{"id":8014,"date":"2025-11-26T07:34:00","date_gmt":"2025-11-26T10:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=8014"},"modified":"2025-11-26T07:34:00","modified_gmt":"2025-11-26T10:34:00","slug":"comentario-sobre-o-texto-do-gt-o-gozo-e-a-alegria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/comentario-sobre-o-texto-do-gt-o-gozo-e-a-alegria\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio sobre o texto do GT \u201cO gozo e a alegria\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9a Reis Santos (EBP\/AMP)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">areissantos@gmail.com<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto do GT toma como ponto de partida uma pergunta de Lacan em \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d. Pergunta que eles se prop\u00f5em a dissecar e a articular com a quest\u00e3o do gozo: \u201cQue alegria encontramos naquilo que constitui nosso trabalho?\u201d Uma pergunta curiosa no contexto em que foi proferida. Por isso come\u00e7o pelo contexto: Maud Mannoni organiza em 1967 as Jornadas de estudos sobre as psicoses da crian\u00e7a, ocasi\u00e3o em que reuniu um grupo de psicanalistas de diferentes orienta\u00e7\u00f5es. Lacan foi convidado a fazer o discurso de encerramento, que se converteu no texto da Alocu\u00e7\u00e3o publicado nos Outros Escritos.\u00a0 Apesar de come\u00e7ar agradecendo a ela pelo \u00eaxito da empreitada, Lacan se contrap\u00f5e abertamente a algumas ideias centrais defendidas ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Mannon<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>i a quest\u00e3o da debilidade da crian\u00e7a \u00e9 decorr\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho, na situa\u00e7\u00e3o em que um e outro formam um s\u00f3 corpo. Ela foi a primeira psicanalista a de dedicar \u00e0 escuta das crian\u00e7as d\u00e9beis, e a problematizar a quest\u00e3o do corpo nessa cl\u00ednica. Sua hip\u00f3tese \u00e9 de que essas crian\u00e7as e suas m\u00e3es vivem em uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o de corpos associada \u00e0 presen\u00e7a de um ponto obscuro n\u00e3o simbolizado na subjetividade da m\u00e3e, que retorna no real do corpo da crian\u00e7a<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, tanto na Alocu\u00e7\u00e3o quanto no semin\u00e1rio 11, faz men\u00e7\u00e3o a essa tese para se contrapor a ela.\u00a0 Para ele n\u00e3o se trata da fus\u00e3o do corpo da m\u00e3e e da crian\u00e7a, mas da fus\u00e3o no n\u00edvel da cadeia significante<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Trata-se da hol\u00f3frase entre S1 e S2, como par de significantes que solidifica a cadeia. Nesse texto Lacan diz assim: \u201cO que conv\u00e9m apontar aqui&#8230; \u00e9 o preconceito irredut\u00edvel de que \u00e9 sobrecarregada a refer\u00eancia ao corpo, enquanto o mito que abarca a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com a m\u00e3e n\u00e3o for suspenso\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Ele destaca que o fato de n\u00e3o levarem em conta a presen\u00e7a do gozo e da linguagem na rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00e3e e a crian\u00e7a fornece sustenta\u00e7\u00e3o a uma fantasia posti\u00e7a &#8211; a da harmonia no habitat materno. Sabemos, no entanto, que para a psican\u00e1lise, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 harmonia nessa rela\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o h\u00e1 completude a ser alcan\u00e7ada no futuro, nem tampouco podemos contar com a ilus\u00e3o de um passado id\u00edlico nessa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a do gozo e da linguagem n\u00e3o passou desapercebida no texto do GT.\u00a0 Ali eles afirmam: \u201cA alegria lacaniana se perfila assim com a castra\u00e7\u00e3o. Trata-se de n\u00e3o operar apenas com a paix\u00e3o da linguagem, com palavras belas sem compreender nada da estrutura em que ela se realiza. N\u00e3o seria acaso porque operamos sobre o fundo do real, do imposs\u00edvel? O corte, o sil\u00eancio ou um ato do analista podem fazer aparecer o gozo de <em>lal\u00edngua<\/em>\u201d. Anna Aromi, em um excelente texto que abprd um dos aspectos de seu testemunho de passe, destaca esse ponto: A castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um mito, n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora, \u00e9 real. \u00c9 real no fato de que o ser falante n\u00e3o sabe gozar.