{"id":1066,"date":"2021-09-02T13:52:15","date_gmt":"2021-09-02T16:52:15","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1066"},"modified":"2021-09-02T13:52:15","modified_gmt":"2021-09-02T16:52:15","slug":"julio-cesar-lemes-de-castro-imperio-das-imagens-e-fluidez-das-identificacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/julio-cesar-lemes-de-castro-imperio-das-imagens-e-fluidez-das-identificacoes\/","title":{"rendered":"Julio Cesar Lemes de Castro &#8211; Imp\u00e9rio das imagens e fluidez das identifica\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Julio Cesar Lemes de Castro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1064 alignleft\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/Diana_Ong_-_Parts_equal_the_whole_I.jpg\" alt=\"\" width=\"504\" height=\"624\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/Diana_Ong_-_Parts_equal_the_whole_I-200x248.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/Diana_Ong_-_Parts_equal_the_whole_I-242x300.jpg 242w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/Diana_Ong_-_Parts_equal_the_whole_I-400x495.jpg 400w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/Diana_Ong_-_Parts_equal_the_whole_I.jpg 504w\" sizes=\"(max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de Freud, Lacan estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre o eu ideal \u2013 i(a) \u2013 e o ideal do eu \u2013 I(A). O primeiro, cujo exemplar inaugural \u00e9 a imagem do corpo no espelho, consiste na matriz de identifica\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. O segundo, que aparece embrionariamente como a inst\u00e2ncia que referenda para a crian\u00e7a sua imagem especular como objeto do desejo do Outro, consiste na matriz de identifica\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria. O eu ideal, efeito da proje\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, corresponde \u00e0 imagem idealizada de si. J\u00e1 o ideal do eu, resultado da introje\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 o modelo que serve de par\u00e2metro a essa idealiza\u00e7\u00e3o, desdobrando-se no supereu, que lhe acrescenta o poder de san\u00e7\u00e3o garantidor do cumprimento da norma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regime de poder caracter\u00edstico da modernidade \u00e9 exercido, conforme a an\u00e1lise de Foucault (1975), no interior das diferentes institui\u00e7\u00f5es disciplinares \u2013 a f\u00e1brica, a escola, o quartel, o hospital, a pris\u00e3o. Podemos dizer que cada uma dessas institui\u00e7\u00f5es valoriza um certo tipo de ideal do eu, acoplado a um supereu repressivo que zela pela ades\u00e3o aos padr\u00f5es normativos. A relativa homogeneidade desses modelos de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeitamente compat\u00edvel com o individualismo moderno, pois cada um, tomado individualmente, procura adequar seu eu ideal a esses modelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arcabou\u00e7o simb\u00f3lico da sociedade disciplinar \u00e9 complementado assim pela ascens\u00e3o do imagin\u00e1rio moderno, situada a grosso modo entre o s\u00e9culo XV \u2013 \u201cz\u00eanite imagin\u00e1rio do homem moderno\u201d (Lacan, 1949\/1966, p. 97) \u2013 e o s\u00e9culo XVII \u2013 \u201caurora da era hist\u00f3rica do eu\u201d (Lacan, 1953\/1966, p. 283). Na passagem do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, o imagin\u00e1rio moderno ganha um novo impulso, em fun\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do consumo de massa e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Aqui, a constru\u00e7\u00e3o do eu ideal continua tendo como par\u00e2metro um repert\u00f3rio limitado de tipos de ideal do eu. Mas esse ideal do eu est\u00e1 acoplado a um supereu que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma inst\u00e2ncia repressiva das institui\u00e7\u00f5es disciplinares, ainda que se entrelace com esta e seja em alguma medida por ela limitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, a prolifera\u00e7\u00e3o das imagens tem um efeito cumulativo, levando ao desgaste gradativo das refer\u00eancias simb\u00f3licas. Esse processo chega a um ponto de virada, no qual se reconhece claramente a preval\u00eancia das imagens, por volta dos anos 60, quando Debord (1967\/1987) prop\u00f5e sua caracteriza\u00e7\u00e3o da sociedade do espet\u00e1culo. A infla\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio em detrimento das refer\u00eancias simb\u00f3licas articula-se \u00e0 injun\u00e7\u00e3o supereg\u00f3ica do gozo, que, como detecta Lacan (1972-1973\/1975, p. 10), se torna dominante na sociedade contempor\u00e2nea: \u201cO supereu \u00e9 o imperativo do gozo: Goza!