{"id":1110,"date":"2021-09-02T15:23:12","date_gmt":"2021-09-02T18:23:12","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1110"},"modified":"2021-09-02T15:23:12","modified_gmt":"2021-09-02T18:23:12","slug":"patricia-tagle-barton-quando-a-imagem-se-torna-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/patricia-tagle-barton-quando-a-imagem-se-torna-destino\/","title":{"rendered":"Patricia Tagle Barton &#8211; Quando a imagem se torna destino"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Patricia Tagle Barton<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong>Espessura<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Tomo emprestado o t\u00edtulo de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, \u201cA imagem \u00e9 uma pomba morta no fundo de uma lata de lixo. Como esta imagem se tornou destino para um sujeito?\u201d<em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>ela se pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o nos leva da problem\u00e1tica atual do Imp\u00e9rio das Imagens \u00e0 quest\u00e3o do Uma-imagem e de seu imp\u00e9rio. Uma imagem e sua pregn\u00e2ncia singular, que se torna destino para algu\u00e9m, um sujeito, um\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma-imagem, S1. Ela sozinha, momento de encontro e de eclipse, af\u00e2nise, conforme prop\u00f5e Lacan, sempre contingente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um encontro com o que a imagem carrega de irrepresent\u00e1vel, de real, e com o gozo que ela veicula. Se h\u00e1 um\u00a0<em>quid\u00a0<\/em>do assunto, este \u00e9 o gozo em jogo, um gozo que n\u00e3o se reduz ao \u00e2mbito esc\u00f3pico que veicula a imagem como tal, e, na medida em que toca o corpo, \u00e9 sempre corte. Quando se trata desta Uma-imagem, ela divide, atravessa o sujeito, o reenvia \u00e0 sua inerme primordial, e, por este motivo, \u00e9 em torno dela que constr\u00f3i sua defesa, seu fantasma. Miller a chama de \u201cimagem rainha\u201d. Entretanto, ela reina em sua espessura. Por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma pomba que n\u00e3o voa. N\u00e3o obstante, uma pomba\u00a0<strong>mensageira<\/strong>\u00a0de um real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong>Literr-a-tura<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, eu me deparei com um relato de Mariana Enriquez, autora argentina. Trata-se do conto denominado\u00a0<em>Donde est\u00e1s coraz\u00f3n<\/em><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTenho tr\u00eas recorda\u00e7\u00f5es dele, mas uma delas pode ser falsa. A ordem \u00e9 arbitr\u00e1ria\u201d, come\u00e7a o texto. Trata-se do encontro de uma menina, na casa das amiguinhas de inf\u00e2ncia, com a imagem de um homem doente (presumivelmente, o pai da amiga), nu e ferido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u2026 est\u00e1 assentado em uma poltrona completamente nu, sobre uma toalha, vendo televis\u00e3o (\u2026). O p\u00eanis descansa entre uma mata de pelos negros e a cicatriz que lhe atravessa os pelos \u00e9 de um rosado escuro.\u201d As outras duas \u201clembran\u00e7as\u201d s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema, exceto em um ponto: ambas carregam a significa\u00e7\u00e3o da sedu\u00e7\u00e3o: \u201cele me olha de perto\u201d\/ \u201cele me sorri de perto, o rosto quase colado ao meu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa lembran\u00e7a, eu me sinto nua e t\u00edmida\u201d, assinala a protagonista do relato, e acrescenta: \u201cn\u00e3o sei se era real (\u2026) posso t\u00ea-lo inventado, embora reconhe\u00e7a esta sensa\u00e7\u00e3o de timidez e vulnerabilidade que com frequ\u00eancia\u00a0<strong>se repete<\/strong>\u00a0em meus sonhos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 aqui, o conto parece ilustrar classicamente o pr\u00f3ton pseudos da histeria, \u201ccomum\u201d. Nada de novo, nada \u201chist\u00f3rico\u201d. Exceto um dado: o pai jacente, ferido, o p\u00eanis desfalecido sobre um fundo peludo, marcado por una cicatriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo momento narra o encontro da protagonista, j\u00e1 na adolesc\u00eancia, com uma imagem \u201cliter\u00e1ria\u201d, que ressignifica este primeiro encontro da inf\u00e2ncia com esta imagem do homem ferido que condensa Um-gozo. Trata-se de uma passagem de\u00a0<em>Jane Eyre,\u00a0<\/em>em que Jane acompanha sua amiga Helen, moribunda e t\u00edsica, convalescente. \u201cDurante todo esse ver\u00e3o \u2013 relata a protagonista \u2013 eu imaginei (\u2026) [que] Helen, t\u00edsica e moribunda, t\u00e3o bonita, morria enquanto eu a tomava pela m\u00e3o\u201d. Junto a este encontro \u201cliter\u00e1rio\u201d, est\u00e1 o seguinte: o irm\u00e3o de uma colega de col\u00e9gio est\u00e1 morrendo por conta de um tumor que n\u00e3o pode ser operado entre o cora\u00e7\u00e3o e os pulm\u00f5es. A protagonista do relato recorda t\u00ea-lo visitado em seu leito de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dali em diante, sobrev\u00e9m para a protagonista do relato, nesta ordem:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>a) Uma compulsiva indaga\u00e7\u00e3o junto aos livros de medicina, particularmente para indagar sobre estas\u00a0<em>patologias do cora\u00e7\u00e3o.