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao Lacan no contexto da Alocu\u00e7\u00e3o: ali onde a antipsiquiatria &#8211; que na concep\u00e7\u00e3o de Mannoni faz par com a psican\u00e1lise &#8211; considera o louco como um sujeito aprisionado pela aliena\u00e7\u00e3o social e mental, Lacan prop\u00f5e uma abordagem a partir da estrutura. Ele adverte que essa pr\u00e1tica libert\u00e1ria traz em si o seu limite e seu engodo.\u00a0 Ou seja, na contram\u00e3o dessa concep\u00e7\u00e3o da psicose a partir da ideologia da liberdade, Lacan sustenta que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma \u00e9tica, que leva em conta a presen\u00e7a do gozo e os efeitos da linguagem na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Para ele a psicose da crian\u00e7a \u00e9 resultado de coordenadas familiares, de leis muito precisas, e n\u00e3o de raz\u00f5es acidentais, mas estruturais: \u201cPara obter uma crian\u00e7a psic\u00f3tica \u00e9 preciso ao menos o trabalho de duas gera\u00e7\u00f5es, sendo ela seu fruto na terceira\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 no contexto dessa den\u00fancia que Lacan fala de sua posi\u00e7\u00e3o paradoxal, que foi nomeada no texto do GT como uma \u201cestranha alegria\u201d. Lacan afirma sua alegria na mesma frase em que localiza uma tristeza. \u201cTenho sempre cinco anos\u201d. \u201cTodos sabem que sou alegre, dizem at\u00e9 moleque: me divirto. [&#8230;] \u00c9 verdade. N\u00e3o sou triste. Ou, mais exatamente, s\u00f3 tenho uma tristeza, naquilo que me foi tra\u00e7ado como carreira: \u00e9 haver cada vez menos pessoas a quem eu possa dizer as raz\u00f5es de minha alegria, quando as tenho\u201d<sup> <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel sentir a presen\u00e7a, a dimens\u00e3o de sua solid\u00e3o no momento dessa fala dirigida ao grupo ecl\u00e9tico reunido por Mannoni. No entanto, n\u00e3o \u00e9 uma solid\u00e3o que o arrasta para o pecado da tristeza. Lacan n\u00e3o se deixa melancolizar, e afirma sua alegria como um ato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, fica evidente que essa alegria do menino n\u00e3o tem a ver com uma ingenuidade infantil, menos ainda com o imperativo universalizante do \u201ctodos alegres\u201d que encharca os conte\u00fados das redes, nessa estranha forma de la\u00e7o dos nossos dias que promove a segrega\u00e7\u00e3o profetizada por Lacan. \u00c9 a alegria do um sozinho, que remete para a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica que atravessa o seu ensino.\u00a0 Nos tr\u00eas momentos em que Lacan fala da alegria, nesse texto, \u00e9 sempre em refer\u00eancia \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o. Segrega\u00e7\u00e3o que \u00e9 efeito dos ideais, das normas universalizantes, do que o GT nomeia como \u201co car\u00e1ter supereg\u00f3ico da cultura\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegria de que fala Lacan \u00e9 aquela a que se chega por acr\u00e9scimo, como efeito da opera\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria de uma experi\u00eancia de an\u00e1lise, quando essa experi\u00eancia consegue produzir um modo de saber fazer com o gozo, e com isso, permite um deslocamento do sujeito na rela\u00e7\u00e3o com seu sintoma.\u00a0 Uma alegria que se extrai do ato anal\u00edtico, da subvers\u00e3o do sentido e da rela\u00e7\u00e3o viva com <em>lalangue<\/em>. Essa opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem ilustrada no trecho destacado pelo GT do testemunho de passe de Laurent Dupont: \u201cO sentimento de estar s\u00f3 no caminho e poder rir \u00e0 beira do vazio\u201d. Como bem diz o texto do GT: \u201cUma alegria que n\u00e3o desconhece a castra\u00e7\u00e3o, nem a \u00e9tica do bem dizer\u201d. Anna Aromi fala da alegria do passe como comemora\u00e7\u00e3o de um esvaziamento, da leveza que resulta quando o sentido deixa de obturar o litoral do real<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual a rela\u00e7\u00e3o entre isso que se evidencia no final de uma an\u00e1lise com o infantil que nos interessa aqui? De acordo com essa \u00e9tica, o infantil n\u00e3o corresponde a uma etapa do desenvolvimento, mas \u00e9 pensado a partir da dimens\u00e3o estrutural do sujeito.