7\u00f5es importantes sobre a l\u00edngua japonesa e as express\u00f5es de tratamento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNas l\u00ednguas ocidentais, quando se fala em tratamento, entende-se o tratamento\u00a0<em>respeitoso<\/em>\u00a0e a refer\u00eancia, em regra, aos pronomes de tratamento\u2026 como Vossa Senhoria, Vossa Excel\u00eancia, Vossa Santidade etc, bem como os pronomes de 2<sup>a<\/sup>\u00a0pessoa, formais ou cerimoniosos [v\u00f3s, senhor, senhora, etc] em oposi\u00e7\u00e3o aos informais ou \u00edntimos [voc\u00ea, tu, \u201ccara\u201d, \u201cv\u00e9i\u201d, \u201cbrother\u201d, etc]\u2026 Na l\u00edngua japonesa, entretanto, o tratamento n\u00e3o s\u00f3 extrapola os pronomes de tratamento, bem como comporta outras formas al\u00e9m do\u00a0<em>respeito<\/em>, genericamente falando, dirigido a uma pessoa considerada hierarquicamente superior\u201d[44].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em japon\u00eas, \u201ctodas as express\u00f5es de tratamento se realizam no enunciado\u201d, ou seja, \u201cna realiza\u00e7\u00e3o concreta\u201d do que \u00e9 falado, mas uma dessas express\u00f5es \u201ctem como alvo as pessoas que atuam no enunciado como sujeitos ou objetos da a\u00e7\u00e3o nele contida\u201d, manifestando respeito ou mod\u00e9stia, enquanto \u201ca outra \u00e9 um ato de tratamento mais afeto ao ato da enuncia\u00e7\u00e3o\u201d, apresentando \u201ca maneira polida (donde a denomina\u00e7\u00e3o\u00a0<em>express\u00f5es de polidez<\/em>) de o locutor-destinador transmitir a palavra ao interlocutor na qualidade de simples destinat\u00e1rio\u201d do que \u00e9 falado[45]. No tratamento do enunciado, pelo vi\u00e9s do respeito ou pelo vi\u00e9s da mod\u00e9stia, \u00e9 estabelecida a dist\u00e2ncia que o locutor estima existir entre as pessoas do enunciado, tendo em vista o contexto que as permitem ser elevadas como superiores ou rebaixadas como inferiores. Por sua vez, no tratamento da enuncia\u00e7\u00e3o, \u00e9 traduzida a aten\u00e7\u00e3o daquele que fala em se dirigir polidamente a seu interlocutor, independentemente da hierarquia existente entre eles. Uma compara\u00e7\u00e3o ilustra a rela\u00e7\u00e3o entre o tratamento do enunciado e da enuncia\u00e7\u00e3o na fala de um japon\u00eas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cdiria que o tratamento do enunciado seria a boneca que quero dar a minha filha e o tratamento da enuncia\u00e7\u00e3o, o papel e a fita que envolvem a boneca. O que quero fazer chegar a minha filha \u00e9 a boneca (mensagem) porque hoje \u00e9 seu anivers\u00e1rio e ela \u00e9 uma crian\u00e7a do sexo feminino\u2026 e quero homenage\u00e1-la e dar-lhe alegria (considera\u00e7\u00e3o). O papel e a fita apenas envolvem a boneca para tornar mais significativo o ato (polidez), mas poderia dispens\u00e1-los sem que modificasse minha inten\u00e7\u00e3o de presentear a menina[46].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante que Suzuki, antes mesmo de apresentar essa compara\u00e7\u00e3o, a qualifica como \u201cgrosseira\u201d. Afinal, ele \u00e9 um estudioso da l\u00edngua japonesa e, como vimos, no Jap\u00e3o, o embrulho conta tanto quanto o que \u00e9 por ele envolvido e, assim, no que concerne \u00e0 fala, a polidez n\u00e3o \u00e9 meramente um detalhe da mensagem enunciada, mas uma enuncia\u00e7\u00e3o a ser transmitida tanto quanto o que \u00e9 enunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como falar, no Ocidente ou no Jap\u00e3o, implica a identifica\u00e7\u00e3o nas formas de tratamento, Lacan, considerando essa pluralidade com que um japon\u00eas tem que se haver ao falar, destaca o quanto este, em sua identifica\u00e7\u00e3o, se apoia em um \u201cc\u00e9u constelado\u201d enquanto n\u00f3s, os ocidentais, nos valer\u00edamos, em nossa identifica\u00e7\u00e3o, do \u201ctra\u00e7o un\u00e1rio\u201d, ou seja, de uma refer\u00eancia ao Um e, na fala, a polidez se restringira, por exemplo, a situa\u00e7\u00f5es relacionadas com diferen\u00e7as hier\u00e1rquicas ou com alguma dist\u00e2ncia entre do falante com seu interlocutor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evoco ainda, como