<\/em><\/li>\n<li>b) O encontro, em uma livraria de medicina, de um CD que reproduzia\u00a0<em>ru\u00eddos card\u00edacos,\u00a0<\/em>em cuja escuta ela se comprazia e se masturbava at\u00e9 produzirem-se feridas no clit\u00f3ris.<\/li>\n<li>c) O encontro (virtual) de um site da internet, protegida pelo anonimato,\u00a0<em>em que outros fetichistas dos batimentos card\u00edacos compartilhavam seus cora\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/em>O texto descreve, assim, o gozo em jogo: \u201c\u00c0s escuras, com os fones de ouvido e os cora\u00e7\u00f5es, esta era minha vida, nunca mais sexo com pessoas. Para qu\u00ea?\u201d.<\/li>\n<li>d) O encontro real com um dos fetichistas \u201can\u00f4nimos\u201d ass\u00edduos ao chat. \u201cLogo n\u00f3s dois nos abandonamos \u00e0 vida virtual, e nos fechamos em minha resid\u00eancia, com um gravador, um estetosc\u00f3pio, medicamentos e subst\u00e2ncias que ajudavam a alterar o ritmo card\u00edaco. N\u00f3s dois sab\u00edamos qual poderia ser o final, e n\u00e3o nos import\u00e1vamos com isso\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><strong><em>\u00bfD\u00f3nde est\u00e1s, coraz\u00f3n?<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c<\/em>Onde est\u00e1s, cora\u00e7\u00e3o?, n\u00e3o ou\u00e7o teu palpitar\/ \u00e9 t\u00e3o grande a dor que n\u00e3o posso chorar.\/ Eu quisera chorar e n\u00e3o tenho mais pranto\/ eu a queria tanto e se foi para n\u00e3o voltar<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu a queria com toda a alma como se quer somente uma vez,\/ mas o destino cruel e sangrento quis me deixar sem seu querer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente a morte arrancar podia aquele id\u00edlio de terno amor;\/ e em uma manh\u00e3 de cru inverno entre meus bra\u00e7os morreu.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, o conto de Mariana Enr\u00edquez se difere muito da hist\u00f3ria que ressoa naquele tango<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0que canta a dor perante a despedida de um amor arrebatado pela morte, e que \u00e9 evocado por seu t\u00edtulo. Entretanto, n\u00e3o h\u00e1 nem amor, nem duelo, nem id\u00edlio. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ali uma met\u00e1fora do amor, sua \u201csede\u201d imaginarizada, nem simplesmente um \u00f3rg\u00e3o a ser auscultado \u201cat\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias\u201d, e sempre haver\u00e1 \u201calgum\u201d. Se o t\u00edtulo do relato me chamou a aten\u00e7\u00e3o, foi justamente pela \u201cindiferen\u00e7a\u201d que torna patente sua falta de acento; um \u201conde\u201d sem destino, sem destinat\u00e1rio, e sem lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li><strong>\u201cPatologias do cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo este significante que condensa o real em jogo, quando se trata do poder invocante de uma imagem desprovida de um m\u00ednimo e necess\u00e1rio marco simb\u00f3lico. Trata-se de um gozo selvagem e desvairado, mort\u00edfero. Entregue \u00e0 nua voracidade do supereu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que destino e a que se destina hoje a transfer\u00eancia e o encontro com um analista para os sujeitos atingidos por estas novas\u00a0<em>patologias do cora\u00e7\u00e3o<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como colocamos em jogo, em cada encontro e em cada caso, o peso deste \u201caqui\u201d e deste \u201cagora\u201d, onde possa acontecer um encontro in\u00e9dito, n\u00e3o sem\u00a0<em>cora\u00e7\u00e3o,\u00a0<\/em>nem sem destinat\u00e1rio? Em suma, um encontro que n\u00e3o seja indiferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne.\u00a0<strong>Posici\u00f3n sexual y fin de an\u00e1lisis<\/strong>. Buenos Aires: Tres Haches, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0ENRIQUEZ, Mariana.\u00a0<strong>Los peligros de fumar en la cama<\/strong><em>.\u00a0<\/em>Lima: Santuario, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-imagem-se-torna-destino-patricia-tagle-barton\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00bf<em>D\u00f3nde est\u00e1s, coraz\u00f3n?<\/em>, Luis Mart\u00ednez Serrano\/ Augusto Berto, 1930.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Adriano Messias<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1110"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1111,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110\/revisions\/1111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}