{"id":1132,"date":"2021-09-02T15:39:20","date_gmt":"2021-09-02T18:39:20","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=1132"},"modified":"2021-09-02T15:39:20","modified_gmt":"2021-09-02T18:39:20","slug":"marie-claude-sureau-selfie-a-imagem-conversacional-alem-do-narcisismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/marie-claude-sureau-selfie-a-imagem-conversacional-alem-do-narcisismo\/","title":{"rendered":"Marie-Claude Sureau &#8211; SELFIE: A imagem conversacional al\u00e9m do narcisismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p><strong>Marie-Claude Sureau<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No jornal\u00a0<em>Lib\u00e9ration<\/em>\u00a0de quinta-feira, 5 de agosto de 2015, h\u00e1 uma entrevista muito interessante de Andr\u00e9 Gunthert sobre uma quest\u00e3o que toca \u00e0s imagens no nosso s\u00e9culo XXI, o fen\u00f4meno\u00a0<em>selfie<\/em>. Andr\u00e9 Gunthert \u00e9 historiador da arte, professor e pesquisador da EHESS [<em>\u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales<\/em>], ele faz do\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0\u00abuma nova forma de express\u00e3o de for\u00e7a social.\u00bb Sem pretender reduzir o\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0a um simples fen\u00f4meno narc\u00edsico, ele lhe d\u00e1 a seguinte\u00a0defini\u00e7\u00e3o: \u00abfotografia que uma pessoa tira dela mesma, geralmente com um smartphone ou uma webcam, e a compartilha em uma m\u00eddia social.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Gunthert ocupa a cadeira de hist\u00f3ria visual na EHESS. Sua reflex\u00e3o \u00e9 oportuna ao ENAPOL. Andr\u00e9 Gunthert \u00abestendeu sua forma\u00e7\u00e3o em hist\u00f3ria da arte \u00e0s imagens em geral. Ele \u00e9 historiador do presente bem contempor\u00e2neo.\u00bb Ele reporta o\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0a uma pr\u00e1tica que j\u00e1 existia antes de ter recebido esse nome. Ele d\u00e1 como refer\u00eancia o filme \u00abThelma e Louise\u00bb de Ridley Scott, lan\u00e7ado em 1991, no qual Susan Sarandon (Louise) e Geena Davis (Thelma) se fotografavam: \u00abElas manifestavam seu feminismo fazendo elas mesmas suas fotos, longe de uma autoridade paternalista\u00bb. A palavra\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0foi introduzida na l\u00edngua em 2013, essa pr\u00e1tica se expande com os smartphones. Andr\u00e9 Gunthert chama o\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0de \u00abA\u00a0imagem conversacional\u00bb, ela entra tranquilamente em uso em 2010\u00bb diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lhe \u00e9 perguntado porque se critica os\u00a0<em>selfie<\/em>, ele responde que \u00e9 mais frequente em nome do narcisismo e que isso se desenvolveria perigosamente nos adolescentes e em uma pr\u00e1tica de jovens que sabotam a ordem social. Ele acrescenta que precisamente \u00ab\u00e9 o que se dizia do rock nos anos 60, quando a m\u00fasica representava o elemento mais forte da cultura jovem, forma de instrumento pol\u00edtico, de identifica\u00e7\u00e3o. Hoje o esc\u00e2ndalo \u00e9\u00a0<strong>poder fazer imagens<\/strong>, sintoma fascinante da express\u00e3o de uma for\u00e7a social\u00bb, diz ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os denunciantes em nome do narcisismo n\u00e3o sabem que uma \u00abimagem enviada a algu\u00e9m com um rosto acima dela n\u00e3o tem nada de narcisismo. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 social, n\u00e3o se olha no espelho, mas sim se faz um\u00a0<em>coucou<\/em>\u00a0[\u201cei, olha eu aqui\u2026\u201d], um gesto de comunica\u00e7\u00e3o\u2026 a novidade \u00e9 que as imagens n\u00e3o est\u00e3o sozinhas\u2026 n\u00e3o se olha mais o quadro, mas o entorno [a paisagem]. Aqueles que v\u00eaem o\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0como narc\u00edsico aplicam o antigo uso da imagem, sem o \u201centorno\u201d, sem a exterioridade.\u00a0\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abO esp\u00edrito do\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0\u00e9 a autonomia.