{"id":1084,"date":"2021-09-02T14:03:58","date_gmt":"2021-09-02T17:03:58","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1084"},"modified":"2021-09-02T14:03:58","modified_gmt":"2021-09-02T17:03:58","slug":"maria-fatima-pinheiro-pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/maria-fatima-pinheiro-pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel\/","title":{"rendered":"Maria F\u00e1tima Pinheiro &#8211; Pour la derni\u00e8re et pour la premi\u00e8re fois: imagens do invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>F\u00e1tima Pinheiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exemplo da pr\u00e1tica cl\u00ednica que nos ensina sobre os sintomas contempor\u00e2neos, a partir do afetamento dos sujeitos pelo imperativo das imagens, a arte tamb\u00e9m nos ensina sobre os efeitos das imagens no corpo. As imagens contempor\u00e2neas em sua avalanche midi\u00e1tica e imperativa nos leva, cada vez mais, a refletir sobre o \u201cvasto oceano do registro imagin\u00e1rio\u201d<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O poder da imagem se manifesta hoje desde a televis\u00e3o, onde a imagem passa por fra\u00e7\u00f5es de segundos e se processa em um cont\u00ednuo, o telejornal se mistura com o an\u00fancio de sab\u00e3o em p\u00f3, que por sua vez se confunde com a transmiss\u00e3o de futebol, \u2013 at\u00e9 chegar \u00e0 internet com a pulveriza\u00e7\u00e3o das imagens\u00a0<em>fakes<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">William John Thomas Mitchell<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, cr\u00edtico de arte norte- americano, e editor do Critical Inquiry, em seu livro\u00a0<em>Iconology,\u00a0<\/em>ao questionar o valor da imagem, faz uma distin\u00e7\u00e3o muito precisa entre\u00a0<em>image\u00a0<\/em>e\u00a0<em>picture<\/em>\u00a0, distin\u00e7\u00e3o que n\u00e3o costumamos fazer na l\u00edngua portuguesa uma vez que usamos a palavra \u201cimagem\u201d de forma ampla. Ele a situa da seguinte forma: voc\u00ea pode dependurar uma\u00a0<em>picture<\/em>, mas n\u00e3o pode dependurar uma\u00a0<em>image.<\/em>\u00a0Pareceu-nos bastante interessante o fato deste pensador do campo das artes, influenciado por Marx e Freud, separar a imagem da ordem do vis\u00edvel, como um objeto do mundo, da imagem que \u00e9 da ordem da invisibilidade, fora do campo da representa\u00e7\u00e3o. Esse apontamento diferencial embora n\u00e3o esteja fundamentado na concep\u00e7\u00e3o lacaniana do imagin\u00e1rio recorta aquilo que da imagem escapa \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de clich\u00eas, quest\u00e3o que o olhar como objeto desvela. \u00c9 no ponto onde as imagens contempor\u00e2neas est\u00e3o integradas ao sistema de produ\u00e7\u00e3o de clich\u00eas que a arte vem justamente cavar um vazio. Como sabemos a arte, assim como a psican\u00e1lise, permite um acesso ao real pela via do objeto. O real em jogo no objeto pulsional, o real do gozo, como afirma Miller<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, n\u00e3o \u00e9 da ordem de um objeto do mundo, n\u00e3o \u00e9 um objeto da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A francesa Sophie Calle, artista conceitual e\u00a0<em>performer,<\/em>\u00a0em sua exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Pour la derni\u00e8re et pour la premi\u00e8re fois<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>\u00a0, no Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Montreal (2015), h\u00e1 dois meses atr\u00e1s, reuniu dois de seus mais recentes projetos:\u00a0<em>La Derni\u00e8re Image<\/em>\u00a0(2010), uma s\u00e9rie de fotografias, acompanhadas por textos\u00a0<em>e Voir la mer<\/em>\u00a0(2011), um conjunto de filmes digitais (2010), que questionam a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a imagem, onde a imagem \u00e9 tratada a partir da linguagem, ou seja, com aquilo que lhe escapa. Esses dois trabalhos encontram particular resson\u00e2ncia na era da produ\u00e7\u00e3o e consumo de imagens, entre o excesso e a falta delas, e realizam uma reflex\u00e3o po\u00e9tica sobre a cegueira em sua articula\u00e7\u00e3o com a beleza e o sublime. Esses trabalhos ganham relev\u00e2ncia na medida em que uma imagem s\u00f3 pode evocar o inexprim\u00edvel ou o indiz\u00edvel se ela estiver atrelada ao universo simb\u00f3lico da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa que precedeu os dois trabalhos de Sophie Calle foi iniciada h\u00e1 aproximadamente trinta anos com o projeto\u00a0<em>Les Aveugles<\/em>\u00a0(1986), onde a artista faz uma explora\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica da cegueira a partir de seu car\u00e1ter traum\u00e1tico e testemunhal. A artista realiza essa pesquisa a partir de um invent\u00e1rio dos efeitos, n\u00e3o unicamente