outra refer\u00eancia da cultura ocidental, o uso que Kant faz, na\u00a0<em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o pr\u00e1tica<\/em>, ao \u201cc\u00e9u constelado\u201d \u2013 \u201cduas coisas enchem o cora\u00e7\u00e3o (<em>G\u00ebmuth<\/em>) de uma admira\u00e7\u00e3o e de uma venera\u00e7\u00e3o sempre novas e sempre crescentes, \u00e0 medida que a reflex\u00e3o a elas se relaciona e se aplica:\u00a0<em>o c\u00e9u estrelado acima de mim e a lei moral em mim<\/em>\u201d[47]. Entretanto, bem diferente do que acontece na identifica\u00e7\u00e3o para um sujeito japon\u00eas, em Kant, o \u201cc\u00e9u estrelado\u201d, no contexto da\u00a0<em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o pr\u00e1tica<\/em>, \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica da eleva\u00e7\u00e3o que cada ser humano, como ser racional, experimenta em si mesmo ao tomar a lei moral como princ\u00edpio de sua a\u00e7\u00e3o, ou seja, o c\u00e9u constelado, em Kant, converge para o Um representado na lei moral enquanto que, para os japoneses, segundo Lacan, a identifica\u00e7\u00e3o se multiplica, em suas refer\u00eancias, como as constela\u00e7\u00f5es no c\u00e9u. Em \u201cOs complexos familiares\u201d, escrito bem antes de \u201cLituraterra\u201d, Lacan faz men\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cconstela\u00e7\u00f5es familiares\u201d[48], mas sem que essa express\u00e3o comporte a diversifica\u00e7\u00e3o que ele vai destacar, posteriormente, a prop\u00f3sito da identifica\u00e7\u00e3o para os japoneses. \u201cConstela\u00e7\u00e3o familiar\u201d, no contexto de um primeiro Lacan, designa as refer\u00eancias que caracterizam e s\u00e3o transmitidas por uma fam\u00edlia, ou seja, a organiza\u00e7\u00e3o de uma trama fundada em uma unicidade que, em momentos mais tardios do ensino de Lacan, o Nome-do-Pai, o tra\u00e7o un\u00e1rio e o que chamei aqui de\u00a0<em>amor ao pai<\/em>\u00a0v\u00e3o procurar garantir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornando, agora, ao que chamei de \u201corientaliza\u00e7\u00e3o\u201d do mundo, o que temos hoje, de um modo geral, propagado pelo\u00a0<em>Imp\u00e9rio das imagens<\/em>\u00a0n\u00e3o deixa de evocar a identifica\u00e7\u00e3o para o sujeito japon\u00eas. Afinal, o que caracteriza a subjetividade de nossa \u00e9poca \u00e9 n\u00e3o se valer mais, em seus processos identificat\u00f3rios, apenas do Um simbolizado pelo Nome-do-Pai e se voltar muito mais para o \u201cc\u00e9u constelado\u201d. Sem d\u00favida, como quis mostrar Mishima ao suicidar-se[49], o Jap\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais hoje o Jap\u00e3o, mas estimo agora \u2013 bem diferente desse escritor japon\u00eas \u2013 que o Jap\u00e3o deixa de ser o que era n\u00e3o apenas por causa de sua ocidentaliza\u00e7\u00e3o: ele se descaracteriza porque todo o mundo, na instabilidade e na multiplicidade caracter\u00edsticas das identifica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, se transformou, em certo sentido, no Jap\u00e3o. Por conseguinte, muitos dos desafios que a cl\u00ednica psicanal\u00edtica enfrenta nos nossos dias t\u00eam a ver com as dificuldades implicadas nessa globaliza\u00e7\u00e3o do c\u00e9u constelado como refer\u00eancia identificat\u00f3ria.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O lado negro do Imp\u00e9rio<\/em><\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora Hardt e Negri reconhe\u00e7am e critiquem v\u00e1rios impasses e problemas apresentados pela vers\u00e3o contempor\u00e2nea do \u201cImp\u00e9rio\u201d, eles n\u00e3o deixam de ver essa subst\u00e2ncia com alguma simpatia, sobretudo porque nela se interp\u00f5e o que, mais recentemente, v\u00e3o chamar de \u201cmultid\u00e3o\u201d[50]: ao mesmo tempo que temos hoje um aumento dos processos segregativos, h\u00e1 um aumento das formas de combate, de pot\u00eancia, de inven\u00e7\u00e3o de singularidades. Homero Santiago, em um dos textos de um dossi\u00ea da revista\u00a0<em>Cult<\/em>\u00a0dedicado a Antonio Negri, oferece-nos uma amostra dessa simpatia pelo modo como, no \u201cImp\u00e9rio\u201d, as tens\u00f5es