{"id":1979,"date":"2025-03-16T09:56:45","date_gmt":"2025-03-16T12:56:45","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=1979"},"modified":"2025-03-24T12:31:33","modified_gmt":"2025-03-24T15:31:33","slug":"o-estatuto-do-trauma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/o-estatuto-do-trauma\/","title":{"rendered":"O ESTATUTO DO TRAUMA*"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Jacques-Alain Miller<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-300x215.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2134\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-300x215.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-300x215.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-1024x734.jpg 1024w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-768x550.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-1536x1101.jpg 1536w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-500x358.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2-700x502.jpg 700w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/03-PORT-2.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para animar este esfor\u00e7o de seguir passo a passo \u2013 que, da minha parte, trata-se de um esfor\u00e7o de precis\u00e3o \u2013 j\u00e1 posso delinear uma grande perspectiva a partir desta pergunta relativa ao estatuto do trauma. A linha cl\u00e1ssica \u2013 essa que, na psican\u00e1lise, acredita-se ser ortodoxa \u2013 consiste em procurar a ferida antiga, em pensar o trauma absolutamente dentro da ordem da diacronia, dentro da ordem do que ocorreu anteriormente ao indiv\u00edduo, em algum momento. Isso leva a uma indaga\u00e7\u00e3o diacr\u00f4nica que situa em primeiro plano a rememora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a abordagem de Lacan, que ele nos fez ver em Freud, consiste, ao final, e n\u00e3o de imediato, em tratar o trauma como um <em>trouma <\/em>\u2013 \u00e9 um neologismo dele \u2013 o qual implica n\u00e3o combinar o trauma sexual com a diacronia, mas sim com a sincronia. Quando, no fim de seu ensino, ele chega a formular que <em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>, brinda-nos com a f\u00f3rmula sincr\u00f4nica do trauma. Eis a vers\u00e3o \u00faltima do trauma sexual em Lacan: <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>. De algum modo, isso nos d\u00e1 o axioma dos traumas e n\u00e3o nos permite saber quando, como, nem com quem o trauma se produziu ou se produzir\u00e1, mas nos assegura que o haver\u00e1 e que, em qualquer caso, o h\u00e1. <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual <\/em>significa que, em qualquer caso, n\u00e3o h\u00e1 boa rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a sexualidade. De qualquer encontro inicial com a sexualidade, o sujeito s\u00f3 pode falar sob a forma do mal encontro, mesmo que nele, esteja especialmente exaltado. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que esse encontro tenha um tom de \u201crepugn\u00e2ncia e medo\u201d. Se parecer exageradamente excelente, os pr\u00f3ximos encontros sempre ser\u00e3o falhos em compara\u00e7\u00e3o a\u00a0 esse. O <em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em> diz que, em qualquer caso, h\u00e1 um ponto traum\u00e1tico e que, na dimens\u00e3o da sexualidade, o sujeito avan\u00e7a aos trope\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de uma hist\u00f3ria da sexualidade n\u00e3o tem como nos atingir. Se h\u00e1 uma hist\u00f3ria da sexualidade, isso se deve ao fato de que, ao n\u00e3o haver rela\u00e7\u00e3o sexual, em seu lugar, h\u00e1 inven\u00e7\u00f5es sociais dessa rela\u00e7\u00e3o \u2013 e, no interior destas, o sujeito deve se situar, fazer sua pequena inven\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, que geralmente est\u00e1 defasada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o social. Quando coloquei \u00eanfase na arqueologia religiosa da psican\u00e1lise em Foucault, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 arqueologia cient\u00edfica da psican\u00e1lise \u2013 que \u00e9 a de Lacan \u2013 replicaram-me que se tratava menos de religi\u00e3o do que de prescri\u00e7\u00e3o. Mas essa \u00e9 toda a quest\u00e3o: quando se trata da sexualidade, sempre nos colocamos nas m\u00e3os das prescri\u00e7\u00f5es do mestre. Em todo caso, sempre