{"id":1252,"date":"2025-02-03T10:47:45","date_gmt":"2025-02-03T13:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/argumento\/"},"modified":"2025-08-21T07:55:20","modified_gmt":"2025-08-21T10:55:20","slug":"argumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Falar com a crian\u00e7a!<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Fernanda Otoni Brisset<br \/>\n<\/strong>Presidenta da FAPOL<\/span><\/p>\n<p>Para o XII Enapol, desejamos um tema fundamental, presente do princ\u00edpio ao fim de uma an\u00e1lise; um tema que provocasse a ir mais al\u00e9m, tanto os que est\u00e3o come\u00e7ando, quanto os que est\u00e3o h\u00e1 mais tempo na experi\u00eancia; que conversasse com a atualidade do sintoma de nossos tempos; mas sobretudo, um tema que, ao cair na boca do povo, a l\u00edngua vibre de desejo de falar porque isso fala a cada um, desde sua posi\u00e7\u00e3o analisante. Arrancamos da\u00ed: o desejo de fazer falar isso que fala a cada um! Afinal, a psican\u00e1lise se inaugura com este desejo: \u201cfalar o que vier \u00e0 cabe\u00e7a\u201d \u2013 a regra fundamental. Por\u00e9m, tem algo que puxa o freio j\u00e1 na largada.<\/p>\n<p>Lucy R., ao responder <em>n\u00e3o saber<\/em> sobre a origem do seu sintoma a Freud, desperta nele uma suspeita: ela sabe, mas <em>n\u00e3o pode<\/em> dizer, n\u00e3o pode saber. Ele percebe a\u00ed a irrup\u00e7\u00e3o de algo mais poderoso, que resiste a falar. Lacan l\u00ea essa dificuldade assim: \u201cNo momento em que o sujeito parece pronto para formular alguma coisa de mais aut\u00eantico, de mais quente do que jamais p\u00f4de atingir at\u00e9 ent\u00e3o, o sujeito, em certos casos, se interrompe\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, ele resiste. Freud, por\u00e9m, deseja fazer isso falar, sonda o que h\u00e1 mais al\u00e9m e descobre que, ali onde se eleva o muro da resist\u00eancia, a transfer\u00eancia surge como um fator cont\u00edguo, uma resposta ao real: \u201cEu realizo de repente o fato da sua presen\u00e7a. <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u201d E assim, como bem disse Jacques-Alain Miller, se apresentou a \u201ccena inaugural do teatro que seguimos\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>: fruto do desejo de Freud de fazer falar.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que falar em an\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia. N\u00e3o se fala em lugar algum como se fala em an\u00e1lise! Soltar a l\u00edngua tem seu pre\u00e7o, pois quando ela se solta surgem coisas que v\u00e3o mais al\u00e9m do que se suporta saber, mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, um saber que se sabe sem saber e do qual n\u00e3o se quer saber. Tal como ensina Lacan, na \u201cexperi\u00eancia da fala [o real] s\u00f3 surge como virtualidade\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, um abismo diante do qual s\u00f3 se pode delirar, girar em c\u00edrculos, \u201cnuma linha de fic\u00e7\u00e3o, para sempre irredut\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Portanto, \u201ctem de suar\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> para chegar ao singular, e isto se faz com a l\u00edngua que se tem, que os pais nos fizeram beber, cuja mat\u00e9ria \u00e9 <em>lal\u00edngua<\/em>, aquela do parentesco, que n\u00e3o se traduz jamais e \u00e9 com ela que cada um se vira para viver aturdido no mar do mal-entendido.<\/p>\n<p>\u00c9 essa l\u00edngua que \u201cpermite falar para n\u00e3o dizer nada e dizer o que n\u00e3o se sabe e mais ou menos o que se sabe\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. \u00c9 essa l\u00edngua imperfeita, como a chama Jacques-Alain Miller, que transmite que \u201co saber a\u00ed em jogo \u00e9 o de que n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Essa l\u00edngua imperfeita inventa coisas. A subst\u00e2ncia sonora d\u00e1 poderes \u00e0 palavra quando toma sua parte em tudo o que se inventa como resposta ao real: o fantasma, o sintoma, as teorias sexuais infantis, a crian\u00e7a, o objeto que ex-siste e se faz presente no vagar do texto que se l\u00ea na experi\u00eancia do falar em an\u00e1lise, segundo o canto e a loucura de cada um. Mas como fazer falar no Enapol essa l\u00edngua imperfeita que se fala em an\u00e1lise?<\/p>\n<p>\u201c<em>Que<\/em><em> pensez-vous de parler avec l\u2019enfant?&#8221; <\/em>me pergunta sorrindo J-A. Miller. Falar com a crian\u00e7a? Foi ao tomar a pergunta em sua equivocidade que uma alegria invadiu o espa\u00e7o ao ler com os ouvidos o que salta aos olhos! \u00c9 isso!!! Sim!!! Est\u00e1 a\u00ed a boa f\u00f3rmula!<\/p>\n<p>Vamos \u201cFalar com a crian\u00e7a\u201d, porque n\u00e3o se faz outra coisa numa an\u00e1lise do que fazer falar a crian\u00e7a: a crian\u00e7a das lembran\u00e7as encobridoras, dos sonhos, do trauma, dos ensaios com a sexualidade, das frases marcantes que gritam pela vida afora como um murm\u00fario. Onde quer que se instale o discurso anal\u00edtico, encontraremos a crian\u00e7a como seu agente. Quando, de repente, realiza-se o fato de sua presen\u00e7a (presen\u00e7a esvaziada enquanto ess\u00eancia), surge o objeto em sua <em>ex-sist\u00eancia<\/em> como causa inspiradora l\u00e1 onde nada h\u00e1.<\/p>\n<p>Enfim, falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar da coisa louca, do gozo como tal, do real que na experi\u00eancia da fala s\u00f3 surge enquanto virtualidade, mat\u00e9ria do \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d, pois a <em>lal\u00edngua<\/em> do <em>parl\u00eatre <\/em>\u00e9 a crian\u00e7a que vive no corpo falante, presen\u00e7a que fala de uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel, insond\u00e1vel, e que participa da tessitura das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, da sua equivocidade. Em uma an\u00e1lise se trata disso, seja qual for o tamanho do <em>parl\u00eatre<\/em>.