{"id":842,"date":"2021-09-01T11:53:51","date_gmt":"2021-09-01T14:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/vii\/?p=842"},"modified":"2021-09-01T11:53:51","modified_gmt":"2021-09-01T14:53:51","slug":"flash-no-09-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/vii\/pt\/flash-no-09-2\/","title":{"rendered":"FLASH n\u00ba 09"},"content":{"rendered":"<p><div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-padding-top:10px;--awb-padding-bottom:10px;--awb-bg-color:#003f5a;--awb-bg-color-hover:#003f5a;--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"font-family: Raleway; letter-spacing: 4px; font-size: 20px; font-weight: 500; margin-bottom: 0px; text-align: center;\"><span style=\"color: #ffffff;\">EDITORIAL<\/span><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-2 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-1 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-2\"><p style=\"text-align: right;\"><strong>Mercedes Iglesias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-840 alignleft\" src=\"http:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/ImagemReflexosAgua5ENAPOL2015-300x200-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/ImagemReflexosAgua5ENAPOL2015-300x200-1-200x133.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-content\/uploads\/sites\/7\/2021\/09\/ImagemReflexosAgua5ENAPOL2015-300x200-1.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os textos que ser\u00e3o lidos a seguir foram todos, de um modo ou de outro, elaborados a partir de uma reflex\u00e3o em torno das imagens e das repercuss\u00f5es que t\u00eam na subjetividade humana de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joel Meyerowitz, fot\u00f3grafo, mostra o modo como concebe a fotografia e assinala um aspecto que me parece fundamental: explica a maneira pela qual se constr\u00f3i uma imagem. Quer dizer, mostra o modo como toda imagem \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma moldura onde aparecer\u00e1 um cen\u00e1rio. Em sua Leika, al\u00e9m disso, n\u00e3o pode observar outra coisa, a moldura exclui toda possibilidade de ver algo mais. Para ele n\u00e3o se trata de fotografar objetos, coisas, se poderia dizer que n\u00e3o se trata de reproduzir a realidade, coisa que fazem muitos bons fot\u00f3grafos. Para ele, ao contr\u00e1rio, a moldura sup\u00f5e aceitar que algo entrar\u00e1 nela e outras coisas ficar\u00e3o fora. E \u00e9 isso que interessa: a maneira como, selecionando o que vai dentro, capta um modo de rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o falada, captam-se rela\u00e7\u00f5es que aparentemente n\u00e3o est\u00e3o relacionadas entre si e, para ele, isto \u00e9 justamente o humano. Poder captar algo do potencial, do magnetismo que se estabelece nessas imagens, que podem parecer desconexas, por\u00e9m ao fotograf\u00e1-las nos falam de quem somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Eugenia Cardona da NEL-Miami, analisa a rela\u00e7\u00e3o do selfie (nomeada em 2013 a palavra do ano!) e do corpo. Passamos do autorretrato ao selfie, a expor a outros an\u00f4nimos algo do \u00edntimo. Gozo do olhar sem palavras. O sujeito tenta dar-se um corpo atrav\u00e9s do semblante. Certamente nos mostra o modo pelo qual se constr\u00f3i um corpo que n\u00e3o se tem, e a imagem vem tampar o que, de toda maneira, n\u00e3o deixa de insistir. A ilus\u00e3o de completude que devolve a imagem \u00e9 o que faz do selfie uma pr\u00e1tica ador\u00e1vel, tal como assinalou Lacan, o amor pr\u00f3prio como causa do imagin\u00e1rio para adorar esse corpo que nos devolve a imagem. Por\u00e9m, tamb\u00e9m denuncia que a imagem do corpo como espet\u00e1culo promove o despudor. Distanciamo-nos da vergonha. E isto \u00e9, justamente, uma das consequ\u00eancias que mostrou esse mundo de imagens, que o parletre goza desse espet\u00e1culo, que n\u00e3o se trata s\u00f3 de gozar da pr\u00f3pria imagem, que h\u00e1 mais, que quer gozar mais al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo encontramos a importante den\u00fancia de Edwin Jijena da NEL-Tarija, desta vez relacionada ao mundo da ci\u00eancia. Evidentemente, como assinala, as imagens nesse projeto aprovado por Obama, passam a ser tema central da ci\u00eancia.\u00a0<em>Brian<\/em>\u00a0considera-se uma iniciativa na qual se empregar\u00e1 muito dinheiro para que se investigue o modo de funcionamento do c\u00e9rebro, para detectar doen\u00e7as cerebrais e diagnosticar doen\u00e7as mentais e, certamente, o comportamento humano poder\u00e1 ser estabelecido a partir desse conhecimento do c\u00e9rebro. Inumer\u00e1veis disciplinas envolvidas, enormes quantidades de dinheiro, apostam, como marca o autor, no valor superlativo das imagens. Denuncia que estamos em uma \u00e9poca que prefere um sujeito silenciado, como se a imagem pudesse captar o que fica oculto ao olhar e \u00e0 palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Beneti, da EBP, faz dois percursos: por um lado a hist\u00f3ria da tatuagem na cultura e, por outro, os textos de Lacan e Miller para entender essa inscri\u00e7\u00e3o no corpo. Certamente, ainda que tenha diferentes conota\u00e7\u00f5es ao longo das culturas, a tatuagem pode representar um estigma, marcas correspondentes a seres em desgra\u00e7a ou desaprovados, a representa\u00e7\u00e3o de Satan\u00e1s para a Igreja, s\u00edmbolo de valentia e coragem na Polin\u00e9sia. De qualquer modo que o signifiquemos, tanto nas culturas como na hist\u00f3ria, todas elas, como inscri\u00e7\u00f5es na pele, s\u00e3o dirigidas ao olhar do Outro. Segundo o autor, os adolescentes da atualidade as fazem para mostrar um conflito, servem-se do imagin\u00e1rio para que sejam percept\u00edveis. A tatuagem \u00e9 um modo de apelar ao imagin\u00e1rio, por\u00e9m tamb\u00e9m invade o campo esc\u00f3pico e a cl\u00ednica. Quer dizer, o olhar e recorrer ao imagin\u00e1rio como modos de dar solu\u00e7\u00e3o ou express\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica subjetiva. No primeiro ensino de Lacan h\u00e1 sujeito do inconsciente na tatuagem, no \u00faltimo, h\u00e1 um falasser na tatuagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Beatriz Udenio, da EOL, narra sua experi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao que criou como \u2018A TEVE\u2019 em sua inf\u00e2ncia. Um acontecimento gerou uma queda \u2018de seu imp\u00e9rio da dita\u2019 e uma conting\u00eancia fez com que aparecesse no mesmo momento a televis\u00e3o em sua casa. Mostra como em sua rela\u00e7\u00e3o com o olhar produz-se um horror que leva a que o olho aponte a outro lugar. Neste caso, \u2018A TEVE\u2019 foi um lugar para o desenvolvimento da imagina\u00e7\u00e3o, para tentar recuperar o valor da palavra, ter uma garantia da palavra em essas cenas de ilus\u00e3o. O que n\u00e3o se realiza. Por isso, sustenta que quando a palavra n\u00e3o \u00e9 performativa, a imagem reina, um modo muito pertinente de relacionar a imagem e a palavra. A sa\u00edda \u00e9 que cada um, no singular, veja como se serviu dos Black Mirrors a seu alcance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para terminar, quero destacar o texto de Carlos M\u00e1rquez da NEL-Caracas, que contrap\u00f5e o car\u00e1ter performativo desse imp\u00e9rio, \u2018uma soberania d\u00f3cil para cada um\u2019. Diante do circo-ular do mercado, op\u00f5e a cl\u00ednica pelo sintoma, que marca justamente o que n\u00e3o anda; diante da realiza\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e da renega\u00e7\u00e3o da morte, op\u00f5e o inconsciente como o n\u00e3o realizado e, frente \u00e0 feminiza\u00e7\u00e3o do mundo, a psican\u00e1lise orienta para a feminilidade, como o reino do n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-3 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-2 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-title title fusion-title-1 fusion-sep-none fusion-title-text fusion-title-size-four\"><h4 class=\"fusion-title-heading title-heading-left fusion-responsive-typography-calculated\" style=\"margin:0;--fontSize:24;line-height:1.5;\">V\u00eddeoflash 5 &#8211;\u00a0 Joel Meyerowitz \u2013 Edi\u00e7\u00e3o de Marcelo Veras para o Flash 09<\/h4><\/div><div class=\"fusion-video fusion-youtube\" style=\"--awb-max-width:600px;--awb-max-height:360px;--awb-align-self:center;--awb-width:100%;\"><div