{"id":1266,"date":"2021-09-09T16:30:57","date_gmt":"2021-09-09T16:30:57","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/viii\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=1266"},"modified":"2021-09-09T16:30:57","modified_gmt":"2021-09-09T16:30:57","slug":"ficcoes-familiares","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/viii\/pt\/portfolio-items\/ficcoes-familiares\/","title":{"rendered":"Fic\u00e7\u00f5es familiares"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\">Por <strong>Henri Kaufmanner<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1263 alignleft\" src=\"http:\/\/enapol.com\/viii\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2021\/09\/02_Henri-Kaufmanner.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2021\/09\/02_Henri-Kaufmanner-66x66.jpg 66w, https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2021\/09\/02_Henri-Kaufmanner-150x150.jpg 150w, https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2021\/09\/02_Henri-Kaufmanner-200x200.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2021\/09\/02_Henri-Kaufmanner.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora n\u00e3o seja, propriamente, um conceito psicanal\u00edtico, a fam\u00edlia e os relatos a ela referidos, est\u00e3o sempre presentes em nossa pr\u00e1tica como analistas. As transforma\u00e7\u00f5es, as novas formas como os la\u00e7os se fazem e se desfazem, e suas consequ\u00eancias sobre os sintomas, fazem bem oportuna a escolha desse tema para nosso VIII ENAPOL. Desde o romance familiar comumente trazido na fala dos que buscam \u00e0 an\u00e1lise, at\u00e9 as formas mais contempor\u00e2neas de fam\u00edlia com as quais nos encontramos em nosso tempo, os assuntos de fam\u00edlia comp\u00f5em o pano de fundo onde se revela como cada um busca escrever sua hist\u00f3ria, como fez suas parcerias, ou como deu conta das afeta\u00e7\u00f5es de seu corpo. A fam\u00edlia \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o que insiste, mesmo que esvaziada da cren\u00e7a em um natural de sua estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente no Brasil, por exemplo, est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o no congresso, um projeto que busca definir em forma de lei, o que \u00e9 uma fam\u00edlia. Trata-se do Estatuto da Fam\u00edlia. Na vers\u00e3o que se quer fazer aprovar, a fam\u00edlia somente pode ser definida como tal, se fruto da uni\u00e3o de um homem e de uma mulher. Vemo-nos assim diante do esfor\u00e7o cada vez mais determinado, nesses tempo sem Outro, de fazer valer como norma, aquilo que n\u00e3o se sustenta mais a partir do que era pensando at\u00e9 ent\u00e3o como um direito natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradi\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia e propriedade s\u00e3o significantes que no Brasil, a partir de sua hist\u00f3ria, ganham valor de signo bem particular, quando agrupados pela sigla TFP. Refiro-me a uma sociedade religiosa criada nos anos 1950. Presumidamente cat\u00f3lica, essa sociedade de inspira\u00e7\u00e3o notadamente tradicionalista, coloca-se, desde sua funda\u00e7\u00e3o, em oposi\u00e7\u00e3o aos caminhos definidos para a Igreja Cat\u00f3lica a partir do Conc\u00edlio Vaticano II, defendendo que a mesma deveria retornar aos c\u00e2nones que a sustentavam na Idade M\u00e9dia. Assim, defensores da Tradi\u00e7\u00e3o e da Propriedade, s\u00e3o ferrenhos anticomunistas, e principalmente nas primeiras d\u00e9cadas ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o, podiam ser vistos andando em passeatas pelas grandes cidades do pais, facilmente identific\u00e1veis por seus estandartes vermelhos e letras douradas. Sua participa\u00e7\u00e3o foi determinante quando no ano de 1964 aconteceu o Golpe que instauraria a Ditadura Militar no Brasil. Foi importante articuladora da Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, momento em que chamados \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, parte significativa da ent\u00e3o classe m\u00e9dia e abastados da sociedade brasileira sa\u00edram \u00e0s ruas contra o que se afirmava ser o avan\u00e7o do comunismo no pais, em consequ\u00eancia das medidas reformistas e distributivas do governo de ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa Sociedade religiosa mant\u00e9m-se at\u00e9 nossos dias, espalhando-se pelo mundo, revelando que bem anteriormente \u00e0s novas religi\u00f5es pentecostais, o Brasil tamb\u00e9m j\u00e1 exportava fundamentalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a TFP, a fam\u00edlia \u00e9 exclusivamente fruto de um matrim\u00f4nio entre um homem e uma mulher, indissol\u00favel, patriarcal, hierarquizado. A estrutura familiar \u00e9 a c\u00e9lula que deve preservar a tradi\u00e7\u00e3o bem como a l\u00f3gica patrimonial. Embora corram rumores de que essa sociedade apresente ainda uma vertente m\u00edstico-exot\u00e9rica atuante, inspirada na adora\u00e7\u00e3o de seu fundador e particularmente de sua m\u00e3e, o importante a assinalar \u00e9 o fato de que a TFP, \u00e9 signo de uma forma de dar consist\u00eancia ao Outro, de um gozo que se experimenta na cren\u00e7a decidida no Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Inven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em recente jornada de trabalhos da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP, onde se discutia quest\u00f5es da adolesc\u00eancia, um caso presente no relat\u00f3rio dos colegas do TyA, chamou-me aten\u00e7\u00e3o de maneira particular.