<\/p>\n<p>Miller disse que Lacan em toda a sua vida nunca se sentiu grande: \u201ceu tenho sempre cinco anos\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Em \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d, ele conta que se sente alegre, \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo moleque, e que sua \u00fanica tristeza \u00e9 n\u00e3o ter para quem contar as raz\u00f5es de sua alegria. Ele ali nos pergunta: \u201cque alegria n\u00f3s encontramos naquilo que constitui nosso trabalho?\u201d. E nos entrega em sua alocu\u00e7\u00e3o uma cita\u00e7\u00e3o impactante: \u201cacabei acreditando, veja s\u00f3, nesse decl\u00ednio da minha vida, que n\u00e3o existe gente grande\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Bem, vejam s\u00f3 a que ponto chegamos: A mulher n\u00e3o existe, o Outro n\u00e3o existe, a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe e n\u00e3o existe gente grande. Todo mundo \u00e9 louco com a l\u00edngua que cada um inventa para falar com a crian\u00e7a, no telefone sem fio do real.<\/p>\n<p>\u00c9 um texto surpreendente! Destaco, ainda, quando Lacan assinala que atrav\u00e9s da <em>crian\u00e7a generalizada<\/em> pode se dar \u201centrada de um mundo inteiro no caminho da segrega\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Isto nos faz perguntar: qual a rela\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e a segrega\u00e7\u00e3o, entre a psican\u00e1lise e a alegria? Quest\u00f5es que o pr\u00f3ximo Enapol nos abrir\u00e1 as vias para falar mais sobre isso, que, como nos lembrou Christiane Alberti, \u00e9 um tema que convoca a todos a leituras t\u00e3o cl\u00ednicas quanto pol\u00edticas, a partir da nossa experiencia mesma.<\/p>\n<p>Que venham numerosos a soltar a l\u00edngua da sua experi\u00eancia e falar do que se fala quando se fala da crian\u00e7a em an\u00e1lise, em um caminho que vamos contar com Helenice de Castro na dire\u00e7\u00e3o-geral e que contar\u00e1 em seu Comit\u00ea Diretor com Ana Vigan\u00f3 pela NEL, Irene Kuperwajs pela EOL e Ludmilla F\u00e9res Faria pela EBP. Um Comit\u00ea que j\u00e1 est\u00e1 por a\u00ed \u201cfazendo arte\u201d, preparando os textos de orienta\u00e7\u00e3o, os eixos e tudo mais para animar todos voc\u00eas a se juntar conosco nesse encontro maior da Fapol.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, praticantes da psican\u00e1lise da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, venham a Belo horizonte, nos dias 05, 06 e 07 de setembro de 2025 para tomar o XII Enapol como um lugar onde nos far\u00e3o saber as raz\u00f5es de sua alegria ao \u201cfalar com a crian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a nossa aposta!<\/p>\n<p>Os esperamos!<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de Betty Milan. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986, p. 52.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de Betty Milan. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986, p. 52.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.-A. La resistencia inaugural. In: MILLER, J.-A. <em>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014, p. 58. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. (1967) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">, p. 364.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <em>O est\u00e1dio do espelho<\/em>. In: LACAN, J.<em> Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1998, p. 98.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. El placer y la regla fundamental \u2013 <em>Intervencion realizada em paris, junio de 1975.<br \/>\n<\/em><\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, J.-A. Teoria de lal\u00edngua. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. <em>A terceira \/ Teoria de lal\u00edngua<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Teresinha N. Meirelles do Prado. Rio de Janeiro: Zahar, 2023, p. 89.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. Nota italiana. (1974) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 314.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MILLER, J.-A. Interview \u201cIl disait, j\u2019ai toujours 5 ans\u201d. In Liberation, 13 avril 2001.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, 1967\/2003, <em>op. cit<\/em>., p. 367.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 367.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar com a crian\u00e7a! Fernanda Otoni Brisset Presidenta da FAPOL Para o XII Enapol, desejamos um tema fundamental, presente do princ\u00edpio ao fim de uma an\u00e1lise; um tema que provocasse a ir mais al\u00e9m, tanto os que est\u00e3o come\u00e7ando, quanto os que est\u00e3o h\u00e1 mais tempo na experi\u00eancia; que conversasse com a atualidade do sintoma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[93],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1252"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1252"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1252\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7318,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1252\/revisions\/7318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1252"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=1252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}