class=\"video-shortcode\"><div class=\"fluid-width-video-wrapper\" style=\"padding-top:60%;\" ><iframe title=\"YouTube video player 1\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jfk11tBX0sc?wmode=transparent&autoplay=0\" width=\"600\" height=\"360\" allowfullscreen allow=\"autoplay; fullscreen\"><\/iframe><\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;margin-top:10px;margin-bottom:10px;width:100%;\"><\/div><div class=\"accordian fusion-accordian\" style=\"--awb-border-size:0px;--awb-icon-size:16px;--awb-content-font-size:15px;--awb-icon-alignment:left;--awb-hover-color:#f9f9f9;--awb-border-color:#cccccc;--awb-background-color:#ffffff;--awb-divider-color:rgba(224,222,222,0);--awb-divider-hover-color:rgba(224,222,222,0);--awb-icon-color:#ffffff;--awb-title-color:#0075a8;--awb-content-color:#222222;--awb-icon-box-color:#333333;--awb-toggle-hover-accent-color:#46b1fd;--awb-title-font-family:&quot;Raleway&quot;;--awb-title-font-weight:600;--awb-title-font-style:normal;--awb-title-line-height:1.5;--awb-content-font-family:&quot;Open Sans&quot;;--awb-content-font-style:normal;--awb-content-font-weight:400;\"><div class=\"panel-group fusion-toggle-icon-boxed\" id=\"accordion-842-1\"><div class=\"fusion-panel panel-default panel-ea5012b211c0c5d6e fusion-toggle-no-divider\"><div class=\"panel-heading\"><h4 class=\"panel-title toggle\" id=\"toggle_ea5012b211c0c5d6e\"><a aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"ea5012b211c0c5d6e\" role=\"button\" data-toggle=\"collapse\" data-parent=\"#accordion-842-1\" data-target=\"#ea5012b211c0c5d6e\" href=\"#ea5012b211c0c5d6e\"><span class=\"fusion-toggle-icon-wrapper\" aria-hidden=\"true\"><i class=\"fa-fusion-box active-icon awb-icon-minus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><i class=\"fa-fusion-box inactive-icon awb-icon-plus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/span><span class=\"fusion-toggle-heading\">Tatuagem e fuga do corpo \u2013 Ant\u00f4nio Beneti<\/span><\/a><\/h4><\/div><div id=\"ea5012b211c0c5d6e\" class=\"panel-collapse collapse \" aria-labelledby=\"toggle_ea5012b211c0c5d6e\"><div class=\"panel-body toggle-content fusion-clearfix\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escritos no corpo, mais precisamente na pele, sempre existiram na hist\u00f3ria da humanidade, convocando o olhar do Outro. Desta forma, as tatuagens estariam inscritas sob a forma de um n\u00f3: pele, corpo e olhar do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul Val\u00e9ry, diz que o mais profundo \u00e9 a pele; ele a considera como um len\u00e7o humano onde se desenha e pinta. As crian\u00e7as, por exemplo, brincam, desenham, pintam e escrevem sobre o corpo.\u00a0<em>Tatuam-se nesta atividade l\u00fadica<\/em>. Um prov\u00e9rbio chin\u00eas diz que \u201cum corpo sem tatuar \u00e9 um corpo est\u00fapido!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra tatuagem procede da antiga l\u00edngua do Taiti: ato de desenhar. A pr\u00e1tica da tatuagem recebeu, ao longo da hist\u00f3ria, em cada \u00e9poca e em cada cultura, diferentes tratamentos, leituras e interpreta\u00e7\u00f5es, numa \u201cpr\u00e1tica do sentido\u201d dado pelo Outro da Cultura da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os gregos e os romanos, por exemplo, de onde vem nossa cultura ocidental, n\u00e3o a consideravam uma pr\u00e1tica respeit\u00e1vel e a usavam para marcar escravos, criminosos e gladiadores. Usavam-na para marcar aqueles que ca\u00edram em desgra\u00e7a ou desaprova\u00e7\u00e3o. Assim, at\u00e9 hoje, uma certa marca de \u201cmarginalidade\u201d acompanha quem se tatua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra latina para tatuagem era: stigma. Assim, \u201co tatuado era um estigmatizado\u201d. Talvez seja este o sentido universal mais popular, ainda vigente\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, a igreja a considerou um sinal de paganismo a ser erradicado, ou uma manifesta\u00e7\u00e3o dos poderes de Satan\u00e1s. Mas muitas refer\u00eancias nos textos antigos indicam que era comum o costume dos primeiros crist\u00e3os tatuarem uma cruz, o nome de Cristo, um peixe ou um cordeiro, como signo de identifica\u00e7\u00e3o e pertin\u00eancia religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00e1rabes, principalmente as mulheres, tatuavam \u201cdagg\u201d ou \u201cdaqq\u201d, elemento ornamental ou terap\u00eautico, cumprimento de um desejo com a inten\u00e7\u00e3o de preservar o amor de um homem ou facilitar a indu\u00e7\u00e3o da gravidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No antigo Testamento existe uma passagem onde se pro\u00edbe a tatuagem ou as escarifica\u00e7\u00f5es. Na verdade, o juda\u00edsmo n\u00e3o permite nenhum tipo de marca no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na Polin\u00e9sia, a pr\u00e1tica da tatuagem \u00e9 bem desenvolvida; \u00e9 signo de identidade pessoal nas ilhas do Pac\u00edfico. Na antiga Samoa, tatuar era um of\u00edcio herdado com posi\u00e7\u00e3o privilegiada. A tatuagem no rapaz marcava uma transi\u00e7\u00e3o para o adulto e era prova de virilidade e coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, assim, a encontramos presente em v\u00e1rios povos do ocidente e oriente, em v\u00e1rias culturas, milenarmente, com v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es e in\u00fameras significa\u00e7\u00f5es sociais: sinal de beleza, devo\u00e7\u00e3o religiosa, marca de transi\u00e7\u00e3o do jovem ao adulto, distintivo do clan ou tribo, meio de identifica\u00e7\u00e3o pessoal ou forma de demonstrar valor ou virilidade, est\u00edmulo de atra\u00e7\u00e3o sexual, talism\u00e3 para afastar maus esp\u00edritos, parte necess\u00e1ria dos ritos funerais, diferencia\u00e7\u00e3o entre a mulher casada e a solteira, prova de amor, forma de marcar e identificar escravos, marginais e convictos (segrega\u00e7\u00e3o). Tamb\u00e9m podia ter fins curativos e preventivos. Os temas representados eram er\u00f3ticos, guerreiros, religiosos, alusivos a mitos ou lendas, plantas, animais ou cenas da vida cotidiana.\u00a0<strong>Mas sempre uma marca inscrita no corpo, um inscrito sobre a pele, endere\u00e7ado ao olhar do Outro<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Severo Sarduy (1996), em seu trabalho \u201cEscritos sobre o corpo\u201d, em que trata da liga\u00e7\u00e3o entre literatura e tatuagem, a tatuagem \u00e9 um escrito sobre o corpo. Ele confere \u00e0 tatuagem uma dimens\u00e3o equiparada \u00e0 literatura e sustenta que esta deve ser moldada pela opera\u00e7\u00e3o do desenho d\u00e9rmico, que implica circunscri\u00e7\u00e3o, pun\u00e7\u00e3o, dor e colorimento. Privilegia o campo esc\u00f3pico, o olhar, o espa\u00e7o e o tato. Para Sarduy, a literatura \u00e9 a arte do pict\u00f3rico. A autobiografia de Sarduy pode ser reconstru\u00edda a partir das inscri\u00e7\u00f5es em seu corpo em forma de cicatrizes e suturas por acidentes e enfermidades, que constituem uma verdadeira arqueologia da pele. Em \u201cEl Cristo de la rue Jacob\u201d, escrito autobiogr\u00e1fico, o corpo humano, para aceder ao sentido, tem que se transformar em texto m\u00f3vel, na marca de uma inscri\u00e7\u00e3o e um deciframento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a pele funciona como espelho e superf\u00edcie refletora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em \u201cUm testigo fugaz y disfrazado\u201d, ele diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSirva mi cuerpo cifrado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De emblema o de silogismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">La piel es um blazon vivo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se descifra em negativo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se lacera a si misma\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A adolesc\u00eancia parece ser o per\u00edodo em que h\u00e1 o maior \u201ctrabalho da tatuagem\u201d, funcionando como coadjuvante de uma ampla gama de conflitos pr\u00f3prios da idade. Ao coloc\u00e1-los na superf\u00edcie do corpo, servindo-se do imagin\u00e1rio, tais conflitos ficam percept\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tatuagem, hoje, \u00e9 um<em>\u00a0fen\u00f4meno social que se