\u00a0\u00a0 A crian\u00e7a da psican\u00e1lise nomeia um modo de ser atravessado por <em>lalangue<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me pareceu que a\u00ed se localiza o principal ponto de contato do trabalho do GT com o tema dessa sala. Antes que uma crian\u00e7a possa construir uma frase h\u00e1 \u201calgo nela\u201d que denuncia a presen\u00e7a de detritos deixados de passagem pela linguagem. H\u00e1 algo nela que vem das marcas deixadas pelos restos dos significantes da l\u00edngua materna, presentes da opera\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o. Aliena\u00e7\u00e3o estruturante, e n\u00e3o aliena\u00e7\u00e3o da qual uma ideologia libert\u00e1ria poderia salvar o sujeito como propunha Mannoni. N\u00e3o h\u00e1 como livrar o sujeito da sua rela\u00e7\u00e3o incur\u00e1vel com o gozo e com seu sintoma, como diz o texto do GT: \u201ctrata-se de saber fazer contingencialmente e a cada vez, com o incur\u00e1vel, e a transmitir, mesmo em sil\u00eancio, a marca do desejo do analista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fundamental da opera\u00e7\u00e3o que faz de um organismo um corpo, nessa perspectiva, foi lindamente trabalhado na preparat\u00f3ria<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> que fez conversar os textos de Maria Josefina Fuentes e Marcus Andr\u00e9 Vieira e que proponho retomar aqui. Eles nos ajudaram a entender qual \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de linguagem que est\u00e1 em jogo nesse \u201cfazer falar a crian\u00e7a\u201d. Foi uma preparat\u00f3ria que abriu caminho para entender como o giro que Lacan promove no \u00faltimo ensino com a ideia de <em>lal\u00edngua<\/em>, permite ressituar o campo da fala e da linguagem e as consequ\u00eancias disso para a cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Josefina<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> puxa o fio do ensino desde Fun\u00e7\u00e3o e campo em 53 quando Lacan resgata a inven\u00e7\u00e3o freudiana para consolidar as bases simb\u00f3licas da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.\u00a0 Nesse momento do ensino, o significante tem o status do que ela chama de tesouro criacionista, que cria e organiza o mundo. \u201cO inconsciente como discurso do Outro, fala \u00e0 crian\u00e7a antes mesmo de sua chegada, conferindo-lhe um lugar no desejo do Outro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a virada do \u00faltimo ensino, esse Outro muda de lugar. O texto do GT chama aten\u00e7\u00e3o para isso ao destacar o realismo de Lacan nesse momento em que ele revira suas pr\u00f3prias teses para sublinhar a \u201cfic\u00e7\u00e3o e o canto da fala\u201d evocando ent\u00e3o a \u201cpot\u00eancia musical\u201d da palavra no campo da\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>, fora do sentido. A mat\u00e9ria da\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0marca ao acaso o corpo da crian\u00e7a e se fixa como uma letra a partir do qual a crian\u00e7a fabrica seu corpo, constr\u00f3i suas fic\u00e7\u00f5es e fabrica seu mundo, mas tamb\u00e9m seus sintomas e suas mis\u00e9rias, que se desenham a partir do que se fixou nessa opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse giro que vai do sujeito ao <em>falasser <\/em>implica um outro modo de operar na experi\u00eancia de uma an\u00e1lise. Trata-se da aposta de fazer ressoar outra coisa que o sentido. Lacan, no semin\u00e1rio 24, diz que \u00e9 com a ajuda do que se chama escrita po\u00e9tica que se pode ter a dimens\u00e3o do que seria a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.\u00a0 Nesse momento Lacan coloca em evid\u00eancia n\u00e3o mais a determina\u00e7\u00e3o do Outro, mas um ponto de real relativo \u00e0 origem subjetiva da crian\u00e7a. Ela \u00e9 fruto de um desejo obscuro que n\u00e3o aponta para nenhuma verdade oculta a ser revelada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse ponto de real, Marcus<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> sugere que seja pensado com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita, recurso que teria o efeito de ant\u00eddoto ao sentimento de \u201ccomunh\u00e3o universal\u201d, ou \u00e0 fantasia de um Outro primitivo, id\u00edlico. Ele sustenta que estamos \u00e0s voltas com a escrita desde o in\u00edcio e insiste no efeito de deslocamento na fun\u00e7\u00e3o do Outro em raz\u00e3o do protagonismo de <em>lal\u00edngua<\/em>. Isso conversa com outro trecho importante do texto do GT:\u00a0 \u201cA pergunta pela inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 arqueol\u00f3gica: O que uma an\u00e1lise ensina n\u00e3o \u00e9 tanto o que uma crian\u00e7a teria sido, mas o que persiste como resto do infantil no gozo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcus tira consequ\u00eancias da radicalidade desse deslocamento. Parte da perspectiva do fim da an\u00e1lise quando se deixa para tr\u00e1s o Outro que teria sido o agente do trauma, aquele que o analista at\u00e9 ent\u00e3o encarnara. Sustenta que isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque implica em apropriar-se de um acontecimento que marcou o corpo \u201cantes\u201d desse Outro. A ideia forte a\u00ed \u00e9 de um trauma como evento sem agente, ou pelo menos efeito de um Outro menos encarnado, menos imaginarizado. Ele diz: \u201ctrata-se de um Outro como nuvem, lugar de uma precipita\u00e7\u00e3o, uma chuvarada que deixar\u00e1 ravinamentos e n\u00e3o impress\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta que vale um bom debate \u00e9 pensar de que maneira isso que fica t\u00e3o evidente nos testemunhos de passe, pode ser \u00fatil n\u00e3o s\u00f3 no final, mas no in\u00edcio e durante uma an\u00e1lise.