{"id":3005,"date":"2023-04-25T16:10:46","date_gmt":"2023-04-25T19:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xi\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=3005"},"modified":"2023-04-25T18:26:25","modified_gmt":"2023-04-25T21:26:25","slug":"a-boa-sorte-de-analisar-se","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/portfolio-items\/a-boa-sorte-de-analisar-se\/","title":{"rendered":"A boa sorte de analisar-se"},"content":{"rendered":"<p><div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container has-pattern-background has-mask-background nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-margin-top:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\" style=\"--awb-font-size:22px;--awb-text-font-family:&quot;Public Sans&quot;;--awb-text-font-style:normal;--awb-text-font-weight:700;\"><p style=\"text-align: justify;\">Sergio de Mattos &#8211; EBP<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-2 fusion-flex-container has-pattern-background has-mask-background nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-1 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div style=\"text-align:right;\"><a class=\"fusion-button button-flat fusion-button-default-size button-default fusion-button-default button-1 fusion-button-default-span fusion-button-default-type\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" href=\"http:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/ENAPOL-Sergio-de-Mattos-PT-2.pdf\"><i class=\"fa-download fas button-icon-left\" aria-hidden=\"true\"><\/i><span class=\"fusion-button-text\">PDF<\/span><\/a><\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;margin-top:20px;margin-bottom:20px;width:100%;\"><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\"><p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 um come\u00e7o? Em geral n\u00e3o sabemos o que seja. Os mitos v\u00eam tentar responder. Tamb\u00e9m a ci\u00eancia a seu modo. <em>No come\u00e7o era o Verbo<\/em> narra a nossa tradi\u00e7\u00e3o. Isso nos toca. O que quer que seja, um come\u00e7o implica um antes e um depois, de onde emergem novas possibilidades. Uma psican\u00e1lise \u00e9 uma m\u00e1quina de criar o novo. Al\u00e9m disso, come\u00e7ar, atua no presente sobre o que concerne \u00e0 pot\u00eancia do passado<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Sobre quais condi\u00e7\u00f5es se produz esse novo na psican\u00e1lise?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Come\u00e7o em forma de palavra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes do encontro com um analista, algu\u00e9m se d\u00e1 conta de que precisa de ajuda: \u201cn\u00e3o consigo resolver isso sozinho\u201d, \u201cpreciso falar com algu\u00e9m\u201d, \u201cpreciso entender, melhorar&#8230;\u201d. Lacan dizia a quem lhe demandava ajuda, que era preciso que falassem. S\u00f3 assim poderiam fazer alguma coisa juntos. Era preciso um esfor\u00e7o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, para dizer na express\u00e3o de Miller, \u201co acontecimento do pensamento\u201d, e dessa forma, ver, como isso se articulava com o acontecimento do corpo. A quest\u00e3o ser\u00e1, portanto: em que o fato de expressar o que passa no pensamento \u00e9 capaz de produzir um outro dizer diferente daquele que se repete?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deduz-se que para instaurar a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, \u00e9 preciso fazer o sofrimento dizer, ou seja, faz\u00ea-lo se articular ao significante. Sofrimento que tem sua linguagem pr\u00f3pria em cada sujeito, devido \u00e0 arbitrariedade dos significantes, que marcaram sua vida: no n\u00edvel da hist\u00f3ria de cada um, na incid\u00eancia de certas frases, palavras ditas ou silenciadas em seu meio. Acrescenta-se, ainda, que o sofrimento \u00e9 dito sem saber o que diz; mas, para aquele que fala e quer ser ouvido, o sofrimento quer ser sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provocado \u00e0 prop\u00f3sito do ap\u00f3logo de Jo\u00e3o: \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan responde: \u201cNo come\u00e7o da an\u00e1lise, em todo caso, isso \u00e9 certo\u201d<strong>. <\/strong>Contudo, imprime um desvio crucial lembrando da presen\u00e7a da carne como lugar da encarna\u00e7\u00e3o da palavra, fazendo convergir, desse modo, desde o in\u00edcio da experi\u00eancia anal\u00edtica o drama origin\u00e1rio do ser falante: \u201cPara o ser falante, as coisas come\u00e7am, o drama s\u00f3 come\u00e7a quando h\u00e1 o