intensifica, se prolifera,<\/em>\u00a0<em>mas \u00e9 cada vez mais singular. S\u00e3o tatuagens esquisitas, incompreens\u00edveis, ininterpret\u00e1veis, nesse mundo onde o imagin\u00e1rio tem um papel prevalente em rela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atores e atrizes de toda ordem e de todos os campos (cinema, teatro, televis\u00e3o, porn\u00f4, etc) se apresentam com seus corpos tatuados, provocando o olhar centrado na tatuagem. Parece que vivemos uma \u00e9poca da \u201ctatuagem generalizada\u201d, de um \u201ctodos tatuados\u201d: adolescentes e jovens \u201cpraieiros\u201d, \u201cacad\u00eamicos\u201d, \u201cbaladeiros\u201d, m\u00e9dicos, ju\u00edzes, etc. \u00c9 algo que chama a aten\u00e7\u00e3o e invade o campo esc\u00f3pico e o da cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando surge, hoje, algu\u00e9m tatuado, olha-se a tatuagem. \u00c9 como se o resto se apagasse. Trata-se de um detalhe que adquire maior visibilidade que o todo corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A tatuagem no ensino de Lacan<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentemos pensar a tatuagem ontem, no s\u00e9culo passado e hoje, no s\u00e9culo XXI, no contempor\u00e2neo, a partir de algumas pontua\u00e7\u00f5es de Lacan e Miller com rela\u00e7\u00e3o ao tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evoco de in\u00edcio o texto \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d\u00b9, de 1948 (p 108 Zahar Ed.):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTem uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do homem com o seu pr\u00f3prio corpo que se manifesta igualmente na generalidade de uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas sociais \u2013 desde os\u00a0<em>ritos da tatuagem,<\/em>\u00a0da incis\u00e3o, da circuncis\u00e3o nas sociedades primitivas at\u00e9 no que poderia chamar-se o arbitr\u00e1rio procustiano da moda enquanto desmente nas sociedades avan\u00e7adas esse respeito das formas naturais do corpo humano cuja id\u00e9ia \u00e9 tardia na cultura\u201d. H\u00e1 um sujeito do inconsciente na tatuagem\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia\u00b2, de 1963, p 277\/303, Lacan refere-se a \u201cmancha e pinta\u201d e, mais precisamente na p. 278, fala das\u00a0<em>\u201cvirtudes da tatuagem\u201d.<\/em>\u00a0No Semin\u00e1rio 11, em \u201colhar do cego e ponto zero do olhar\u201d, Lacan n\u00e3o fala diretamente da tatuagem, mas refere-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da mancha em uma ocasi\u00e3o em que ele trabalha a quest\u00e3o do objeto olhar. Ou seja,\u00a0<strong>a tatuagem mostra e esconde, tal qual a mancha (<\/strong>p 75<strong>).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra refer\u00eancia \u00e9 o texto \u201cProposta sobre a mutila\u00e7\u00e3o\u201d, de Jacques-Alain Miller (Correio da EBP, n\u00famero 25, 1997, pg.33 \u2013\u00a0<em>\u201cCar\u00edcia sobre a pele<\/em>\u201d) ,que coloco no final do texto como \u201ccloture\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recorreremos tamb\u00e9m a uma li\u00e7\u00e3o do Silet\u00b3 em que Miller trabalha a quest\u00e3o do olhar, ao semin\u00e1rio \u201cDivinos detalhes\u201d, rec\u00e9m estabelecido e publicado pela Paidos, e \u00e0 Revista \u201cLazos\u201d n. 6, da EOL\/Rosario<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrei outra refer\u00eancia sobre o tema em um livro de S\u00edlvia Reisfeld(4), uma psicanalista que faz uma leitura diferente da que um lacaniano faria dos fatos cl\u00ednicos e da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de certas quest\u00f5es, j\u00e1 que se trata de um trabalho cujo eixo pode ser considerado fenomenol\u00f3gico. Embora trate da subjetividade, n\u00e3o aborda quest\u00f5es fundamentais para n\u00f3s como a do gozo e a do objeto olhar, temas que s\u00f3 emergem no texto a partir de uma releitura com base nas refer\u00eancias que temos, tarefa que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, trata-se de um texto muito interessante, onde ela relaciona o tema com as tribos, a adolesc\u00eancia, as toxicomanias, com ilustra\u00e7\u00f5es de casos cl\u00ednicos. Cita, tamb\u00e9m, dois filmes importantes sobre o assunto: \u201cPillow book\u201d e \u201cIrezume, a mulher tatuada\u201d. Neste \u00faltimo, uma mulher tatua seu corpo a partir da fala do amante que aponta seu desejo de que ela tivesse uma tatuagem. A\u00a0<em>tatuagem<\/em>\u00a0torna-se, neste caso, um\u00a0<em>fetiche,<\/em>\u00a0que faz com que ela seja desejada pelo homem: parceiro-sintoma contempor\u00e2neo do lado masculino. \u201cDivino detalhe\u201d constru\u00eddo pela mulher para \u201cfetichizar\u201d, causar o desejo do homem que ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio \u201cO osso de uma an\u00e1lise\u201d (5), (1998), Jacques-Alain Miller diz que, ao lado do parceiro-sintoma contempor\u00e2neo, a devasta\u00e7\u00e3o, temos o\u00a0<em>fetiche<\/em>, um pequeno detalhe, como parceiro-sintoma do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa maneira, para abordar a tatuagem, este fen\u00f4meno de massa contempor\u00e2neo e o la\u00e7o social, \u00e9 necess\u00e1rio pensar uma cl\u00ednica que considere o falasser, a singularidade subjetiva, mais-al\u00e9m do universal fenom\u00eanico contempor\u00e2neo, pois a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 uma cl\u00ednica do singular, do detalhe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, al\u00e9m de uma fun\u00e7\u00e3o que cumpre a tatuagem, temos que escutar a posi\u00e7\u00e3o de cada um com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua tatuagem, em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo e seu endere\u00e7amento ao olhar do outro. Isto me permite formular uma frase:\u00a0<em>h\u00e1 um sujeito inconsciente na tatuagem (primeiro ensino), h\u00e1 um falasser (segundo ensino) na tatuagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria poss\u00edvel escutar no relato de dois fragmentos cl\u00ednicos (que n\u00e3o relatarei aqui) que a tatuagem cumpre fun\u00e7\u00f5es diferentes em cada um, possibilitando\u00a0<em>interrogar o que cada sujeito que se tatua quer com a tatuagem.<\/em>\u00a0Os dois casos cl\u00ednicos sugerem que\u00a0<strong>a tatuagem pode funcionar como uma \u201cautocura\u201d, no contexto de inven\u00e7\u00f5es singulares subjetivas<\/strong>, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, para certos sujeitos.\u00a0<em>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o singular do sujeito da tatuagem com o corpo, quando ela talvez v\u00e1 mais al\u00e9m de um detalhe.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de S\u00edlvia traz uma s\u00e9rie de itens ligados ao tema: tatuagem e toxicomania, adolesc\u00eancia, erotismo, letra, escrita no corpo, moldura corporal, a pele, o grupo de tatuagens, o olhar, entre outros. N\u00e3o vou me deter neles, apenas menciono que podemos extrair dali o tema da\u00a0<strong>rela\u00e7\u00e3o da tatuagem com o la\u00e7o social<\/strong>\u00a0(tema que trabalhamos em outro texto publicado em Op\u00e7\u00e3o lacaniana on line).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio \u201cA Ang\u00fastia\u201d, a partir da p\u00e1gina 235, e o cap\u00edtulo \u201cA esquize do olho e do olhar\u201d, que se encontra \u00e0 p\u00e1gina 75 da edi\u00e7\u00e3o brasileira do semin\u00e1rio 11, Lacan diz que se o que est\u00e1 por tr\u00e1s da mancha \u00e9 o olho, o que est\u00e1 por tr\u00e1s da mancha \u00e9 o olhar. Lacan distingue a fun\u00e7\u00e3o do olho e do olhar:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cDito de outro modo, n\u00e3o deveremos, quanto a isto, distinguir a fun\u00e7\u00e3o do olho e a do olhar? Este exemplo distintivo, escolhido por mim \u2013 por sua localidade, por seu fact\u00edcio, por seu car\u00e1ter excepcional \u2013 \u00e9 para n\u00f3s apenas uma pequena manifesta\u00e7\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o a ser isolada \u2013 a fun\u00e7\u00e3o, digamos o termo, da\u00a0<em>mancha<\/em>. Este exemplo \u00e9 precioso para nos marcar a preexist\u00eancia, ao visto, de um dado a ver, (\u2026) Se a fun\u00e7\u00e3o da mancha \u00e9 reconhecida em sua autonomia e identificada \u00e0 do olhar, podemos procurar sua inclina\u00e7\u00e3o, seu fio, seu tra\u00e7o, por todos os est\u00e1gios da constitui\u00e7\u00e3o do mundo no campo esc\u00f3pico. Percebemos ent\u00e3o que a fun\u00e7\u00e3o da mancha e do olhar \u00e9 ali ao mesmo tempo o que comanda mais secretamente e o que escapa sempre \u00e0 apreens\u00e3o dessa forma de vis\u00e3o que se satisfaz consigo mesma imaginando-se como consci\u00eancia. \u00b9\u00b3<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No semin\u00e1rio 11, Lacan faz equivaler a fun\u00e7\u00e3o da mancha, trabalhada por ele no semin\u00e1rio 10, \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do olhar. \u201cEsse exemplo \u00e9 precioso para nos marcar a preexist\u00eancia ao visto de um dado ver.