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Conceber uma criança[1]

Christiane Alberti[2]

 

Conceber

 O título que vocês deram a esta Jornada[3] chama a atenção de imediato por seu caráter moderno, afinado com a vanguarda da atualidade. De fato, a escolha do termo “conceber” já implica algumas consequências que merecem ser assinaladas.

A própria palavra conceber nos interpela, sobretudo quando consideramos sua origem latina – concipere, que significa ‘conter completamente’ –, de onde veio, “formar em si mesmo uma criança”. Assim, a palavra foi primeiramente introduzida para expressar a ideia de “formar uma criança em si” e, simultaneamente, adquiriu um sentido intelectual: “representá-la para si no pensamento”.

Desde sua origem, o termo conceber implica tanto conter em si mesmo uma criança quanto representá-la para si – conter, no sentido físico de carregá-la durante a gravidez, e de representá-la para si, imaginá-la.

Esses dois componentes são muito atuais: tanto a importância contemporânea de “carregar no ventre” quanto as ficções que variam ao infinito sobre a concepção da criança.

Por isso, destaco sua modernidade. Esse termo evoca todas as ficções contemporâneas sobre o parto e sobre gerar uma criança, no sentido de abarcar todos os cenários possíveis que floresceram ao redor do nascimento – e que mostram que a imaginação humana é sem limites. Assistimos, assim, aos cenários mais loucos – no sentido de mais livres –, mas sabemos que se trata de uma liberdade mortal (o louco é o homem livre). Ao mesmo tempo – e este é o ponto essencial, a meu ver –, vemos surgir a exigência contemporânea do direito de conceber uma criança de acordo com uma equivalência: “posso, portanto, tenho direito e devo.”

Na época da igualdade entre os sexos e das separações, a família está claramente absorvida pelo direito. Este evolui segundo as ficções de cada um e se transforma em um lugar de experimentação. Serge Cottet falava do “romance familiar dos pais”, invocando o fantasma camuflado pelas ciências sociais sob o vocabulário da inovação.

Portanto, é uma banalidade dizer que a família muda: ela sempre se apresenta como moderna e renovada. Entretanto, “não estamos entre os que se afligem com um pretenso afrouxamento dos laços de família.”[4] Não há nenhuma nostalgia em Lacan, já que este concebe a família moderna em sua evolução. Tampouco há qualquer fascínio em Lacan pela multiplicidade dos costumes. Nossa época desnuda o “não há relação sexual” – e é precisamente por isso que nos impele a distinguir o realismo da estrutura como resto irredutível, e os semblantes e ficções que o revestem.

Em 1953, em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan recorda que são as leis da linguagem que regulam os intercâmbios no nível das estruturas elementares de parentesco. Ele destaca a importância das nomeações de parentesco como o único poder capaz de instituir a ordem das preferências e não deixa de sublinhar a importância da lacuna geracional ou os estragos de uma filiação falsificada.

Essas palavras dos anos 50 ganham relevo na contemporaneidade, que impele à horizontalidade e à igualdade das relações contratuais – uma época que tende a interpretar qualquer dissimetria nas relações, com uma criança, por exemplo, como um exercício de poder sobre ela, algo que seria necessário denunciar. Escotomiza-se, assim, o Outro da suposição de saber que os pais encarnam para o filho. Os pais são aqueles que transmitem o mundo para uma criança. Essa tendência ao apagamento da distinção entre pais e filhos evidencia, sem dúvida, a recente necessidade de inscrever na lei francesa a proibição do incesto, como se a lei simbólica que funda o humano já não bastasse.

As regras mudaram no que diz respeito à família: o eixo central do direito de família já não é o casamento, mas a filiação. Qualquer que seja o modo de arranjo dos pais, o estatuto da parentalidade se define pelo nascimento. Trata-se de uma ficção comum e pluralista da família que coloca toda a ênfase na concepção de uma criança.

A disseminação das reproduções medicamente assistidas – com terceiros como doadores de gametas, de embriões ou por meio de gestação de substituição – introduziu uma “desordem na filiação” e modificou a situação. Do comércio de ovócitos à produção de embriões excedentes, surgem novos tipos de objetos, de bio-objetos. A reprodução medicamente assistida, que até agora era de caráter terapêutico, transformou-se hoje em “uma nova forma de gerar filhos”, caminhando para se tornar uma modalidade ordinária de filiação e ser considerada como a mais comum, como old school.

Dois exemplos da metamorfose do discurso. A geração de crianças nascidas a partir da doação de gametas apresentou uma nova e apaixonada reivindicação em relação à suspensão do anonimato dos doadores, considerando o acesso às suas origens como um direito fundamental. Afirma-se em alto e bom som que não se trata nem de um rastreamento biológico nem de pôr em questão os pais que os educaram: “Não nos falta um DNA, nos falta um nome!”. É como se a família tivesse se tornado demasiadamente restrita, mal formada. Trata-se de inscrever o nome na biologia, como grau zero da nomeação? Não seria também uma tendência fazer do Nome-do-Pai “algo mais leve” (J. Lacan), implicando mais de um homem e mais de uma mulher na família? Um protagonista suplementar, para dar uma base mais ampla aos pais – uma versão contemporânea do romance familiar. “O direito de ter um passado”, como dizem, parece muito distante daquele de Gide: “nada é mais perigoso para ti que tua família, teu passado, teu quarto!”.

Por outro lado, sob a pressão de novos questionamentos feministas, afirma-se claramente uma tendência, especialmente nos Estados Unidos, que pretende analisar a procriação em termos econômicos como “um trabalho socialmente organizado de produção de filhos”, cujas formas de divisão em termos de gênero, raça e classe devem ser criticadas. No seio dessa corrente, Sophie Lewis milita para exigir “a produção de filhos para outros”, para qualquer um que deseje ter uma criança; em suma, uma gestação sub-rogada sistemática, com o fim de liberar-se definitivamente do patriarcado. Esta surrogacy imperativa estaria associada a um “comunismo gestacional” que pretende instaurar uma justiça reprodutiva. Em resumo, a proposta seria separar e distribuir as crianças fora da família para “desedipianizá-las”, “desfamiliarizá-las”. Quando “prescindir do pai” funciona como um ideal para aqueles que não se deixam enganar pelo inconsciente, vemos que isso conduz às utopias mais loucas e ao pior.

Essa tendência ideológica se nutre da antropologia dos anos 1970, que atacava o familiarismo da psicanálise. Inspira-se no anti-Édipo deleuziano, que concebia o desejo em termos de produção desejante e social. Contudo, trata-se de uma má interpretação do anti-Édipo, tal como evidenciado em O seminário, livro 23, O sinthoma, onde Lacan – como demonstra J.-A. Miller – dedica-se a pensar a psicanálise a partir do ponto de vista da ironia joyceana diante dos semblantes comuns do Édipo como solução única para o desejo.

