{"id":4272,"date":"2023-08-06T14:52:19","date_gmt":"2023-08-06T17:52:19","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xi\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=4272"},"modified":"2023-08-06T14:52:19","modified_gmt":"2023-08-06T17:52:19","slug":"presentismo-e-novas-modalidades-narrativas-efeitos-sobre-o-sujeito-suposto-saber","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/portfolio-items\/presentismo-e-novas-modalidades-narrativas-efeitos-sobre-o-sujeito-suposto-saber\/","title":{"rendered":"Presentismo e novas modalidades narrativas: Efeitos sobre o sujeito-suposto-saber"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container has-pattern-background has-mask-background nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div style=\"text-align:right;\"><a class=\"fusion-button button-flat fusion-button-default-size button-default fusion-button-default button-1 fusion-button-default-span fusion-button-default-type\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" href=\"http:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/ENAPOL-Jesus-Santiago-PT.pdf\"><span class=\"fusion-button-text\">PDF<\/span><\/a><\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;margin-top:20px;margin-bottom:20px;width:100%;\"><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e9sus Santiago &#8211; EBP<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deparo-me, com frequ\u00eancia, com situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que me fazem interrogar sobre a aplicabilidade do <em>sujeito suposto saber <\/em>aos mais diversos estilos de vida contempor\u00e2neos. \u00c9 Lacan quem prop\u00f5e que no \u201ccome\u00e7o de uma psican\u00e1lise est\u00e1 a transfer\u00eancia\u201d (LACAN, 2003, p. 252). Precisa-se inclusive que se a transfer\u00eancia se constitui como uma \u201cobje\u00e7\u00e3o \u00e0 intersubjetividade\u201d \u00e9 porque \u201co <em>sujeito suposto saber <\/em>\u00e9 o eixo a partir do qual se articula tudo que acontece na transfer\u00eancia\u201d (LACAN, 2003, p. 252-253). Pergunto-me, por exemplo, se o chamado \u201cpresentismo\u201d (HARTOG, 2013, p. 12-13)[1], com suas opera\u00e7\u00f5es narrativas pr\u00f3prias, n\u00e3o acarreta consequ\u00eancias pouco favor\u00e1veis para a instala\u00e7\u00e3o do la\u00e7o transferencial. A ideia do \u201cpresentismo\u201d aparece, para o historiador Fran\u00e7ois Hartog, como a repercuss\u00e3o da ascens\u00e3o vertiginosa de um presente invasivo, maci\u00e7o e onipresente (HARTOG, 2013, p. 39-40). Isso significa que a experi\u00eancia do tempo, para as diversas \u00e9pocas, \u00e9 m\u00faltipla. Portanto, \u00e9 preciso reconhecer que o chamado fen\u00f4meno do \u201cpresentismo\u201d imp\u00f5e \u00e0 pr\u00e1tica do analista novas modalidades de narrativa que, certamente, repercutem sobre a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O n\u00facleo reversivo do tempo no <em>sujeito suposto saber <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sugiro a hip\u00f3tese de que h\u00e1 uma quest\u00e3o relativa \u00e0 incid\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o narrativa do <em>presentismo <\/em>sobre o modo com que se estabelece o la\u00e7o transferencial. Conceitua-se o <em>sujeito suposto saber<\/em> como a extra\u00e7\u00e3o de uma configura\u00e7\u00e3o particular da cadeia significante que remete \u00e0s caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do chamado sujeito cartesiano (LACAN, 1966, p. 853)[2]. Com efeito, o sujeito cartesiano se define pela rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com a cadeia significante visto que, para ele, ela toma a forma de uma cadeia dedutiva, cujos elementos se articulam entre si por uma causalidade e uma temporalidade pr\u00f3prias. Se a experi\u00eancia anal\u00edtica viabiliza a introdu\u00e7\u00e3o do inconsciente como um sujeito dotado de uma matriz de combina\u00e7\u00f5es significantes calcul\u00e1veis, ela introduz tamb\u00e9m uma temporalidade entre esses elementos que \u00e9 inteiramente singular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa cadeia dedutiva que se exerce em concomit\u00e2ncia com o desenrolar da sucess\u00e3o temporal dos elementos da cadeia significante, Lacan p\u00f4de denomin\u00e1-la de \u201cn\u00facleo de um tempo reversivo\u201d (LACAN, 1966, p. 853). Portanto, o que \u00e9 crucial para a pr\u00e1tica anal\u00edtica n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria nem o sentido, mas o tempo heterog\u00eaneo e irregular que se produz por meio da apreens\u00e3o do fator libidinal pr\u00f3prio do objeto <em>a, <\/em>inerente \u00e0 opera\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia. Isto acontece porque o objeto <em>a <\/em>\u00e9 o fator que desregula o desenrolar uniforme do tempo (MILLER, 2000, p. 67). Se esse desenrolar uniforme se confunde com a hist\u00f3ria, o sentido ou a realidade, desregul\u00e1-lo \u00e9 favorecer a emerg\u00eancia do real do tempo capaz de estabelecer no sujeito outra rela\u00e7\u00e3o com a <em>fala<\/em>, rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 experi\u00eancia do inconsciente. Em conson\u00e2ncia com esse tempo real, a transfer\u00eancia \u00e9 definida, por Lacan, como \u201cuma rela\u00e7\u00e3o essencialmente ligada ao tempo e ao seu manejo\u201d (LACAN, 1966, p. 858).