\u201d A valoriza\u00e7\u00e3o das imagens viabiliza a injun\u00e7\u00e3o de gozar porque, atrav\u00e9s delas, se tem a impress\u00e3o de que essa injun\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo cumprida \u2013 ou seja, o imagin\u00e1rio constitui o canal de transgress\u00e3o socialmente toler\u00e1vel que permite o exerc\u00edcio constante do imperativo do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o decl\u00ednio do supereu repressivo que acompanha a escalada do imagin\u00e1rio, a sociedade disciplinar examinada por Foucault d\u00e1 lugar \u00e0 sociedade de controle vislumbrada por Deleuze (1990\/2003). Assim, o \u201cimp\u00e9rio\u201d, o edif\u00edcio de poder contempor\u00e2neo descrito por Hardt e Negri (2000), que ilustra o funcionamento da sociedade de controle e \u00e9 citado por Miller (2002\/2011) em \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas\u201d, poderia ser entendido como \u201cimp\u00e9rio das imagens\u201d \u2013 o paradigma do espet\u00e1culo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do paradigma de controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na medida em que na sociedade de controle o ideal do eu est\u00e1 acoplado a um supereu que ordena o gozo, enquanto o efeito normatizador do supereu repressivo se eclipsa, nela se torna poss\u00edvel a multiplica\u00e7\u00e3o dos modelos simb\u00f3licos de identifica\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista econ\u00f4mico, essa transi\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 passagem do regime de acumula\u00e7\u00e3o fordista, caracterizado pela produ\u00e7\u00e3o e pelo consumo em massa, ao p\u00f3s-fordista, caracterizado pela produ\u00e7\u00e3o e pelo consumo flex\u00edveis, que requerem uma identidade mais fluida. Tamb\u00e9m o funcionamento da psicologia de massas se modifica: em lugar do l\u00edder que d\u00e1 coes\u00e3o \u00e0 massa em Freud (1921\/1967), temos a fragmenta\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as e de investimentos libidinais presente nas mobiliza\u00e7\u00f5es em rede contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 maior latitude do ideal do eu corresponde a plasticidade do eu ideal, que n\u00e3o precisa mais se adequar a moldes preestabelecidos, mas pode modular-se de acordo com as circunst\u00e2ncias. Amplia-se a margem social de manobra do investimento narc\u00edsico, pois cabe a cada um promover seu capital humano, segundo a f\u00f3rmula do empreendedorismo de si que distingue o sujeito neoliberal, para Foucault (1978-1979\/2004), e que abrange os mecanismos de apresenta\u00e7\u00e3o de si na vida cotidiana descritos por Goffman (1956\/1959).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso pode ser constatado especialmente em certas esferas. Longe de subordinar-se a necessidades materiais, o consumo aparece cada vez mais como espa\u00e7o privilegiado da constru\u00e7\u00e3o de identidade, sobretudo na medida em que fornece ferramentas para o cultivo da imagem de si. Na Internet, a promo\u00e7\u00e3o da imagem pessoal evolui dos foruns e chats para as p\u00e1ginas pessoais e da\u00ed para os blogs, at\u00e9 chegar \u00e0s redes sociais como o Facebook, instrumento por excel\u00eancia para essa finalidade. Nesses contextos, a imagem que cada um procura projetar de si funciona como a imagem especular: trata-se de algo perfeito, completo, do qual se omite a falta. Circunscrevendo de forma bastante male\u00e1vel as identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, o Outro aparece como refer\u00eancia onipresente, mas \u00e0 semelhan\u00e7a do \u201cpai que diz sim\u201d, n\u00e3o do \u201cpai que diz n\u00e3o\u201d; n\u00e3o por acaso, o Facebook disponibiliza um link para \u201ccurtir\u201d, mas n\u00e3o h\u00e1 um recurso para manifestar reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEBORD, Guy (1967).\u00a0<strong>La soci\u00e9t\u00e9 du spectacle<\/strong>. Paris: G\u00e9rard Lebovici, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DELEUZE, Gilles (1990). Post-scriptum sur les soci\u00e9t\u00e9s de contr\u00f4le. In:\u00a0<strong>Pourparlers<\/strong>: 1972-1990. Paris: Minuit, 2003. p. 240-247.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FOUCAULT, Michel.\u00a0<strong>Surveiller et punir<\/strong>: naissance de la prison. Paris: Gallimard, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FOUCAULT, Michel (1978-1979).\u00a0<strong>Naissance de la biopolitique<\/strong>: cours au Coll\u00e8ge de France, 1978-1979. Paris: Gallimard\/Seuil, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund (1921). Massenpsychologie und Ich-Analyse. In:\u00a0<strong>Gesammelte Werke, dreizehnter Band<\/strong>: Jenseits des Lustprinzips \/ Massenpsychologie und Ich-Analyse \/ Das Ich und das Es. 5. Aufl. Frankfurt am Main: S. Fischer, 1967. p. 71-161.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOFFMAN, Erving (1956).\u00a0<strong>The presentation of self in everyday life<\/strong>. rev. ed. New York: Anchor Books, 1959.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HARDT, Michael; NEGRI, Antonio.\u00a0<strong>Empire<\/strong>. Cambridge (MA) and London: Harvard University Press, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques (1949). Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je. In:\u00a0<strong>\u00c9crits<\/strong>. Paris: Seuil, 1966. p. 93-100.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques (1953). Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse. In:\u00a0<strong>\u00c9crits<\/strong>. Paris: Seuil, 1966. p. 237-322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques (1972-1973).\u00a0<strong>Le s\u00e9minaire, livre XX<\/strong>: encore. Paris: Seuil, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MILLER, Jacques-Alain (2002). Intui\u00e7\u00f5es milanesas. Tradu\u00e7\u00e3o de In\u00eas Autran Dourado Barbosa.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>\u00a0online nova s\u00e9rie, n\u00b0 5, julho de 2011.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1066"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1067,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066\/revisions\/1067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}