\u00a0\u00a0 A ideia de um Outro menos encarnado, que n\u00e3o remete \u00e0 alteridade que est\u00e1 em jogo na fantasia pode ser muito \u00fatil nesses nossos tempos em que o Outro se apresenta t\u00e3o perturbado, t\u00e3o deslocado. Esse Outro, Marcus associa \u00e0 fala de Miller sobre uma \u201cescrita selvagem\u201d. Fala essa que aponta para aquilo que o GT prop\u00f5e: que na rela\u00e7\u00e3o com o objeto, \u201cse leia aquilo que se inscreveu para al\u00e9m dos enunciados\u201d. Trata-se ent\u00e3o de menos escuta e mais leitura no texto que uma an\u00e1lise produz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> faz um esclarecimento importante sobre essa quest\u00e3o da escrita:\u00a0\u00a0 ele diz que no semin\u00e1rio 19 Lacan est\u00e1 empenhado em saber como se inscreve o UM n\u00e3o s\u00f3 pela imagem e por seu car\u00e1ter de aparente individua\u00e7\u00e3o, mas a partir do gozo como tal. Diz que nesse semin\u00e1rio Lacan critica tudo o que opera com a suposi\u00e7\u00e3o de que algo \u00e9 colocado na superf\u00edcie como se fosse um papel que recebe a impress\u00e3o.\u00a0 Lacan insiste no puro Um da diferen\u00e7a como o que n\u00e3o existe. Laurent diz que o que ele sempre elogiou em Freud \u00e9 o fato de ter sublinhado que quanto ao falo, o que importa \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 em seu lugar, ele n\u00e3o existe e \u00e9 pura aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, diz Laurent, Lacan complica a coisa e questiona se a subst\u00e2ncia, se a mat\u00e9ria permanece sempre a mesma, se o Um seria pura diferen\u00e7a e por fim se interroga como se articula o Um com a mat\u00e9ria. Ele prop\u00f5e que a articula\u00e7\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s da subst\u00e2ncia gozosa, que \u00e9 ef\u00eamera. A subst\u00e2ncia gozosa n\u00e3o \u00e9 eterna, pois uma vez que est\u00e1 articulada \u00e0s bordas do gozo, ela se apresenta como ef\u00eamera.\u00a0No texto do GT isso est\u00e1 nomeado como \u201capari\u00e7\u00e3o de lal\u00edngua em peda\u00e7os por meio das palavras que ressoam no corpo\u201d. Importante destacar: mais ressoam do que imprimem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent insiste:\u00a0 a met\u00e1fora da escrita remete ao plano da impress\u00e3o, que se d\u00e1 em duas dimens\u00f5es e isso vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 tentativa de Lacan de pensar o espa\u00e7o onde nos deslocamos partindo da concep\u00e7\u00e3o de que ele tem pelo menos tr\u00eas dimens\u00f5es: R, S, I. Esse \u00e9 o espa\u00e7o que conv\u00e9m \u00e0 topologia de <em>lal\u00edngua. <\/em>A met\u00e1fora da impress\u00e3o, coloca em um plano de duas dimens\u00f5es o que est\u00e1 no plano de tr\u00eas.\u00a0Laurent usa o exemplo do autismo para pensar a constru\u00e7\u00e3o do objeto como um modo de enodamento em tr\u00eas dimens\u00f5es com as consist\u00eancias que a crian\u00e7a maneja. A\u00ed n\u00e3o se trata do falo simb\u00f3lico, nem da imagem no registro imagin\u00e1rio. Trata-se do que h\u00e1 de Um que pode escrever-se, separar-se dele.\u00a0Esse objeto que aparece sob a forma de um indiv\u00edduo (porque tem uma forma unit\u00e1ria) \u00e9 preciso pens\u00e1-lo como um tipo de escrita que a crian\u00e7a autista realiza em tr\u00eas dimens\u00f5es. Ele prop\u00f5e observar como elas usam seus desenhos, pensar nas montagens da crian\u00e7a autista como se fossem um modo de escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o que prop\u00f5e Marcus quando diz que se trata mais de buscar os enlaces que sustentam, estabilizam alguma conex\u00e3o com o real?