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u00e9 da natureza do tempo ir em dire\u00e7\u00e3o ao futuro ou ao passado, o que a transfer\u00eancia introduz como algo in\u00e9dito \u00e9 que o modo passado do tempo se atualiza pela presen\u00e7a do analista enquanto semblante do objeto <em>a<\/em>. A presen\u00e7a do analista se faz necess\u00e1ria para que se efetue a inscri\u00e7\u00e3o do presente no modo passado pois, ao encarnar para o analisante o fator perturbador do objeto <em>a, <\/em>a transfer\u00eancia \u201ctorna o tempo inomog\u00eaneo, isto \u00e9, gera compress\u00f5es e dilata\u00e7\u00f5es do presente\u201d (MILLER, 2004, p. 85). Esclarece-se, assim, que o tempo do analisante <strong>(T<\/strong><strong>1<\/strong><strong>) <\/strong>\u00e9 o tempo que progride, enquanto o tempo do analista <strong>(T<\/strong><strong>2<\/strong><strong>)<\/strong> \u00e9 o tempo que retroage sobre a fala do sujeito. Esse segundo tempo <strong>(T<\/strong><strong>2<\/strong><strong>) <\/strong>\u00e9 o <em>sujeito suposto saber<\/em> na medida em que se trata do tempo que o analista representa para o analisante. Na transfer\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o <em>saber <\/em>que conta<em>, <\/em>mas o <em>sujeito suposto<\/em> saber que, por sua vez, requer a presen\u00e7a do analista como o operador capaz, em primeiro lugar, de redirecionar o presente para o passado e, em segundo lugar, de reportar esse passado no presente (MILLER, 2004, p. 77).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A transfer\u00eancia \u00e0 luz do paradoxo do futuro contingente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa temporalidade em que o sujeito trafega pela cadeia significante recebeu o nome de <em>efeito sujeito suposto saber, <\/em>tendo em vista que \u00e9 ele que confere significa\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o causal entre os v\u00e1rios elementos passados ou futuros de sua exist\u00eancia. Para tratar dessa temporalidade pr\u00f3pria da cadeia significante inconsciente, recorre-se ao \u201cparadoxo do futuro contingente\u201d (Miller, 2000, p. 25), aplic\u00e1vel ao funcionamento do <em>sujeito suposto saber.<\/em> Como j\u00e1 se referiu antes, se o sujeito se apresenta no tempo <strong>Tn,<\/strong> um acontecimento pode ter lugar, com ele, no tempo futuro <strong>Tn+1.<\/strong> Na verdade, ele pode ocorrer ou n\u00e3o ocorrer.<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-image-element \" style=\"text-align:center;--awb-max-width:30%;--awb-caption-title-font-family:var(--h2_typography-font-family);--awb-caption-title-font-weight:var(--h2_typography-font-weight);--awb-caption-title-font-style:var(--h2_typography-font-style);--awb-caption-title-size:var(--h2_typography-font-size);--awb-caption-title-transform:var(--h2_typography-text-transform);--awb-caption-title-line-height:var(--h2_typography-line-height);--awb-caption-title-letter-spacing:var(--h2_typography-letter-spacing);\"><span class=\" fusion-imageframe imageframe-none imageframe-1 hover-type-none\"><img decoding=\"async\" width=\"1162\" height=\"468\" title=\"SANTIAGO &#8211; Gr\u00e1fico 01\" src=\"http:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01.jpg\" alt class=\"img-responsive wp-image-4262\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01-200x81.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01-400x161.jpg 400w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01-600x242.jpg 600w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01-800x322.jpg 800w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-01.jpg 1162w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 1162px\" \/><\/span><\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;margin-top:10px;margin-bottom:10px;width:100%;\"><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\"><p style=\"text-align: justify;\">ent\u00e3o sempre ser\u00e1 verdadeiro que ele ocorreu no passado. \u00c9 aqui que aparece a significa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do <em>sujeito