\u201d Desta maneira, quando olhamos para a tatuagem, se n\u00e3o vemos o resto, \u00e9 a mancha que recai, e nos concentramos ali sem conseguir tirar o olho dela, pois somos capturados por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan (14) acaba por abordar o olhar enquanto\u00a0<em>objeto a,\u00a0<\/em>no caminho da mancha e do sinal, observando que a mancha tem o estatuto de\u00a0<em>tiqu\u00ea,\u00a0<\/em>estatuto de\u00a0<em>objeto pequeno a,\u00a0<\/em>que quebra o\u00a0<em>automaton<\/em>\u00a0do significante. A partir dessas refer\u00eancias, \u00e9 poss\u00edvel dizer que, no semin\u00e1rio 10 e 11,\u00a0<em>Lacan articula a tatuagem com a quest\u00e3o do objeto olhar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, no texto \u201cAgr\u00e9ssivit\u00e9 em psychanalyse\u201d(15), momento em que temos um Lacan kleiniano,\u00a0<em>associa a tatuagem com o corpo despeda\u00e7ado e \u00e0 pr\u00e1tica social.\u00a0<\/em>Trata-se de uma abordagem da tatuagem inscrita no contexto dos la\u00e7os sociais, ou seja, na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro. Lacan, neste momento, menciona\u00a0<em>os ritos da tatuagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indago como a tatuagem poderia ser abordada a partir da quest\u00e3o do corpo despeda\u00e7ado. Se a leitura do est\u00e1gio do espelho evidencia que n\u00e3o h\u00e1 resto, que falta a dimens\u00e3o do real, exclu\u00edda da perspectiva narc\u00edsica e imagin\u00e1ria, seria interessante investigar se, em determinados momentos, a tatuagem surgiria como uma tentativa do sujeito de recomposi\u00e7\u00e3o de uma imagem em determinadas situa\u00e7\u00f5es, como nas psicoses em que temos o sujeito nessa t\u00f3pica especular ou na histeria em que sujeitos podem tamb\u00e9m lan\u00e7ar m\u00e3o da tatuagem para recompor algo da imagem endere\u00e7ada ao olhar do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a tatuagem, na amarra\u00e7\u00e3o borromeana, com o fim de reparar o defeito do n\u00f3, ou seja, recuperar as propriedades borromeanas do n\u00f3, pode n\u00e3o apontar para a estabiliza\u00e7\u00e3o definitiva, mas apresentar-se como algo que produz um certo apaziguamento moment\u00e2neo que permite ao sujeito avan\u00e7ar. Podemos observar, na cl\u00ednica, muitos casos em que isso n\u00e3o \u00e9 suficiente, casos em que o sujeito faz uma tatuagem, depois outra, e outra, vai se tatuando sem alcan\u00e7ar uma estabiliza\u00e7\u00e3o, mas logrando atingir um apaziguamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto, lembro o que disse Jacques-Alain Miller, em 1997, depois, portanto, da abordagem do \u00faltimo ensino de Lacan, observa\u00e7\u00e3o que me parece bastante pertinente com a rela\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o da tatuagem com o la\u00e7o social. No texto \u201cProposta sobre a mutila\u00e7\u00e3o\u201d, ele fala\u00a0<em>da escrita sobre o corpo, n\u00e3o como mutila\u00e7\u00e3o, mas como uma car\u00edcia sobre a pele com fun\u00e7\u00e3o socializante:<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201ca mutila\u00e7\u00e3o ritual responde a uma exig\u00eancia definida, codificada conforme a lei de um sistema biol\u00f3gico, social, religioso, em todo caso de um sistema constitucional assim como a incid\u00eancia da realidade social, de seus s\u00edmbolos, seus semblantes, sobre a realidade do corpo vivo, tanto sobre a mat\u00e9ria quanto sobre a mat\u00e9ria!(verificar cita\u00e7\u00e3o).Eu n\u00e3o vou lembrar os dados etnol\u00f3gicos que se encontram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos. Isto diz respeito \u00e0\u00a0<em>fun\u00e7\u00e3o socializante, simbolizante, da marca escrita sobre o corpo e a pele que \u00e9 a tatuagem \u2013<\/em>\u00a0que \u00e9, de algum modo, uma simples, n\u00e3o mutila\u00e7\u00e3o, mas\u00a0<em>car\u00edcia sobre a pele<\/em>, uma pintura \u2013 com marcas inscritas no corpo, na carne, nas escarifica\u00e7\u00f5es, as cicatrizes rituais\u201d(16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar essa pontua\u00e7\u00e3o sobre a tatuagem, assinalemos sua rela\u00e7\u00e3o com o tema do Enapol, com o imagin\u00e1rio, o corpo, citando uma passagem do Semin\u00e1rio 23 de Lacan (no Cap. IV, \u201cJoyce e o enigma da raposa\u201d, pg. 64, Ed. Bras, Jorge Zahar Editor, R.J., 2007, quando fala do \u201camor pr\u00f3prio\u201d ) :<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00a0\u201cO amor pr\u00f3prio \u00e9 o princ\u00edpio da imagina\u00e7\u00e3o. O falasser adora o seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. \u2026 O corpo decerto n\u00e3o se evapora e, nesse sentido, ele \u00e9 consistente\u2026\u00e9 precisamente o que \u00e9 antip\u00e1tico para a mentalidade, porque ela cr\u00ea nisso, ter um corpo para adorar. \u00c9 a raiz do imagin\u00e1rio. \u2026\u00e9 o sexual que mente l\u00e1 dentro\u2026 Na falta da abstra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria acima citada, aquela que se reduz \u00e0 consist\u00eancia, o concreto, o \u00fanico que conhec\u00edamos \u00e9 sempre a adora\u00e7\u00e3o sexual, dito de outro modo, o desprezo, pois o que adoram \u00e9 suposto n\u00e3o ter nenhuma mentalidade,\u00a0<em>confer<\/em>\u00a0o caso de Deus. Isso n\u00e3o \u00e9 verdadeiro para o corpo considerado como tal \u2014 quero dizer adorado, posto que a adora\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com o seu corpo \u2014 sen\u00e3o quando ele adora assim um outro, um outro corpo.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00ednhamos a \u201cfuga do sentido\u201d e aqui Lacan marca a \u201cfuga do corpo\u201d, da\u00ed teremos sempre um falasser atormentado em sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Hoje vemos \u201ccorpos tatuados \u201cnesse contempor\u00e2neo onde o imagin\u00e1rio joga esse papel preponderante, diferentemente das pequenas \u201ctatuagens no corpo\u201d (I\/S), como no s\u00e9culo passado onde geralmente simbolizavam algo, onde tinha um sujeito da\/na tatuagem, endere\u00e7ada ao olhar do Outro. Hoje, o falasser tenta segurar a fuga do corpo (I\/R) com as tatuagens generalizadas, compr\u00e1veis como gadgets no \u201cmercado tatoo\u201d capitalista. E, ele foge\u2026 sempre. E, as tatuagens existir\u00e3o sempre, na hist\u00f3ria da Humanidade\u2026 n\u00e3o cessando de deixar de serem inscritas na pele do falasser\u2026<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-panel panel-default panel-f55841c732c5b99e1 fusion-toggle-no-divider\"><div class=\"panel-heading\"><h4 class=\"panel-title toggle\" id=\"toggle_f55841c732c5b99e1\"><a aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"f55841c732c5b99e1\" role=\"button\" data-toggle=\"collapse\" data-parent=\"#accordion-842-1\" data-target=\"#f55841c732c5b99e1\" href=\"#f55841c732c5b99e1\"><span class=\"fusion-toggle-icon-wrapper\" aria-hidden=\"true\"><i class=\"fa-fusion-box active-icon awb-icon-minus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><i class=\"fa-fusion-box inactive-icon awb-icon-plus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/span><span class=\"fusion-toggle-heading\">Quando a palavra n\u00e3o \u00e9 performativa, a imagem reina \u2013 Beatriz Udenio<\/span><\/a><\/h4><\/div><div id=\"f55841c732c5b99e1\" class=\"panel-collapse collapse \" aria-labelledby=\"toggle_f55841c732c5b99e1\"><div class=\"panel-body toggle-content fusion-clearfix\">\n<p><em>\u201cEle: n\u00e3o vai acontecer nada. Ela: j\u00e1 est\u00e1 acontecendo em suas cabe\u00e7as.