Verbo e ele entra na jogada, quando se encarna. \u00c9 quando o verbo se incarna que as coisas come\u00e7am a ir muito mal&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao pedir ajuda ao analista, j\u00e1 habitamos um corpo que padece do significante, de um acontecimento que perturbou sua homeostase, e que est\u00e1 na raiz do fracasso no arranjo com o qual at\u00e9 ent\u00e3o o sujeito se defendia do gozo. Assim, podemos acrescentar que desde o princ\u00edpio est\u00e1 o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso estabelecido, o que podemos extrair para o come\u00e7o de nossa pr\u00e1tica, dessa estrutura engendrada pelo impacto da linguagem no corpo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Porque falar do come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saber como come\u00e7ar uma an\u00e1lise \u00e9 estabelecer as condi\u00e7\u00f5es que favore\u00e7am um bom resultado. Para isso, \u00e9 preciso, como diz Lacan<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, ao falar de seu ensino, determinar como um analista pode se sustentar: \u201cEstou tentando determinar com que um analista pode se sustentar, que aparato \u2013se posso dizer assim\u2013 envolve o aparato mental rigoroso da fun\u00e7\u00e3o do analista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, entretanto, uma dificuldade intr\u00ednseca aos analistas em sustentar-se em um bom lugar. Por isso, seguindo Lacan, \u00e9 essencial estabelecer &#8211; qual o corrim\u00e3o se deve segurar para n\u00e3o derrapar de sua fun\u00e7\u00e3o: \u201cPorque, quando se \u00e9 analista, sempre se sente a tenta\u00e7\u00e3o de escorregar, deixar-se derrapar escada abaixo pelo traseiro&#8230; H\u00e1 que saber ser rigoroso porque deve-se intervir de forma s\u00f3bria e de prefer\u00eancia eficaz. Para que a an\u00e1lise seja s\u00e9ria e eficaz, procuro dar as condi\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas condi\u00e7\u00f5es foram no come\u00e7o formalizadas como um algoritmo da transfer\u00eancia<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, onde se p\u00f5e em marcha o aparato significante, que faz falar o que o sofrimento n\u00e3o sabe de si, funcionamento que se equaciona a um elemento libidinal: o <em>agalma. <\/em>Nessa altura, Lacan dir\u00e1 que no princ\u00edpio est\u00e1 a transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do <em>algama<\/em>, ao longo de seu ensino, a fun\u00e7\u00e3o do gozo se destaca no la\u00e7o anal\u00edtico. Um supereu, pr\u00f3prio \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica, torna-se um aliado do cumprimento da regra fundamental: \u201cdiga toda a verdade\u201d. Vale, ainda, ressaltar, segundo Lacan, que, al\u00e9m de um aliado, temos com o gozo uma parceria importante: \u201cSe n\u00e3o houvesse isso (o gozo), n\u00e3o vejo por que n\u00f3s estar\u00edamos nessa, juntos! Se n\u00e3o houvesse o Verbo, que, \u00e9 preciso dizer, isso d\u00e1 prazer, eles jubilam&#8230; todas essas pessoas que me procuram, porque \u00e9 que elas retornariam se n\u00e3o fosse para curtirmos juntos com o Verbo?\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segue-se que, desde o in\u00edcio, devemos estar atentos ao surgimento de algo que tenha \u00edndice dessa dimens\u00e3o libidinal, na fala do analisante: uma palavra carregada de afeto, uma cena enigm\u00e1tica, uma conex\u00e3o nova que causa satisfa\u00e7\u00e3o, uma articula\u00e7\u00e3o onde se mostre um padr\u00e3o repetitivo. \u00cdndices que podem emergir das primeiras lembran\u00e7as infantis, de narrativas de traumas, de momentos de ruptura na vida quando tudo toma um outro caminho, de sonhos que n\u00e3o se esquecem, de outros frequentemente repetidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em forma de <em>a<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira sess\u00e3o, o analista me pergunta o que eu havia produzido de saber no tratamento anterior. Respondi que sabia qual era o desejo de minha m\u00e3e. Ele interv\u00e9m: \u201cSe voc\u00ea sabe qual \u00e9 o desejo de sua m\u00e3e, uma psican\u00e1lise n\u00e3o pode fazer nada por voc\u00ea\u201d. Nesta noite, tive um sonho onde ela estava morta, fazendo lembrar-me, de uma cena traum\u00e1tica de minha inf\u00e2ncia, at\u00e9 ent\u00e3o, totalmente esquecida. Lembran\u00e7a que, se tornou, o vetor de minha an\u00e1lise at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de meu fantasma fundamental. Esse primeiro encontro com o analista &#8211; que fez voar em peda\u00e7os minha