h\u00e1 um mestre que prescreve o que deve ser a rela\u00e7\u00e3o sexual, justamente, sob o fundo desse <em>N\u00e3o h\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O axioma <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual <\/em>explica o que t\u00e3o bem se observa e se constata na experi\u00eancia anal\u00edtica, o que podemos caracterizar como uma despropor\u00e7\u00e3o entre a causa e o efeito (por raz\u00f5es de estrutura, quando h\u00e1 despropor\u00e7\u00e3o, a causa est\u00e1 em jogo). O que vemos na rela\u00e7\u00e3o de causalidade \u00e9 que h\u00e1, precisamente, uma falta de propor\u00e7\u00e3o entre a causa e o efeito \u2013 em cada canto da experi\u00eancia anal\u00edtica, encontramos essa despropor\u00e7\u00e3o. O que faz com que o sentido comum desconfie dos relatos da experi\u00eancia \u00e9, por exemplo, o seguinte: por que o fato de ter me deitado na cama de meu pai poderia ter arruinado para sempre minha sexualidade, enquanto para algu\u00e9m isso ocorreria por ter se deitado na cama de sua m\u00e3e e, para outro, por ter visto seu pai ou sua m\u00e3e nus, ou ainda por jamais hav\u00ea-los visto nus? Para algu\u00e9m, ter sido acariciado; para outro, jamais ter sido. Isso nos ilustra o que h\u00e1 de inapreens\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o entre a causa e o efeito, quando o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a dimens\u00e3o sexual, tal como se capta na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O axioma de Lacan, <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, <\/em>simplifica-nos o trabalho de conceber essa rela\u00e7\u00e3o de causalidade na dimens\u00e3o sexual. Como voc\u00eas sabem, esse axioma incide na significa\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, essa significa\u00e7\u00e3o de <em>N\u00e3o tenho o que faz falta no n\u00edvel genital<\/em>, ou seja, no n\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o com o Outro, <em>N\u00e3o sei o que faz falta para fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual. <\/em>Eis o valor de uma das significa\u00e7\u00f5es de (-\u03c6), esse matema de Lacan que se relaciona com o falo como imagin\u00e1rio e que \u00e9 o que faria com que houvesse rela\u00e7\u00e3o sexual (por um atalho, ali\u00e1s, isto \u00e9 o que permite distingui-lo do falo simb\u00f3lico, que n\u00e3o \u00e9 o que faria com que houvesse rela\u00e7\u00e3o sexual, sen\u00e3o que designa a fun\u00e7\u00e3o pela qual o sujeito se relaciona com a sexualidade ou, mais precisamente, com a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, dei-lhes um pequeno panorama no tocante ao estatuto do trauma. Mas o que ocorre quando tentamos captar o trauma a partir do sentido? Pois bem, n\u00f3s o captamos como um fato de hist\u00f3ria. E, agora, iremos avan\u00e7ar lentamente para pensar bem o valor desta no\u00e7\u00e3o de \u201cfato de hist\u00f3ria\u201d e extrair o m\u00e1ximo proveito dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro ensino de Lacan apresenta a pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica como uma historiciza\u00e7\u00e3o, e voc\u00eas sabem que ele chega a dar um giro at\u00e9 o ponto de dizer, direcionando-se ao fim de seu ensino, exatamente o contr\u00e1rio: que, se h\u00e1 algo de que n\u00e3o devemos jamais nos aproximar, \u00e9 da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o destaquei anteriormente: as pol\u00eamicas essenciais de Lacan s\u00e3o as que ele mant\u00e9m consigo mesmo. Para dizer a verdade, as pol\u00eamicas que temos conosco mesmo s\u00e3o as \u00fanicas interessantes: em vez de acusar o outro por n\u00e3o compreender nada, dar-se conta de que somos n\u00f3s mesmos que n\u00e3o compreendemos nada \u2013 essa \u00e9 a pr\u00f3pria disciplina do levantamento do recalque. Por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 nada mais saud\u00e1vel do que reler Freud partindo do princ\u00edpio de que n\u00e3o compreendemos nada dos textos que j\u00e1 lemos, comentamos e explicamos anteriormente. \u00c9 uma disciplina, inclusive uma ascese, colocar-se na posi\u00e7\u00e3o de estar novamente diante de um problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, o que \u00e9 o fato de hist\u00f3ria? Podemos capt\u00e1-lo pela negativa. Um fato de hist\u00f3ria \u00e9 um fato que n\u00e3o \u00e9 bruto, mas que, em si mesmo, tem um sentido. O miolo da quest\u00e3o consiste, em meu entender, em que um fato \u00e9 um fato de hist\u00f3ria quando o captamos como algo que se experimenta com um sentido. Quando tentamos captar algo do trauma \u2013 e a consequente fixa\u00e7\u00e3o \u2013 a partir do sentido, ou seja, de algo que o sujeito experimenta como munido de um sentido, o pr\u00f3prio recalque associa-se a que esse sentido seja reconhecido ou censurado. O recalque se torna equivalente \u00e0 censura do sentido, ao qual se op\u00f5e o levantamento do recalque como reconhecimento do sentido. Na medida em que o primeiro Lacan pensa a psican\u00e1lise no registro da hist\u00f3ria, o recalcado \u00e9, para ele, da ordem do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta teoria implica que a fixa\u00e7\u00e3o seja \u201cestigma hist\u00f3rico\u201d, conforme a express\u00e3o de Lacan. \u201cEstigma\u201d \u00e9 um termo muito bem escolhido: designa as feridas, as marcas, as impress\u00f5es, as cicatrizes, as pegadas; evoca o termo \u201ctrauma\u201d e, ao mesmo tempo, \u00e9 o ponto de fixa\u00e7\u00e3o, assim como se expressa Freud, a cada vez que fala de fixa\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9, ent\u00e3o, um fen\u00f4meno de sentido, designa um sentido que fora determinante, causal, na hist\u00f3ria do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O valor operacional que o termo \u201chist\u00f3rico\u201d possui fica bastante claro sob a pluma de Lacan \u2013 esse termo se op\u00f5e exatamente a \u201cbiol\u00f3gico\u201d. Um fato de hist\u00f3ria est\u00e1 nas ant\u00edpodas do que seria um dado biol\u00f3gico ou um dado fisiol\u00f3gico. Aqui, \u201chist\u00f3ria\u201d se op\u00f5e a \u201cdesenvolvimento\u201d, tal como \u201cfato bruto\u201d se op\u00f5e a \u201cfato de hist\u00f3ria\u201d. Por conseguinte, na fixa\u00e7\u00e3o, o que se fixa \u00e9 estritamente um sentido. O trauma \u00e9 o trauma de um sentido, e \u00e9 por isso que Lacan ilustra a fixa\u00e7\u00e3o mediante o voc\u00e1bulo \u201cp\u00e1gina\u201d, como quando falamos das p\u00e1ginas de hist\u00f3ria ou das p\u00e1ginas de gl\u00f3ria: \u201cp\u00e1gina de vergonha que se esquece ou se anula, ou p\u00e1gina de gl\u00f3ria que constrange\u201d. Sem d\u00favida, assistimos uma implica\u00e7\u00e3o do sujeito na rela\u00e7\u00e3o de causalidade a partir do \u201cvivido como\u201d (para abordar as coisas, temos aqui, mais uma vez, uma express\u00e3o que continua sendo familiar, que nasceu no terreno da fenomenologia e que, inclusive, passou ao uso corrente). Se aqui o sujeito est\u00e1 implicado na rela\u00e7\u00e3o de causalidade, est\u00e1, pois, a t\u00edtulo de sujeito do sentido. Uma vez que dizemos \u201csujeito do sentido\u201d, isso n\u00e3o se distingue de uma subjetividade. Observem que, no come\u00e7o de seu ensino, n\u00e3o h\u00e1, para Lacan, uma antinomia entre o sujeito e a subjetividade. Pelo contr\u00e1rio, ambos se superp\u00f5em, ainda que n\u00e3o aparentem coincidir exatamente em seu uso quando os lemos de perto enquanto os seguimos: o sujeito \u00e9 pensado a partir de um \u201cisso tem sentido para ele\u201d. Isso quer dizer que, aqui, temos um sujeito absolutamente solid\u00e1rio do significado. Atrav\u00e9s de um passo ao limite, isso permitir\u00e1 a Lacan substituir o termo \u201csignificante\u201d pelo termo \u201csujeito\u201d, para surpresa geral. Mas o fato de que o sujeito seja o do sentido \u00e9 o que torna impens\u00e1vel \u2013 e insond\u00e1vel, no relat\u00f3rio de Roma de Lacan, em todo caso, a menos que eu me equivoque \u2013 a no\u00e7\u00e3o de um sujeito do significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quer dizer a no\u00e7\u00e3o de \u201chistoriciza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria\u201d? Quer dizer que, de modo prim\u00e1rio, o sujeito prov\u00e9m da hist\u00f3ria e jamais do desenvolvimento. O sujeito vive absolutamente no elemento da hist\u00f3ria, e n\u00e3o dentro de um desenvolvimento biol\u00f3gico. Isso significa que, inclusive, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 prim\u00e1ria, ou seja, que toda experi\u00eancia \u00e9 algo \u201cvivido como\u201d; \u00e9 imediatamente uma interpreta\u00e7\u00e3o daquilo que se experimenta. Nesse aspecto, tudo tem sentido