<br \/>Nas suas cabe\u00e7as, isso \u00e9 o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo, o que meu marido est\u00e1 fazendo\u201d<\/em><\/p>\n<p>(<em>Black Mirror<\/em>, 1\u00aa temporada, epis\u00f3dio 1:\u00a0<em>O hino nacional<\/em>).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admito que o uso da palavra \u201cimp\u00e9rio\u201d me incomoda. Talvez por sua aproxima\u00e7\u00e3o com \u201cimperialismo\u201d, quer dizer, pelo \u201cuso\u201d abusivo que faz o mercado das imagens daquilo que se produz \u2013 sendo este um ponto essencial diante do qual a psican\u00e1lise se subverte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, me perguntei, em mais de uma oportunidade, sobre como abordaria o tema proposto para a noite de hoje. Ocorreram-me algumas ideias que logo descartava. At\u00e9 que sobreveio uma lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia que estava adormecida, proporcionando-me o empurr\u00e3o buscado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remonto aos meus sete anos, quando irrompeu na vida familiar a presen\u00e7a de um irm\u00e3o v\u00e1rios anos mais velho do que eu, causando uma brusca queda de minha vers\u00e3o do \u201cimp\u00e9rio da dita\u201d \u2013 como relatei no meu testemunho durante as \u00faltimas Jornadas anuais da EOL. Uma coincid\u00eancia fez com que entrasse em casa a primeira televis\u00e3o: \u201cLA TE VE\u201d<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu passava horas diante dessa tela em branco e preto, absorta, silenciosa. Lembro-me desses momentos amargos, densos, onde eu permanecia \u201cadormecida\u201d em um sonho continuado. N\u00e3o havia lido ainda, claro, o que Lacan indicava: \u201cJamais me olhas l\u00e1 de onde te vejo\u201d e \u201co que eu olho n\u00e3o \u00e9 jamais o que quero ver\u201d<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos dizer que, para a psican\u00e1lise, a autoconserva\u00e7\u00e3o da vida depende da inscri\u00e7\u00e3o no desejo do Outro. Para Freud, \u201c(\u2026) os olhos percebem n\u00e3o s\u00f3 altera\u00e7\u00f5es no mundo eterno, que s\u00e3o importantes para a preserva\u00e7\u00e3o da vida (prazer egoico), como tamb\u00e9m as caracter\u00edsticas dos objetos que os fazem ser escolhidos como objetos de amor (prazer sexual): seus\u00a0<em>encantos<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. No que me concerne, rompeu-se, ali, a fun\u00e7\u00e3o de v\u00e9u, de engodo que sustentava a cren\u00e7a de ser olhada por meus encantos e, deste modo, de me assegurar um lugar no desejo do Outro. Diante do olhar que retornava no horror, o olho foi em busca de outro est\u00edmulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente \u00e0 LA TE VE, comecei a imaginar que era a encantadora hero\u00edna que conquistaria o Cavaleiro Solit\u00e1rio ou ganharia o cora\u00e7\u00e3o de Maverick. Ou uma amorosa dona da Lassie e, por que n\u00e3o, uma valente cuidadora de Rin Tin Tin. Embeveciam-me as anacr\u00f4nicas \u2013 sim, que o s\u00e3o! \u2013 \u201cPapai sabe tudo\u201d\u2026 \u201cMas, \u00e9 mam\u00e3e quem manda\u201d. E as de super-her\u00f3is \u2013 que paix\u00e3o! \u2013 Super Homem, Batman, Mulher Maravilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao revelar-se a palavra proferida pelo Outro em seu estatuto de verdade mentirosa \u2013como n\u00e3o podia ser de outra maneira \u2013 resultou para o sujeito um momento de encontro com o engano, com a queda de seu poder (o do Outro e o do sujeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se fez o que se disse. A palavra do Outro perdeu seu valor ao quebrar a promessa de amor pela menina e fui inventar outra fic\u00e7\u00e3o com palavras que eu imaginara. Porque, caramba, como eu tinha conversa\u00e7\u00f5es em meu pensamento, com esses personagens que LA TE VE me provinha!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto \u00e9 que, naquela \u00e9poca, deixei de escrever, recurso ao qual havia lan\u00e7ado m\u00e3o desde muito pequena e que tanta satisfa\u00e7\u00e3o me produzia. Tocada minha imagem am\u00e1vel para o Outro, buscava em meus devaneios com LA TE VE, restituir o perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1\u00a0<em>estruturalmente<\/em>\u00a0muito longe do que se busca-encontra hoje no mundo voraz da imagem? Prefiro dizer deste modo: o contexto muda, mas desemboca no que o estrutural repete, cunhando um imposs\u00edvel (real) de ser capturado com alguma garantia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece tratar-se da ilus\u00e3o de um \u201cfazer\u201d que lograria recuperar o valor da palavra dada, sua autoridade, sua veracidade. Que o que a vis\u00e3o pode apreender, o que se v\u00ea<em>,<\/em>\u00a0funcionasse como verificador do compromisso da palavra: \u201cgarantia fantasm\u00e1tica\u201d.<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Mas, esta \u00e9 uma busca imposs\u00edvel: o que a imagem verifica n\u00e3o consegue trazer de volta o valor da palavra e se perde no gancho do apetite esc\u00f3pico que se distrai do importante e redobra a indignidade da palavra dada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio de\u00a0<em>Black M<\/em><em>i<\/em><em>rror<\/em>\u00a0citado mostra como todos os brit\u00e2nicos est\u00e3o \u201ccegos\u201d ao essencial: por querer olhar o \u201cato\u201d que ir\u00e1 garantir que se cumpra a palavra do primeiro ministro e a promessa de libera\u00e7\u00e3o da princesa por parte do sequestrador, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m nas ruas vazias, ningu\u00e9m para descobrir que a dama j\u00e1 foi liberada meia hora antes do \u201cato\u201d e, assim, n\u00e3o haveria nada para verificar, vendo. E isto nos remete \u00e0 defla\u00e7\u00e3o da palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um\u00a0<em>tweet<\/em>\u00a0permite \u201cver\u201d o que se \u201cdiz-escrito\u201d, como se, mediante a fixa\u00e7\u00e3o da imagem, se pudesse confiar em algo, um pouco mais\u2026 As imagens de hoje vociferam sem saber o que dizem. Olhem a \u201cTE VE\u201d destes tempos, atormentada por um bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 banal, redundante, insultuoso, pusil\u00e2nime, imoral tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha LA TE VE era diferente, n\u00e3o apenas porque se situa 50 anos atr\u00e1s, mas porque \u00e9 a que eu criei, fic\u00e7\u00e3o alimentada em meus pensamentos, fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em\u00a0<em>Black Mirror,\u00a0<\/em>o roteirista Charlie Brooker nos leva \u00e0 dianteira: \u00e9 um artista, mas est\u00e1 no quadro que filma at\u00e9 deter-se no umbral da tela que se rasga em cada cap\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vivia submersa no curioso paradoxo da imagem, que pode nos seduzir de mil maneiras at\u00e9 inventar, sonhar, especular que o que se v\u00ea, se imagina, \u00e9 o que se \u00e9 e o que se diz do que se \u00e9. \u00c9 o que este recurso da inf\u00e2ncia me permitiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos tempos que correm, parece se fazer o esfor\u00e7o de enganchar a palavra em uma imagem que se possa guardar, reproduzir e, melhor ainda, enviar para todo lado para que n\u00e3o se perca! Aos gritoooooooooooos! Isso n\u00e3o vai lhe dar mais legitimidade, mais autoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 pelos anos de 1960, John Langshaw Austin, t\u00e3o brit\u00e2nico quanto o roteirista de\u00a0<em>Black Mirror<\/em>, fil\u00f3sofo da linguagem, dedicou-se aos enunciados chamados \u201cperformativos\u201d, estes atos da fala que lhe d\u00e3o autenticidade.