O fato de não haver motivos para se crer até o fim nas ficções jurídicas do casamento, da paternidade e, hoje em dia, da maternidade, não nos exime de ter que lidar, por muito tempo ainda, com a coexistência do declínio da ordem patriarcal e da dimensão do que a família representa para um sujeito.

Na época do individualismo democrático, as referências estruturais que Lacan indica desde “Os complexos familiares” conservam sua vigência no que diz respeito ao desejo da mãe e à função do pai – dois princípios que não podem se sobrepor à diferença entre os sexos: o princípio paterno, entendido como uma encarnação da lei no desejo materno (função de transmissão da castração, que falha na relação com o outro sexo), e o princípio materno, cujo gozo a criança prolonga no fantasma. Há um verdadeiro problema com esses pontos de referência, já que o desejo de ter um filho, hoje, pode claramente se desvincular da relação com o parceiro sexuado e transformar-se em objeto de uma demanda ilimitada – o fantasma sem a mediação do desejo.

O direito e o empuxo a gozar

 Em função do avanço das ciências da vida, conceber uma criança – e todo o processo reprodutivo – pode hoje, claramente, constituir-se como algo duplamente desvinculado: 1) da sexualidade, já que é possível conceber uma criança fora da relação sexual; e 2) da família tradicional, já que é possível conceber uma criança de uma maneira não articulada à família convencional.

De fato, o que se reproduz são as células e, na reprodução, óvulos e espermatozoides. Agora é possível separar as células dos organismos que as carregam. Os limites impostos pela natureza ou pela moral foram despedaçados e o desejo de ter um filho pode se liberar, pode até se transformar em um “dever”. O sujeito aparentemente é o senhor de suas escolhas, mas seria possível dizer que, na realidade, trata-se de uma exigência que não está muito distante do empuxo a gozar. Se já não existem obstáculos naturais, conceber uma criança se torna um desejo ou, ao menos, um direito.

A mãe está pluralizada: doadora, portadora, biológica, homem ou mulher. Que os homens de hoje queiram dar à luz é uma das mudanças mais importantes de nosso tempo. Exemplos disso são homens transgêneros que, após sua transição, escolhem ser pais biológicos, o que reflete uma redefinição dos papéis materno e paterno na sociedade contemporânea.

O desejo de um filho, transformado pela lei, emancipa-se da relação com o outro sexo e se transforma em objeto de uma exigência, de um “eu quero”. Às vezes, um “eu quero” sem razão, assim como a razão é sem porquê.

A ciência não apenas proporciona a cura para a infertilidade, como também possibilita a fertilização de uma mulher lésbica e o parto de um casal homossexual.

Essa é a ocasião de uma disjunção radical entre o homem e a mulher na procriação. Essas modificações têm um impacto significativo por despedaçarem a ilusão da família paternalista, assim como o universal do desejo de ter uma criança.

Conceber é mais importante que “ter um filho” ou ser mãe ou pai

 Tenho o direito de conceber um filho como eu quiser, de acordo com minhas fantasias.

A psicanálise não se deixa levar por isso, não se comove. Ela acompanha os sujeitos nas mutações da civilização que eles próprios conhecem. Essas mutações levantam um véu, fazendo aparecer dois pontos:

  1. O fato de que pai, mãe e filho são, antes de tudo, significantes. Pai, mãe e filho são apenas significantes e o significante tende sempre a irrealizar os corpos. Como ser de linguagem, a mãe não existe. E, apesar disso, as mães existem verdadeiramente.
  2. Tudo aquilo que envolve o desejo de ter um filho. Em primeiro lugar, as aporias do desejo de maternidade em mulheres e homens, destacando-se também o valor da criança desejada e o valor da criança objeto de gozo.

A via metafórica do amor põe em jogo a criança como substituto da falta e permite que a significação do falo seja evocada no imaginário do sujeito. Entretanto, algo escapa à falicização. A criança cobre apenas parcialmente a falta fálica. Muito cedo em seu ensino, Lacan se pergunta se a mediação fálica drena toda a dimensão pulsional em uma mulher e em particular toda a vertente materna. Algo escapa à lei do pai. Um gozo que não passa pela mediação fálica e que se reforça de forma ilimitada. Nesse gozo em que a mulher não é toda – ou seja, que a torna ausente de si mesma, outra para si mesma, ausente enquanto sujeito –, ela “encontrará o tampão do que será seu filho”. Portanto, a maternidade é concebida como uma suplência a esse gozo de ser não-toda. Nessa vertente, ela se encontra com um gozo que toca a devastação ou o arrebatamento. Um resto que significa que o corte nunca é total.

A clínica do “conceber uma criança” é, antes de tudo, uma clínica da separação. É a bússola da orientação lacaniana. Como Lacan aborda isso?

Ele propõe algo incrível, considera que a separação não acontece entre a mãe e o filho, mas entre a mãe e o peito. Lacan parte da fisiologia da mãe nutriz, in utero, que responde à estrutura da imbricação, na qual há elementos amboceptivos: é da criança e é da mãe. A criança grudada ao peito, assim como a placenta grudada ao útero – ou o peito grudado ao corpo da mãe e a criança grudada ao mamilo. Essa ruptura faz, daquilo que se desprende do corpo, objetos a: objetos perdidos como causa de desejo.

Durante muito tempo, acreditou-se que carregar uma criança no ventre fazia desse ser “carne de nossa carne”, “nosso filho”, oferecendo o modelo de uma união na qual formamos um só corpo com o outro. Essa mitologia mamária, a imagem do seio, de uma sweet home, domina poderosamente nossa subjetividade, como nostalgia de uma suposta harmonia que, às vezes, se aproxima do mais obscuro anseio de morte. Estar grávida, às vezes, beira uma plenitude na qual a palavra, a imagem e o corpo se unem. Por meio de uma complacência somática, de que fala Freud, a histeria submete seu corpo para dar ao significante seu peso de real.

A relação com o corpo e a sensibilidade corporal devem ser interrogadas: as diferentes modalidades de corporização da linguagem – desde a conversão histérica no órgão até a negação do órgão. Isso implica uma fratura entre o significante que nomeia um órgão e sua função, e a manifestação de fenômenos corporais: o defeito do primeiro provoca a desaparição do segundo. Os fenômenos do corpo, se não são integrados na significação da maternidade – que deveria integrá-los –, podem passar despercebidos. É o que se produz na negação da gravidez no contexto de uma psicose.