suposto saber, <\/em>pois ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio e verdadeiro que ele tenha acontecido no passado. Em outros termos, para a significa\u00e7\u00e3o que o sujeito confere ao acontecimento <strong>Tn+1,<\/strong> \u00e9 imposs\u00edvel que o que ocorreu no passado possa n\u00e3o ter acontecido. O essencial desse paradoxo \u00e9 explicar de que modo a revers\u00e3o temporal transforma o poss\u00edvel em necess\u00e1rio. Em suma, o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 o fato de que o acontecimento passado possa ser, retroativamente, significado como necess\u00e1rio (MILLER, 2000, p. 26). Portanto, em <strong>Tn, <\/strong>o que ocorrer\u00e1 no futuro <strong>(Tn<\/strong><strong>+1<\/strong><strong>)<\/strong> \u00e9 simplesmente poss\u00edvel. Assim, se em <strong>Tn<\/strong><strong>+1<\/strong> isso aconteceu, tornou-se efetivo, aparece a significa\u00e7\u00e3o dessa efetividade. \u00c9 simplesmente porque se reprojeta essa efetividade no sentido contr\u00e1rio \u2013 ou seja, do presente em dire\u00e7\u00e3o ao passado \u2013 que se pode dizer que o acontecimento passado j\u00e1 era necess\u00e1rio. Segundo Miller, \u201c\u00e9 a inst\u00e2ncia do tempo que sempre relega o poss\u00edvel rumo ao necess\u00e1rio, \u00e9 a inst\u00e2ncia do tempo que faz advir a necessidade l\u00f3gica do \u2018estava escrito\u2019\u201d (MILLER, 2004, p. 77). Em \u00faltima inst\u00e2ncia, se o acontecimento \u00e9 sempre contingente \u2013 marcado por uma abertura dos poss\u00edveis \u2013, o <em>sujeito suposto saber, <\/em>por sua vez, \u00e9 sempre a introdu\u00e7\u00e3o de uma significa\u00e7\u00e3o que capta a causalidade do acontecimento passado como necess\u00e1ria.<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-image-element \" style=\"text-align:center;--awb-max-width:30%;--awb-caption-title-font-family:var(--h2_typography-font-family);--awb-caption-title-font-weight:var(--h2_typography-font-weight);--awb-caption-title-font-style:var(--h2_typography-font-style);--awb-caption-title-size:var(--h2_typography-font-size);--awb-caption-title-transform:var(--h2_typography-text-transform);--awb-caption-title-line-height:var(--h2_typography-line-height);--awb-caption-title-letter-spacing:var(--h2_typography-letter-spacing);\"><span class=\" fusion-imageframe imageframe-none imageframe-2 hover-type-none\"><img decoding=\"async\" width=\"1539\" height=\"657\" title=\"SANTIAGO &#8211; Gr\u00e1fico 02\" src=\"http:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02.jpg\" alt class=\"img-responsive wp-image-4264\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02-200x85.jpg 200w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02-400x171.jpg 400w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02-600x256.jpg 600w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02-800x342.jpg 800w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02-1200x512.jpg 1200w, https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/SANTIAGO-Grafico-02.jpg 1539w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 1200px\" \/><\/span><\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;margin-top:10px;margin-bottom:10px;width:100%;\"><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-3\"><p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o caso de dizer que o <em>presentismo<\/em> coloca dificuldades para a instala\u00e7\u00e3o do <em>sujeito suposto saber, <\/em>pois este consiste na estrutura temporal que exige a escritura do passado no presente. Retroativamente, o <em>sujeito suposto saber<\/em> apreende uma rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre um acontecimento passado e o presente. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o causal que sup\u00f5e um sujeito que se capta afetado pela materialidade significante que se constituiu no tempo passado. Essa articula\u00e7\u00e3o entre a temporalidade retroativa do passado no presente e a cadeia significante concerne, a meu ver, \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o mais refinada do <em>sujeito suposto saber. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 h\u00e1 diferentes maneiras de falhar <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do Semin\u00e1rio <em>Mais ainda, <\/em>Lacan chega a dizer que a experi\u00eancia do sujeito com a palavra, sobretudo no que concerne ao seu significado, tende a tornar-se <em>rotina.