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1859 Baudelaire criticava a daguerre\u00f3tipo, mas na \u00e9poca, apenas a burguesia podia fazer autorretratos, ent\u00e3o, fabricaram-se equipamentos baratos, como a Kodak, para os outros. Hoje a mesma hist\u00f3ria continua diz-ele, \u00abo\u00a0<em>selfie<\/em>, \u00e9 tamb\u00e9m uma conquista pol\u00edtica.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o n\u00f3s entramos em um mundo onde tudo \u00e9 fic\u00e7\u00e3o? \u00abSabemos que se tratam de fic\u00e7\u00f5es, estamos prestes a aprender a gerenciar a n\u00f3s mesmos, nossas imagens e representa\u00e7\u00f5es, inclusive por meio de idealiza\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Estamos diante de uma muta\u00e7\u00e3o cultural de grande amplitude<\/strong>.<strong>\u00bb<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9 Gunthert faz refer\u00eancia a Erving Goffman e seu livro \u00abThe presentations of self in everyday life\u00bb de 1959. Isso ir\u00e1 desnudar a autorrepresenta\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio para os outros. \u00abNa rua, vestimo-nos para outros, atendemos \u00e0s normas coletivas. O\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0representa ent\u00e3o um instrumento de gest\u00e3o da individualidade no social, uma intera\u00e7\u00e3o entre o eu e o mundo.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na est\u00e9tica do\u00a0<em>selfie<\/em>, a qual deixa muitas vezes a desejar: \u00abos crit\u00e9rios est\u00e9ticos n\u00e3o se aplicam aos\u00a0<em>selfies<\/em>. Eles devem ser feiosos, porque s\u00e3o as \u201cembreagens\u201d da conversa\u00e7\u00e3o: uma imagem que comporta uma forma de autodeprecia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais bem sucedida que uma imagem bonita, apropriada\u00a0<em>\u00e0 la Harcourt<\/em>\u2026. Desde Marcel Duchamp, a hist\u00f3ria da arte nos ensina uma vis\u00e3o mais aberta, e o\u00a0<em>selfie<\/em>\u00a0descreve uma nova expressividade.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cr\u00edtica aos\u00a0<em>selfies<\/em>, trata-se de uma cultura elitista que condena uma cultura popular? Andr\u00e9 Gunthert nos remete aos monges copistas que n\u00e3o estavam nada contentes ao verem surgir a imprensa que vinha atingir o seu monop\u00f3lio dos saberes, \u00abas pessoas se servem de ferramentas, e isso lhes d\u00e1 o poder. Fotos de p\u00e9s e de gatinhos tornaram-se<br \/>\ng\u00eaneros em si. N\u00e3o encontramos nada equivalente no s\u00e9culo XX. Esta explos\u00e3o de<br \/>\nusos visuais nunca foi um problema na hist\u00f3ria da humanidade: hoje, ela perturba, e eu estou encantado.\u00bb conclui Andr\u00e9 Gunthert.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encantamento vai bem \u00e0quele que lida com as imagens, n\u00f3s tamb\u00e9m estamos deliciados como psicanalistas que os\u00a0<em>selfies<\/em>\u00a0sejam definidos como \u00abembreagens de conversa\u00e7\u00f5es\u00bb, de bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1, que saem do Um sozinho, s\u00e3o pequenos\u00a0<em>coucous<\/em>\u00a0[\u201cei, olha eu aqui\u201d]: na Disney, na Torre Eiffel\u2026 que v\u00eam de todos os lugares, l\u00e1 para onde as pessoas viajam e chamam seus amigos.\u00a0<em>Coucou<\/em>\u00a0da Fran\u00e7a ent\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do franc\u00eas: Antonia Claudete Amaral Livramento Prado<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[100],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1132"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1132"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1132\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1133,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1132\/revisions\/1133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1132"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1132"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1132"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}