dominador-dominado, capitalista-oper\u00e1rio se colocam de forma inusitada quando comparada ao mundo que ainda n\u00e3o era tomado pela\u00a0<em>subst\u00e2ncia-Imp\u00e9rio<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA esquerda sempre se preocupou com o capitalismo, e nisso fez bem; importa, contudo, inverter a perspectiva anal\u00edtica: o ponto de vista oper\u00e1rio vem antes, o ponto de vista do capital \u00e9 segundo, pois \u00e9 o primeiro, mediante uma potencia exprimida em suas lutas, que move o capital, faz que ele se mexa e inove tentando responder \u00e0s lutas oper\u00e1rias. Num exemplo grosseiro: a automatiza\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas n\u00e3o passa de resposta \u00e0s greves dos trabalhadores, pois, como todos sabem, m\u00e1quina n\u00e3o pede aumento de sal\u00e1rio\u201d[51].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob esse prisma, a automatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exatamente o que coloca em risco o trabalho realizado por humanos, pois pode ser abordada tamb\u00e9m como uma op\u00e7\u00e3o capitalista diante da pot\u00eancia reivindicativa dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse mesmo dossi\u00ea em que Negri \u00e9 destacado como \u201co pensador da pot\u00eancia pol\u00edtica\u201d, encontramos refer\u00eancias de como um \u201c\u2018retorno a Spinoza\u2019\u201d perpassa muitas de suas concep\u00e7\u00f5es[52]. Ora, sabemos que Lacan foi tamb\u00e9m leitor e admirador de Spinoza, mas isso n\u00e3o o impediu, no Semin\u00e1rio 11, de tomar dele uma dist\u00e2ncia importante. De in\u00edcio, Lacan ressalta que a filosofia spinozista se pauta pelo \u201c<em>Amor intellectuallis Dei<\/em>\u201d e, assim, \u201cna medida em que Spinoza diz \u2013\u00a0<em>o desejo \u00e9 a ess\u00eancia do homem<\/em>\u201d, esse desejo \u00e9 colocado \u201cna depend\u00eancia radical da universalidade dos atributos divinos\u201d[53]. Por\u00e9m, declara Lacan, \u201cessa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel por n\u00f3s\u201d, e a experi\u00eancia anal\u00edtica o levou ent\u00e3o a escrever \u201c<em>Kant com Sade<\/em>\u201d, demarcando a face obscura e sacrificial desse\u00a0<em>Amor intellectualis Dei<\/em>\u00a0e, no que concerne a este texto, permitindo-me destacar,\u00a0<em>a la\u00a0<\/em>Georges Lucas, o que chamaria de \u201clado negro do Imp\u00e9rio\u201d [54].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, \u00e9 justamente em \u201cKant com Sade\u201d que encontraremos uma das primeiras assimila\u00e7\u00f5es do S<sub>1<\/sub>\u00a0ao enxame, do Um ao m\u00faltiplo, e ela j\u00e1 vem marcada por uma mescla de obscuridade e gozo. Afinal, logo ap\u00f3s evocar o Ser-supremo-em-Maldade\u201d com que Sade vai responder a que \u201cDeus \u00e9 sem rosto\u201d, Lacan utiliza um termo alem\u00e3o \u2013\u00a0<em>Schw\u00e4rmereien<strong>[55]<\/strong><\/em>. Sem mencionar que vamos encontr\u00e1-lo em diferentes textos de Kant para designar tanto a \u201cloucura\u201d quanto o \u201centusiasmo\u201d da raz\u00e3o quando ela n\u00e3o \u00e9 limitada e orientada por uma \u201ccr\u00edtica\u201d, Lacan vai ressaltar-lhe a \u201cpresen\u00e7a na fantasia sadiana\u201d e o traduz literalmente como \u201cnegros enxames\u201d ou, se quisermos fazer valer a homofonia de\u00a0<em>essaims<\/em>\u00a0com\u00a0<em>esse un<\/em>, \u201cnegros S<sub>1<\/sub>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, a dissemina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da identifica\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u constelado estimulada pelo\u00a0<em>Imp\u00e9rio das Imagens<\/em>\u00a0pode parecer uma grande liberdade, sob v\u00e1rios aspectos e, em muitas situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deixa mesmo de s\u00ea-lo. Por\u00e9m, j\u00e1 aprendemos com a \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses infantis\u201d, que a liberdade conquistada com o questionamento generalizado dos S<sub>1<\/sub>\u00a0n\u00e3o se faz sem segrega\u00e7\u00e3o. Assim, no \u201cc\u00e9u constelado\u201d no qual se pautam as identifica\u00e7\u00f5es nesse mundo \u201corientalizado\u201d, propaga-se sutil e ferozmente as m\u00faltiplas vozes dessa inst\u00e2ncia que Freud chamou de supereu: a dissemina\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria do direito ao gozo n\u00e3o se faz sem sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa dimens\u00e3o negra do enxame vai fazer com que o mundo atual \u201corientalizado\u201d fique \u00e0 merc\u00ea do que Lacan ressalta, no final de \u201cLituraterra\u201d, a partir da refer\u00eancia a essa esp\u00e9cie de teatro de bonecos japon\u00eas chamado\u00a0<em>bunraku<\/em>: \u201co sujeito se comp\u00f5e justamente ao poder se decompor\u201d[56]. Tal decomposi\u00e7\u00e3o, no\u00a0<em>bunraku<\/em>, se faz entre os corpos em movimento e o que \u00e9 falado, pois o que os corpos dos bonecos encenam, amparados por corpos humanos vestidos de negro e que s\u00e3o vis\u00edveis, \u00e9 recitado em voz alta, em outra parte do teatro. Trata-se realmente de uma experi\u00eancia de decomposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas no sentido de uma fragmenta\u00e7\u00e3o corpo-fala, mas ainda de uma mortifica\u00e7\u00e3o que perpassa o corpo e a fala. Parece-me que \u00e9 exatamente esse tipo de decomposi\u00e7\u00e3o que caracteriza os nossos tempos: aqueles que recebemos em nossos consult\u00f3rios, nas institui\u00e7\u00f5es ou que irrompem nas chamadas \u201credes sociais\u201d t\u00eam corpos, se movimentam tamb\u00e9m gra\u00e7as a outros corpos, mas cada vez mais o que falam ressoa como fora desses corpos e, ent\u00e3o, eles se apresentam, decompostos como no\u00a0<em>bunraku<\/em>\u00a0\u2013 h\u00e1 um enredamento, onde muitas vezes imperam mais imagens que as palavras, mas ele n\u00e3o se desfia mais como no teatro ocidental tradicional ou ao modo de uma narrativa do tipo \u201cromance familiar\u201d em que discernir\u00edamos mais claramente as \u201cconstela\u00e7\u00e3o familiar\u201d que nortearia a vida de quem nos procura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, para demarcar a diferen\u00e7a que a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana visa sustentar frente ao\u00a0<em>bunraku<\/em>\u00a0que se propaga no\u00a0<em>Imp\u00e9rio das imagens<\/em>, concluo com uma importante formula\u00e7\u00e3o de Miller, apresentada por ocasi\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o de \u00c9ric Laurent sobre esse teatro japon\u00eas e que tamb\u00e9m nos conduz ao pr\u00f3ximo Congresso da AMP em 2016: \u201co que constitui o mist\u00e9rio do corpo falante \u00e9 quando n\u00e3o h\u00e1 disjun\u00e7\u00e3o, mas, sim, que o corpo habite a linguagem e seja afetado por seus efeitos\u201d enquanto que, no\u00a0<em>bunraku,\u00a0<\/em>temos a \u201cfic\u00e7\u00e3o de um mundo onde os corpos n\u00e3o seriam afetados pela linguagem\u201d e esta \u00faltima \u201cseria assumida de lado\u201d, e n\u00e3o no corpo[57]. Logo, neste\u00a0<em>Imp\u00e9rio das imagens\u00a0<\/em>no qual se transmuta nosso planeta, \u00e9 justamente desse\u00a0<em>bunraku<\/em>\u00a0globalizado que a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos permite experimentar uma oportuna e vivificante dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RESUMO:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto prop\u00f5e, baseado na psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, averiguar o que se coloca no mundo de hoje como \u201cimp\u00e9rio\u201d e como \u201cimagens\u201d. Destaca, ainda, como a experi\u00eancia anal\u00edtica permite-nos operar e intervir nesse \u201cImp\u00e9rio das imagens\u201d no qual o mundo globalizado cada vez mais se transforma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PALAVRAS-CHAVE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imp\u00e9rio, imagem, semblante, escrita, gozo, Jap\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Este texto foi escrito ap\u00f3s uma confer\u00eancia, de mesmo t\u00edtulo, pronunciada como primeira atividade preparat\u00f3ria para o VII Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (ENAPOL), no dia 29 de agosto de 2014, no Centro Lacaniano de Investiga\u00e7\u00e3o da Ansiedade (CLINa). Para essa escrita \u2013 que modificou muitas passagens da confer\u00eancia \u2013 foi muito importante a transcri\u00e7\u00e3o realizada por Fl\u00e1via Seidinger e o estabelecimento, por Cynthia Farias, do que foi de in\u00edcio oralmente apresentado. Destinado agora \u00e0 revista\u00a0<em>Entrev\u00e1rios<\/em>, este texto \u00e9, portanto, resultado, literalmente, de um trabalho de muitos: obrigado Angelina Harari, Cynthia Farias, Fl\u00e1via Seidinger, Luiz Fernando Carrijo, R\u00f4mulo Ferreira da Silva, por esse trabalho compartido e a oportunidade de apresent\u00e1-lo a outros colegas do CLINa, como confer\u00eancia e, agora, sob a forma de texto, tamb\u00e9m para todos os leitores de\u00a0<em>Entrev\u00e1rios<\/em>. Por fim, um reconhecimento especial \u00e0 M\u00e1rcia Szajnbok (<em>in memorian<\/em>), cujo convite para uma atividade no Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) sobre Foucault e a psican\u00e1lise deu lugar, tamb\u00e9m, \u00e0 j\u00e1 citada confer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">** Analista Membro da Escola (AME), pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP); Professor do Curso de Psicologia e do Mestrado de Estudos Culturais Contempor\u00e2neos da Universidade FUMEC (Funda\u00e7\u00e3o Mineira de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura); Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) e do ProPIC-FUMEC (Programa de Pesquisa e Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica). E-mail laia.bhe@terra.com.br<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] LACAN, J. (1967\/2001). Allocution sur les psychoses de l\u2019enfant. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris, Seuil, p. 361-371.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Nessa discuss\u00e3o, Lacan tamb\u00e9m evoca outro escrito seu: LACAN, J. (1946\/1966). Propos sur la causalit\u00e9 psychique. In:\u00a0<em>\u00c9crits<\/em>. Paris, Seuil, p. 151-193. Ver, a esse respeito, bem como para as men\u00e7\u00f5es a David Cooper e Jean Oury: LACAN, J. (1967\/2001). Allocution sur les psychoses de l\u2019enfant. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits.<\/em>\u00a0Paris, Seuil, p. 361-363.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] LACAN, J. (1967\/2001). Allocution sur les psychoses de l\u2019enfant. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits.<\/em>\u00a0Paris, Seuil, p. 362. Na tradu\u00e7\u00e3o brasileira da Zahar, essa passagem est\u00e1 um pouco diferente: LACAN, J. (1967-2003). Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 360. Preferi, aqui, me aproximar do original franc\u00eas, inclusive porque ele me pareceu ter mais o tom dessa amplifica\u00e7\u00e3o, para um futuro bem long\u00ednquo, do que j\u00e1 acontecia em 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] LACAN, J. (1967\/2001). Allocution sur les psychoses de l\u2019enfant. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits.<\/em>\u00a0Paris, Seuil, p. 363.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Idem, ibidem, p. 362-363.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[6] Idem, ibidem, p. 363.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[7] MONTOYA, P. (2008).\u00a0<em>Lejos de Roma<\/em>. Bogot\u00e1: Alfaguara, p. 104. Agrade\u00e7o a Fernando Velasquez, da Nueva Escuela Lacaniana (NEL), sede Medell\u00edn, a indica\u00e7\u00e3o desse livro, quando percorr\u00edamos uma das livrarias dessa cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[8] Idem, ibidem, p. 104.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[9] Idem, ibidem, p. 105.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[10] Hardt, M.; Negri, A. (200\/2001)\u00a0<em>Imp\u00e9rio<\/em>. Rio de Janeiro: Record.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[11] Idem, ibidem, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[12] Idem, ibidem, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[13] Idem, ibidem,, p. 14-15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[14] Idem, ibidem, p. 23.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[15] Idem, ibidem, p. 