[1] Tratava-se de um paciente que nascido e vivendo na favela, tem seu encontro com a droga aos 12 anos de idade. O uso se inicia quando irrompe para o sujeito a sensa\u00e7\u00e3o de ter sido abandonado pela m\u00e3e, visto que esta somente tinha olhares para a irm\u00e3 ca\u00e7ula. A partir de ent\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com a m\u00e3e passam a ser marcados por intensa agressividade, o que encontrava por parte dessa m\u00e3e, como resposta, uma exig\u00eancia ainda maior sobre o sujeito. Isso muito o desorientava. Foi quando escolheu como refer\u00eancia, um vizinho que era envolvido com o tr\u00e1fico de drogas e que teria sido aquele que teria lhe oferecido maconha pela primeira vez. Tal escolha, levou o sujeito a praticar roubos, a se inserir no tr\u00e1fico de drogas, e a fazer parte de um grupo que se nomeava \u00abUFC\u00bb (Uni\u00e3o, Fam\u00edlia, Curinga). Os membros desse grupo passam a ser considerados pelo jovem como uma fam\u00edlia em que todos s\u00e3o irm\u00e3os, onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar algum reconhecimento e respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem surpreende ao revelar esse novo estatuto de fam\u00edlia. Assim falado, esse Outro que ele busca reconstituir \u00e9 de alguma maneira aquele que humaniza, propiciando um lugar de reconhecimento e ordenador de uma fraternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">UFC \u00e9 a sigla do\u00a0<i>Ultimate Fighting Championship<\/i>, muldiamente difundido, e que se realiza em uma sequ\u00eancia de lutas marcadas pela viol\u00eancia dos golpes das assim chamadas, MMA (<i>Mixed Martial Arts<\/i>). Esse campeonato globaliza-se cada vez mais, movimentando enormes cifras de dinheiro. O que inicialmente era uma pura express\u00e3o violenta, busca em um enquadramento, em um ringue octogonal, fazer-se um esporte altamente lucrativo. \u00c9 um tratamento de gozo bem afeito \u00e0 logica do consumo de nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem toxic\u00f4mano, contudo, depara-se com um UFC, que embora, e n\u00e3o por acaso, carregue como nome esse campeonato de lutas, revela-se para ele como a possibilidade de constituir um novo la\u00e7o, uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fic\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas l\u00f3gicas distintas apreendidas a partir de dois signos que t\u00eam, curiosamente, a mesma escrita tern\u00e1ria. Em ambos a fam\u00edlia ocupa um dos v\u00e9rtices do tri\u00e2ngulo, em ambos a fam\u00edlia \u00e9 uma rodinha de barbante que se amarra \u00e0s outras duas. Em TFP, a fam\u00edlia como fic\u00e7\u00e3o amarrada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e \u00e0 propriedade exp\u00f5e sua inspira\u00e7\u00e3o medieval, seu sonho de garantia e durabilidade. Em UFC, onde reinaria o necess\u00e1rio da tradi\u00e7\u00e3o encontramos a uni\u00e3o contingente, e onde o princ\u00edpio propriedade se garantiria como inalien\u00e1vel, encontramos o curinga, essa carta metaf\u00f3rica, que pode ocupar uma multiplicidade de lugares, e que s\u00f3 define seu valor a partir da composi\u00e7\u00e3o com as outras cartas em jogo. UFC tem inspira\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, utilit\u00e1ria, mais rapidamente obsoleta. Eric Laurent lembra a fun\u00e7\u00e3o destruidora\/criadora do capitalismo, destruindo a tradi\u00e7\u00e3o e fazendo proliferar uma nuvem de novas formas. \u00c9 assim que a hipermodernidade revela a dimens\u00e3o ficcional dos la\u00e7os familiares e sociais.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa diversidade ficcional nos permite antever que n\u00e3o nos faltar\u00e3o assuntos de fam\u00edlia e trabalho em nosso VIII ENAPOL.<\/p>\n<div class=\"NotasPie\">\n<p style=\"text-align: justify;\">NOTAS<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">\n<p>Faria, M. W. (2016), Adolesc\u00eancia e drogas: Um encontro marcado,\u00a0<i>Revista Curinga<\/i>\u00a042, Belo Horizonte: EBP-MG. Pp. 171-177.<\/p>\n<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">\n<p>Laurent, E. (2016), El ni\u00f1o como real del del\u00edrio familiar. Extra\u00eddo 14 de novembro de 2016,\u00a0<a href=\"http:\/\/wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateArticulo.asp?intTipoPagina=4&amp;intEdicion=2&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=1748&amp;intIdiomaArticulo=1&amp;intPublicacion=13\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/wapol.org\/pt\/<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henri Kaufmanner<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1263,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[244,172],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/1266"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1266"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/1266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1267,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/1266\/revisions\/1267"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=1266"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=1266"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/viii\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=1266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}