para o sujeito do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma correlativa a essa interpreta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, \u00e9 preciso reconhecer que tamb\u00e9m h\u00e1 uma alteridade prim\u00e1ria, quer dizer, que algo tem sentido para o sujeito por n\u00e3o ter sentido para algum outro. Essa rela\u00e7\u00e3o com o outro pode ser \u2013 enumero os termos de Lacan \u2013 de agress\u00e3o, de sedu\u00e7\u00e3o, de simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, vemos a conex\u00e3o e, inclusive, a homogeneiza\u00e7\u00e3o \u2013 da qual falei \u2013 entre a fixa\u00e7\u00e3o e o recalque. O recalcado \u00e9 o significado. Por isso, Lacan diz, nessa \u00e9poca, o que brevemente evoquei na vez passada, a saber: que o sintoma \u00e9 \u201co significante de um significado recalcado da consci\u00eancia do sujeito\u201d. Mas, inclusive, ao longo de todo esse relat\u00f3rio de Roma, achamos que, definitivamente, o mist\u00e9rio consiste em saber qual \u00e9 a inst\u00e2ncia que recalca, qual \u00e9 a causa do recalque. Uma vez que tomamos a fixa\u00e7\u00e3o como um sentido, a causa do recalque \u00e9, no m\u00ednimo, muito imprecisa. E, neste ponto, dou todo o valor ao que citei antes, rapidamente: \u201cp\u00e1gina de vergonha que se esquece ou que se anula, ou p\u00e1gina de gl\u00f3ria que constrange\u201d. Mas, o que \u00e9 esse \u201cse\u201d impessoal, sen\u00e3o a marca de uma vacila\u00e7\u00e3o, sob a pluma de Lacan, ao afirmar que quem aqui esquece e anula \u00e9 o sujeito, ou seja, ao relacionar o recalque \u2013 e at\u00e9 a forclus\u00e3o, uma vez que aparece no verbo \u201canular\u201d \u2013 com uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em><strong>Um excesso de sexualidade<\/strong> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui vemos em qual ponto Freud est\u00e1 \u00e0 frente de Lacan e por que Lacan chegar\u00e1 ao objeto <em>a<\/em> impulsionado por Freud. Nele, a causa do recalque est\u00e1 indicada de um modo inequ\u00edvoco, que ressaltei para voc\u00eas no texto de sua Carta 46, sob a express\u00e3o \u201cexcesso de sexualidade\u201d. A tese de Freud, a respeito da causalidade do recalque, \u00e9 que este se deve ao despertar de um excesso de sexualidade (<em>Sexuell\u00fcberschuss<\/em>) que suscita uma defesa. Por isso, h\u00e1 recalque. N\u00e3o nos defendemos da \u201cp\u00e1gina da vergonha que se esquece ou se anula\u201d, mas do excesso. Por esta via, Lacan chegar\u00e1 a reconhecer que o sujeito n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma defesa; que o sujeito se constitui, primordialmente, como um \u201cn\u00e3o\u201d, como uma nega\u00e7\u00e3o \u2013 e voc\u00eas sabem que Lacan estender\u00e1 a nega\u00e7\u00e3o at\u00e9 incluir, nela, a elis\u00e3o. Todo esse assunto est\u00e1 na linha da articula\u00e7\u00e3o freudiana: defendemo-nos de um excesso de sexualidade. Quer dizer que o sujeito do recalque \u00e9 introduzido ali a partir da defesa, e <em>$ <\/em>n\u00e3o escreve sen\u00e3o essa defesa, ou seja, o sujeito como defesa em rela\u00e7\u00e3o ao <em>a<\/em> \u2013 que, aqui, consideramos como o excesso de sexualidade. Essa tese de Lacan, segundo a qual o sujeito \u00e9 fendido, escindido pelo objeto <em>a<\/em> \u2013 tese que parece extravagante e cabal\u00edstica \u2013 \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o, mediante o matema mais preciso, da tese freudiana do excesso de sexualidade como causa de uma defesa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-300x193.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2090 aligncenter\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-300x193.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-1024x658.jpg 1024w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-768x493.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-1536x987.jpg 1536w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-500x321.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1-700x450.jpg 700w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/02-PORT-1.