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[16] Idem, ibidem, p. 26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[17] Idem, ibidem, p. 27.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[18] Idem, ibidem, p.28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[19] Idem, ibidem, p. 36.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[20] Idem, bidem, p. 38.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[21] MILLER, J.-A (1997-1998\/2001).\u00a0<em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Seminario en colaboraci\u00f3n con \u00c9ric Laurent. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[22] LACAN, J. (1967\/2001). Op. cit.,, p. 362.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[23] Para esse isolamento quanto \u00e0 qualquer fun\u00e7\u00e3o social e essa identifica\u00e7\u00e3o r\u00edgida a uma fun\u00e7\u00e3o social, na psicose, me valho das formula\u00e7\u00f5es de Miller sobre a \u201cexternalidade social\u201d em: MILLER, J.-A. (2008\/2009) Efeito de retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria. In: BATISTA, M. C. D.; LAIA, S. (orgs) (2012).\u00a0<em>A psicose ordin\u00e1ria<\/em>. Belo Horizonte, EBP\/Scriptum, p. 399-429.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[24] LACAN, J. (1972-1973\/1975).\u00a0<em>Le s\u00e9minaire. Livre XX\u00a0: encore<\/em>. Paris, Seuil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[25] LACAN, J. (1963\/1966). Kant avec Sade. In:\u00a0<em>\u00c9crits.\u00a0<\/em>Paris: Seuil, p. 773.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[26] Ver: http:\/\/congresoamp.com\/pt\/template.php (Acesso em 22 de abril de 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[27] BARTHES, Roland (1970\/1994). L\u2019empire des signes. In:\u00a0<em>Oeuvres compl\u00e9tes<\/em>, tomme II. Paris: Seuil, p. 747. H\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o brasileira desse livro de Barthes sobre o Jap\u00e3o: BARTHES, R. (1970\/2007).\u00a0<em>O Imp\u00e9rio dos signos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[28] LACAN, J. (1971\/2001). Lituraterre. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits.<\/em>\u00a0Paris, Seuil, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[29] Literalmente, os termos de Barthes a respeito do modo como foi produzido\u00a0<em>O imp\u00e9rio dos signos\u00a0<\/em>s\u00e3o: \u201co autor jamais, em sentido algum, fotografou o Jap\u00e3o. Seria antes o contr\u00e1rio: \u00e9 o Jap\u00e3o que o irradiou com m\u00faltiplos\u00a0<em>flashes<\/em>; ou, melhor ainda: o Jap\u00e3o o colocou no ponto de escrever\u201d. BARTHES, R. (1970\/1994).\u00a0<em>Op. cit.<\/em>, p. 748.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[30] Idem, ibidem, p. 780.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[31] Idem, ibidem, p. 780. A express\u00e3o francesa\u00a0<em>donne le change<\/em>\u00a0comporta, como Barthes mesmo ressalta, tanto um sentido \u201cmonet\u00e1rio\u201d, quanto o sentido \u201cpsicol\u00f3gico\u201d. Por isso, em portugu\u00eas, a traduzi duplamente por \u201crealiza a troca\u201d e \u201cfaz tomar uma coisa por outra\u201d, engana, abusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[32] Idem, ibidem, p. 780.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[33] Idem, ibidem, p. 821.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[34] LACAN, J. (1971\/2001).\u00a0<em>Op. cit.<\/em>, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[35] Idem, ibidem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[36] LACAN, J. (1972-1973\/1975)\u00a0<em>Op. cit.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[37] Idem, ibidem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[38] Ver, para essa leitura de Barthes por Laurent e Miller: MILLER, J. (1998-1999\/2003) La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 288 e 294.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[39] Para essa refer\u00eancia dos objetos\u00a0<em>a<\/em>\u00a0no z\u00eanite social como uma caracter\u00edstica do mundo contempor\u00e2neo, ver: MILLER, J. (2004\/2005). Uma fantasia.