\u00a0 O que interessa na fala tomada com escrita \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de realidade. \u00c9 o fazer com. A quest\u00e3o \u00e9 como fazer da rede de significantes, que \u00e9 universal, \u201cuma elucubra\u00e7\u00e3o de saber local a partir de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>; do gozo do Um ao\u00a0<em>haum<\/em>, um do gozo, multiplicidade de possibilidades na conting\u00eancia dos encontros\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluo com outra frase importante do texto do GT: \u201cO real converte o corpo em uma caixa de resson\u00e2ncia, uma vibra\u00e7\u00e3o em sintonia com lal\u00edngua\u201d. N\u00e3o \u00e9 justamente o que vemos acontecer tamb\u00e9m no testemunho de Alejandro Reinoso<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>\u00a0 com seu \u201cil riso alla cantonese\u201d que \u00e9 cortado pelo equ\u00edvoco homof\u00f4nico, il riso al Lacan-tonese, o riso ao modo de Lacan? Esse equ\u00edvoco tem efeito de corte que incide no uso singular de lal\u00edngua, faz acontecimento e provoca nele um riso que faz vibrar todo o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anna Aromi conversa com a pergunta de Lacan destacada pelo GT: que alegria encontramos naquilo de que \u00e9 feito o nosso trabalho? Tamb\u00e9m nos remetendo ao passe. Fala da alegria como a cicatriz, limpa do Outro, quando algu\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o deposita mais no Outro o que ele pr\u00f3prio n\u00e3o queria ou podia assumir. O passe como o momento em que se torna poss\u00edvel \u201cExplicar para outros, as raz\u00f5es de nossa alegria, quanto a temos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pergunta que gostaria de propor para o debate: Como fazer para que isso nos sirva tamb\u00e9m de ferramenta para o ch\u00e3o da cl\u00ednica?\u00a0 Como fazer passar o imposs\u00edvel do gozo n\u00e3o s\u00f3 no fim? Como transmitir ao longo de uma an\u00e1lise as raz\u00f5es de nossa alegria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Mannoni, Maud. L&#8217;enfant arri\u00e9r\u00e9 et sa m\u00e8re. Seuil, Paris, 1964.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Amin, Rachel L\u2019Atelier 6 Publicaci\u00f3n del Grupo de investigaci\u00f3n sobre psicosis y autismo (Secci\u00f3n Cl\u00ednica de Barcelona) y del Taller de estudios sobre pr\u00e1ctica entre varios (Associaci\u00f3 TEAdir).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan J. O semin\u00e1rio livro 11 p 231<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Lacan, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. In Outros Escritos p. 366<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Aromi, Anna. Vamos l\u00e1! Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n 88 p. 78<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. In Outros Escritos p. 360<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. In Outros Escritos p. 361<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Arom\u00ed, Anna. Vamos l\u00e1! In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n 89. P. 80.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> 3\u00aa Preparat\u00f3ria do XII Enapol. Fic\u00e7\u00e3o e canto da fala e da linguagem. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ou2S7ZmeZJM<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Fuentes, Maria Josefina Sota. \u201cNo ber\u00e7o do acorde\u201d In: https:\/\/enapol.com\/xii\/no-berco-do-acorde1\/<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Vieira, Marcus Andr\u00e9. \u201cNossa alfabestiza\u00e7\u00e3o\u201d In: https:\/\/enapol.com\/xii\/nossa-alfabestizacao1\/<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Laurent, E. Por que o Um? In Leituras do semin\u00e1rio &#8230;ou pior. Org Gorsky, G. e Sota Fuentes, M. J. Salvador, EBP\u00a0 p.41<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Vieira, Marcus Andr\u00e9. \u201cNossa alfabestiza\u00e7\u00e3o\u201d In: https:\/\/enapol.com\/xii\/nossa-alfabestizacao1\/<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Reinoso, Alejandro. Um despertar po\u00e9tico para o riso. https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/01_papers_trad.pdf<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9a Reis Santos (EBP\/AMP) areissantos@gmail.com O texto do GT toma como ponto de partida uma pergunta de Lacan em \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d. Pergunta que eles se prop\u00f5em a dissecar e a articular com a quest\u00e3o do gozo: \u201cQue alegria encontramos naquilo que constitui nosso trabalho?\u201d Uma pergunta curiosa no contexto em que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8014"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8014"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8014\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8090,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8014\/revisions\/8090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8014"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=8014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}