metaf\u00f3ricos, mas sim aqueles que recaem sobre a experi\u00eancia do corpo. Sophie Calle solicita a um grupo de pessoas cegas que lhe responda qual seria, para cada uma delas, a imagem da beleza. Algu\u00e9m que n\u00e3o havia nascido cego, mas que ficou cego, responde-lhe:\u00a0<em>\u201cLa plus belle chose que j\u2019ai vue c\u2019est la mer, la mer \u00e0 perte de vue\u201d\u00a0<\/em>\u2013 frase escolhida para ser o primeiro depoimento do livro\u00a0<em>Aveugles<\/em>, de leitura braille; j\u00e1 outro, cego desde a nascen\u00e7a, afirma:\u00a0<em>\u201cLa mer, je l\u2019imagine belle, belle au-del\u00e0 de la description qu\u2019on m\u2019en faite. J\u2019aurais tendance \u00e0 aimer le bleu \u00e0 cause d\u2019elle\u201c<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a>.<\/em>\u00a0Em 1991, na obra\u00a0<em>La Couleur Aveugle<\/em>, Calle trata a cegueira total, confrontando os relatos dos cegos com textos sobre a monocromia de Borges, Klein, Malevich, Manzoni, e Rauschenberg.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<em>La Derni\u00e8re Image<\/em>\u00a0(2010), o primeiro projeto apresentado na exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Pour la derni\u00e8re et pour la premi\u00e8re foi<\/em>s, no Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Montreal, a artista viaja para Istambul e l\u00e1, a partir da conversa com pessoas que haviam perdido a vis\u00e3o repentinamente, pede a cada uma, para descrever a \u00faltima coisa que haviam visto antes de perder a vis\u00e3o. Os v\u00e1rios testemunhos s\u00e3o acompanhados de fotografias que sugerem a \u00faltima visualiza\u00e7\u00e3o, recriadas pela artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<em>Voir la mer<\/em>\u00a0(2011), segundo projeto da exposi\u00e7\u00e3o, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de Caroline Champetier, colaboradora, entre muitos, de Jean Luc-Godard e Philippe Garrel, h\u00e1 uma s\u00e9rie de v\u00eddeos com sujeitos cegos, que aparecem voltados de costas para o espectador, frente ao mar, sob o som incessante das ondas. Em um dado momento cada um dos sujeitos se volta, \u00e0 sua vez, para o espectador, mostrando o quanto foram afetados por essa experi\u00eancia. Todas estas pessoas desprovidas da vis\u00e3o, filmadas pela artista, conhecidas por ela, no interior da Turquia, nunca tinham visto o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>La Derni\u00e8re Image<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Voir la mer<\/em>\u00a0, ao criarem imagens do invis\u00edvel, apresentam-se como uma resposta a impregna\u00e7\u00e3o das imagens uniformemente aceleradas e sem espessura do imp\u00e9rio das imagens de nossa \u00e9poca. Esses trabalhos revelam que, se de fato as imagens tem um poder perturbador, \u00e9 porque elas est\u00e3o enla\u00e7adas \u00e0s significa\u00e7\u00f5es que cada cadeia significante introduz no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final do v\u00eddeo\u00a0<em>Voir la mer<\/em>\u00a0a artista apaga as imagens atrav\u00e9s de um\u00a0<em>fade<\/em>\u00a0gigantesco, branco, e escreve o vazio no espa\u00e7o da galeria. N\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias que Lacan, em 1975, tenha salientado que a boa maneira de inscrever o corpo seria referindo-o ao conjunto vazio. Conjunto vazio, que a arte pode suscitar ao permitir \u201celaborar uma estrutura em que os significantes possam repetir a diferen\u00e7a a respeito dele\u201d<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Bassols, M. O imp\u00e9rio das imagens e o gozo do corpo falante. Enapol. 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Mitchell, W. Iconology: Image, Text, Ideology. Chicago: U. of Chicago P, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0Miller, J. A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013, p. 71.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.macm.org\/expositions\/sophie-calle-pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois\/\">http:\/\/www.macm.org\/expositions\/sophie-calle-pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0Depoimentos de cegos de nascen\u00e7a: Calle, Sophie, Aveugles. Verona: Edi\u00e7\u00e3o Actes Sud, 2011, p.17<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/pour-la-derniere-et-pour-la-premiere-fois-imagens-do-invisivel-maria-fatima-pinheiro\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0\u00a0Miller, J. A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013., p. 70<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1084"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1084"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1085,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1084\/revisions\/1085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}