<\/em> N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para qualquer veleidade quanto \u00e0 preponder\u00e2ncia das leis da linguagem e da palavra e prevalece, com efeito, a perda da for\u00e7a po\u00e9tica e interpretativa do simb\u00f3lico. O simb\u00f3lico se mostra transfigurado pela afeta\u00e7\u00e3o da disjun\u00e7\u00e3o radical entre o significante e o significado, o que torna necess\u00e1rio passar pela \u201cboa rotina\u201d do la\u00e7o social para que o vazio do significado possa ser preenchido com algum sentido (LACAN, 1982, p. 58). \u00c9 poss\u00edvel constatar, no cotidiano da pr\u00e1tica anal\u00edtica, situa\u00e7\u00f5es em que a experi\u00eancia do sujeito com a <em>fala <\/em>padece do relativismo que denota a sua natureza de artefato, muitas vezes esvaziada de sentido e impotente para lidar com o imposs\u00edvel de suportar do sintoma. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que a fun\u00e7\u00e3o da palavra, tal como acontece no caso do <em>presentismo, <\/em>\u00e9 um ind\u00edcio de que o avan\u00e7o do trabalho anal\u00edtico n\u00e3o ocorrer\u00e1 se o analista permanecer \u00e0 espera da emerg\u00eancia do la\u00e7o transferencial confundido com o <em>sujeito suposto saber. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que o funcionamento da tr\u00edade cl\u00e1ssica sintoma-demanda-transfer\u00eancia, pr\u00f3pria da cl\u00ednica do retorno do recalcado, est\u00e1 posto em quest\u00e3o em muitos casos de jovens que procuram o tratamento anal\u00edtico. As novas configura\u00e7\u00f5es da transfer\u00eancia n\u00e3o se assentam do lado do sujeito dividido; ao contr\u00e1rio, elas parecem se colocar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de <strong>S<\/strong><strong>1<\/strong><strong>, <\/strong>em uma \u00e9poca em que o sintoma do tipo anor\u00e9xico ou toxicoman\u00edaco \u2013 sintomas ditos corporais, muitas vezes confundidos com as chamadas psicoses ordin\u00e1rias \u2013 n\u00e3o constitu\u00ed, no sentido usual do termo, forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Vale dizer que esses sintomas n\u00e3o se apresentam por meio do regime significante ordenado pelo Nome-do-Pai, mas, sim, pelas pr\u00e1ticas pulsionais que se evidenciam como t\u00e9cnicas vitais de gozo, que contrastam com o sujeito do inconsciente. Se o sintoma aparece mais do lado de S1, ele dificilmente poder\u00e1 se articular \u00e0 demanda, pois esta tem seu fundamento na priva\u00e7\u00e3o de ser do sujeito, ou seja, na sua divis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo que nossa \u00e9poca experimenta os limites da interpreta\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica, a condu\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia gera tamb\u00e9m questionamentos quanto ao seu manejo. A estrat\u00e9gia transferencial deixa de estar inteiramente referida \u00e0 articula\u00e7\u00e3o entre o sintoma e a demanda e, portanto, n\u00e3o pode se restringir \u00e0 demanda de significa\u00e7\u00e3o dirigida ao saber inconsciente. \u00c9 nesse sentido que, no caso dos novos sintomas, ela se configura como articulada ao tra\u00e7o identificat\u00f3rio ou ao objeto de gozo preferencial do sujeito. Ao personificar os novos modos e estilos de vida, os jovens est\u00e3o em boas condi\u00e7\u00f5es para exprimir, em seus sintomas e inquieta\u00e7\u00f5es, o desencanto com o mundo em que prevalece a degrada\u00e7\u00e3o dos significantes-mestres capazes de velar a verdade da <em>n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/em> N\u00e3o basta diagnosticar a inexist\u00eancia do Outro, \u00e9 preciso admitir que a entrada triunfante do objeto <em>a <\/em>na cena do mundo trouxe consigo a contamina\u00e7\u00e3o, cada vez mais extensiva, do real da <em>n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o<\/em> entre os sexos. Para Miller (2005, p. 14), a inven\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da pr\u00e1tica lacaniana que se mostra orientada pelo \u00faltimo ensino de Lacan deve tomar como ponto de partida fundamental o princ\u00edpio de que \u201cs\u00f3 h\u00e1 diferentes maneiras de falhar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a do ato anal\u00edtico na contemporaneidade exige uma mudan\u00e7a de paradigma cl\u00ednico, sobretudo no \u00e2mbito da transfer\u00eancia, na medida em que seu exerc\u00edcio passa a ser correlativo da dimens\u00e3o do real que falha incessantemente. Com isso, quero dizer que a pr\u00e1tica lacaniana deve instruir-se no terreno em que o imposs\u00edvel e as falhas no real se estendem de um modo que intensificam a descren\u00e7a no saber sobre o car\u00e1ter decifr\u00e1vel do sintoma, notadamente quando a decifra\u00e7\u00e3o remete \u00e0s mensagens do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das quest\u00f5es com a qual o psicanalista se defronta no manejo da transfer\u00eancia concerne ao lugar para o <em>sujeito suposto saber, <\/em>em um mundo