<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer que uma psican\u00e1lise se sustenta de enunciados performativos? Eis um tema controverso que merece aprofundamento. Em todo caso, o que, nesse primeiro epis\u00f3dio de\u00a0<em>Black Mirror<\/em>, se mostra em seu lugar \u00e9 esse \u201cato\u201d ao qual me referi anteriormente: o ato bizarro de copular com um porco diante dos olhos famintos dos brit\u00e2nicos. Um ato que s\u00f3 pode fracassar, como todo ato. N\u00e3o h\u00e1 ato (sexual). N\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O performativo pode nos levar mais perto desse real, desse imposs\u00edvel, do que a ilus\u00e3o da tela negra? Se pensarmos que n\u00f3s, falantes, n\u00e3o chegamos mais longe que do ato de fantasiar, de imaginar\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu diria que a chamada \u201ccaixa boba\u201d me forneceu, naqueles tempos, uma via de escape ao que me atormentava, fazendo de mim uma sonhadora acordada que n\u00e3o queria despertar desses sonhos de inf\u00e2ncia, onde era a imperatriz de meu imp\u00e9rio imaginado e de tudo o que eu quisesse ser. Dessa forma, quem poderia ser mais confi\u00e1vel do que minha pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1, desde esse tempo, minha desconfian\u00e7a pelo que vinha do Outro \u2013 cujos fatos, considerava puro bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 \u2013 e tamb\u00e9m minha interroga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica encontravam fundamento e suporte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ficava um resto inassimil\u00e1vel que n\u00e3o se dobrava ao v\u00e9u e que se fazia notar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sil\u00eancio era acompanhado de um sintoma: presa de uma sinusite cr\u00f4nica, eu me faria objeto dos grandes avan\u00e7os cient\u00edficos do momento: nebuliza\u00e7\u00f5es, opera\u00e7\u00e3o de adenoide, pun\u00e7\u00e3o do osso maxilar, antibi\u00f3ticos injet\u00e1veis. E, como era de se esperar, na histeria, o corpo contesta a ci\u00eancia e \u201cfala\u201d com a verdade do sintoma: o muco que a menina dirige ao campo do Outro \u00e9 um ressabio, fluido que se instala no sil\u00eancio da presen\u00e7a muda diante de LA TE VE. Complac\u00eancia som\u00e1tica para Freud, recha\u00e7o do corpo para Lacan. Rompe com a autoconserva\u00e7\u00e3o e \u00e9 tamb\u00e9m obje\u00e7\u00e3o muda ao saber do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sil\u00eancio, com a caixa boba, eu me entendia melhor. Aqui, o olhar se p\u00f5e em tens\u00e3o e se destina a produzir uma \u201ccegueira\u201d de outra ordem para fazer-se, novamente, objeto de aten\u00e7\u00e3o do Outro. Mas, sobretudo, se distancia de sua aten\u00e7\u00e3o no mundo e goza em sua absor\u00e7\u00e3o na TE VE. Refaz-se um gozo enquadrado na TE VE, satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva, transit\u00f3ria, mas um sintoma: o muco que, ao alterar a respira\u00e7\u00e3o, transtornava o falar e o canto \u2013 zona \u201cam\u00e1vel\u201d para a menina \u2013 com o gozo sintom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo me tirou dali porque, al\u00e9m do mais, eu quis sair dali: um encontro de desejos. Mais precisamente, o desejo de um pediatra e de uma professora. Ele enviou minha m\u00e3e a outro consult\u00f3rio (quer dizer, mostrou-se Outro barrado em rela\u00e7\u00e3o ao saber cient\u00edfico e, portanto, desejante). Ent\u00e3o, eu topei com um m\u00e9dico homeopata que soube sugestionar o suficiente a menininha para que, com seus gl\u00f3bulos, a sinusite fosse de vez. E tamb\u00e9m a professora do fundamental. Como eu n\u00e3o podia ir ao col\u00e9gio, ela se ofereceu para ir \u00e0 minha casa me ensinar a regra de tr\u00eas. S\u00f3 assim fui abandonando minha quadrada amiga daqueles tempos dif\u00edceis \u2013 LA TE VE \u2013 para entrar em cheio no mundo escolar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d. Consegui reingressar nas vias do saber, da escritura e da ci\u00eancia. Uma suposi\u00e7\u00e3o que me levou a estudar medicina. Mais tarde, reca\u00ed em outra suposi\u00e7\u00e3o: aquela que a psican\u00e1lise oferece para me animar a chegar at\u00e9 esse umbral indiz\u00edvel, esse espelho negro de cada um, com sua esquize estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 nisso que acredito ainda hoje e o que vou constatando, entre v\u00e1rios, em um dos grupos de pesquisa que trabalha para as Conversa\u00e7\u00f5es do ENAPOL. Coletamos as respostas \u00fanicas de cada sujeito desta \u00e9poca, de como ele se liga e se desliga, e como ele se serve desses\u00a0<em>Black Mirrors\u00a0<\/em>a seu alcance.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00aa Cristina Maia Fernandes<\/em><\/p>\n<p><em>Texto revisado pela autora<\/em><\/p>\n<p><em>Revis\u00e3o final em portugu\u00eas: Adriano Messias<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Por causa da homofonia no espanhol de TE VE com \u201cte ver\u201d, foi mantida a vers\u00e3o original [NT].<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0LACAN, Jacques.\u00a0<em>Li\u00e7\u00e3o VIII, A linha e a luz<\/em>. In:\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio. Livro 11.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979, p. 100.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0FREUD, Sigmund.\u00a0<em>A concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da perturba\u00e7\u00e3o psicog\u00eanica da vis\u00e3o<\/em>. In: Tomo XI da Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1982, p. 201.<\/p>\n<h5><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0MUSACHI, Graciela.\u00a0<strong>Boletim Flash n. 1<\/strong>. Dispon\u00edvel em: http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/boletim\/<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/pt\/faq-items\/quando-a-palavra-nao-e-performativa-a-imagem-reina-beatriz-udenio\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0AUSTIN, John L.\u00a0<strong>Como hacer cosas con palabras: palabras y acciones<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1982.<\/h5>\n<\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-panel panel-default panel-1d591257830bbd236 fusion-toggle-no-divider\"><div class=\"panel-heading\"><h4 class=\"panel-title toggle\" id=\"toggle_1d591257830bbd236\"><a aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"1d591257830bbd236\" role=\"button\" data-toggle=\"collapse\" data-parent=\"#accordion-842-1\" data-target=\"#1d591257830bbd236\" href=\"#1d591257830bbd236\"><span class=\"fusion-toggle-icon-wrapper\" aria-hidden=\"true\"><i class=\"fa-fusion-box active-icon awb-icon-minus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><i class=\"fa-fusion-box inactive-icon awb-icon-plus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/span><span class=\"fusion-toggle-heading\">Para uma nova soberania, uma nova subvers\u00e3o \u2013 Carlos M\u00e1rquez<\/span><\/a><\/h4><\/div><div id=\"1d591257830bbd236\" class=\"panel-collapse collapse \" aria-labelledby=\"toggle_1d591257830bbd236\"><div class=\"panel-body toggle-content fusion-clearfix\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Hector Gallo j\u00e1 escreveu (1), no t\u00edtulo de nosso pr\u00f3ximo Encontro \u201cO Imp\u00e9rio das Imagens\u201d, deveria ler-se \u201cimp\u00e9rio\u201d como soberania. Uma soberania que, seguindo as indica\u00e7\u00f5es de Foucault, n\u00e3o h\u00e1 de se entender como o que pro\u00edbe ou restringe, sen\u00e3o como performativa. Em sua expans\u00e3o produz constantemente novos modos de ser e de relacionar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tarrab atribui-lhe o estatuto de uma renega\u00e7\u00e3o do real (2). Dando a apar\u00eancia de um \u201ccongelamento do tempo\u201d, faz com que a entropia caia fora do campo do enunci\u00e1vel, pois, sim, \u201ctudo \u00e9 recuper\u00e1vel\u201d, nada se perde. Por\u00e9m, se a entropia caiu fora do campo do enunci\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 sem nosso consentimento, sem nossa participa\u00e7\u00e3o nessa desordem do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma soberania d\u00f3cil \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es de cada um, \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es de p\u00e3o e circo. Por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil denunci\u00e1-la e faz mentirosas as denuncias que herdamos do s\u00e9culo XIX. \u201cComo voc\u00ea o quer?