Porém, essa relação entre continente e conteúdo é uma ilusão. É uma ficção do tipo “eu te contenho/tu me conténs”. Porque, como diz Lacan, pensar no outro como o prolongamento de si mesmo é o pior dos extravios, não apenas um extravio, senão o pior. De fato, a criança está radicalmente separada, não da mãe ou do Outro, mas de uma parte de si mesma: aquela que a linguagem lhe arrebata e que dá lugar a um vazio que Lacan chama de imaginário – cenários, ilusões, sonhos, mas também angústia. O desmame esteve aí desde sempre e para todos como um corte fundamental que nos priva de uma plenitude do ser.

Para além da criatura idealizada que a mãe imaginava ou esperava, a criança pode vir a encarnar um sujeito do qual uma mulher deve se separar. A criança aparece, então, como o objeto de sua existência. A criança é separada como objeto a, ou seja, ela ex-siste. Assim, para a mãe, a criança é aquilo que mais é ela própria e, ao mesmo tempo, aquilo que está separado dela. Graças a esse corte, a criança pode se inscrever em seu desejo, ser captada por seu olhar e sua voz pode ser escutada como sujeito.

Nessa clínica da separação, o fato de que, na subjetividade da mãe, a criança seja tomada como objeto, longe de reduzi-la a uma coisa, ao contrário, a eleva ao estatuto de objeto que deve ser reencontrado, conhecido, desejado – objeto causa do desejo da mãe. É algo mais do que a extensão não individualizada dela mesma. O poder do significante é tal que, antes mesmo da gravidez, a criança é Outra coisa que não uma mera extensão do corpo da mãe. Como diz Lacan: “Gostaria de ter tratado esses outros como objetos cujo peso, sabor e substância pudessem ser apreciados”. Pode-se apreciar o peso, o gosto, a substância de um objeto. Essa é uma maneira de dizer que torna possível considerar a criança em sua singularidade como sua criança, e não como uma criança em geral.

Trata-se, então, mais de uma separação da mãe em relação a si mesma do que de uma separação em relação à criança.

No caso da negação de uma gravidez, aquilo que se apresenta como uma gestação – para além de todas as expectativas e sentimentos – experimenta-se como se nunca tivesse existido. Pode ser que tenha faltado uma marca: o significante da maternidade se transformou em um significante qualquer e não em um significante privilegiado de ser mulher ou ser mãe. Como resultado, o sujeito traduz suas sensações com significantes corriqueiros e descritivos. Um significante ordena o corpo, fora do desejo do sujeito. Um significante pode ter seus próprios efeitos de gozo e ter a função de execução de um programa, uma lógica, mas o gozo não está subordinado à lei do desejo.

Uma inclinação ao unilateral

 Assim, entendemos, ao mesmo tempo, por que a criança é chamada a aparecer na série de objetos do mercado. Geralmente, faz parte da série de coisas valorizadas, intercambiáveis e negociáveis.

Se mencionei a prevalência do direito, foi para marcar seu peso na subjetividade. De fato, seria possível pensar que o recurso ao direito constitui um limite para todas as ficções mais extravagantes, mas, ao contrário, a lei corre atrás das ficções, sempre com atraso. Estruturalmente, o direito se encontra na posição de dizer sim a tudo, ou seja, assume o valor de um imperativo de gozo, digamos, materno, no qual o princípio do limite desaparece no gozo. A lei cria contratos cada vez mais restritivos, encarnando um mestre do gozo, como o da alcova sadeana, um “mata o desejo”, abandonando o sujeito aos imperativos do gozo.

O unilateral. O Um-pai

 Lacan havia assinalado que outra função se sobreporia àquela do pai, uma função que apenas a mãe pode encarnar: a função de “nomear para…”, que passa a ser preferida àquela do Nome-do-pai. O valor de objeto desejado se acentua.

A função parental unitária (a redução da função “mãe” e “pai” a apenas um progenitor) se esclarece por aquilo que Lacan chama de registro do unilateral.

A criança, em posição de objeto a, causa o desejo de maternidade.

Uma feminização da relação com as crianças como objeto a? Em que sentido? A criança é desejada e, ao mesmo tempo, é causa do desejo. Segue sendo um objeto no fantasma, na origem do desejo.

Isso tem a estrutura daquilo que Lacan chama de unilateral, quando a lei surge de um S1 sem esbarrar com uma causa.

Lacan evoca esse registro do unilateral quando um sujeito não pode se apoiar na função do ideal ou na função da lei que tece os laços da palavra e do reconhecimento, que civiliza o gozo, limitando-o. O sujeito, então, não se apoia no significante do pai ou na lei simbólica, mas em um significante mestre que vem no lugar da palavra, um S1 imaginário que reveste a falha central da subjetivação. Estabelece-se, assim, um modo de relação unilateral.

Lacan, efetivamente, menciona isso no contexto da psicose em O Seminário, livro 3: As Psicoses, onde o filho ocupa uma posição feminina em relação ao pai, sem passar pela castração. Uma transmissão ocorre sem a participação da causa sexual, unilateralizando o complexo de Édipo a partir de uma figura parental matriz.

Estabelece-se um laço com ele mesmo, um suporte, diz Lacan, “que não se inscreve em nenhuma dialética triangular, mas cuja função de modelo, de alienação especular, dá ainda assim ao sujeito um ponto de enganchamento, e lhe permite apreender-se no plano imaginário”[5]. “Essa verdadeira despossessão primitiva do significante, será preciso que o sujeito dela se encarregue e assuma a sua compensação, longamente, na vida, por uma série de identificações puramente conformistas a personagens que lhe darão o sentimento do que é preciso fazer para ser um homem”[6].

O que significa ‘unilateral’?

 É quando o S1 assume em si mesmo a função sexualizada, sem necessidade de nenhum intermediário. Teremos uma neo-significação do amor que não passa pela assunção do significante ‘pai’ no nível simbólico, mas que deriva de um S1 em sua função de modelo, de protótipo. Como se, apoiado neste S1, o sujeito tivesse assumido a marca sem ser o resultado do encontro de dois seres sexuados, de dois seres de pleno direito. Um laço com a mãe que não inclui o pai em sua relação com uma mulher. É um mundo feminizado.

Temos um exemplo no caso de Aimée: ser uma mulher de letras é o S1 que percorre toda sua vida. Aimée assume o S1 de sua identificação: a mulher de letras. A delicada pergunta sobre a diferença entre os sexos parece depender mais do encontro casual entre um pequeno outro e o significante mestre do que de uma identificação sexuada bem ancorada naquilo que, dessa vez, seria um ideal do eu, ou seja, um saber sobre os ideais de seu sexo.

As pistas de Aimée estão borradas, quando surge outro significante mestre, como se viesse resgatá-la para lhe dar um lugar e uma consistência na vida: ser normal, casar-se, ter um filho. “Em algum momento da vida, diz ela, é conveniente casar-se e ter um filho”. Esclareço que se trata de outro significante mestre, um S1 sozinho, já que ser mulher parece ser um saber fechado, a menos que se lhe acrescente um S1 para lhe dar corpo.