que, diante da presen\u00e7a desenfreada do \u201cisso falha\u201d, for\u00e7a o sujeito a responder com as <em>fic\u00e7\u00f5es-grampos <\/em>que se fabricam \u00e0 revelia do saber decifr\u00e1vel do inconsciente. Se cada vez mais os sintomas se tornam um <em>affaire <\/em>de significante mestre <strong>(S<\/strong><strong>1<\/strong><strong>),<\/strong> \u00e9 exigido do psicanalista um <em>suposto saber ler de outra forma <\/em>(LACAN, 1978)<em>, <\/em>uma vez que \u00e9 preciso <em>saber ler<\/em> a materialidade deste, isto \u00e9, em que o significante mestre se consubstancia na letra que produz o acontecimento de corpo. Diante da preval\u00eancia do sintoma cuja economia de gozo \u00e9 o acontecimento de corpo, o n\u00facleo da transfer\u00eancia desloca-se da suposi\u00e7\u00e3o do saber decifr\u00e1vel para a <em>suposi\u00e7\u00e3o de saber ler de outra forma <\/em>o sintoma.<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-4\"><p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li style=\"text-align: justify;\">HARTOG, F. <em>Regimes de historicidade<\/em>: presentismo e experi\u00eancias do tempo. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2013.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1969 sobre o psicanalista da Escola. In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho originalmente publicado em 1967).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Posi\u00e7\u00e3o do Inconsciente. In: <em>Escritos, <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1966.\u00a0(Trabalho originalmente publicado em 1964).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: <\/em>mais ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (Trabalho originalmente publicado em 1973.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire, livre XXV, <\/em>Le moment de conclure, le\u00e7on du 10 janvier 1978, in\u00e9dit.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">LIPOVETSKY, G; CHARLES, S. <em>Les temps hypermodernes<\/em>. Paris: Grasset, 2004.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. <em>A er\u00f3tica do tempo<\/em>. Rio de Janeiro: EBP-RJ, 2000.\u00a0(Trabalho originalmente publicado em 2000).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. L\u2019introduction \u00e0 l\u2019\u00e9rotique du temps.<em> La cause freudienne, Nouvelle Revue de Psychacanalyse,<\/em> n. 56, p. 63-85, mars. 2004.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.<em> Un esferzo de poes\u00eda<\/em>. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2016. (Trabalho originalmente publicado em 2002-03).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Uma fantasia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 42, p. 7-18, fev. 2005. (Trabalho originalmente publicado em ???).<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">SANTIAGO, J. Transfer\u00eancia e acontecimento de corpo: suposto-saber-ler de outra forma. <em>Curinga,<\/em> <em>Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Minas Gerais, <\/em>n. 47, p. 47-60, jan\/jun, 2019.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-5\"><hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">[1]Como esclarece o Fran\u00e7ois Hartog, o emprego do neologismo \u201cpresentismo\u201d n\u00e3o remete a nenhuma realidade dada e tampouco observ\u00e1vel. N\u00e3o se presta, portanto, \u00e0s grandes caracteriza\u00e7\u00f5es das \u00e9pocas civilizat\u00f3rias, muitas vezes assimiladas como entidades incertas e vagas. Trata-se, segundo ele, de um <em>artefato<\/em> conceitual que valida o seu alcance interpretativo ao ser capaz de captar as grandes escans\u00f5es na experi\u00eancia com o tempo em diferentes regimes da vida social, os quais se apropriam, de modo distinto, do passado, do presente e do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2]\u201cO sujeito qualificado como cartesiano constitui-se como o pressuposto do inconsciente, como Lacan p\u00f4de demonstrar ao longo do Livro 11 do Semin\u00e1rio, Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":4257,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[155,149],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/4272"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4272"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/4272\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4276,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/4272\/revisions\/4276"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=4272"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=4272"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xi\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=4272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}