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reitero isso aqui para indicar de maneira palp\u00e1vel \u2013 e irrefut\u00e1vel, a meu entender \u2013, que Freud est\u00e1 \u00e0 frente de Lacan, mas tamb\u00e9m para que se note que o axioma <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em> significa que sempre h\u00e1 trauma, que algo sempre d\u00e1 errado. Esse axioma, a partir do qual voc\u00eas podem colocar em s\u00e9rie isso que chega em uma an\u00e1lise sob a forma de anedotas, \u00e9 correlativo deste outro: <em>Sempre h\u00e1 um excesso de sexualidade. <\/em>Al\u00e9m disso, devido ao fato de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, ou seja, de que a sexualidade tem a significa\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, sempre h\u00e1 um excesso de sexualidade. \u00c9 o que Lacan escreveu como:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>a<br \/>\n<\/em><em>_______<br \/>\n<\/em>\uff08-\u03c6\uff09<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que, a partir dessas breves indica\u00e7\u00f5es, aqueles que n\u00e3o est\u00e3o habituados a lidar com estas letras \u2013 somente penso neles \u2013 j\u00e1 t\u00eam com o que se orientar: se aqui o (-\u03c6), a castra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, traduz o <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>, a letra <em>a<\/em> traduz o que no texto de Freud \u00e9 o \u201cexcesso de sexualidade\u201d como causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexualidade aparece com o estatuto de um excesso, o gozo vem como quantidade suplementar. Quando Lacan diz que, na experi\u00eancia anal\u00edtica, o gozo \u00e9 um mais-de-gozar \u2013 ou seja, um suplemento em rela\u00e7\u00e3o ao significante, ao simb\u00f3lico \u2013 e, por isso, deve lhe assignar uma letra diferente \u2013, esse <em>a<\/em>, que n\u00e3o \u00e9 uma letra de significante e que parece enigm\u00e1tica, tentar\u00e1 traduzir, a seu modo, o axioma <em>Sempre h\u00e1 um excesso de sexualidade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em><strong>Histeria e obsess\u00e3o<\/strong> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como estou fazendo a lista dos d\u00e9ficits de Lacan em rela\u00e7\u00e3o a Freud no momento em que inaugura seu ensino, adicionarei que, nesse relat\u00f3rio de Roma, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de <em>apr\u00e8s-coup <\/em>n\u00e3o encontra um lugar convincente, devido ao fato de que sempre est\u00e1, primordialmente, dotada de sentido. Em sua Carta 59, Freud est\u00e1 \u00e0 frente em rela\u00e7\u00e3o a essa teoria de Lacan, pois formula o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">as fantasias hist\u00e9ricas, [&#8230;] que, tal como as vejo, remontam a coisas que as crian\u00e7as entreouvem em idade precoce e s\u00f3 compreendem numa ocasi\u00e3o posterior\u201d (<em>nachtr\u00e4glich<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa simples observa\u00e7\u00e3o de Freud, j\u00e1 est\u00e1 implicado o estatuto do <em>apr\u00e8s-coup<\/em> (o sentido s\u00f3 vem a posteriori) e, portanto, distingue-se muito bem a disjun\u00e7\u00e3o do significante em rela\u00e7\u00e3o ao significado. Toda a primeira teoria de Lacan n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o a essa disjun\u00e7\u00e3o \u2013 esse fato \u00e9 determinante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao excesso de sexualidade, podemos adicionar as duas vertentes, segundo as quais Freud o distribui na Carta 75:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">para a histeria [a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 que deve ter ocorrido uma experi\u00eancia sexual prim\u00e1ria (anterior \u00e0 puberdade), acompanhada de repugn\u00e2ncia e medo; na neurose obsessiva, ela deve ter ocorrido acompanhada de prazer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-300x193.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2082 aligncenter\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-300x193.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-300x193.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-1024x658.jpg 1024w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-768x493.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-1536x987.jpg 1536w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-500x321.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1-700x450.jpg 700w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/01-PORT-1.