resposta sobre o desejo do Outro &#8211; produzindo o sonho e a lembran\u00e7a, onde era poss\u00edvel ler minha identifica\u00e7\u00e3o com o objeto de gozo do Outro, ilustra o gozo j\u00e1 inclu\u00eddo, e exposto logo na primeira sess\u00e3o, desde que comecei a me analisar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa pr\u00e1tica se liga a desmascarar a rela\u00e7\u00e3o com o gozo e pode sustentar-se como lemos no Semin\u00e1rio <em>De um Outro ao outro<\/em>, em tr\u00eas express\u00f5es, que d\u00e3o forma ao tratamento: o gozo como exclu\u00eddo e visado, o Outro como lugar em que isso se sabe e o objeto <em>a<\/em>, que \u00e9 o piv\u00f4 da hist\u00f3ria. Desse modo, s\u00f3 h\u00e1 estrutura na experi\u00eancia anal\u00edtica na condi\u00e7\u00e3o de que se inclua o objeto\u2013 impondo \u00e0 estrutura uma orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomo, do t\u00edtulo dessa interven\u00e7\u00e3o, a palavra <em>bonheur<\/em>, felicidade\/boa sorte, lembrando que Lacan, nesse Semin\u00e1rio, afirma, que n\u00e3o h\u00e1 felicidade sen\u00e3o do objeto <em>a<\/em>; n\u00e3o do objeto perdido irremedi\u00e1vel, mas o objeto <em>a<\/em>, separado do fantasma que obturava a falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A boa sorte de analisar-se<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual o lugar d\u00e1 Lacan \u00e0 conting\u00eancia em seu \u00faltimo ensino? Uma import\u00e2ncia fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tal ponto que, para ele, a cl\u00ednica deveria interrogar a an\u00e1lise, mas tamb\u00e9m interrogar o psicanalista, afim de que ele pudesse prestar contas do que em sua pr\u00e1tica ela teria de acidental<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste sentido de dar conta do acidental que se concebe a conting\u00eancia lacaniana<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Ela implica que possamos nos servir do acaso na condi\u00e7\u00e3o de restringi-lo \u00e0 conting\u00eancia. Ou seja, como analistas, s\u00f3 nos interessa o acidental, que vem se transformar em um fato de discurso, em um dizer que deixava um tra\u00e7o. Isto \u00e9, \u00e0quilo que do acaso se deixa interrogar pelo simb\u00f3lico<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, que se deixa de algum modo manipular por nossas opera\u00e7\u00f5es com o significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaco algumas formas de restri\u00e7\u00e3o, que constituem a conting\u00eancia lacaniana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) S\u00f3 nos interessam os acidentes que deixam seus tra\u00e7os. 2) Em termos l\u00f3gicos, interessa o acidental pensado como contingente no interior das mudan\u00e7as operadas por Lacan no funcionamento do quadrado modal cl\u00e1ssico. Mudan\u00e7a feita, para ajustar-se \u00e0 estrutura do <em>falasser, <\/em>onde certas coisas nunca cessam de se repetir, outras nunca acontecem como esper\u00e1vamos, e algumas que contingencialmente emergem deixando novos rastros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A restri\u00e7\u00e3o no campo do acaso se d\u00e1 ainda ao situar a conting\u00eancia no campo estrat\u00e9gico da transfer\u00eancia, como uma modalidade l\u00f3gica, que se op\u00f5e \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. A transfer\u00eancia visa o novo no caminho do amor. Ela que come\u00e7a em um regime movido pela necessidade, entendido aqui como algo que se repete sempre do mesmo modo, pode chegar a provar-se como uma impossibilidade. Em outras palavras, h\u00e1 um caminho l\u00f3gico em uma an\u00e1lise, que vai da conting\u00eancia ao imposs\u00edvel e que, por sua vez, abre de novo a via para escrever o que n\u00e3o estava escrito, agora de forma singular, como resposta a um real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O analista tem a\u00ed seu papel: \u201cUm parceiro que tem a oportunidade de responder\u201d, diz Lacan<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>: \u201cVolto a p\u00f4r em jogo a boa sorte, salvo que nessa oportunidade, essa vez, vem de mim e sou eu que devo proporciona-la\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Situar a conting\u00eancia na transfer\u00eancia, enfatiza Miller, \u00e9 sem d\u00favida a condi\u00e7\u00e3o para que saibamos manejar essa ocasi\u00e3o, essa ocasi\u00e3o provocada. H\u00e1 no ato do analista algo que pode provocar uma ocasi\u00e3o e que ele deve proporcionar como uma boa sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira sess\u00e3o de meu percurso anal\u00edtico apresentada acima, a interven\u00e7\u00e3o do analista sugere essa ocasi\u00e3o provocada. Ela atinge no cora\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, a pergunta sobre o desejo do Outro. Furo que eu havia tamponado, identificando-me com um objeto que se colocava como resposta. Ouvir que uma Psican\u00e1lise, n\u00e3o poderia fazer nada por mim, explodiu meu saber constitu\u00eddo e a satisfa\u00e7\u00e3o ali encontrada, favorecendo a conting\u00eancia, esvaziou a resposta que me acomodava na repeti\u00e7\u00e3o, e provocou o sonho da m\u00e3e morta, ocasionando a inscri\u00e7\u00e3o da lembran\u00e7a, que deixou seu rastro conduzindo minha an\u00e1lise por um longo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, a contingencia n\u00e3o tem sempre o mesmo tom. O que provocou o final de minha experi\u00eancia anal\u00edtica, ao contr\u00e1rio de um \u201cnada pode ser feito por voc\u00ea\u201d, foi em uma certa circunstancia, naquela que foi a \u00faltima sess\u00e3o, ouvir minha analista dizer: \u201cMe chame\u201d. No contexto em que isso ocorreu, a conting\u00eancia escreveu uma nova rela\u00e7\u00e3o com o Outro, na qual eu podia em uma nova parceria gozar da vida com algu\u00e9m, ao inv\u00e9s de me armar contra o Outro e mortificar-me atolado no deserto do objeto nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o posso queixar-me da sorte que foi para mim analisar-me, desde o come\u00e7o.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., <em>1, 2, 3, 4<\/em>, vol. 1, Ciudad Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2021, p. 234.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1975) Intervention \u00e0 la suite de l\u2019expos\u00e9 d\u2019Andr\u00e9 Albert: Sur le plaisir et la r\u00e8gle fondamentale. Lettres de l\u2019\u00c9cole freudienne, n\u00ba 24, 1978, p. 22-24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1968-1969) Semin\u00e1rio, livro 16: <em>De um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, pp. 67-68.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1974) Conf\u00e9rence de presse du docteur Jacques Lacan au Centre culturel fran\u00e7ais, Rome. Parue dans les Lettres de l\u2019\u00c9cole freudienne, 1975, n\u00b0 16, pp. 6-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1974) Conf\u00e9rence de presse du docteur Jacques Lacan au Centre culturel fran\u00e7ais, Rome. <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., pp. 6-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1974) Conf\u00e9rence de presse du docteur Jacques Lacan au Centre culturel fran\u00e7ais, Rome. <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., pp. 6-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1974) Conf\u00e9rence de presse du docteur Jacques Lacan au Centre culturel fran\u00e7ais, Rome. <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., pp. 6-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1967). Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola.\u00a0Em J. Lacan.\u00a0<em>Outros escritos<\/em>.\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1974) Conf\u00e9rence de presse du docteur Jacques Lacan au Centre culturel fran\u00e7ais, Rome. <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., pp. 6-26.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1977) Ouverture de la Section Clinique. Em: <em>Ornicar<\/em>? n\u00b0 9, pp 7-14.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., 1, 2, 3, 4, vol. 1, <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., p. 227.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Atti\u00e9 J., \u201cLe hasard et la contingence\u201d, <em>La Lettre Mensuelle de l\u2019ECF<\/em>, n.\u00b0161, ao\u00fbt 1977, p. 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., 1, 2, 3, 4, vol. 1, <em>op<\/em>. <em>cit<\/em>., p. 227.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":3063,"menu_order":38,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[155,149],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/3005"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3005"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/3005\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3068,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/3005\/revisions\/3068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=3005"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=3005"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=3005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}