Ser uma mulher de letras – ser uma mulher – ser. [(a) = livro = publicação].

Ser normal – ser esposa – ser mulher – ser. [(a) = filho = mãe].

Há algo indecidível entre esses dois S1. O lugar de um desloca o lugar do outro, de tal sorte que é algo mais do que um conflito ou um sintoma. A gravidez, o filho por vir, chega como uma realização da série: ser esposa, mulher, mãe. De certo modo, a criança aqui, como objeto a no lugar do fantasma materno que é sua relação com a norma, apresenta-se para dissociar os significantes holofraseados em torno do S1. Esse é o começo dos transtornos psiquiátricos, segundo Lacan.

Qual seria a lógica do neurótico? A lógica do não-todo, não-toda mãe, não-toda mulher de letras. No entanto, aqui, cada “ideal” reivindica seu gozo frente ao outro. Em outras palavras, não são ideais no sentido clássico do termo. Este é o poder do significante mestre na psicose, e é em relação às suas exigências – que fazem lei – que o sujeito se feminiza. Antes da passagem ao ato, a criança e ela estavam fundidas, e a criança – o objeto a – era o kakon de sua impossibilidade de ser mulher de letras e, portanto, de cumprir o que, então, era sua missão. Para proteger seu filho, ela golpeia no Outro o próprio significante de sua missão: a mulher de letras.

Isto é o que Lacan chama de “unilateral” em O Seminário, livro 3: As Psicoses: um vínculo de filiação se estabelece diretamente a partir de uma figura paterna, sem a implicação de uma causa sexual articulada a uma transmissão.

Há uma extensão do “pai Um-todo-só” com seu filho em um laço de continuidade no gozo, um modo de relação sem mediação nem corte. Na relação com a criança, há uma continuidade do gozo através do fantasma, que vincula a criança à mãe, objeto separado dela, em um vínculo que não admite nenhuma mediação. Daí vem um ilimitado que se manifesta no amor. Portanto, toda a questão está no princípio que romperá essa continuidade ilimitada do gozo.

O pai é um dos nomes dessa ruptura, que permitirá à criança se situar. A referência de Lacan ao que ele chama de dimensão do pai é essencial aqui. Ele invoca “ao menos como uma possibilidade, negligenciada ou ausente, a manutenção da dimensão do pai, do drama do pai, dessa função do pai”. O pai – ou “algo ou alguém” que se faz de pai, não necessariamente encarnado pelo pai – é que faz barreira ao desejo da mãe, dividindo-a entre mãe e mulher.

Desocultar o princípio feminino

Lacan assinalava, desde “Os complexos familiares”, que o que assegura a coesão da família paternalista é o ocultamento do princípio feminino e a prevalência do princípio masculino.

Esse movimento acelerado em função dos avanços das ciências da vida rearticulou as relações entre os sexos. A criança, antes objeto de desejo (causa de desejo), tornou-se objeto de exigências e, até mesmo, de um querer sem razão, uma vontade infinita que, às vezes, se esgota no desejo de ter um filho.

É um ensinamento sobre o desejo de ter um filho quando este já não está estruturado pelo Édipo. O desejo freudiano de ter um filho é interpretado através da significação fálica. A criança é tomada como objeto da mãe. Há uma dimensão de gozo que é parte da função fálica, mas há um mais além como objeto a.

O desejo da mãe e o desejo feminino se entrelaçam. Quando a criança aparece, há uma separação entre o objeto a e o que se considera a castração. A criança, como falo, encarna o objeto de sua existência e satura o modo da falta.

Assim, vem à luz, de um modo mais cru, o estatuto da criança como objeto de gozo, que sempre foi.

Esses exemplos, certamente, não têm todos o mesmo impacto social, mas dão uma ideia da fragmentação provocada pela pulverização do pai. Eles revelam os significantes mestres que vêm no lugar do Nome-do-Pai, mas que não encontram seu ponto de basta.

Uma análise é feita precisamente para se centrar naquilo que vem no lugar do pai, naquilo que toma seu relevo. Ela busca um saber sobre aquilo que permite a cada um ordenar sua experiência – a do mundo – e que permite levar a vida de uma maneira menos extraviada, com uma bússola de gozo. Não se trata do Pai com P maiúsculo, nem da Lei com L maiúsculo, mas sim de um instrumento útil, um operador fundamental para encontrar-se com o desejo, com o real.

A referência de Lacan àquilo que ele chama de dimensão do pai continua sendo essencial aqui: ele invoca “ao menos como uma possibilidade, negligenciada ou ausente, a manutenção da dimensão do pai, do drama singular do pai, que ele extrai do universal”. A partir dessa função do pai, que é “algo ou alguém” que o transforma em pai, não necessariamente encarnado pelo pai e que se interpõe no caminho do gozo.

É aqui que a psicanálise produz a melhor crítica aos patriarcados atuais, tanto os visíveis quanto aqueles que não pronunciam seu nome. De fato, uma análise não conduz a acreditar até o fim na ficção do pai, nem na onipotência dos significantes mestres, ainda se estiverem ‘purificados’, nem na onipotência da justiça! O simbólico não conseguirá reabsorver o gozo enquanto perverso, não estandardizado pelo pai. Por outro lado, cremos na objeção que o real constitui, o real do pai, sua natureza irredutível.

Existe apenas a versão particularizada da família – seu pai, sua mãe, seu filho –, compreendida numa relação mais leve com a família, uma passagem do Outro ao outro. Não é necessário cortar esse laço: ele é uma bússola na clínica e na prática, pois essa continuidade assegura o vínculo que nos faz autenticamente humanos.

A família no sentido de famil, tem, portanto, uma vocação universal. É uma extensão do domínio da mãe. Segundo J.-A. Miller, a mãe, por sua vez, também foi vaporizada.

Conferência proferida em Buenos Aires, por ocasião das 33ª Jornadas Anuais da EOL – Concebir um niño, em 1º de dezembro de 2024. Publicada com a amável autorização da autora.

Tradução para o espanhol: Silvina Molina

Revisão: Silvia Elena Tendlarz

Tradução para o português: Diego Cervelin

Revisão: Ruskaya Maia, Paola Salinas e Renata Martinez


[1] Conferência proferida em Buenos Aires, por ocasião das 33ª Jornadas Anuais da EOL – Concebir un niño, em 1º de dezembro de 2024. Publicada com a amável autorização da autora.

[2]Psicanalista, AME, Membro da École de la Cause Freudienne (ECF) e Presidente da Associação Mundial de Psicanálsie (AMP).

[3] 33ª Jornadas Anuais da Escuela de la Orientación Lacaniana, Conceber uma criança, ocorrida nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro de 2024, em Buenos Aires.

[4] Lacan, J. Os complexos familiares na formação do indivíduo. (1938) In: ____. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 p.66.