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas sabem que, se estabelecermos uma rela\u00e7\u00e3o entre o excesso de sexualidade \u2013 causa do recalque \u2013 e o que aqui \u00e9, para Freud, a viv\u00eancia sexual prim\u00e1ria, obtemos essa diferencia\u00e7\u00e3o entre a histeria e a posi\u00e7\u00e3o obsessiva, tendo como refer\u00eancia o fato de haver repugn\u00e2ncia ou prazer, e cujas consequ\u00eancias na dial\u00e9tica subjetiva s\u00e3o muito mais complexas. O encontro repugnante com a sexualidade, em sua vertente hist\u00e9rica, parece ser a causa do desejo de que o Outro se distancie, quando, na realidade, isso se transforma, mais precisamente, pelo contr\u00e1rio, em insatisfa\u00e7\u00e3o. Neste contexto, quando queremos falar do estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o com o Outro, falamos de histeriza\u00e7\u00e3o. Essa repugn\u00e2ncia, no n\u00edvel do gozo, traduz-se, no desejo, como insatisfa\u00e7\u00e3o; como um \u201cN\u00e3o \u00e9 suficiente!\u201d; como um \u201cMais, ainda!\u201d (<em>encore<\/em>). Por outro lado, na obsess\u00e3o, o encontro com a sexualidade \u00e9 prazeroso e vem acompanhado por um excesso de prazer \u2013 ele deveria implicar um \u201cQue venha!\u201d dirigido ao Outro, reverberando como um furo que suscita um \u201cBasta!\u201d, um \u201cSuficiente!\u201d. Poder\u00edamos enriquecer esse \u201cN\u00e3o aguento mais!\u201d com toda uma gama de sentidos, n\u00e3o somente o da impaci\u00eancia. \u00c9 uma f\u00f3rmula de separa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esse Outro que anseia demais. Esse \u201cN\u00e3o aguento mais!\u201d tamb\u00e9m est\u00e1 no princ\u00edpio da reten\u00e7\u00e3o, pela qual, tempos atr\u00e1s, se explicava a avareza obsessiva. Era um modo de abordar, por meio da teoria do car\u00e1ter, esse \u201cN\u00e3o aguento mais!\u201d radical. Dentro dessa teoria, voc\u00eas tamb\u00e9m podem abord\u00e1-lo a partir do tema do orgulho de n\u00e3o ter nada para demandar, \u201cporque n\u00e3o aguento mais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*<\/strong>Texto extra\u00eddo da aula do dia 13 de janeiro de 1988, do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, de Jacques -Alain Miller: Causa y consentimento \u2013 1\u00aa Ed. Ciudad Autonoma de Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2019, p.138-145. Publicado com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do autor. Agradecemos \u00e0 Paid\u00f3s que cedeu os direitos de publica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Paula Nathalie Nocquet<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revis\u00e3o: Glacy Gonzales Gorski e Renata Martinez<\/p>\n[\/vc_column_text]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\" style=\"height:15px;\"><\/div><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/03\/O-ESTATUTO-DO-TRAUMA.pdf\" class=\"vcex-button theme-button inline\"><span class=\"vcex-button-inner theme-button-inner wpex-flex wpex-flex-wrap wpex-items-center wpex-justify-center\">DOWNLOAD PDF<span class=\"vcex-button-icon vcex-icon-wrap theme-button-icon-right\"><span class=\"wpex-icon\" aria-hidden=\"true\"><svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" viewBox=\"0 0 512 512\"><path d=\"M64 464l48 0 0 48-48 0c-35.3 0-64-28.7-64-64L0 64C0 28.7 28.7 0 64 0L229.5 0c17 0 33.3 6.7 45.3 18.7l90.5 90.5c12 12 18.7 28.3 18.7 45.3L384 304l-48 0 0-144-80 0c-17.7 0-32-14.3-32-32l0-80L64 48c-8.8 0-16 7.2-16 16l0 384c0 8.8 7.2 16 16 16zM176 352l32 0c30.9 0 56 25.1 56 56s-25.1 56-56 56l-16 0 0 32c0 8.8-7.2 16-16 16s-16-7.2-16-16l0-48 0-80c0-8.8 7.2-16 16-16zm32 80c13.3 0 24-10.7 24-24s-10.7-24-24-24l-16 0 0 48 16 0zm96-80l32 0c26.5 0 48 21.5 48 48l0 64c0 26.5-21.5 48-48 48l-32 0c-8.8 0-16-7.2-16-16l0-128c0-8.8 7.2-16 16-16zm32 128c8.8 0 16-7.2 16-16l0-64c0-8.8-7.2-16-16-16l-16 0 0 96 16 0zm80-112c0-8.8 7.2-16 16-16l48 0c8.8 0 16 7.2 16 16s-7.2 16-16 16l-32 0 0 32 32 0c8.8 0 16 7.2 16 16s-7.2 16-16 16l-32 0 0 48c0 8.8-7.2 16-16 16s-16-7.2-16-16l0-64 0-64z\"\/><\/svg><\/span><\/span><\/span><\/a> [\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Jacques-Alain Miller Para animar este esfor\u00e7o de seguir passo a passo \u2013 que, da minha parte, trata-se de um esfor\u00e7o de precis\u00e3o \u2013 j\u00e1 posso delinear uma grande perspectiva a partir desta pergunta relativa ao estatuto do trauma. 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