\u201d Pergunta-se ao consumidor nos grupos focais. \u201cO que fa\u00e7o, fa\u00e7o por teus direitos e representando-te\u201d, diz o funcion\u00e1rio ao cidad\u00e3o dessa nova soberania global. N\u00e3o mais autom\u00f3veis pretos id\u00eanticos saindo das linhas de montagem, n\u00e3o mais uma soberania que se exerce em nome do direito do soberano, condensador da na\u00e7\u00e3o, \u00fanica exce\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de sujeito (<em>sujet<\/em>, s\u00fadito). A soberania reside no povo, dizem as constitui\u00e7\u00f5es e, portanto, aquele que manda \u00e9 o mandat\u00e1rio. Por\u00e9m, mais al\u00e9m delas, constitui-se a partir da iman\u00eancia dos corpos que nascem com um determinado cat\u00e1logo de direitos. At\u00e9 onde este \u00e9 um corpo vivo, pulsional, e at\u00e9 onde \u00e9 uma tela imagin\u00e1ria onde se projetam as necessidades que a ci\u00eancia lan\u00e7a, \u00e9 o que se p\u00f5e em jogo no campo de batalha aberto entre os mercados e as burocracias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso o documento \u201c<em>El empoderamiento de la mujer y el psicoan\u00e1lisis<\/em>\u201d (3) mostra bem como posicionar-se diante dessa batalha. No texto, trata-se de for\u00e7ar a entrada da feminilidade do \u201cn\u00e3o-todo\u201d, frente ao empuxo \u00e0 feminiza\u00e7\u00e3o que implica o \u201cn\u00e3o existe um que n\u00e3o\u201d. Quer dizer que se h\u00e1 imp\u00e9rio das imagens, tem-se de evitar as polaridades que essa forma de soberania exuda, tomando posi\u00e7\u00e3o com o que n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo que, diante do p\u00e3o da necessidade que as burocracias nos d\u00e3o para mastigar, no lugar do \u00f3cio da fome, mais valeria dar a palavra no social ao\u00a0<em>me pantes.\u00a0<\/em>Frente ao circo-ular permanente do mercado, em vez de uma inibi\u00e7\u00e3o, sustentar uma cl\u00ednica que se oriente pela obje\u00e7\u00e3o que apresenta o sintoma, que \u201cse coloca em cruz para impedir que as coisas andem\u201d (4). Frente \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria por meio da renega\u00e7\u00e3o da morte, ao inv\u00e9s de fazer presente a inevitabilidade da morte \u00e0 maneira dos cerceadores de cabe\u00e7as, aproveitar o trope\u00e7o do simb\u00f3lico para encontrar-se com o inconsciente como o que \u00e9 da ordem do n\u00e3o-realizado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1) Gallo, H\u00e9ctor. El Imperio de las Im\u00e1genes. En P\u00e1gina del VII ENAPOL, El imperio de las im\u00e1genes.\u00a0<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/es\/faq-items\/el-imperio-de-las-imagenes-hector-gallo\/\">http:\/\/oimperiodasimagens.com\/es\/faq-items\/el-imperio-de-las-imagenes-hector-gallo\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(2) Tarrab, Mauricio. El ojo bul\u00edmico y el lobo. En P\u00e1gina del VII ENAPOL, El imperio de las im\u00e1genes.\u00a0<a href=\"http:\/\/oimperiodasimagens.com\/es\/faq-items\/el-ojo-bulimico-y-el-lobo-mauricio-tarrab\/\">http:\/\/oimperiodasimagens.com\/es\/faq-items\/el-ojo-bulimico-y-el-lobo-mauricio-tarrab\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(3) \u00c1lvarez, Patricio. El empoderamiento de la mujer y el psicoan\u00e1lisis.\u00a0<a href=\"http:\/\/nel-medellin.org\/blogigualdad-de-genero-y-diversidad-sexual-en-relacion-con-el-empoderamiento-de-la-mujer-un-punto-de-vista-psicoanalitico\/\">http:\/\/nel-medellin.org\/blogigualdad-de-genero-y-diversidad-sexual-en-relacion-con-el-empoderamiento-de-la-mujer-un-punto-de-vista-psicoanalitico\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(4) Lacan, J., A Terceira. In:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. E\u00f3lia, n. 62, p. 11-35.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-panel panel-default panel-f101db2f17e1c2ab9 fusion-toggle-no-divider\"><div class=\"panel-heading\"><h4 class=\"panel-title toggle\" id=\"toggle_f101db2f17e1c2ab9\"><a aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"f101db2f17e1c2ab9\" role=\"button\" data-toggle=\"collapse\" data-parent=\"#accordion-842-1\" data-target=\"#f101db2f17e1c2ab9\" href=\"#f101db2f17e1c2ab9\"><span class=\"fusion-toggle-icon-wrapper\" aria-hidden=\"true\"><i class=\"fa-fusion-box active-icon awb-icon-minus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><i class=\"fa-fusion-box inactive-icon awb-icon-plus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/span><span class=\"fusion-toggle-heading\">O CORPO E O SELFIE \u2013 Mar\u00eda Eugenia Cardona<\/span><\/a><\/h4><\/div><div id=\"f101db2f17e1c2ab9\" class=\"panel-collapse collapse \" aria-labelledby=\"toggle_f101db2f17e1c2ab9\"><div class=\"panel-body toggle-content fusion-clearfix\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje em dia, o selfie \u2013 tirar uma foto de si mesmo \u2013 \u00e9 t\u00e3o habitual que, segundo as estat\u00edsticas do Instagram, foram postadas 58 fotos por segundo durante 2012. em 2013, o dicion\u00e1rio Oxford nomeia a palavra \u201cselfy\u201d ou \u201cselfie\u201d, como a palavra do ano. Em hist\u00f3rias recentes o selfie esteve em primeiro lugar, a partir de quando um macaco toma a c\u00e2mera de um fot\u00f3grafo e se auto-retrata. O simp\u00e1tico macaco roubou a c\u00e2mera e, seduzido pelo ru\u00eddo dos clics, come\u00e7ou a brincar com ela, a clicar no ar e a tirar fotos de si mesmo. Isto gerou uma batalha legal pelo\u00a0<em>copyright<\/em>, pois as leis sustentam que o dono dos direitos de autor \u00e9 quem tira a foto. \u00c9, ent\u00e3o, um fato ir\u00f4nico que levou o fot\u00f3grafo a elevar o macaco \u00e0 categoria de assistente de fotografia. Evento da conting\u00eancia que faz uma\u00a0<em>par\u00f3dia<\/em>\u00a0dessa paix\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno do selfie fala de qual mal-estar na Cultura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo sendo uma foto n\u00e3o tem o car\u00e1ter simb\u00f3lico que as fotografias tiveram: um fato gr\u00e1fico de algo que tem a ver com um acontecimento \u00edntimo. O selfie est\u00e1 acima do \u00edntimo e da experi\u00eancia de lembran\u00e7a que a imagem fotogr\u00e1fica pode trazer. Poder\u00edamos dizer que passamos do auto-retrato ao selfie. \u00c9 uma maneira de registro gr\u00e1fico onde o importante \u00e9 expor a\u00a0<strong><em>outros<\/em><\/strong><em>\u00a0<strong>an\u00f4nimos<\/strong><\/em>\u00a0algo do \u00edntimo. \u00c9 uma imagem com a qual se monta uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o com o sorriso ou o gesto de\u00a0<em>\u201csou feliz\u201d.<\/em>\u00a0Registro no qual impera o gozo do olhar sobre si mesmo, sem palavras. Evidencia-se uma experi\u00eancia onde o sujeito, com sua melhor\u00a0<em>pose cosm\u00e9tica<\/em>\u00a0tenta\u00a0<strong><em>dar-se um corpo<\/em>\u00a0<\/strong>por meio do semblante. Sabemos que atr\u00e1s do semblante n\u00e3o h\u00e1 nada. N\u00e3o h\u00e1 ser, h\u00e1 ex-sist\u00eancia. A estrutura de fic\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre insuficiente para abarcar o real que escapa. H\u00e1 imagem n\u00e3o esconde o que n\u00e3o deixa de insistir, \u00e9 transit\u00f3ria e a ang\u00fastia aparece como resposta. H\u00e1 uma significa\u00e7\u00e3o vazia, o buraco no real da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe e que necessariamente conduz ao enigma do feminino. A imagem viria a ter o estatuto de um resto-desfeito sem hist\u00f3ria, tentando tramitar algo do real imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos, como diz Miller em o \u201cSer e o Um\u201d: \u201cTer um corpo coloca-se do lado da exist\u00eancia. \u00c9 um ter marcado somente a partir do vazio do sujeito.\u201d<sup>[1]<\/sup>\u00a0O parl\u00eatre tem um corpo e n\u00e3o \u00e9 um corpo. Desde a origem est\u00e1 marcado pelo mal encontro com lal\u00edngua, que deixa tra\u00e7os no corpo. \u00c9, portanto, um encontro imprevisto entre a palavra e o corpo que far\u00e1 dele um acontecimento singular. Lacan, em \u201cA Terceira\u201d, diz: \u201co homem conhece o mundo como conhece sua imagem, o que faz com que adore seu corpo. Se o adora \u00e9 porque acredita que o tem: a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o do parl\u00eatre com seu corpo \u00e9 de adora\u00e7\u00e3o.\u201d<sup>[2]<\/sup>\u00a0A ilus\u00e3o de completude que a imagem devolve \u00e9 o que faz do selfie uma pr\u00e1tica \u201cador\u00e1vel\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sefie cumpre a fun\u00e7\u00e3o aparente de \u201cocultar\u201d o que esburaca a imagem e de dar a ilus\u00e3o de completude que o ideal pede, onde promove-se a pr\u00f3pria imagem, na qual cada um \u201ccontrola\u201d como aparecer. Por\u00e9m, \u00e9 uma \u00e9poca na qual todos mostram tanto que j\u00e1 ningu\u00e9m olha e \u00e9 a\u00ed onde se faz presente um mal-estar que toca o corpo. como dizia uma adolescente: \u201csempre espero um\u00a0<em>like<\/em>, e quando n\u00e3o os vejo, me d\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o.