[5] Lacan, J. O seminário, livro 3: As psicoses. (1955-1956). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988. p. 233. Lição de 18/04/1956.

[6] Ibidem

Concebir un niño[1]

Christiane Alberti[2]

 

Concebir

El título que ustedes le han dado a estas Jornadas[3] llama la atención de inmediato porque es moderno, a la vanguardia de la actualidad.

En efecto, elegir el término “concebir” conlleva ya algunas consecuencias que merecen ser señaladas.

La palabra misma concebir interpela cuando se considera su origen latino, Concipere: “contener completamente”, de donde proviene: formar en sí mismo un niño. Así, la palabra fue introducida inicialmente para “formar un niño en sí mismo” y, simultáneamente, en un sentido intelectual, para “representárselo en el pensamiento”.

Desde su origen, el término concebir implica tanto contener en sí mismo un niño como representárselo: contener, en el sentido físico de llevarlo durante el embarazo, y representárselo, imaginarlo.

Estos dos componentes son muy actuales, tanto la importancia contemporánea de “llevar en el vientre”, como las ficciones que varían al infinito sobre la concepción del niño.

Por eso subrayo su modernidad. Este término evoca todas las ficciones contemporáneas sobre el parto, sobre engendrar un niño, en el sentido de todos los escenarios posibles que florecieron alrededor del nacimiento de un niño, que muestran que la imaginación humana es sin límites. Asistimos así a los escenarios más locos, en el sentido de más libres, pero sabemos que es una libertad mortal (el loco es el hombre libre). Y al mismo tiempo, y este es el punto esencial a mi modo de ver, la exigencia contemporánea del derecho a concebir un niño según una equivalencia: “puedo, por lo tanto, tengo derecho, y debo”.

En la época de la igualdad entre los sexos y de las separaciones, la familia está claramente absorbida por el derecho. Este evoluciona según las ficciones de cada uno y se convierte en un lugar de experimentación. Serge Cottet hablaba de la “novela familiar de los padres”, invocando el fantasma camuflado por las ciencias sociales bajo el vocabulario de la innovación.

Por lo tanto, es una banalidad decir que la familia cambia: siempre se presenta como moderna y renovada. Sin embargo, “no somos de los que se preocupan por un pretendido desgaste del lazo familiar” (J. Lacan). No hay ninguna nostalgia en Lacan, quien concibe la familia moderna en su evolución. Tampoco hay fascinación alguna en Lacan por la multiplicidad de las costumbres. Nuestra época desnuda el “no hay relación sexual”, y es precisamente por esto que nos empuja a distinguir el realismo de la estructura como residuo irreductible, y los semblantes y ficciones que lo visten.

En 1953, en “Función y campo de la palabra y del lenguaje en psicoanálisis”, Lacan recuerda que son las leyes del lenguaje las que regulan los intercambios a nivel de las estructuras elementales del parentesco. Destaca la importancia de las nominaciones del parentesco como el único poder capaz de instituir el orden de las preferencias, y subraya la importancia de la brecha generacional o los estragos de una filiación falsificada.

Estas palabras de los años 50 adquieren relevancia en un tiempo contemporáneo que promueve la horizontalidad y la igualdad de relaciones contractuales, una época que tiende a interpretar cualquier disimetría en las relaciones, como la podría haber con un niño, en términos de poder sobre él, que se vería como algo necesario de denunciar. Así, se escotomatiza al Otro, de la suposición de saber que los padres encarnan para el niño. Los padres son los pasadores del mundo para un niño. Esta tendencia al borramiento de la distinción entre padres e hijos pone de manifiesto, sin duda, la reciente necesidad de inscribir en la ley francesa la prohibición del incesto, como si la ley simbólica del fundamento de lo humano no fuera suficiente.

Las reglas en materia de familia han cambiado: el eje común del derecho de familia ya no es el matrimonio, sino la filiación. Cualquiera que sea el modo de conjugo de los padres, el estatuto de parentalidad se define por el nacimiento. Es una ficción común y pluralista de la familia. Así, se hace hincapié en la concepción de un niño.

La extensión de las Procreaciones Médicamente Asistidas, con donantes tercero de gametos, de embriones o de gestación subrogada, introdujo un “desorden en la filiación”, y ha cambiado la situación. Desde el comercio de ovocitos hasta la producción de embriones supernumerarios, surgen nuevos tipos de objetos, de bio-objetos. La procreación médicamente asistida, que hasta ahora era terapéutica, hoy se ha convertido en “una nueva forma de engendrar hijos”, en camino de convertirse en una filiación ordinaria y de considerarse como la más común, como “old school“.

Dos ejemplos de la metamorfosis del discurso. La generación de niños nacidos de donaciones de gametos ha presentado una nueva y apasionada reivindicación en relación con el levantamiento del anonimato de los donantes, considerando el acceso a sus orígenes como un derecho fundamental. Lo afirman alto y claro: no se trata de un rastreo biológico ni de poner en tela de juicio a los padres que los han educado: “¡No nos falta ADN, nos falta un nombre!”. Es como si la familia se hubiese vuelto demasiado estrecha, mal formada. ¿Se trata de inscribir el nombre en la biología, como grado cero de la nominación? ¿No sería también una tendencia hacer del Nombre del Padre “algo ligero” (Lacan), implicando más de un hombre y más de una mujer en la familia? Un protagonista suplementario que dé una base más amplia a los padres, una versión contemporánea de la novela familiar.

“El derecho a tener un pasado”, como dicen, parece muy alejado del de Gide: “¡Nada es más peligroso para ti que tu familia, tu pasado, tu habitación!”

Por otro lado, bajo la presión de nuevas cuestiones feministas, se afirma claramente una tendencia, especialmente en Estados Unidos, que pretende analizar la procreación en términos económicos como “un trabajo socialmente organizado de producción de hijos”, cuyas formas de división en términos de género, raza y clase deben ser criticadas. Dentro de esta corriente, Sophie Lewis milita por exigir “la producción de hijos para otros”, para cualquiera que desee tener un niño: en resumen, una gestación subrogada sistemática, con el fin de liberarse definitivamente del patriarcado. Esta surrogacy imperativa estaría asociada a un “comunismo gestacional” que pretende instaurar una justicia reproductiva. En resumen, la propuesta sería separar y distribuir a los niños fuera de la familia para desedipizarlos, desfamiliarizarlos. Vemos que, cuando “prescindir del padre” funciona como un ideal de los que no se dejan engañar por el inconsciente, esto conduce a las utopías más locas y a lo peor.