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 42, p. 7-18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[40] Idem, ibidem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[41] Idem, ibidem, p. 17.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[42] Idem, ibidem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[43] Idem, ibidem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[44] SUZUKI, T. (1995).\u00a0<em>As express\u00f5es de tratamento na l\u00edngua japonesa<\/em>. S\u00e3o Paulo, EDUSP, p. 10. Para as informa\u00e7\u00f5es sobre esse autor, consultei: http:\/\/lattes.cnpq.br\/9032314285452365 (Acesso em 1\u00ba de maio de 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[45] Idem, ibidem, p. 16-17.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[46] Suzuki, p. 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[47] KANT, I. (1788\/1985).\u00a0<em>Critique de la raison pratique<\/em>. Paris: P.U.F., p. 173.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[48] LACAN, J. (1938\/2001).\u00a0<em>Les complexes familaux<\/em>. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, p. 62.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[49] Ver: STOKES, H. S. (1974\/1986)\u00a0<strong>A vida e a morte de Mishima<\/strong>. Porto Alegre, L&amp;PM. Indispens\u00e1vel tamb\u00e9m, a respeito da rela\u00e7\u00e3o de Mishima com as tradi\u00e7\u00f5es japonesas e sua cr\u00edtica \u00e0 ocidentaliza\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o: MISHIMA, Y. (1968\/1986).\u00a0<em>Sol e a\u00e7o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense. Por fim, permito-me citar um artigo meu, publicado j\u00e1 h\u00e1 alguns bons anos: LAIA, S. (1996). Mishima e o imp\u00e9rio dos semblantes.\u00a0<em>Correio<\/em>, EBP; esse texto encontra-se tamb\u00e9m disponibilizado na internet (Acesso em 1\u00ba de maio de 2015):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">http:\/\/ebp.org.br\/wpcontent\/uploads\/2012\/08\/Sergio_Laia_Mishima_e_o_imperio_dos_semblantes2.pdf<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[50] Ver: HARDT, M.; NEGRI, A. (2004)\u00a0<em>Multitude: War and Democracy in the age of Imperium<\/em>. New York: Peguin Press; NEGRI, A. (2004) Para uma defini\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica de multid\u00e3o.\u00a0<em>Lugar Comum<\/em>, Rede Universit\u00e1ria N\u00f4made, n. 19-20, p. 15-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[51] SANTIAGO, H. (2014) O que \u00e9, quem \u00e9 a multid\u00e3o.\u00a0<em>Cult<\/em>, n. 189, abril 2014, p. 31<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[52] Idem, ibidem, p. 31. Ver, ainda, a entrevista, realizada por Thiago Fonseca e Guiseppe Cocco com o pr\u00f3prio Antonio Negri, intitulada \u201cNa volta a Espinosa, a constru\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>comum<\/em>\u201d:\u00a0<em>Cult<\/em>, n. 189, abril 2014, p. 38-41.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[53] LACAN, J. (1964\/1973).\u00a0<em>Le s\u00e9minaire. Livre XI: les quatres concepts fondamentaux de la psychanalyse<\/em>. Paris: Seuil, p. 247.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[54] Idem, ibidem, p. 247. Ver, tamb\u00e9m: LACAN, J. (1963\/1966). Kant avec Sade. In:\u00a0<em>\u00c9crits.\u00a0<\/em>Paris: Seuil, p. 765-790. Por sua vez, a refer\u00eancia a George Lucas, se vale de toda a saga apresentada nessa constela\u00e7\u00e3o de seus filmes intitulada\u00a0<em>Guerra nas estrelas<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[55] LACAN, J. (1963\/1966)\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 773.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[56] LACAN, J. (1971\/2001)\u00a0<em>Op. cit.<\/em>, p. 20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[57] MILLER, J. (1998-1999\/2003) La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, p. 288.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1042"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1042"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1042\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1043,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1042\/revisions\/1043"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}