\u201d E continua: \u201cvoltarei a colocar outro selfie para ver quem o olha.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da \u00e9poca dos olhares furtivos e indiscretos, passamos \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do despudor onde surge um espelho sem v\u00e9u que aponta para um ocaso da vergonha. O olhar \u00e9 convocado para fazer da imagem do corpo, que n\u00e3o se \u00e9, um espet\u00e1culo. \u201c\u00c9 um olhar castrado de seu poder de envergonhar\u2026\u201d<sup>[3]<\/sup>. O segredo do espet\u00e1culo, diz Miller, \u201c\u00e9 que tu \u00e9s quem o olha, porque gozas dele. \u00c9s tu como sujeito e n\u00e3o o Outro quem olha\u201d.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 hoje uma queda da vergonha, \u00e9 porque o \u00edntimo se tornou estrangeiro-estranho? O selfie seria uma manifesta\u00e7\u00e3o do \u201c\u00eaxtimo\u201d? Na medida em que a imagem como tamp\u00e3o \u201cpretende nos enganar sobre o verdadeiro sentido do\u00a0<em>\u00eaxtimo<\/em>: o de ser uma hi\u00e2ncia permanente, quer dizer, um buraco.\u201d<sup>\u00a0[5]<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1] Miller, J.-A. \u201c<em>O Ser e o Um\u201d,\u00a0<\/em>D\u00e9cima Primeira li\u00e7\u00e3o do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 2011. In\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Lacan, J. \u201cA Terceira\u201d, In:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>\u00a0<em>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. E\u00f3lia, n\u00ba 62. p. 11-35.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[3] Miller, J.-A. \u201c<em>Notas sobre la verg\u00fcenza<\/em>\u201d, In: Freudiana 39, 2004, Barcelona, Paid\u00f3s, p. 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[4] Idem. p. 12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[5] Najles, A. R.,\u00a0<em>Delicias de la intimidad. De la extimidad al sinthome,\u00a0<\/em>Grama, Buenos Aires, p.65.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-panel panel-default panel-24e4084a3c65953f9 fusion-toggle-no-divider\"><div class=\"panel-heading\"><h4 class=\"panel-title toggle\" id=\"toggle_24e4084a3c65953f9\"><a aria-expanded=\"false\" aria-controls=\"24e4084a3c65953f9\" role=\"button\" data-toggle=\"collapse\" data-parent=\"#accordion-842-1\" data-target=\"#24e4084a3c65953f9\" href=\"#24e4084a3c65953f9\"><span class=\"fusion-toggle-icon-wrapper\" aria-hidden=\"true\"><i class=\"fa-fusion-box active-icon awb-icon-minus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><i class=\"fa-fusion-box inactive-icon awb-icon-plus\" aria-hidden=\"true\"><\/i><\/span><span class=\"fusion-toggle-heading\">BRAIN \u2013 Initiative O apoio da administra\u00e7\u00e3o Obama \u00e0 Iniciativa do C\u00e9rebro \u2013 Edwin Jijena Duran<\/span><\/a><\/h4><\/div><div id=\"24e4084a3c65953f9\" class=\"panel-collapse collapse \" aria-labelledby=\"toggle_24e4084a3c65953f9\"><div class=\"panel-body toggle-content fusion-clearfix\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em fevereiro de 2013 o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apresentou oficialmente um importante projeto denominado Iniciativa BRAIN (por suas siglas em ingl\u00eas: Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies), o qual busca revolucionar a compreens\u00e3o do funcionamento do c\u00e9rebro humano, abrindo possibilidades para detectar de forma precoce as causas de doen\u00e7as cerebrais e, por conseguinte, prevenir ou encontrar tratamentos espec\u00edficos para as mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para esta iniciativa, a administra\u00e7\u00e3o Obama Care destina 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares de verba no ano fiscal de 2014. \u201cO projeto sobre o c\u00e9rebro dar\u00e1 aos cientistas as ferramentas necess\u00e1rias para obter uma imagem do c\u00e9rebro em a\u00e7\u00e3o e permitir\u00e1 ao menos compreender como pensamos, aprendemos ou memorizamos. O c\u00e9rebro \u00e9 ainda um enorme mist\u00e9rio que falta elucidar\u201d. (Presidente Barack Obama, abril 2013)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, o presidente Obama enfatiza que este novo projeto implica o desenvolvimento e aplica\u00e7\u00e3o de novas tecnologias capazes de produzir imagens das intera\u00e7\u00f5es entre as c\u00e9lulas cerebrais e a compexidade de circuitos neuronais na velocidade do pensamento. Essas tecnologias abrir\u00e3o novas vias para explorar o modo como o c\u00e9rebro memoriza, processa, armazena e recupera enormes quantidades de informa\u00e7\u00e3o, oferecendo um novo panorama sobre os complexos v\u00ednculos entre as fun\u00e7\u00f5es cerebrais e o comportamento humano. (Idem)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se conseguir criar um mapa cerebral s\u00e3o necess\u00e1rios aparelhos capazes de medir a atividade de um dos milh\u00f5es de neur\u00f4nios de forma independente e, al\u00e9m disso, seu funcionamento em conjunto com os demais neur\u00f4nios, portanto, criar uma escala em n\u00edvel cerebral de modo que se realize um mapa da atividade funcional. O desenvolvimento dessas tecnologias se alcan\u00e7ar\u00e1 atrav\u00e9s da nanoci\u00eancia, da imagem, da engenharia, da inform\u00e1tica e outras \u00e1reas relacionadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa BRAIN envolve quatro ag\u00eancias federais: O Instituto Nacional de Sa\u00fade (NIH), a Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Ci\u00eancia (NSF), a Administra\u00e7\u00e3o de Alimentos e Medicamentos (FDA) e a Ag\u00eancia de Projetos de Pesquisa Avan\u00e7ada em Defesa (DARPA). Estas ag\u00eancias fazem aportes econ\u00f4micos para realizar investiga\u00e7\u00f5es em \u00e1reas espec\u00edficas e delimitadas claramente para evitar dobrar esfor\u00e7os em um s\u00f3 experimento. O apoio \u00e9 dirigido ao desenvolvimento e aplica\u00e7\u00e3o de novas tecnologias capazes de mostrar um funcionamento din\u00e2mico cerebral e sua rela\u00e7\u00e3o com comportamento e transtornos cerebrais. Tais avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos permitir\u00e3o melhorar o diagn\u00f3stico, tratamento e, at\u00e9, prevenir doen\u00e7as mentais, n\u00e3o somente com a Tomografia Computadorizada (TC), Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica (RM), Tomografia por Emiss\u00e3o de P\u00f3sitrons (TEP), Magneto Encefalografia (MEG).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00fade mental no s\u00e9culo XXI e na era digital estar\u00e1 tomada pelo imp\u00e9rio das imagens, em 3D e outros desenvolvimentos mais, e tamb\u00e9m constitui-se em um assunto de pol\u00edtica de Estado, confirmando-se desse modo o decl\u00ednio do DSM at\u00e9 sua vers\u00e3o 5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem ter\u00e1 um valor superlativo sobre a palavra no diagn\u00f3stico e tratamento das agora chamadas\u00a0<strong>doen\u00e7as do c\u00e9rebro<\/strong>, assim os relatos do sujeito a respeito de seu mal-estar ou de seus sintomas, e sobre seu corpo, se tornariam obsoletas para a ci\u00eancia, que prefere um sujeito silenciado e ignorante de seus sofrimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento tecnol\u00f3gico prometido pelo presidente Obama, capaz de mostrar mediante imagens o que fica oculto ao olhar, diz que a atividade cerebral e as doen\u00e7as do c\u00e9rebro sejam captadas por imagens virtuais, imagens reais, etc. Esse horizonte pode ser t\u00e3o sedutor para alguns como aterrador e tem\u00edvel para outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*\u00a0<a href=\"https:\/\/www.whitehouse.gov\/share\/brain-initiative\">https:\/\/www.whitehouse.gov\/share\/brain-initiative<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista<\/em><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[79],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=842"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":843,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842\/revisions\/843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/vii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}