Esta tendencia ideológica se nutre de la antropología de los años 70, que atacaba el familiarismo del psicoanálisis. Se inspira en el anti-Edipo deleuziano, que concebía el deseo en términos de producción deseante y social. Sin embargo, esto constituye una mala interpretación del anti-Edipo, Lacan tal como se desarrolla en su Seminario El sinthome, donde Lacan, como lo demuestra J.-A. Miller, se dedica a pensar el psicoanálisis desde el punto de vista de la ironía joyceana hacia los semblantes comunes del Edipo como solución única al deseo.

Que no haya motivos para creer hasta el final en las ficciones jurídicas del matrimonio, la paternidad y, hoy en día, la maternidad, no nos exime de tener que lidiar durante mucho tiempo con la coexistencia del declive del orden patriarcal y la dimensión de aquello que es la familia para un sujeto.

En la época del individualismo democrático, las referencias estructurales que Lacan indica desde “Los complejos familiares…”, conservan su vigencia en cuanto al deseo de la madre y la función del padre, dos principios que no pueden superponerse a la diferencia de los sexos. El principio paterno se entiende como la encarnación de la ley en el deseo materno (función de transmisión de la castración, que falla en la relación con el otro sexo), y el principio materno, cuyo goce el niño prolonga en el fantasma.

Hay un verdadero problema con estos puntos de referencia, ya que el deseo de tener un hijo hoy puede claramente liberarse de la relación con la pareja sexuada y convertirse en objeto de una demanda ilimitada, el fantasma sin la mediación del deseo.

 

El derecho y el empuje a gozar

Gracias al avance de las ciencias de la vida, hoy en día, concebir un niño, toda la reproducción, puede quedar doblemente librada de:

  1. La sexualidad: se puede concebir un niño fuera de la relación sexual.
  2. La familia tradicional: se puede concebir de una manera no articulada a la familia tradicional.

En efecto, lo que se reproduce son las células, y en la reproducción, los ovocitos y espermatozoides. Ahora es posible separar las células de los organismos que las portan. Los límites impuestos por la naturaleza o la moral se han hecho añicos, y el deseo de tener un hijo puede liberarse, transformándose en un “deber”. El sujeto, aparentemente, es el amo de sus elecciones, pero se podría decir que, en realidad, se trata de una exigencia que no está muy lejos del empuje a gozar. Si ya no existen obstáculos naturales, concebir un niño se convierte en un deseo o, al menos, en un derecho.

La madre está pluralizada: donante, portadora, biológica, hombre o mujer. Que los hombres de hoy quieran dar a luz es uno de los cambios más importantes de nuestro tiempo. Ejemplos de esto incluyen a los hombres transgénero que, tras su transición, eligen ser padres biológicos, lo que refleja una redefinición del rol materno y paternal en la sociedad contemporánea.

El deseo de un hijo, transformado por la ley, se emancipa de la relación con el otro sexo y se convierte en objeto de una exigencia, de un “yo quiero”. A veces, un “yo quiero” sin razón, como la razón que carece de un porqué.

La ciencia no solo proporciona la cura para la infertilidad, sino que también posibilita la fertilización de una mujer lesbiana y el parto en una pareja homosexual.

Esta situación plantea una disyunción radical entre el hombre y la mujer en la procreación. Estas modificaciones tienen un impacto significativo, ya que hacen volar en pedazos la ilusión de la familia paternalista y también lo universal del deseo de un niño.

 

Concebir es más importante que “tener un hijo” o ser madre o padre

Tengo derecho a concebir un hijo como quiera, según mis fantasías.

El psicoanálisis no se deja arrastrar por esto, no se conmueve. Acompaña a los sujetos en las mutaciones de la civilización que conocen.

Estas mutaciones hacen surgir, levantan el velo sobre:

1) el hecho de que padre, madre e hijo son, antes que nada, significantes. Padre, madre e hijo son solo significantes, y el significante tiende siempre a irrealizar los cuerpos. Como seres de lenguaje, la madre no existe. Y, sin embargo, las madres existen verdaderamente.

2)  Pero también, y sobre todo, lo que estas mutaciones sacan a la luz, levantando el velo sobre lo que rodea al deseo de un hijo. En primer lugar, las aporías del deseo de maternidad en mujeres como en hombres. También subraya también el valor del niño deseado y el valor del niño objeto de goce.

La vía metafórica del amor pone en juego al niño como sustituto de la falta y permite que la significación del falo sea evocada en el imaginario del sujeto. Sin embargo, algo escapa a la falicización. El niño solo cubre parcialmente la falta fálica. Muy temprano en su enseñanza, Lacan se pregunta si la mediación fálica drena todo lo pulsional en una mujer, y en particular toda la corriente materna. Algo escapa a la ley del padre: un goce que no pasa por la mediación fálica y que, en cambio, lo refuerza de forma ilimitada. En este goce, en el que ella no es toda, es decir, que la hace ausente de sí misma, otra para sí misma, ausente en tanto que sujeto, ella “encontrará el tapón de lo que será su hijo”. Así, la maternidad se concibe como una suplencia a este goce de ser no-toda. En esta vertiente, se encuentra con un goce que confina con el estrago o el arrebato. Un resto que significa que el corte nunca es total.

La clínica de “concebir un niño” es, ante todo, una clínica de la separación. Es la brújula de orientación lacaniana. ¿Cómo lo aborda Lacan?

Lacan propone algo increíble: plantea que la separación no ocurre entre la madre y el niño, sino entre la madre y el pecho. Parte de la fisiología de la madre nutricia, in utero, que responde a la estructura de la imbricación, donde hay elementos amboceptivos: es del niño y es de la madre. El niño está pegado el pecho, de manera similar a cómo la placenta está pegada al útero, o el pecho al cuerpo de la madre, y el niño al pezón. Esta ruptura, hace que lo que se desprende del cuerpo se convierte en objetos a, objetos perdidos que causan el deseo.

Durante mucho tiempo se creyó que llevar un niño en el vientre hacía de este ser “la carne de nuestra carne”, “nuestro hijo”, ofreciendo el modelo de una unión en la que formamos un solo cuerpo con el otro. Esta mitología mamaria, la imagen del seno, de un sweet home, domina poderosamente nuestra subjetividad, evocando la nostalgia de una supuesta armonía, cercana a veces al más oscuro anhelo de muerte. Estar embarazada a veces roza con una plenitud donde la palabra, la imagen y el cuerpo se unen. Mediante una complacencia somática, de la que habla Freud, la histeria somete su cuerpo para dar al significante su peso de real.

La relación con el cuerpo y la sensibilidad corporal deben ser interrogadas: las diferentes modalidades de corporización del lenguaje, desde la conversión histérica en el órgano hasta la negación del órgano. Esto implica una fractura entre el significante que nombra un órgano y su función, y la manifestación de los fenómenos corporales: el defecto del primero provoca la desaparición del segundo. Los fenómenos del cuerpo, si no son integrados en la significación de la maternidad, que debería integrarlos, pueden pasar inadvertidos. Esto es lo que se produce en la negación del embarazo en el contexto de una psicosis.

Pero esta relación entre continente y contenido es una ilusión. Es una ficción de “yo te contengo/tú me contienes”. Como dice Lacan, pensar en el otro como la prolongación de uno mismo es el peor de los extravíos: no solo es un extravío, sino el peor. En efecto, el niño está radicalmente separado, no de la madre o del Otro, sino de una parte de sí mismo, esa parte que el lenguaje le arrebata, lo que deja lugar a un vacío que Lacan llama lo imaginario: escenarios, ilusiones, sueños, pero también angustia. El destete ha estado ahí desde siempre y para todos, como un corte fundamental que nos priva de una plenitud del ser.

Más allá de la criatura idealizada que ella imaginaba o esperaba, un sujeto del cual una mujer debe separarse, el niño puede llegar a encarnarlo. Aparece como el objeto de su existencia. El niño es separado como objeto a, ex-siste, y es a la vez lo que más es, ella misma, y lo que está separado de ella. Gracias a este corte, puede inscribirse en su deseo, ser captado por su mirada y su voz puede ser escuchada como sujeto.

En esta clínica de la separación, el hecho de que en la subjetividad de la madre el niño sea aprehendido como objeto, lejos de reducirlo a una cosa, por el contrario, lo eleva al estatuto de objeto que debe ser vuelto a encontrar, a conocer, a desear, objeto causa del deseo de la madre. Es algo más que una extensión no individualizada de ella misma. El poder del significante es tal que, ya desde antes del embarazo, el niño es ya Otra cosa que una mera extensión del cuerpo de la madre. Como dice Lacan: “Ojalá hubiera tratado a estos otros como objetos cuyo peso, sabor y sustancia pudieran apreciarse”. Se puede apreciar el peso, el gusto, la sustancia de un objeto. Esta es una manera de decir que se puede considerar al niño en su singularidad como su niño, y no como un niño en general.

Se trata, entonces, de una separación de la madre consigo misma más que de una separación con el niño.

En el caso de la negación de un embarazo: lo que se presenta como un embarazo, más allá de todas las expectativas y sentimientos, se experimenta como si nunca hubiera existido. Puede que haya faltado una marca: el significante de la maternidad se convirtió en un significante cualquiera y no en un significante privilegiado de ser mujer o ser madre. Como resultado, el sujeto traduce sus sensaciones con significantes corrientes y descriptivos. Un significante ordena el cuerpo, fuera del deseo del sujeto. Un significante puede tener sus propios efectos de goce y cumplir la función de ejecutar un programa, una lógica, pero el goce no está subordinado a la ley del deseo.

 

Una pendiente a lo unilateral

Así entendemos al mismo tiempo, por qué el niño es llamado a aparecer en la serie de objetos del mercado. Suele formar parte de la serie de cosas cotizadas, intercambiables y negociables.

Si he mencionado la preeminencia del derecho, es para señalar su peso en la subjetividad. De hecho, se podría pensar que la apelación al derecho constituye un límite para todas las ficciones más extravagantes, pero, por el contrario, la ley corre detrás de las ficciones, siempre con retraso. Estructuralmente, el derecho se encuentra en la posición de decir sí a todo, es decir, asume el valor de un imperativo de goce, digamos materno, donde el principio de límite desaparece en el goce. La ley crea contratos cada vez más restrictivos, encarnando un amo del goce, similar el del tocador sadeano, un “mata el deseo” que abandona al sujeto a los imperativos del goce.

 

Lo unilateral – El Un-padre

Lacan había señalado que otra función iba a relevar la del padre, una función que solo la madre puede encarnar: la función de “nombrar para…”, que se prefiere a la del Nombre del Padre. El valor de objeto deseado se acentúa.

La función parental unitaria (la reducción de la función madre y padre a un solo progenitor) se esclarece a través de lo que Lacan llama el registro de lo unilateral.

El niño, en posición de objeto a, causa el deseo de maternidad

¿Una feminización de la relación con los niños como objeto a? ¿En qué sentido? El niño es deseado y, al mismo tiempo, es causa del deseo. Sigue siendo un objeto en el fantasma, en el origen del deseo.

Esto tiene la estructura de lo que Lacan llama lo unilateral, cuando la ley surge de un S1, sin tropezar con una causa.

Lacan evoca este registro de lo unilateral cuando un sujeto no puede apoyarse en la función del ideal o en la función de la ley que teje los lazos de la palabra y del reconocimiento, que civiliza el goce limitándolo. El sujeto, entonces, no se apoya en el significante del padre o en la ley simbólica, sino en un significante amo que viene en el lugar de la palabra; un S1 imaginario que cubre el defecto central de la subjetivación. Se establece así un modo de relación unilateral.

Efectivamente, Lacan lo menciona en el Seminario 3, Las psicosis, en el contexto de la psicosis, donde el hijo ocupa una posición femenina en relación al padre sin pasar por la castración. Se produce una transmisión sin la participación de la causa sexual, unilateralizando el complejo de Edipo a partir de una figura parental matriz.

Se establece un lazo con él mismo, un soporte, como dijo Lacan: “que no se inscribe en ninguna dialéctica triangular, pero, cuya función como modelo, de alienación especular, le dapese a todo al sujeto un punto de enganche, y le permite aprehenderse en el plano imaginario”.[4] “[…] el sujeto tendrá que cargar, y aquello cuya compensación deberá asumir, largamente, en su vida, a través de una serie de identificaciones puramente conformistas a personajes que le darán la impresión de qué hay que ser para ser hombre”.[5]

 

¿Qué significa unilateral?

Es que el S1 asume en sí mismo la función sexualizada, sin necesidad de ningún intermediario. Esto nos lleva a una neo-significación del amor que no pasa por la asunción del significante padre a nivel simbólico, sino que deriva de un S1 en su función de modelo, de prototipo. Como si, apoyado en este S1, el sujeto hubiera tomado la marca sin ser el resultado del encuentro de dos seres sexuados, de dos seres de pleno derecho. Un lazo con la madre que no incluye al padre en su relación con una mujer. Es un mundo feminizado.

Tomemos un ejemplo: en el caso de Aimée, ser una mujer de letras es el S1 que recorre toda su vida. Aimée adopta el S1 de su identificación: la mujer de letras. La delicada pregunta sobre la diferencia entre los sexos parece depender más del encuentro casual de un pequeño otro y el significante-amo que de una identificación sexuada, bien anclada en lo que esta vez sería un ideal del yo, es decir, un saber sobre los ideales de su sexo.

Las pistas de Aimée están borrosas mientras surge otro significante-amo como si viniera a su rescate para darle un lugar y una consistencia en la vida: ser normal, casarse, tener un hijo. “En algún momento de la vida, dice, es conveniente casarse y tener un hijo”. Aclaro que se trata de otro significante-amo, un S1 solo, ya que ser mujer parece ser un saber cerrado, a menos que se le añada un S1 para darle cuerpo.

 

Ser una mujer de letras – ser una mujer – ser. ((a) = libro = publicación]

Ser normal – ser esposa – ser mujer – ser. [(a) = hijo = madre].

 

Hay algo indecidible entre estos dos S1; el lugar de uno desplaza el lugar del otro, lo cual es algo más que un conflicto o un síntoma. El embarazo, el hijo por venir, llega como la realización de la serie: ser esposa, mujer, madre. De algún modo, el niño aquí, como objeto a en el lugar del fantasma materno que es su relación con la norma, se presenta para disociar los significantes holofraseados en torno al S1. Este es el comienzo de los trastornos psiquiátricos según Lacan.

¿Cuál sería la lógica del neurótico? La lógica del no-todo: no-toda madre, no-toda mujer de letras. Pero aquí, cada “ideal” reclama su goce frente al otro; en otras palabras, no son ideales en el sentido clásico del término. Este es el poder del significante-amo en la psicosis, y es en relación con sus exigencias, que hacen ley, que el sujeto se feminiza.

Antes del pasaje al acto, el niño y ella estaban fundidos, y éste, el objeto a, era el kakon de su imposibilidad de ser mujer de letras y, por tanto, de cumplir lo que entonces era su misión. Para proteger a su hijo, golpea en el Otro el significante mismo de su misión: la mujer de letras.

Esto es lo que Lacan llama “lo unilateral” en el Seminario 3: un vínculo de filiación se establece directamente a partir de una figura paterna, sin la implicación de una causa sexual articulada con una transmisión.

Hay una extensión del “padre Uno todo solo” con su hijo, en un lazo de continuidad en el goce, un modo de relación sin mediación ni corte. En la relación con el niño, hay una continuidad del goce a través del fantasma, que vincula al niño con la madre, objeto separado de ella, en un vínculo que no admite ninguna mediación. De ahí un ilimitado que se manifiesta en el amor.

Por lo tanto, toda la cuestión radica en el principio que romperá esta continuidad ilimitada del goce. El padre es uno de los nombres de esta ruptura, que permitirá al niño situarse. La referencia de Lacan a lo que él llama la dimensión del padre es esencial aquí. Invoca “al menos como una posibilidad, ya sea descuidada o ausente, el mantenimiento de la dimensión del padre, del drama del padre, de esta función del padre”. El padre o “algo o alguien” que hace de padre, no necesariamente encarnado por el padre, y que hace de barrera al deseo de la madre, que la divide entre madre y mujer.

 

Desocultamiento del principio femenino

Lacan señalaba, desde “Los complejos familiares”, que lo que asegura la cohesión de la familia paternalista es el ocultamiento del principio femenino y la prevalencia del principio masculino.

Este movimiento, acelerado por los avances de las ciencias de la vida, rearticuló las relaciones entre los sexos. El niño, antes objeto de deseo (causa de deseo), se ha convertido en objeto de exigencias e incluso de un querer sin razón, una voluntad infinita que a veces se agota en su deseo de tener un hijo.

Es una enseñanza sobre el deseo de tener un hijo cuando ya no está estructurado por el Edipo.

El deseo freudiano de tener un hijo se interpreta con la significación fálica. El niño es tomado como objeto de la madre. Hay una dimensión de goce que forma parte de la función fálica, pero hay un más allá, como objeto a.

El deseo de la madre y el deseo femenino se entrelazan. Cuando aparece el niño, se da una separación entre el objeto a y lo que se considera la castración. El niño, como falo, encarna el objeto de su existencia, satura el modo de la falta.

Así, aparece bajo la luz, de una manera más crudo, el estatuto del niño como objeto de goce, que siempre fue.

Estos ejemplos, por supuesto, no tienen el mismo impacto social, pero dan una idea de la fragmentación que provoca la pulverización del padre. Revelan los significantes amos que vienen al lugar del Nombre del Padre, pero que no encuentran su punto de capitón.

Un psicoanálisis está hecho precisamente para centrarse en lo que viene en lugar del padre, en lo que toma su relevo. Busca un saber sobre aquello que permite ordenar tu experiencia, la del mundo, y que te posibilita llevar tu vida de una manera menos extraviada, con una brújula de goce. No es el Padre con P mayúscula, no es la Ley con L mayúscula, pero sí de un instrumento útil, un operador fundamental, para encontrarse con el deseo, con lo real.

La referencia de Lacan a lo que él llama la dimensión del padre sigue siendo esencial aquí: invoca “al menos como una posibilidad, ya sea descuidada o ausente, el mantenimiento de la dimensión del padre, del drama singular del padre, que Lacan extrae de lo universal”. Desde esta función del padre, que es “algo o alguien” que lo convierte en padre, no necesariamente encarnado por el padre mismo, y que se interpone en el camino del goce.

Aquí es donde el psicoanálisis produce la mejor crítica a los patriarcados actuales, tanto los visibles como los que no pronuncian su nombre. En efecto, un psicoanálisis no conduce a creer hasta el final en la ficción del padre, ni en la omnipotencia de los significantes amos, incluso si estuvieran “purificados”, ¡ni en la omnipotencia de la justicia! Lo simbólico no logrará reabsorber el goce como perverso, no estandarizado por el padre. Por otro lado, creemos en la objeción que constituye lo real, lo real del padre, su naturaleza irreductible.

Solo existe la versión particularizada de la familia: su padre, su madre, su hijo, entendida en una relación más ligera con la familia, un paso del Otro al otro. No es necesario cortar este lazo: es una brújula en la clínica y en la práctica, porque esta continuidad asegura el vínculo que nos hace auténticamente humanos.

La familia, en el sentido del famil, tiene por tanto una vocación universal. Es una extensión del dominio de la madre. Según J.-A. Miller, la madre, a su vez, fue vaporizada.

 

Traducción: Silvina Molina.

Revisión: Silvia Elena Tendlarz


[1] Conferencia pronunciada en Buenos Aires, en ocasión de las 33ª  Jornadas Anuales de la EOL – Concebir un niño – en 1 de diciembre de 2024. Publicada con la amable autorización de la autora.

[2] Psicoanalista, AME , Miembro de la École de la Cause Freudienne (ECF) y Presidenta de la Associación Mundial de Psicoanálisis (AMP).

[3] 33ª Jornadas Anuales de la EOL, Conceber un ñino, ocurridas en 30 de noviembre y 01 de diciembre de 2024, en Buenos Aires.

[4] Lacan, J., El Seminario, Libro 3, Las psicosis, Paidós, Buenos Aires, 1984, p. 291.

[5] Ibíd., p. 292.